O relato atrapalhado de um pretensioso mergulho, de snorkel, até às fossas abissais da realidade, em que muitos dos achados são só peixes-palhaços. Trágico e cômico. E numa página só.

FOTOS RECENTES NO FLICKR (/imaginarium)
www.flickr.com/photos/imaginarium


procurar por CATEGORIA

TODOS ||| (
aaaaaaaaa
(para o autor)


ACOMPANHE O SWB!
(CLIQUE AQUI)

sábado, 10 de outubro de 2009

A ESPERANÇA E A CERTEZA

A esperança deve ser algo como uma versão mais modesta da certeza. Quase um artifício retórico para não soarmos tão pretensiosos. Digo isso porque a esperança também convence nosso querer e nosso pensar... é a grande fomentadora de ilusões. E porque a certeza é uma grande desilusão, embora, sem se perceber, seja também um pouco iludida: pensa-se não haver mais dúvidas em relação a um futuro ou a um quase-presente... mas o futuro é o reino do incerto, nele o que fazemos é passear nas nebulosas aléias da alea.

A esperança e a certeza, ambas trazem um certo frisson: uma é a expectativa da confirmação e a outra é o medo de dar errado. Mudando o que se deve mudar, é um pouco como aquela história de copo meio cheio e meio vazio. Tudo depende do ponto de vista, que por sua vez depende de como acordamos no dia, o que pode inclusive estar relacionado a como o dia está: a quantidade e a posição das nuvens são variáveis desse resultado.

E a vida às vezes me parece um pouco como a previsão do tempo, na verdade. Nenhuma relação entre o presente-vivido e o amanhã-esperado é conclusiva. Sempre há alguma esperança ou alguma certeza de que amanhã vai fazer um sol maravilhoso, quer se anuncie o dilúvio, quer se anuncie a calmaria. Fato é que a nossa vontade e o nosso agir também contam um pouquinho para mudar o rumo das coisas. O quanto, eu não sei. Eu ainda não acho que sou São Pedro, mas já venho lá reduzindo minha emissão de CO2 para o tempo não ficar tão catastrófico. E diante da tempestade, sempre tem a possibilidade de se ir para uma cidade onde está fazendo muito sol. As vezes ela nem é tão distante...

sábado, 3 de outubro de 2009

cortar as unhas

Percebo que está tudo muito corrido na vida quando eu vou cortar as unhas e elas estão grandes, mas parece que foi logo ontem que eu as cortei pela última vez.

Explico e é fácil de entender: cortar as unhas é um momento de reflexão, igual à hora em que se fica debaixo do chuveiro,  ao lapso em que se coçam as costas ou ao ínterim ("vareia" de um segundo a algumas horas", vide o que eu escrevi sobre insônia) entre encostar a cabeça no travesseiro e efetivamente dormir.

Cortar as unhas é mais do que um ato de higiene. É um ato de auto-preservação e, também, de preservação alheia. Você destrói uma de suas armas, tolhe suas garras em nome de o tiro não sair pela culatra.

Cortar as unhas é um ato de auto-conhecimento. E não é a toa que as manicures têm seu lado psicóloga...

terça-feira, 29 de setembro de 2009

@morse

..-. .. --.- ..- . .. -.-. --- -- -.-. ..- .-. .. --- ... .. -.. .- -.. .

quem ser?

domingo, 27 de setembro de 2009

E SE HOJE ACONTECESSE UMA TRAGÉDIA?

E se hoje acontecesse uma tragédia? O que seria do meu amanhã auspicioso? E dos meus livros ainda não lidos? E das minhas roupas ainda não usadas?

Se hoje acontecesse uma tragédia, o que seria do meus sonhos vividos e dos meus pesadelos evitados? E do futuro promissor? E das promessas não pagas? Quem cumpriria minhas metas? Quem me substituiria na ciranda da vida? Quem beberia no meu copo, quem herdaria minhas roupas, quem vagaria com as minhas ilusões?

