GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)
Mostrando postagens com marcador crônicas. Mostrar todas as postagens
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domingo, 4 de novembro de 2012

o beijo.

Era madrugada de domingo para segunda e, numa esquina do Leblon, em pé no meio-fio, quase pisando a pista dos carros, um casal se beijava ardorosamente. 
E se beijava...
E se beijava...
E se beijava...
Haja gerúndio (rectius, pretérito imperfeito) para descrever a continuidade. Não era um beijo lascivo, mas também não era um beijo apaixonado. Era tão somente um beijo intenso, genuíno, gostoso.

Todo mundo passava e olhava. Estava ali para qualquer um devassar a intimidade que o casal escolhera compartilhar e dali imaginar o que quiser. Outros casais olharam desconfiados. Grupos de meninas passaram com cara de estupefação e censura. Grupos de meninos por pouco não deram uma zombada. Um casal de idosos lançou um olhar pudico. Quem não estava de passagem, se punha a observar atentamente. Os garçons da lanchonete e o segurança da rua já brincavam: "será que querem quebrar algum recorde?" De fato, parecia... 

Tomei meu suco, pensei na vida, chequei minhas mensagens, troquei um lero e o casal continuava ali. Não iam se afogar em saliva? O fôlego em algum momento não ia acabar? O tédio? Não iam querer dar um passo à frente e ter que arrumar um quarto?

O beijo seguia em movimento retilíneo uniforme... Uma hora chegou a ficar monótono. Não tinha mão boba, não tinha arroubos, não tinha palavras ao pé do ouvido. O casal só se beijava, se beijava, se beijava, numa falta de constrangimento que eu particularmente só me permitiria por pouco tempo.

Contei quarenta minutos de um beijo ininterrupto. Como pode? Fui embora e eles ainda estavam se beijando. Passei de carro e olhei de perto. A vontade de buzinar era imensa, mas eu me segurei para não parecer a mim mesmo um recalcado, nem um intrometido.

A coisa até que estava com cara de armação. Suspeitei que fosse ação publicitária, câmera escondida, experimento de psicologia ou coisa do tipo, e que, ao final, os observados seríamos nós, os espectadores do espetáculo, em reação à cena inusitada.

Mas, apesar de algum ceticismo, acabei por ceder à máxima de que o amor é lindo, aposta uma ressalva: nem tudo o que é bonito é para se mostrar.

Em seguida, ouvi uma música romântica. Confesso que estava um pouco embalado. É, ainda sei me comover com pouca coisa e com breguices ostensivas. E um beijo ainda é um beijo.

sábado, 23 de junho de 2012

AMOR NOVINHO

Era dia dos namorados e eu já estava meio cansado das demonstrações publicas de afeto afeitas ao dia. Ora invejáveis, porque solteiro, ora apenas cafonas, porque o amor romântico é por si cafona quando somos terceiros, especialmente quando empatia não nos é o forte. Não me é o caso, para meu próprio desespero...

Eis que parei no sinal e começou a atravessar a rua um casal que devia ter lá seus 15 anos. Ela estava de uniforme escolar e segurava uma flor contra o peito. A outra mão dava ao garoto, que, vestido à paisana (em considerando que Abercrombie ainda não tenha virado um uniforme "laico" para a juventude carioca), destilava amor: tinha cara de que aquele era o primeiro dia dos namorados em que ele passava acompanhado. Quanto a ela, não tive duvidas: seu semblante era tão maravilhado que parecia suspirar.

Mergulhei meu olhar neles, que se entreolhavam com timidez e doçura, com uma cara de descoberta e arrebatamento. Não devem estar entendendo ainda porque aquela coisa tão linda faz tanta gente sofrer, chorar e até morrer. Seria encrenca de gente grande?

Se for o caso de que pensaram isso, não sei se ingênuos são eles ou se sou eu. Se ingênuos eles, aviso que desde logo os perdoo e os admiro por amarem sem as antecipações angustiantes que hajam carregado de desamores passados.

Se ingênuo eu, por estar praticamente babando diante de cena tão linda e pontual, reservo-me a defesa de que, independente das agruras que o amor esconda e reserve para o futuro dos amantes - e estatisticamente amores não dão certo para sempre -, o amor me comove esteticamente, especialmente se forem esses amores açucarados, retratados como polaróides dos melhores momentos, a desconsiderar o marasmo da rotina e as neuroses do passado. O amor é lindo mesmo.

De mãos dadas atravessaram a rua. Estavam tão distraídos e deslumbrados que me pareceram desfilar sobre um tapete vermelho imaginário. Acho que nem no casamento poderiam parecer tão plenos. Subiram a calçada como se subissem ao altar. A flor solitária era segurada como buquê. Os passantes de Ipanema eram os convidados. O uniforme virara branco. A Abercrombie virara paletó. O doze de junho agora era treze de junho. O barulho dos carros e a freada dos ônibus tocavam Elgar. Esperei jogarem arroz do alto das janelas, mas parecia que só eu percebia aquela cena.

O sinal abriu e foi como se eu aterrissasse. Buzinaram atrás de mim, como se o atraso dos outros fosse mais importante que meu devaneio romântico sobre amor alheio. As buzinas devem ter razão, mas peço logo que me perdoem: era dia dos namorados e, só, só estava indo para a faculdade.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A TENTAÇÃO DE MÃE VALÉRIA

Quem já perambulou por Ipanema bem sabe que nos postes de cada esquina, além da luz que ilumina a rua, fatalmente encontram-se cartazes com oferta tentadora de uma mãe-de-santo a iluminar corações aflitos e apaixonados:

MÃE VALÉRIA: TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS.

