(está longo, mas vale a pena ;-)Andar pelas ruas é, sem dúvida, um prato cheio para fazer observações antropológicas de todo tipo. Fazê-lo em Ipanema então, nem se fala. São dondocas, executivos, estudantes, funcionários itinerantes (office boys), camelôs, fazedores de porra nenhuma e até mesmo marginais desfilando sobre as calçadas desse famoso bairro da Zona Sul carioca. Isso sem falar, é claro, nos cachorros, tanto os vadios quanto os de madame, que não raramente empesteiam as ruas com seus dejetos mal-cheirosos e horrivelmente pastosos.
E eles foram os culpados. Caminhava com um amigo no sentido Copacabana quando quase preenchi com substância castanha as reentrâncias da sola de meu tênis. Por sorte, percebi o que havia no chão e desviei a tempo. Ainda assim, me surpreendi, afinal, não é todo dia que se encontra uma senhora quantidade de fezes caninas no meio da calçada da principal rua de Ipanema, a Visconde de Pirajá.
Meu instinto sádico-observador, que em raras vezes se manifesta, aflorou na mesma hora. Com a quantidade de gente que passava, fatalmente "alguéns" iriam pisar naquela caca toda e, quando isso acontecesse, poderia presenciar a reação de cada pessoa e descrevê-la aqui no blog, com direito aos detalhes mais sórdidos. Tratamos de entrar numa galeria que tinha uma sacada da qual podíamos assistir, de camarote, o desfile alheio rumo à bosta. Só faltava pipoca e refrigerante.
Aquela massa castanha clara concentrava-se em duas porções razoavelmente grandes, situadas próximas uma da outra, que reluziam levemente a um sol vespertino de quase-verão carioca. Nossa mãe... quem fora o dono mal-educado e infeliz que deixou seu cachorro defecar ali e, pior, nem teve o cuidado de limpar o feito? Não me importava, no momento.
Estávamos ansiosos e assistíamos àquele espetáculo como quem via uma partida de futebol: emoções e mais emoções.
Primeiro, os
chutes para fora: na correria do dia-a-dia, muitos passaram por ali sem dar a mínima para onde pisavam mas, por sorte, não pisaram no cocô.
Ahhhh!Depois,
os chutes na trave: havia quem chegasse bem perto mesmo, quase em tangente, mas não o suficiente para fazer estrago.
Uhhh!Por último, defesa brilhante do
goleiro: houve um cidadão que conseguiu pisar, precisamente, no limpo espacinho entre as duas porções do material... salvo pelo anjo da guarda!
Passaram dondocas, estudantes, fazedores de porra-nenhuma, pessoas com carrinhos de criança, idosos (gostaríamos de poder poupar esses dois últimos do dissabor de uma bela pisada) e
nenhum assumiu a artilharia. O
desempate, porém, ainda estava por vir.
Homem, 30 anos, talvez drogado, talvez prostitúido... não sei. Vestia roupas escuras e andava bastante rápido, em largas passadas. Estava em rota de choque e não percebeu, até que deu mau passo (não interpretem mal, por favor). Queria ter uma microcâmera situada próxima ao local do ato para ver o sapato do moço indo de encontro a maciez pastosa do barro e, se possível, também um microfone, a fim de captar aquele barulho que vocês conhecem muito bem e para o qual não encontrei nenhuma onomatopéia aceitável
(talvez ploft?).
Goooool! E ele não saiu para a comemoração. Aliás, quem comemorou fomos nós, sádicos espectadores daquele show escatológico que, àquela altura do campeonato, fazia-nos rir sem parar. A pressa do elemento era tão grande que, mesmo percebendo que pisara onde não devia, não se permitiu parar de andar para olhar a sola de seu calçado, mas, enquanto caminhava, levantou o pé rapidamente e olhou de relance para o material que ali se acomodara. Por uma fração de segundo, fez cara feia, proferiu algum palavrão indecifrável e continuou sua marcha como se nada tivesse acontecido. Deixou para limpar depois, talvez quisesse perfumar algum ambiente com aquele cheiro bastante aprazível.