Quem exorcizaria meus medos legados? Quem contaria meus dramas e minhas angústias adiante? Quem colocaria na sua própria estante, como se seus fossem, os souvenires de meus amores pretéritos? E se lá não os colocasse, quem ousaria descartá-los?

E se hoje acontecesse uma tragédia? Quem me vestiria o terno de cerimônia que eu levaria para a eternidade? Quem recitaria o poema de partida? Quem acolheria em seu aconchego meus amados e minhas amadas e lhes secaria o choro?

Se hoje acontecesse uma tragédia, quem iria dormir desejoso de acordar no dia seguinte e ver que nada havia ocorrido? E quem não iria sequer dormir?

O que seria de mim?

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A LUTA CONTRA O SONO PELO SONO

É absolutamente desesperador o domingo à noite, quando chega aquela sensação infeliz de que o fim de semana acabou. O que tinha que ser curtido já foi curtido, e o que se deixou adiar, agora só daqui a cinco dias.

A noite vai terminando declarada pelo "boa noite" do Fantástico, e é aí que bate o desespero: "preciso me divertir um pouquinho mais!". Convencer-se de que simplesmente é hora de ir pra cama é algo muito árduo. Por mais que haja algum sono, há aquela esperança de que algo maravilhoso ainda irá acontecer, e essa espera ansiosa mantém a vontade de dormir distanciada da necessidade que se torna mais evidente a cada minuto.

É a hora desesperada em que se lê algo que já deveria ter sido lido durante a semana. Ou em que se entra no orkut para vasculhar a tragédia alheia. É a hora em que se reza: agradecemos e pedimos, ou pedimos e agradecemos (nesse caso a ordem importa), se só depois é que nos dermos conta de que podemos estar sendo um pouco abusados com a divindade.

A idéia de deitar na cama e simplesmente dormir é mera utopia. Você deita na cama para dormir.  Não deita na cama e dorme. Ver a cama como meio é colocar-se no abismo de angústia entre o ato e resultado, a angústia de que a cama não é o fim. A angústia que suscita o eco da semana inteira ressonando por completo em apenas alguns minutos, com as lamúrias do passado e os auspícios do futuro. Mas sempre angústia. Há, inclusive, a angústia de não se tolerar angustiado naquele momento: a meta-angústia. E aí a meta-meta-angústia. A meta-meta-meta-angústia. E por aí vai: uma frustração por conta de outra frustração! E essa relação infinita, em que dentro da angústia você vê a própria angústia, o fractal da angústia (!), é o que faz você viajar.

Eis que em algum momento, do qual você não se lembra, mas que certamente acontece, tudo para e você dorme (ou não, né...). Dorme porque se cansou de se perceber cansado. Dorme simplesmente porque se distraiu, angustiado ou não, pensando em dormir ou não, pensando em pensar ou, simplesmente, nada pensando. Dorme e só. E sem se dar conta se isso é bom ou ruim, se é feliz ou triste, se foi o fracasso e a resignação diante do fim do fim-de-semana, ou se foi a vitória de se pôr a descansar para mais uma semana.



terça-feira, 22 de setembro de 2009

SIMPLES ASSIM

Deixaram um bilhete por debaixo de minha porta. Era azul claro e continha os dizeres "oi =)".

Deixaram um post-it dentro do meu livro. Era amarelo e continha os dizeres "oi =)".

Mandaram uma SMS de número desconhecido. Tinha 5 caracteres (espaço é caractere?): "oi =)"

Enviaram-me um e-mail de remetente anônimo e seu conteúdo era: "oi =)".

Mandaram-me um scrap de profile falso e ele dizia: "oi =)".

Deixaram recado na secretária eletrônica, shout no last.fm, aviso na comunidade da turma, @ffapd1989 no twitter, avisos telepáticos inesperados, cartazes na janela do vizinho da frente, sussurros de desconhecidos enquanto eu andava pela Av. Rio Branco, filipeta no para-brisa do carro, pop-up no meu navegador, ... E tudo dizendo: "oi =)".