Acho bonito que exista uma mística, um jogo e, às vezes (aham), até um drama no apaixonamento e na sedução. Conquistar o outro e cativá-lo aos próprios braços é um trabalho difícil, embora ocasionalmente ele nos ocorra com tanta facilidade e surpresa que não raro somos levados a acreditar que há alguma explicação inesperada, como energias, cosmos, e outras baboseiras (?), por detrás. E se houver mesmo? Enfim.

Talvez a dificuldade do trabalho de conquista amorosa seja justamente a bilateralidade. E conquistar é verbo que pressupõe resultado: ninguém conquista como tentativa. Diferente de outros "projetos" aos quais nos dedicamos na vida, o projeto da conquista amorosa não funciona se estivermos obcecados, nem se focarmos todas as nossas energias para o resultado almejado. Nesse departamento, as coisas são diferentes: se formos com tudo, assustamos a quem queremos cativar. Se formos "com nada", ou melhor, se não formos, pagamos o preço da nossa omissão, embora alguns insistam em dizer que a rejeição acaba sendo convidativa. Pode até ser, mas não para quem age estrategicamente, isto é, para quem rejeita intentando conquistar. É que os apaixonados não conseguem mentir sobre a paixão: quando mentem é porque se atrapalharam tentando não apressar a verdade.

O que Mãe Valéria promete, com suas ligações transcendentais que nem ouso explorar, derrotar ou confirmar, é resolver essa questão difícil: eliminar a bilateralidade da conquista e simplesmente fazer conquistar o outro, como quem pratica um ato em vez de um contrato.

Meu "eu liberal" fica perguntando se isso é interferir demais na vontade alheia, se é que tal é verdade e não um mero engodo a se aproveitar da fragilidade dos apaixonados. Meu "eu romântico" (que não necessariamente se contrapõe ao liberal) pensa, por sua vez, em tom eufemístico: Mãe Valéria é só um empurrãozinho do universo para um amor consciente e voluntariamente dirigido.

O que quer que seja, Mãe Valéria é tentadora. Promete eliminar domingos chuvosos sofridos, leituras pessimistas de entrelinhas, desertos de espera por mensagens que tardam ou não chegam, palavras truncadas em esbarrões de corredor, discussão sobre se há ambiguidade ou univocidade nos gestos simples e complexos.

Promete debelar o frisson, que em alguns gera verdadeira inquietação epistemológica - tamanho é o amor à verdade -, de encontros tão bem justificados sob o manto da coincidência e da casualidade, bem como de desencontros igualmente bem justificados sob a escusa do azar e da fatalidade.

Alguns vão dizer que Mãe Valéria é como uma trapaça no jogo da conquista. É como usar um cheat. Você se diverte usando cheats? Eu me divirto, em geral.

A diversão é menos verdadeira porque usou cheat? Não sei. Nunca fui dessa galera que gosta de jogar games fazendo as missões e levando a sério o enredo. Talvez por isso jogos nunca foram atraentes em minha vida. Quando podia, colocava um cheat e ficava só zoando. Sentia menos desafio, eu concordo:  mas nunca quis buscar num jogo algo além de mero entretenimento. E adrenalina não me entretém.

De desafiadora, sempre me bastou a vida: talvez ela assim o seja porque justamente consiste da "arte" (é tão brega dizer que algo é "a arte de") de conciliar vontades próprias com vontades alheias dentro das possibilidades fáticas que se põem sobre a mesa. A vida, em muito, é a correspondência entre o que nós queremos, o que os outros querem e o que se pode fazer. Mãe Valéria promete ajustar os dois últimos elementos aos desígnios do primeiro.

Isso pode significar destruir toda a graça da conquista e o próprio percurso amoroso que serve de lastro aos romances. Uma conquista amorosa suada acaba por valorizar o amor. Acho que Mãe Valéria, se é que vale a pena de alguma forma, não o vale como recurso principal, mas é fato que apaixonados sem esperança podem encontrar nessa oferta encantadora o melhor alento - e a última trincheira - para seus corações inquietos.

Falo de Mãe Valéria em tom documental, como se lá já tivesse ido. Nunca fui. Morro de vontade de ir, tanto como cronista curioso e cético desconfiado quanto como apaixonado ocasionalmente frustrado. Eu bem lá sei que Mãe Valéria não faz muito sentido: ela é reprovada em todos os meus testes lógicos e de coerência. Até consigo pensar em problemas à atuação de Mãe Valéria.

Vejam só. Se ela fosse infalível, haveria uma fila gigantesca de meninas à sua porta, ansiando pelo Príncipe Harry em seus braços: mas não existe Princípe Harry para todas e, ainda que houvesse, para ele chegar em três dias teria que passar um dobrado com sua agenda institucional. Do mesmo jeito, quando dois homens desejam a mesma mulher, quem leva a melhor? Quem chegar primeiro? Quem tiver o santo mais forte? Quem pagar mais? Problemas...

Fico me perguntando sobre o que Mãe Valéria fala e faz. Não pode ser possível que alguém se mantenha no mercado de condução-de-pessoas-amadas-em-tempo-recorde há tanto tempo com base em mentiras básicas ou bobas... Tudo bem, ainda que ela esteja mentindo como charlatã profissional, não é possível que coisa alguma aconteça (ou é?). Talvez ela seja apenas uma boa conselheira amorosa, não descarto a possibilidade. Seria uma "Hitch" carioca com leves predicados mediúnicos e epíteto matriarcal?