Mas a bola bateria na rede mais uma vez...O próximo infeliz entrou em palco meio desajeitado, cansado, trajando uniforme de carteiro e portando encomendas à mão. Parou na calçada e olhou em volta como se procurasse o número do prédio. Não conseguindo ler, deu um passo a frente, colocando um de seus pés bem do lado de uma das porções do digníssimo excremento, sem ali encostar, porém.
Posicionou-se diante do gol para cobrar um pênalti. Novamente, olhou para o número do prédio e, dessa vez, conseguiu fazê-lo. Aliás, naquele mesmo prédio ele faria sua entrega.
Decidira para que canto do gol iria cobrar a penalidade máxima. para dali provavelmente partir para a comemoração. De rumo tomado, só faltava dar o primeiro passo. O carteiro ajeitou o pé, levantou-o lentamente para, em seguida, confirmar o placar de 2x0 após uma belíssima pisada, da qual não se deu conta.
Nosso carteiro atacante seguiu em direção ao prédio sem olhar para o sapato ou sentir o fétido odor do produto final do metabolismo digestório canino (bela perífrase para
cheiro de m**da).
O gol fora marcado por acaso e continuava despercebido.
A torcida, confortável e cheirosa em seu camarote, continuava a rir sem parar, mas o espetáculo ia terminando por ali. Depois de duas pisadas homéricas, registradas de maneira científica na memória e, agora, nesse blog, era hora de ir embora e seguir nosso rumo anterior, não sem, antes, tirar com o celular uma foto daquela caca toda.
(não postei a foto por preguiça de pegar o cabo do celular e etc, perdoem-me!)O texto poderia acabar aqui, como mais uma descrição de fatos cotidianos, a exemplo do que vinha fazendo nas últimas mensagens. No entanto, vou acrescentar alguma coisa.
II. BREVES ACRÉSCIMOS
Comparar o caso de pisar em fezes com as adversidades que a vida nos traz (ou presenteia, como diriam alguns) pode soar muito forçado, aliás, eu mesmo acho isso de leve. No entanto, foi uma metáfora que encaixou minimamente naquilo que lhes trago hoje.
No curso da vida, cada vez mais rápida, somos eventualmente atrapalhados por obstáculos. Alguns deles nos param de verdade. Alguns lerdam nossa caminhada. Outros não atrapalham de cara, mas "grudam" e continuam ali, latentes, para, a qualquer hora, virem à tona e "federem".
Esses que grudam e ficam latentes são os que, em geral, nos pedem decisão, situação essa que não é das mais fáceis.
Tem gente que prefere seguir adiante com o problema, fingindo que ele não existe. Por preguiça, medo ou domínio da situação (ou a impressão de), arrisca-se a deixar que o problema se potencialize, cresça, e depois vire uma grande questão a ser resolvida.
Tem gente que adota medidas paliativas, tirando o excesso do problema (em linguagem metafórica, tira-se o excesso dos lados, mas deixa "algo" na reentrância da sola do tênis), mas deixando parte significativa lá, que continua na ameaça de eclodir e deflagrar uma crise. Talvez, seja a medida mais sensata, desde que, depois, na hora apropriada, resolva-se a questão por inteiro.
Há, ainda, os prevenidos (talvez perfeccionistas), que, mesmo sem estarem se incomodando diretamente com o problema latente, param tudo na hora e se dedicam a resolvê-lo totalmente, a extingui-lo por completo e eliminar qualquer chance futura de complicação. Cortam o mal pela raiz, mas muitas vezes o fazem em horas inoportunas e dão ao caso prioridade desnecessária, o que não raramente atrapalha outros passos da caminhada.
Cada problema, porém, pede uma conduta individual, e decidi-la requer bom senso, experiência e conhecimento da questão, o que muitas vezes acaba constituindo-se num novo problema. Vale, portanto, o conselho Hipoglós: "é melhor prevenir do que remediar".
Em outras palavras, meus caros leitores, olhem para o chão e desviem da m****.
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PS: Desculpem-me o atraso para novas postagens, mas atualmente estou lento para escrever, mas acredito que tem coisa boa vindo por aí.(Ouvindo: muita, muita coisa)Marcadores: crônicas, os melhores