E eu queria conhecer quem era essa tal pessoa que me mandava "oi" e uma carinha feliz. Ela queria algum contato? Mas por que eu? Seria um psicopata à minha espreita? E esse oi... o início de uma aproximação? Ou alguém querendo dizer "cuidado, estamos de olho"?

Eu fiquei com a dúvida e achei que fosse levá-la para o caixão. Não me aguentava de curiosidade, mas fazer o quê?

Um dia, entretanto, o telefone tocou. Falaram oi. Mas com outra entonação. Não foi aquele oi sutil, como se esperasse um outro oi e dali a conversa corresse normalmente.

Foi um oi envolvente, como se estivesse saudando todo mundo no recinto. Um ôiii, com chapéuzinho do vovô no "o" e "i" prolongado.

E aí, sem mais nem menos, eu descobri que era só uma estratégia publicitária da companhia telefônica.

domingo, 13 de setembro de 2009

MONOSSÍLABO TÔNICO

(resíduos do último eu-apaixonado...)

Espero seu monossílabo tônico e quero que ele venha com mais força do que sua tônica habitual, para me arrebatar de vez, seja de entusiasmo, seja de frustração.

Seja seu monossílabo tônico a resposta binária que distinguirá o nunca do pra sempre, ainda que no fundo eles sejam a mesma coisa: detêm a mesma certeza, que no fundo é a pretensão humana quanto a um futuro do qual se pensa senhor, e se destroem facilmente em face de alguma ou qualquer novidade, daquelas que, com o perdão da redundância, não se estão realmente esperando.

Quero o monossílabo tônico, pode ser um ou o outro, como a expressão de uma vontade. Não uma vontade espasmódica, estabanada, dessas que sai por aí como mero capricho, mas uma vontade pensada. Tão pensada e repensada, que, de infinitas, complexas e impronunciáveis sílabas, conseguiu-se resumir a uma só, porta-voz de todas as razões que a motivam.

Difira o defiro do indefiro. É tudo que peço. Sigo viagem ou me mudo para a sua vida?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

ENQUANTO A MENSAGEM NÃO CHEGA

(postando textos esquecidos entre os rascunhos desse blog...)

Enquanto a mensagem não chega, não desgrudo do celular. Olho as horas, entro no joguinho, vejo fotos antigas (algumas tão nostálgicas), vejo as mensagens que recebi e as mensagens que enviei.
Ponho o aparelho no bolso, mas a cada minuto me lembro de que eu posso não ter sentido a vibração e aí a SMS estaria lá, me esperando, depois de tanto que eu já a esperei.

Espero ainda, e isso é tudo o que me resta fazer, por mais que paciência não seja lá minha maior virtude. No auge de meu imediatismo a longo prazo, traduzido em querer para ontem o que se terá para o resto da vida, eis que o telefone vibra e quer chamar a atenção.

Mas é minha mãe ligando. Ou é só um amigo perguntando qual é a boa. Ou é só a operadora oferecendo mais um serviço. Ou é engano. Nada relevante.

No que espero, não vem. No que desisto de esperar com uma pontinha de esperança de que na distração acontecerá, também não vem. Mas se relaxo completamente e realmente me convenço de que nada acontecerá, aí ganho razões para ainda acreditar. Expectativas e esperanças não são exatamente sinônimos.

A mensagem tão esperada chega, mas não traz nada de muito especial. Será que é melhor ligar?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

SAUDADES

(ou "evadir-se")

porque não ficaremos o dia inteiro sentados olhando a vida passar,
enchendo o copo, conversando e ruminando o assunto.
bebendo o líquido da fonte inesgotável,
que o bom futuro não há de secar.

mas nossa saliva antes secará,
deixando com sede os que nos amam.
e nossas pálpebras fecharão nossos olhos especulares,
(ou antes terão a clemência de fechar nossas pálpebras...)
e não mais seremos reflexos perambulantes,
escancarando verdades a quem quer que nos veja,
mas incapazes de vermos nossas próprias verdades.
porque, agora, ainda estamos por detrás dos olhos,
vitrais brilhosos de círculos concêntricos e cores personalíssimas,
e porque lá fora é mais claro: ainda é dia.