O que sei é que Mãe Valéria é uma tentação permanente. E não é porque me disseram que ela até é uma senhora bonita...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

facebook

o vazio do facebook é o vazio da própria vida.

uns começam a namorar...
as amigas dizem "ai que fofo", como se a vida fosse um filme da disney.
os amigos lamentam um a menos na guerra... mas daqui a pouco voltará.

outros terminam o namoro...
as amigas dizem "ai que pena", como se o filme da disney agora virasse uma comédia romântica e essa fosse só uma entrecena rumo ao final feliz.
os amigos comemoram, ou bebemoram, se o cara precisar afogar as mágoas: já aconteceu com todo mundo.

uns reclamam de futebol... isso quando UFC não tá na moda.
uns reclamam da vida... conheço um bem reclamão até.
uns reclamam do próprio facebook: sempre tem espaço para ser meta.

outros postam fotos, quantas viagens...
mas tem que ser para europa ou para nova iorque.
se botar foto da disney, é porque tem 15 anos.

facebook virou a alternativa não-paraíba frente à popularização do orkut.
mas por quê? agora tem nojinho virtual?

uns trocam a foto para aderir a movimentos fofos: personagem de desenho animado, êba!
uns curtem causas: tem que parecer engajado até aqui, né!
outros ficam no batepapo... puta que pariu: faltou inventar a função invisível e inventar um som melhor.

a boa do facebook é curtir. você clica e pronto.
ainda fica parecendo reservado ou um dropador de tiradas.
(não sei de onde tiraram que ser lacônico é chique).

tédio e facebook parecem feitos um para o outro.
ainda mais se tiverem inventado o F5.
vira uma compulsão!

Assinado: quem não vive sem.

domingo, 8 de agosto de 2010

"PODERIA TER SIDO VOCÊ"

O pombo morto - atropelado - no meio da rua vai muito além de despertar nojo: é o retrato vivo da morte e retrata como obra de natureza-morta o fatídico da vida.

Sua aparência expõe suas entranhas e não por acaso nos embrulha o estômago. Carne e sangue misturados, deformados. Reduzido a 2D, planificado contra sua vontade e carimbado no preto do asfalto, como uma efígie fúnebre num museu a céu-aberto.

Cerca-se dos mais variados públicos, entre os passantes que caminham apressados. Alguns nem percebem, porque distraídos. Outros percebem e desviam o olhar, enojados. Alguns percebem primeiro pelo tato: infortunados. Outros percebem e seguem admirando com certa curiosidade mórbida. A indiferença exige um esforço: a morte é muito distinta para se assimilar à paisagem.

Velado publicamente com a notoriedade que não tem um animal e muito menos um indigente, o pombo é finalmente recolhido para não se sabe lá onde e some na complexidade da cidade, depois dos seus 15 minutos de fama póstuma. Deixa com o mundo sua mensagem e, por meu intermédio, sai da vida para entrar numa história.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O OI-TCHAU

Hay La, Hey Hello-a,
Hay La, Hey Hello-a,
Hay La, Hey Hello-a
Hay La, Hey Hello-a,

O oi-tchau é uma das espécies mais curiosas de cumprimento que há. Acontece quando você é apresentado a alguém no exato momento em que está se despedindo de outrem e indo embora. Às vezes é aquela pessoa que você evitou a festa inteira, por não ter ido com a cara. Pode ser também quem você não percebeu entre a multidão. Ou é a amiga do fulano que acabou de chegar na festa. Pode ser aquela pessoa que você sempre espia pelo orkut, mas nunca falou pessoalmente. Não importa.

O oi-tchau é um flash disparado ao céu: só há efeito tyndall. Um aceno que logo se retrai: parece que nem foi com você. É um bom dia às vésperas de escurecer. Um gol depois que o árbitro já apitou o término.

O oi-tchau, me permitam, é a função fática - a merda da função fática! - natimorta.
Nascimento e óbito na mesma certidão. Início e fim na mesma linha. Letra maiúscula e ponto final lado-a-lado. Se ao menos houvesse alguma certeza quanto ao parágrafo seguinte...

Hay La, Hey Hello-a,
Hay La, Hey Hello-a,
Hay La, Hey Hello-a
Hay La, Hey Hello-a,

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A velhinha da xerox

Aqui no Centro do Rio, do lado do prédio onde meu pai trabalha, tem uma lojinha muito pequena onde funciona uma minipapelaria, na qual fazem xerox, vendem canetas, papéis, filmes fotográficos e tiram fotos 3x4 instantâneas.

Nessa minipapelaria, trabalhava uma velhinha, seu marido (eu acho) e seu filho (eu acho). Sempre estava algum dos três trabalhando, e a senhora costumava ficar numa cadeira na porta da papelaria, pois lá dentro não havia ar condicionado e ela parecia sentir calor. Era de pele branca e possuía os cabelos branquinhos. Nem magra, nem gorda. Sempre sorridente. Era fofinha, por mais que dizer isso soe redundante.

Desde os meus 14 anos, quando eu comecei a me aventurar pelo Centro da cidade, exorbitando do eixo Copacabana-Ipanema-Leblon, eu inevitavelmente passava por essa minipapelaria. Sempre fazia questão de olhar para dentro da loja e ver se a velhinha estava lá. Por alguns anos foi assim e sempre estava ela lá, sentada na tal cadeira, entre a rua e a loja, vendo as pessoas passarem e falando com os clientes.

A gente só se falou uma vez na vida e isso já deve ter uns cinco anos. Eu estava com meu pai e ele foi fazer uma foto para tirar o passaporte. Ela acompanhou o outro moço que ali estava a fazer a foto na cabine instantânea. Disse, ao fim, que meu pai era lindo. Ganhou pai e filho.

Eu ficava realmente feliz a cada vez que passava pela loja e constatava a presença tão agradável daquela senhora, ainda que a gente não se falasse, ainda que eu a olhasse sem retorno, ainda que eu não comprasse nada naquela loja humilde, ainda que eu nunca fizesse minhas fotos 3x4 naquela máquina suja onde diariamente dezenas de pessoas deixavam estampadas suas faces pouco (falsas) ou nada sorridentes.