mas o dia em crepúsculo anunciará o breu,
em conclamação tácita a que acendamos nossas luzes.
porém, um dia, apagaremos...
e aí tentarão nos ver, mas nem sombra seremos,
e tentarão nos escutar, mas só ouvirão o eco minguante que restou ao ouvido,
e tentarão nos tocar, mas as mãos modelarão o ar em curvas corpóreas,
e tentarão nos cheirar, mas enganar-se-ão com o perfume enfrascado,
e tentarão nos provar, mas as bocas restarão aguando.

gritarão
chorarão
vão se comover...
vão se lembrar?
ou vão se esquecer?

e imaginarão, só imaginarão... sem perceber.
e isso, por ora, lhes bastará.
pois seremos sem estar-aqui ou sem estar-aí.
seremos estando-ali ou acolá, não importa onde será.
e inundar-se-ão de um "nós" impalpável, mas inebriante.
pensarão que estarão conosco, quando na verdade estarão sozinhos.

mas, certa hora, findará esse doce engano,
que traveste em infinita a duração de infinitésimo do homem.
e aí nada mais seremos que saudades.
(e assim ficamos para a semente.)

domingo, 16 de agosto de 2009

Bora

Bora lá,
bora cá,
bora fazer,
bora sair...
podemos borar juntos,
quem sabe borar a vida inteira,
até a hora de ir embora.

Bora logo que atrás vem gente,
borando incessantemente,
desesperados para borar por cima de tudo e de todos.

E que tudo e todos também borem.
Borem e corroborem a cada dia a boração.
Não vão me importar, esses boradores.

Bora?
Eis o meu convite indecoroso...
(que chegue em boa hora.)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

pas.encore

Porque já chegou agosto e eu nada escrevi.
Porque já estou de férias e pouco sorri.
Porque se espalhou a gripe e eu ainda não adoeci.
Porque já passou a época do caqui e eu não comi.
Porque veio a crise e eu não desinvesti.
Porque repetiram e eu não entendi.
Porque tocou a campainha e eu não ouvi.
Porque terminou e eu não aplaudi. 
Porque foi sutil e eu não senti.

Porque já fiz 20 anos e pouco vivi.
Porque foi há duas semanas e eu não percebi.
Porque a vida passa rápido e ainda não a compreendi.
Porque a divagação veio, mas vai parar por aqui.
Porque já são quase cinco da manhã e eu ainda não dormi.

Porque, amanhã, a manhã já vai ter chegado...
e eu ainda não vou ter acordado.

Se para rimar com -ado não serve f**ido,
estarei, , então que seja!, atrasado...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

EMPATIAS E CATARSES

Escrevo não mais porque quero só me expressar e mostrar - demonstrar - o quanto eu posso ver o mundo igual de uma forma diferente. Como se eu pudesse ver esse tal do além, essa tal balela do "beyond", tão arrogante quanto o inglês nele impregnado.

Escrevo hoje porque quero despertar empatias e catarses. Empatias, porque quero que o leitor, você, sinta-se no meu lugar. Sinta o meu sujeito que se materializa em emoção no objeto que eu projeto, no texto que se coloca.

Catarses, porque quero que você sofra junto, sofra daquilo que você também tem a partir do despertar do que estava latente.

Quero que você venha me dizer não que eu o tenha convencido de algo, mas que eu tenha feito você sentir algo que você já tenha sentido ou ainda sinta. Quero que você vibre comigo. Quero que você torça junto. E se for pra sentir de fato só depois, que se lembre do que já sentiu virtualmente por aqui.

Quero que o texto seja só o pretexto, a função fática, para a nossa intersubjetividade. Eu e você. Você e eu.