A cada vez que eu passava pela loja e via a velhinha com suas bochechas levemente coradas rindo e interagindo com os que ali estavam era como se eu marcasse um item positivo dentre os vários que constam do check-list de estabilidade de vida. Era como uma confirmação de que as coisas continuavam no seu lugar, do mesmo jeito que se entra no seu colégio antigo e as pessoas ainda usam o mesmo uniforme e reclamam dos mesmos professores, ou que depois de longos e tenebrosos invernos o telefone da sua ex-namorada ainda é o mesmo ou que no Natal ainda farão aquela sobremesa com receita especial que há tantas ceias aguça os apetites. Posso fazer uma lista de coisas mais óbvias, ou nem tanto, que dão essa sensação de que o mundo ainda é mundo e de que você ainda está no seu tempo. Um dos meus marcos era passar pelo Centro e olhar a velhinha na sua cadeira.

Se eu era um estranho para ela, só mais um dos trocentos que transitavam diariamente pela Cinelândia, ela não era uma estranha para mim. Era a velhinha fofinha da xerox. A presença dela, silenciosa, ali bastava. Se ela estivesse ali, como sempre, estava bom para mim. Ela não precisava saber que eu existia, que eu me importava com ela, que ela fazia alguma diferença no meu dia.

Desde que comecei a estagiar no Centro, meu trânsito pela lojinha da velhinha passou a ser diário. Comecei a sentir sua falta depois que por muitos dias eu passava por lá e ela não estava. Andando rápido, como sempre, eu passava pela loja e procurava a velhinha. Demorava mais no passo para conseguir olhar lá dentro, pois na porta ela não estava. Em vão. Pensei se ela estaria meio doente, se estaria cansada de ir para o centro todo dia, ... Por alguns dias eu quis entrar na loja e perguntar para o senhor que ali continuava trabalhando diariamente o que havia acontecido com a velhinha. Achei, porém, que seria freak demais. E eu talvez não suportasse muito bem ouvir da boca dele, tendo que lhe dar alguma resposta, que algo de muito ruim havia acontecido, se esse fosse o caso.

Deixei para perguntar para o meu pai, afinal, ele está sempre por ali e deveria estar melhor informado. Segunda-feira agora, perguntei para ele, enquanto tomávamos café-da-manhã na lanchonete que fica ao lado da lojinha. Ele falou que estava tudo bem com a velhinha e que ela sempre estava por lá. Aliviei-me por um segundo, confiando na inconfiável noção de tempo do meu pai. A garçonete, porém, interrompeu nossa conversa e falou, um tanto desolada, que aquela senhora falecera já havia três meses.

Até hoje não sei seu nome, não sei sua origem, não sei sua idade e nem especulo sobre a sua causa mortis. Não preciso saber e sabê-lo talvez tornasse as coisas mais corriqueiras, mais desimportantes e menos simbólicas. Se ainda puder me redimir desse não-saber, que no fundo só serviu a tornar a senhora ou a história mais interessantes, resta aqui uma homenagem...
Post mortem, ainda que seja, infelizmente.

sábado, 3 de outubro de 2009

cortar as unhas

Percebo que está tudo muito corrido na vida quando eu vou cortar as unhas e elas estão grandes, mas parece que foi logo ontem que eu as cortei pela última vez.
Explico e é fácil de entender: cortar as unhas é um momento de reflexão, igual à hora em que se fica debaixo do chuveiro,  ao lapso em que se coçam as costas ou ao ínterim ("vareia" de um segundo a algumas horas", vide o que eu escrevi sobre insônia) entre encostar a cabeça no travesseiro e efetivamente dormir.
Cortar as unhas é mais do que um ato de higiene. É um ato de auto-preservação e, também, de preservação alheia. Você destrói uma de suas armas, tolhe suas garras em nome de o tiro não sair pela culatra.
Cortar as unhas é um ato de auto-conhecimento. E não é a toa que as manicures têm seu lado psicóloga...

domingo, 27 de setembro de 2009

E SE HOJE ACONTECESSE UMA TRAGÉDIA?

E se hoje acontecesse uma tragédia? O que seria do meu amanhã auspicioso? E dos meus livros ainda não lidos? E das minhas roupas ainda não usadas?

Se hoje acontecesse uma tragédia, o que seria do meus sonhos vividos e dos meus pesadelos evitados? E do futuro promissor? E das promessas não pagas? Quem cumpriria minhas metas? Quem me substituiria na ciranda da vida? Quem beberia no meu copo, quem herdaria minhas roupas, quem vagaria com as minhas ilusões?

Quem exorcizaria meus medos legados? Quem contaria meus dramas e minhas angústias adiante? Quem colocaria na sua própria estante, como se seus fossem, os souvenires de meus amores pretéritos? E se lá não os colocasse, quem ousaria descartá-los?

E se hoje acontecesse uma tragédia? Quem me vestiria o terno de cerimônia que eu levaria para a eternidade? Quem recitaria o poema de partida? Quem acolheria em seu aconchego meus amados e minhas amadas e lhes secaria o choro?

Se hoje acontecesse uma tragédia, quem iria dormir desejoso de acordar no dia seguinte e ver que nada havia ocorrido? E quem não iria sequer dormir?

O que seria de mim?

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A LUTA CONTRA O SONO PELO SONO

É absolutamente desesperador o domingo à noite, quando chega aquela sensação infeliz de que o fim de semana acabou. O que tinha que ser curtido já foi curtido, e o que se deixou adiar, agora só daqui a cinco dias.
A noite vai terminando declarada pelo "boa noite" do Fantástico, e é aí que bate o desespero: "preciso me divertir um pouquinho mais!". Convencer-se de que simplesmente é hora de ir pra cama é algo muito árduo. Por mais que haja algum sono, há aquela esperança de que algo maravilhoso ainda irá acontecer, e essa espera ansiosa mantém a vontade de dormir distanciada da necessidade que se torna mais evidente a cada minuto.
É a hora desesperada em que se lê algo que já deveria ter sido lido durante a semana. Ou em que se entra no orkut para vasculhar a tragédia alheia. É a hora em que se reza: agradecemos e pedimos, ou pedimos e agradecemos (nesse caso a ordem importa), se só depois é que nos dermos conta de que podemos estar sendo um pouco abusados com a divindade.
A idéia de deitar na cama e simplesmente dormir é mera utopia. Você deita na cama para dormir.  Não deita na cama e dorme. Ver a cama como meio é colocar-se no abismo de angústia entre o ato e resultado, a angústia de que a cama não é o fim. A angústia que suscita o eco da semana inteira ressonando por completo em apenas alguns minutos, com as lamúrias do passado e os auspícios do futuro. Mas sempre angústia. Há, inclusive, a angústia de não se tolerar angustiado naquele momento: a meta-angústia. E aí a meta-meta-angústia. A meta-meta-meta-angústia. E por aí vai: uma frustração por conta de outra frustração! E essa relação infinita, em que dentro da angústia você vê a própria angústia, o fractal da angústia (!), é o que faz você viajar.
Eis que em algum momento, do qual você não se lembra, mas que certamente acontece, tudo para e você dorme (ou não, né...). Dorme porque se cansou de se perceber cansado. Dorme simplesmente porque se distraiu, angustiado ou não, pensando em dormir ou não, pensando em pensar ou, simplesmente, nada pensando. Dorme e só. E sem se dar conta se isso é bom ou ruim, se é feliz ou triste, se foi o fracasso e a resignação diante do fim do fim-de-semana, ou se foi a vitória de se pôr a descansar para mais uma semana.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

SIMPLES ASSIM

Deixaram um bilhete por debaixo de minha porta. Era azul claro e continha os dizeres "oi =)".
Deixaram um post-it dentro do meu livro. Era amarelo e continha os dizeres "oi =)".
Mandaram uma SMS de número desconhecido. Tinha 5 caracteres (espaço é caractere?): "oi =)"
Enviaram-me um e-mail de remetente anônimo e seu conteúdo era: "oi =)".
Mandaram-me um scrap de profile falso e ele dizia: "oi =)".
Deixaram recado na secretária eletrônica, shout no last.fm, aviso na comunidade da turma, @ffapd1989 no twitter, avisos telepáticos inesperados, cartazes na janela do vizinho da frente, sussurros de desconhecidos enquanto eu andava pela Av. Rio Branco, filipeta no para-brisa do carro, pop-up no meu navegador, ... E tudo dizendo: "oi =)".
E eu queria conhecer quem era essa tal pessoa que me mandava "oi" e uma carinha feliz. Ela queria algum contato? Mas por que eu? Seria um psicopata à minha espreita? E esse oi... o início de uma aproximação? Ou alguém querendo dizer "cuidado, estamos de olho"?
Eu fiquei com a dúvida e achei que fosse levá-la para o caixão. Não me aguentava de curiosidade, mas fazer o quê?
Um dia, entretanto, o telefone tocou. Falaram oi. Mas com outra entonação. Não foi aquele oi sutil, como se esperasse um outro oi e dali a conversa corresse normalmente.
Foi um oi envolvente, como se estivesse saudando todo mundo no recinto. Um ôiii, com chapéuzinho do vovô no "o" e "i" prolongado.
E aí, sem mais nem menos, eu descobri que era só uma estratégia publicitária da companhia telefônica.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

"(F)RIO" DE JANEIRO

Vai galera, ponha o xale. Não só ponha o xale, de preferência quadriculado, como também calce a bota. Vista sobretudo o sobretudo, sobre tudo. Coloque os óculos escuros e se olhe no espelho com olhar insolente, afinal, ser sorridente e simpático é muito tropical e latino. Dê um nó maneiro no xale, ponha o iPod no ouvido. Ponha o pé fora de casa e disfarce o algum calor que você inevitavelmente estará sentindo. Mas não dá para dar bandeira e começar a suar!
Acenda um cigarro e tome um chocolate quente ou um café. De preferência, no Starbucks. Pare numa livraria e vá na seção de psicologia ou ciências sociais. Se for pra completar a total viagem, vale arrumar um guia de turismo.
Nunca olhe de frente para as pessoas, só perifericamente. E não tire os óculos escuros da cara, nem desmonte o carão, é bom para parecer reservado.
No auge do frio nesse Rio que congela, jogue-se na lareira, com tudo!
Eu ligo para o 193, relaxa. A neve não está tão alta para impedir os bombeiros de chegarem rápido.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Postar ou não postar?