Meus personagens são só canais. Minhas letras são pontes com diferentes contornos. Meu texto é só um texto, que não existiria sem mim... e nem sem você.

As coisas aqui são quase quase como um "So What's Between?". A última palavra do blog deveria ser um x, a ser preenchido com alguma preposição de lugar em inglês.

E omitir a preposição pode ser o melhor comentário para esse texto, se a insolência for a sua resposta.

"So what?"
E eu respondo: nada.

terça-feira, 9 de junho de 2009

DEVE HAVER ALGO DE ESPECIAL ME ESPERANDO LÁ FORA.

Deve haver algo de especial me esperando lá fora. Sei lá o que pode ser, talvez algo que vá mudar minha vida, meu dia ou meu minuto. O importante é que mude e que, de alguma forma, me faça sentir prestigiado por aquilo que eu não controlo: as oportunidades. Criar oportunidades não é possível exatamente. Na verdade, o que se faz é deixar a cisterna aberta e esperar que chova, ou tirar as roupas do varal por conta da mesma chuva. Sempre dependemos da chuva, mas nem sempre ela nos alcança. Pior é que, às vezes, ela até nos alcança, mas não estamos preparados para ela naquele momento, ou, se estivermos, ela pode vir numa dose que de remédio vira veneno.

Alcançar a medida certa e sinérgica é um esforço colossal. Primeiro, tem-se o desespero de ficar olhando a todo minuto a previsão do tempo, achando que ela, como um oráculo, nos permitirá optar com antecedência pelo melhor caminho. Depois, é o peso de ter que carregar todo o dia o guarda chuva na mochila, pois aquele dia poderá ser o dia, ou de se ter que ter um protetor solar a mão, sempre, pois a possível trégua da chuva ao sol é convite tácito e irresistível à praia.

Deve haver algo de especial me esperando lá fora... ah, deve! Banho de sol ou banho de chuva. Ah, deve!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

"(F)RIO" DE JANEIRO

Vai galera, ponha o xale. Não só ponha o xale, de preferência quadriculado, como também calce a bota. Vista sobretudo o sobretudo, sobre tudo. Coloque os óculos escuros e se olhe no espelho com olhar insolente, afinal, ser sorridente e simpático é muito tropical e latino. Dê um nó maneiro no xale, ponha o iPod no ouvido. Ponha o pé fora de casa e disfarce o algum calor que você inevitavelmente estará sentindo. Mas não dá para dar bandeira e começar a suar!

Acenda um cigarro e tome um chocolate quente ou um café. De preferência, no Starbucks. Pare numa livraria e vá na seção de psicologia ou ciências sociais. Se for pra completar a total viagem, vale arrumar um guia de turismo.

Nunca olhe de frente para as pessoas, só perifericamente. E não tire os óculos escuros da cara, nem desmonte o carão, é bom para parecer reservado.

No auge do frio nesse Rio que congela, jogue-se na lareira, com tudo!
Eu ligo para o 193, relaxa. A neve não está tão alta para impedir os bombeiros de chegarem rápido.

domingo, 31 de maio de 2009

POEMA PARA O AMIGO PARTIDO

(para o querido amigo Edson Boia do Nascimento)

Que ora encontres teu descanso merecido,
e mergulhes na derradeira paz de espírito.
Sê vivo em nossos dias, jamais esquecido,
e por nossas mentes, aparece à noite, onírico.

Partiste, amigo, e repartiste nossos corações,
esfacelados em luto por ti, que só foste luta,
destruídos em sentimento ao revolver tantas emoções,
e desconfortados em nossos âmagos com angústia bruta.

Afundados estamos, porque perdemos nosso porto seguro.
Não mais temos a ti para nos ancorarmos na tormenta diária.
E, agora sós, vagamos, navegamos e navagamos pelas tempestades.

Zarpaste dessa vida, mas não naufragaste: ainda és futuro!
Sabe que bóias, Boia, acenando sobre uma jangada solitária,
que se afasta, paulatina e serena, em nosso mar de saudades.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

VIGÍLIA.