Eis que finalmente termino de escrever e vem uma dúvida ingrata: posto ou não posto?
E aí fico pensando por que escrevo. Nunca gostei de escrever para mim mesmo, como alguns fazem. Tudo o que coloco no papel ou no monitor é para transmitir algo a alguém. Geralmente também serve para todos e aí eu simplesmente posto.
Mas escrevo porque gosto, porque preciso, porque me ajuda a compartilhar uma parte do eu que deve trazer algo de bom aos que estão ao meu redor.
Há textos que, no entanto, não são tão facilmente passáveis no crivo postagem. Não porque sejam ruins, até porque boa parte das porcarias vai sem mais delongas para o limbo, mas porque trazem alguma dose de sentimento e intimidade que eu talvez não goste de expor no blog. Não é por meus leitores não serem dignos de saberem minhas emoções, minhas angústias ou meus dramas (até porque não são, enquanto meros leitores), mas porque tudo o que vai para esse blog  pode ser lido por qualquer um conectado à internet.
Na verdade, o problema não são os desconhecidos, para os quais eu sou só mais uma alma na imensidão digital em busca de ouvidos que olham. O problema são os semi-conhecidos ou semi-desconhecidos (depende da boa-vontade), que vivem no limite entre o ser e o não-ser, na situação indefinida entre a certeza e a dúvida, entre o confiar e o desconfiar.
Aliás, há uma categoria pior: os stalkers. Stalkers são aqueles que ficam à espreita. Todo mundo tem um lado stalker, mas em alguns isso aflora mais. Pode-se dizer que após o boom do Orkut, proliferaram-se os stalkers virtuais. Geralmente é aquela amiga do seu amigo, a pessoa da escola ao lado, aquela figurinha batida em boate ou algum vizinho que você sempre cruza no elevador, mas cujos detalhes simplesmente se ignoram. Você sabe o nome, você sabe a vida da pessoa inteira, você apenas nunca trocou uma palavra com ela para dizer que vocês se conhecem. Há casos de stalkeamento recíproco e, nesses casos, tudo o que falta é função fática.Ainda escreverei sobre a função fática, que é o que mais falta na vida em certos momentos. Mas será que eu tenho algum stalker? Gostaria de conhecer. Pode se manifestar. Quem sabe eu ganhe alguma confiança...
Postar ou não postar? Não volto à dúvida, felizmente. Claro que esse texto eu vou postar. Como se não bastasse metalinguagem de escrever sobre o processo de escrever, eu traria mais metalinguagem ainda ao duvidar de postar um texto sobre dúvida de postar? Não, não!

sábado, 11 de abril de 2009

O INSETO QUE BATE CONTRA A JANELA

A aula era de direitos e garantias individuais e coletivos. Liberdade disso, daquilo, prestações negativas do Estado e esse juridiquês bonito que no final quer dizer que não viveremos numa ditadura.
Preso dentro da sala gélida, porém, estava um inseto de porte médio que passeava livremente entre os alunos concentrados e o professor de oratória irretocável e mãos eloqüentes. Mas o bichinho simplesmente me desviou a atenção. Não que eu tenha ficado contemplando sua solidão, que no fundo também era um pouco a minha, mas principalmente saltou-me aos olhos seu desespero ao querer sair da sala rumo pela janela. Estava a janela fechada, e ficou o bicho esbarrando no vidro, várias e várias vezes. Buscava uma fresta, mas ela não existia. Batia cada vez com mais força e tentava subir para procurar outra escapatória, no que chegava ao ar-condicionado com um fluxo congelante que o jogava para longe, escorregando tridimensionalmente em movimento caótico.
O inseto não desistia e tentava repetir o movimento, como se esperasse que em algum momento o ar condicionado simplesmente parasse, a janela simplesmente abrisse e ele pudesse conquistar sua liberdade assim facilmente. Afinal, a liberdade de um inseto não é direito fundamental. E quem vai garanti-la?
Somente uma boa alma poderia livrá-lo de tanto sofrimento, embora com algum custo: levantar-se para abrir a janela desviaria a atenção dos vários alunos compenetradíssimos, quase que enfeitiçados, pela aula maravilhosa. O professor também poderia ficar chateado, se seu espírito não compreendesse a metáfora existente em dar liberdade ao bicho preso. Na verdade, seria mais que metafórico: seria metonímico!
Mas simplesmente não aconteceu. O professor falou nas formas de avaliação e cobrança - uma prova e um trabalho  (talvez possa ser em grupo!) - e lá se foi toda a atenção no bicho, que simplesmente tornou-se invisível aos olhos ofuscados pelo vamos-ver de um futuro não tão distante.
Não que o bicho seja menos importante, né...

segunda-feira, 9 de março de 2009

CÂMERAS NO ELEVADOR.

Não mais serei o mesmo diante do espelho: não farei caretas com língua para fora, olhos envesgados ou cara retorcida. Não espremerei espinhas, não farei pose para me sentir bonito, não expirarei ar quente perto do vidro para embaçá-lo e depois escrever ou desenhar alguma coisa com o dedo. Não ensaiarei mais discurso, e nisso se vai minha oratória.

Não mais apertarei todos os botões para ficar ali só mais um pouquinho, curtindo o momento de transgressor.

Não mais pularei com os amigos e nem balançarei os quadris para que o elevador trema.

Não mais colocarei a mão entre as aberturas da porta pantográfica, como se brincasse com a sorte diante do aviso em contrário "mantenha-se afastado".

Não mais apagarei as luzes sorrateiramente, para fingir-me num filme de terror ou para assustar minha mãe. Nem apertarei o botão de emergência para simular que o elevador parou.

Não mais beijarei no elevador, aproveitando a privacidade e curtindo a adrenalina de o elevador poder parar e sermos surpreendidos.

Não mais me debulharei como um maníaco sobre a tal lei municipal de 1996 e as não sei lá quantas UFIRs cominadas aos infratores, o que talvez tenha sido meu primeiro contato com algum texto legal, daí alguma obsessão.

Não mais começarei a me despir antes de chegar em casa, quando o calor for muito, quando o desconforto da roupa for demais ou quando for preciso agilizar o processo para satisfazer o quanto antes imperativos fisiológicos invencíveis.

Não mais encostarei a cabeça na parede do elevador olhando para baixo nos dias tristes, ou olhando para cima nos dias cansados, nos quais o trajeto do térreo até o nono andar é um precioso momento de descanso.

Não mais viverei genuinamente a solidão do elevador, nem sua introspecção típica ao olhar para o nada daquelas paredes cubiculares, porque o nada estará me fazendo companhia e se fazendo perceber, apesar de ser nada. É que nessas horas o nada se faz tudo, e me olha, e me observa, e me constrange.