Não pode mais ser você a  dignitária de meus sonhos, nem por seu veneno transformá-los de súbito em pesadelos, quando tomo a consciência de ser tudo aquilo quimera mera vivida como realidade sem verdade. Ou não seriam?

Você não é mais você, porque sua pele não mais está encostada à minha, nem minhas mãos acariciam mais sua nuca quente, e nem meus dedos passeiam e se entrelaçam em seus fios de cabelo levemente suados. E não mais estamos levemente distraídos.

Você não é mais você. Você hoje é só o que eu guardei, o que eu lembro. Você não é mais física, é psicológica. Você não é mais objeto, é projeção. Você não é mais sujeito, você hoje é tão somente seus predicados que em mim restaram como um souvenir de desventura.

Porque você não é mais você, tornou-se mera experiência sensorial. Nessa linha tênue que separa o ser do sentir ser, o númeno do fenômeno, é que me deparo com a dúvida e o desespero de se estar sonhando ou se vivendo. Não porque não sonhamos enquanto vivemos, afinal, não somos somente matéria certa, localizada e determinada. Nem porque não vivemos enquanto sonhamos, pois ainda temos sensações, sentimentos e verdades durante o sono.

A questão é se mais vivemos ou mais sonhamos. E o ponto mais crítico é passar de um ao outro. Descobrir que o que achávamos que era vida era sonho, e que o que pensávamos ser devaneio era vida. Passear pelas esferas da realidade e da fantasia, conjugadas à da verdade ou à da mentira. São as quatro nebulosas e indeterminadas. E entre elas nós tão somente oscilamos, errantes, ainda achando que beliscar-nos a qualquer hora vai nos dizer em qual delas estamos: a realidade mentirosa, a realidade verdadeira, a fantasia verdadeira ou a fantasia mentirosa.

Na ignorância de onde estamos, simplesmente escolhemos onde queremos estar. Escolhi que ali estava sonhando com aquilo que em outro momento escolhera ser verdade. Mas porque hoje escolhi que não é mais verdade, o sonho virou pesadelo. Mas saber que se está sonhando ou pesadelando é como estar dentro de um simulador maravilhoso ou aterrorizante com a mão preparada para, a qualquer momento, apertar o botão de emergência. Apertei o meu.

Meus olhos se abriram, mas o coração continuava disparado. A luz entrou por minhas pálpebras cegando-me, mas ainda pairavam as imagens que estava vivendo. O cheiro da manhã buscou meu nariz, mas ainda era seu perfume que monopolizava meu olfato. Eu tentava ser eu, sozinho, na cama, mas ainda era eu, com você, dentro da minha cabeça.

Mas tudo isso foi cessando e eu, que tentava atônito buscar seu perfume nos recônditos da pele macia de teu pescoço contorcido em júbilo, percebi que era eu que estava deitado, contorcido, retorcido e distorcido no meu ser.

Despertei, como quero despertar a cada segundo, e ainda vim glamorizar via palavras essa desgraça, partilhando-a. Quem sabe, com ela fora de mim, talvez seja mais fácil eliminá-la...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Postar ou não postar?

Eis que finalmente termino de escrever e vem uma dúvida ingrata: posto ou não posto?

E aí fico pensando por que escrevo. Nunca gostei de escrever para mim mesmo, como alguns fazem. Tudo o que coloco no papel ou no monitor é para transmitir algo a alguém. Geralmente também serve para todos e aí eu simplesmente posto.

Mas escrevo porque gosto, porque preciso, porque me ajuda a compartilhar uma parte do eu que deve trazer algo de bom aos que estão ao meu redor.

Há textos que, no entanto, não são tão facilmente passáveis no crivo postagem. Não porque sejam ruins, até porque boa parte das porcarias vai sem mais delongas para o limbo, mas porque trazem alguma dose de sentimento e intimidade que eu talvez não goste de expor no blog. Não é por meus leitores não serem dignos de saberem minhas emoções, minhas angústias ou meus dramas (até porque não são, enquanto meros leitores), mas porque tudo o que vai para esse blog  pode ser lido por qualquer um conectado à internet.

Na verdade, o problema não são os desconhecidos, para os quais eu sou só mais uma alma na imensidão digital em busca de ouvidos que olham. O problema são os semi-conhecidos ou semi-desconhecidos (depende da boa-vontade), que vivem no limite entre o ser e o não-ser, na situação indefinida entre a certeza e a dúvida, entre o confiar e o desconfiar.

Aliás, há uma categoria pior: os stalkers. Stalkers são aqueles que ficam à espreita. Todo mundo tem um lado stalker, mas em alguns isso aflora mais. Pode-se dizer que após o boom do Orkut, proliferaram-se os stalkers virtuais. Geralmente é aquela amiga do seu amigo, a pessoa da escola ao lado, aquela figurinha batida em boate ou algum vizinho que você sempre cruza no elevador, mas cujos detalhes simplesmente se ignoram. Você sabe o nome, você sabe a vida da pessoa inteira, você apenas nunca trocou uma palavra com ela para dizer que vocês se conhecem. Há casos de stalkeamento recíproco e, nesses casos, tudo o que falta é função fática.Ainda escreverei sobre a função fática, que é o que mais falta na vida em certos momentos. Mas será que eu tenho algum stalker? Gostaria de conhecer. Pode se manifestar. Quem sabe eu ganhe alguma confiança...

Postar ou não postar? Não volto à dúvida, felizmente. Claro que esse texto eu vou postar. Como se não bastasse metalinguagem de escrever sobre o processo de escrever, eu traria mais metalinguagem ainda ao duvidar de postar um texto sobre dúvida de postar? Não, não!

sábado, 11 de abril de 2009

O INSETO QUE BATE CONTRA A JANELA

A aula era de direitos e garantias individuais e coletivos. Liberdade disso, daquilo, prestações negativas do Estado e esse juridiquês bonito que no final quer dizer que não viveremos numa ditadura. 

Preso dentro da sala gélida, porém, estava um inseto de porte médio que passeava livremente entre os alunos concentrados e o professor de oratória irretocável e mãos eloqüentes. Mas o bichinho simplesmente me desviou a atenção. Não que eu tenha ficado contemplando sua solidão, que no fundo também era um pouco a minha, mas principalmente saltou-me aos olhos seu desespero ao querer sair da sala rumo pela janela. Estava a janela fechada, e ficou o bicho esbarrando no vidro, várias e várias vezes. Buscava uma fresta, mas ela não existia. Batia cada vez com mais força e tentava subir para procurar outra escapatória, no que chegava ao ar-condicionado com um fluxo congelante que o jogava para longe, escorregando tridimensionalmente em movimento caótico.

O inseto não desistia e tentava repetir o movimento, como se esperasse que em algum momento o ar condicionado simplesmente parasse, a janela simplesmente abrisse e ele pudesse conquistar sua liberdade assim facilmente. Afinal, a liberdade de um inseto não é direito fundamental. E quem vai garanti-la?

Somente uma boa alma poderia livrá-lo de tanto sofrimento, embora com algum custo: levantar-se para abrir a janela desviaria a atenção dos vários alunos compenetradíssimos, quase que enfeitiçados, pela aula maravilhosa. O professor também poderia ficar chateado, se seu espírito não compreendesse a metáfora existente em dar liberdade ao bicho preso. Na verdade, seria mais que metafórico: seria metonímico!

Mas simplesmente não aconteceu. O professor falou nas formas de avaliação e cobrança - uma prova e um trabalho  (talvez possa ser em grupo!) - e lá se foi toda a atenção no bicho, que simplesmente tornou-se invisível aos olhos ofuscados pelo vamos-ver de um futuro não tão distante.

Não que o bicho seja menos importante, né...

segunda-feira, 9 de março de 2009

CÂMERAS NO ELEVADOR.