Tentarei encará-lo. E, quando olhar para o nada materializado em câmera, verei ainda meu próprio reflexo, como uma tácita chamada de consciência: "se toca!!!".
E depois disso tudo ainda querem que eu sorria...

sábado, 24 de janeiro de 2009

meia molhada

pegando carona nos desprazeres amélie, que meu amigo nagreb relatou em seu blog.

Enquanto não inventarem uma meia impermeável, será a meia molhada uma das maiores fobias dos que não conseguem dormir sem esse precioso acessório que acalenta pés friorentos (não confundir com pé-frio) nas noites de frio ou de ar-condicionado.

É mortal o desprazer de se ir ao banheiro no meio da noite, esquecer de calçar os chinelos, e, sem querer, pisar no molhado de quem abriu a torneira com muita força, lavou o rosto de forma descuidada ou saiu do banho achando que iria lavar o chão. Ao primeiro toque, a água vai entrando na meia de leve, conquistando-a e escurecendo-a em sua alvura. A meia vai se contraindo e esfriando a pontinha dos dedos do pé, que enlouquecem de tanto incômodo.

Você, que a essa altura já deve estar ligeiramente cheio de sono, olha para o seu pé e vê aquela mancha do solvente universal de peso molecular 18atm. O que você faz?
Tira a meia? Coloca outra seca? Espera o molhada secar e enquanto isso vai fazer um lanche? Pega o secador? Põe atrás da geladeira? Vai dormir assim mesmo, afinal, que frescura !?

E se você está viajando, onde não tem outra meia, não tem secador, não tem geladeira, não tem absolutamente nada? Frescura ainda tem. Sempre tem. Mas ela não resolve o problema.

A janela mais próxima está aberta. E nesses momentos, ela parece ser a serventia da casa.



Ih, nada disso. É so enrolar os pés num lençol.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

RAPIDINHAS DE FIM DE ANO (atrasadas)

SHOPPING NO NATAL
Estão extremamente insuportáveis. A começar pela dificuldade de estacionar, de circular, de pagar o estacionamento e tudo o mais. O que mais irrita, porém, é o exército de vendedores nas lojas, que ficam na porta secando você para entrar, com uma simpatia tão excessiva que até os mais carentes desconfiam. Na Taco, por exemplo, desisti de entrar na loja com "medo" de ser atacado por um dos mil atendentes que se enfileiram como em linha de tiro na entrada da loja para atender o cliente. O pior é quando eu não estou procurando nada na loja e entrei só para ver o que tem de novo. É tão frustrante para o vendedor: ele, ali, esperando sua vez no rodízio de receber o cliente para ao fim receber talvez uma comissão e eu, também ali, praticando o famoso "só olhando". Melhor não passar da vitrine.
E QUEM NÃO PASSA O NATAL COM A FAMÍLIA?
Creio que deve ser das horas mais penosas para a vida de um trabalhador ter que estar em atividade na noite do dia 24 de dezembro. Tudo bem que pode haver uma compensação financeira que valha a pena o sacrifício, ou simplesmente é o plantão dele, mas... como fica? Os garçons, que têm que ficar servindo festas alheias, os porteiros, cuidando da portaria, os policiais, preparados para na noite natalina atirarem a qualquer hora, os médicos, lidando com a vida e com a morte na data de celebração máxima da primeira,... Fazer o quê?
E A CHATICE DOS RITUAIS...
Não me convencem mais os mil rituais e superstições de ano novo. Na verdade, nunca me convenceram direito, mas lá vai que alguma coisa eu fazia com medo dos sete anos de azar.  Pular ondinha, levar flores, entrar com o pé direito, comer uvas e por aí vai. Esse ano passei a virada normalmente: virou 2009 numa contagem regressiva vários uníssonos e eu gritei como se me aliviasse de ter acabado a tal contagem. Bastou-me, e foi bom estar sem nenhuma preocupação em pisar primeiro com um dos pés ou em entrar no mar assim ou assado. Tudo isso é muita perda de foco. Ah sim... e passei de verde, porque não tinha camisa laranja para vestir na virada.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

eu, a chave, a velhinha, o medo e, quase, a generosidade.

Aconteceu há mais de seis meses, mas só hoje resolvi contar.

Estava caminhando na capital francesa como aqueles turistas que não querem nada. O dia estava um pouco nublado e eu já estava voltando para o hotel depois de bater pernas por muitas horas.

Entrei numa transversal de uma importante avenida e rumava em direção a uma das estações de metrô. Várias pessoas passeavam também, inclusive um casal de turistas brasileiros que não sei lá como me reconheceu enquanto conterrâneo e pediu em português para eu bater uma foto deles diante de uma casa que nada tinha de demais. Bati a foto e segui.

Dei alguns passos a frente e uma velhinha me abordou. Uma velhinha lá nos seus 70 anos, que falava um francês meio estranho, muito apressado, atropelando palavra. Parecia não ser francesa. Não estava muito bem vestida, tinha alguns dentes pretos, o nariz estranho, o cabelo mal-cuidado, algumas rugas e trajava um vestido preto nada elegante. Muitas rugas e a expressão desesperada. E por mais assustadora, até repugnante, que possa parecer essa velhinha, ainda era uma velhinha daquelas que inspira uma atenção especial. Não sei direito porque, mas tenho uma adoração especial por pessoas idosas, sendo os seres com os quais eu mais me sensibilizo.

Fato é que a velhinha estava com umas chaves na mão e em seu linguajar meio ininteligível, ou no mal-entendimento de meu parco francês, me disse que a chave ou a fechadura estava com problemas e me pediu ajuda para abrir a porta de onde morava. Não compreendi exatamente do que se tratava. Concordei com a cabeça e fui seguindo a mulher.

Entramos no quarteirão, pois seu prédio era daqueles cuja portaria não fica na rua, mas no interior do quarteirão, como alguns prédios do centro do Rio. O lugar estava vazio e não falamos nada até chegarmos ao portão principal. Já fui meio receoso sobre o que se seguiria, mas não quis pensar muito.

Chegando ao portão, pedi a chave para tentar abri-lo. Ela olhou educadamente e disse que a fechadura da portaria estava abrindo, mas que era para eu subir e tentar abrir a do apartamento dela. Pegou a chave e abriu o portão da portaria, dando um passo a frente e sinalizou para que eu também entrasse.

Não entrei. Travei no capacho e fiquei olhando para a cara dela, sem saber o que falar. Não iria subir aquele prédio vazio, num lugar em que eu não conhecia, com uma senhora que não havia me passado a melhor das impressões e estando eu sozinho na cidade . Fiquei com medo de que tudo aquilo fosse um golpe e ali minha viagem fosse para o beleléu. Imagina...

Falei a ela que não poderia subir, mas não quis explicar. Ela ficou desolada e perguntou o porquê de minha recusa, esboçando uma cara ainda mais desesperada. Comecei a suar frio tamanho era o conflito na minha cabeça: e se eu estivesse tratando como suspeita ou farsária uma velhinha necessitada e tão motivadora de compaixão? Ia deixá-la ali na rua implorando pela ajuda alheia para que ela conseguisse entrar em casa?

Ela me sensibilizou, mas meu lado racional e cunamãocional falaram mais alto. A história da chave não era lá muito plausível e o pedido de ajuda logo a mim, que não tenho cara nem know-how de chaveiro, não era muito razoável. E ainda lembrei de minha mãe, na minha distante infância, dizendo para eu não dar papo a estranhos. Por fim, preferi achar que era tudo um golpe e que o risco não compensaria a generosidade. 

Reiterei meu não e virei as costas dizendo a frase mais mãos-vazias da língua dos biquinhos e mil acentos: "desolé". Andei de volta para a rua. A velhinha ficou implorando para eu voltar, pedindo ajuda. Eu relutava em não olhar para trás, pois sabia que sua carinha enternecedora poderia me fazer voltar atrás na decisão de ignorar. Ela continuou a falar e eu seguia com o passo, embargado, tanto quanto sua voz, que ia sumindo como se ela tivesse resignado e fosse sentar e chorar.

Se sua voz sumiu em meus ouvidos, ainda continuou por um tempo a ecoar em minha cabeça. Até hoje, não sei direito se acertei ou errei em minha precaução ou em meu preconceito. Não quis pagar para ver, mas também esqueci que a dúvida impõe um preço um tanto salgado, parcelável em tantas vezes quanto for lembrada história. Compartilho a fatura.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A ÚLTIMA SEGUNDA DA QUINTA.

Na segunda, ela foi a quinta no ano.
Não era um pássaro, não era na construção.
Nem na Construção de Chico.
Não era de mentira, nem era abstração.

Na segunda, ela subiu do térreo. Até o quinto?
Desceu. Mas não foi até o quinto dos infernos.
Que a Quinta lá fosse próxima...
Mas ela pousou sobre um jardim qualquer.

Na segunda, em um segundo, a notícia se espalhou.
E logo os terceiros vieram ver o que acontera.
E assim ela foi a primeira às atenções,
o que nem pôde perceber, pois já passara das últimas.

Na segunda, todos foram às rampas e passarelas.
Viram o manto branco que sobre ela se fez sudário.
Viveram o baixo astral que sepultou o frenesi universitário.
Ouviram mil coisas a respeito, supuseram outras mil tão sem respeito.

Naquela segunda, os sinos não badalaram.
Mais alto gritaram as sirenes.
E mais forte giraram suas luzes,
em vermelho hemorrágico e aterrorizante.

Na segunda, uma cama dormiu vazia,
pois alguém escolheu dormir para sempre,
e escorregou, escorregou?, para a vida eterna.
Deslizando suave para não se sabe lá onde.

Foi sua última segunda.
Venceu a barreira que separa o aqui do acolá,
mas isolou-se pelo cordão de isolamento amarelo e preto,
que só os olhos ousaram atravessar.

Ninguém queria acreditar que, quando a tarde estava para cair, alguém preferiu se jogar.

Ninguém queria acreditar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

fossa dominical

domingo é um dia perigoso.
não é à toa que no calendário ele vem marcado em vermelho.
é quase como se a folhinha dissesse: perigo!

domingo é aquele dia que você acorda tarde e cansado.
é o dia para pagar a conta do sábado.

no domingo, você já acorda para o almoço.
se fizer sol, pode até rolar uma praia.
mas se fizer chuva... é aquela preguiça.

ficar em casa no domingo é realmente complicado.
talvez seja gostoso pegar um livro e observar a chuva caindo em preto-e-branco.

computador e domingo são mistura letal: não só o domingo é perigoso.
MSN, orkut, joguinhos quaisquer... ultra-tedioso.

televisão e domingo parecem tanto combinar...
faustão, gugu, sílvio santos, fantástico....
e agora nem tem mais o topa tudo por dinheiro.

domingo para muitos é o dia do futebol.
de se preparar para zoar ou ser zoado pela semana em razão do seu time.

domingo é o dia daquela fina melancolia que pode se avolumar em depressão.
e domingo é a véspera da segunda, que já fica decretada desde a hora em que termina o fantástico.

domingo é o dia do descanso. domingo dormindo.
mas domingo também é o dia certo da insônia.

domingo é o dia de ir a missa.
a quem se importar.

domingo é o dia que começa tarde e acaba cedo.
é de forma alguma dia útil.

domingo é a fossa. quase séptica.
você fica pra baixo e se encontra na merda.

os domingos deveriam estar mais bem sinalizados.
estar em vermelho não basta. precisam estar em baixo-relevo.
e quase furando o papel.