Não mais serei o mesmo diante do espelho: não farei caretas com língua para fora, olhos envesgados ou cara retorcida. Não espremerei espinhas, não farei pose para me sentir bonito, não expirarei ar quente perto do vidro para embaçá-lo e depois escrever ou desenhar alguma coisa com o dedo. Não ensaiarei mais discurso, e nisso se vai minha oratória.

Não mais apertarei todos os botões para ficar ali só mais um pouquinho, curtindo o momento de transgressor.

Não mais pularei com os amigos e nem balançarei os quadris para que o elevador trema.

Não mais colocarei a mão entre as aberturas da porta pantográfica, como se brincasse com a sorte diante do aviso em contrário "mantenha-se afastado".

Não mais apagarei as luzes sorrateiramente, para fingir-me num filme de terror ou para assustar minha mãe. Nem apertarei o botão de emergência para simular que o elevador parou.

Não mais beijarei no elevador, aproveitando a privacidade e curtindo a adrenalina de o elevador poder parar e sermos surpreendidos.

Não mais me debulharei como um maníaco sobre a tal lei municipal de 1996 e as não sei lá quantas UFIRs cominadas aos infratores, o que talvez tenha sido meu primeiro contato com algum texto legal, daí alguma obsessão.

Não mais começarei a me despir antes de chegar em casa, quando o calor for muito, quando o desconforto da roupa for demais ou quando for preciso agilizar o processo para satisfazer o quanto antes imperativos fisiológicos invencíveis.

Não mais encostarei a cabeça na parede do elevador olhando para baixo nos dias tristes, ou olhando para cima nos dias cansados, nos quais o trajeto do térreo até o nono andar é um precioso momento de descanso.

Não mais viverei genuinamente a solidão do elevador, nem sua introspecção típica ao olhar para o nada daquelas paredes cubiculares, porque o nada estará me fazendo companhia e se fazendo perceber, apesar de ser nada. É que nessas horas o nada se faz tudo, e me olha, e me observa, e me constrange.

Tentarei encará-lo. E, quando olhar para o nada materializado em câmera, verei ainda meu próprio reflexo, como uma tácita chamada de consciência: "se toca!!!".

E depois disso tudo ainda querem que eu sorria...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

SAIREI PARA A BOATE E ENCONTRAREI O AMOR DA MINHA VIDA.

(ou "elucubrações esperançosas")

Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida.

Entrarei na fila e lá mesmo ela me olhará, assim meio desconcertada, como se tivesse sido surpreendida por algo, e como se quisesse dizer alguma coisa diante de grata surpresa, mas não tivesse muita coragem.

Olharei pra ela, meio de rabo de olho, meio com vergonha, como se também quisesse dizer alguma coisa, mas também não tivesse lá muita coragem. E assim, sem palavras, a gente dirá muita coisa ao outro.

Entraremos e ela me olhará do alto da escada. Retribuirei o olhar, fazendo-a constrangida. Sem jeito, ela andará para algum lugar. Subirei a escada como se estivesse procurando alguma coisa, quando na verdade estarei procurando alguém. Entrarei na sala e irei até a janela fingir estar pegando um ar para ver se ela aparece. Se eu fumasse, acenderia um cigarro para conter a ansiedade. Não é o caso. Mas mesmo depois de alguma espera, ela não virá ao meu encontro. E, já cansado, eu sairei da sala e irei ao banheiro. Quando pegar na maçaneta do banheiro, ela se abrirá mais forte em minha direção e de lá sairá uma mulher, a mulher. Não porque eu estava indo no banheiro de mulheres ou ela na verdade fosse um homem, mas porque alguma coisa de engraçado deve haver para a gente se cruzar fisicamente, depois que nossos olhares já o fizerem como tácita função fática. Não poderá ser simplesmente eu chegar nela no sofá e dizer: oi, qual seu nome, quer tc? Simplesmente não funcionará. O encontro com o amor da sua vida tem que ser algo meio bizarro, esdrúxulo e quase irônico: ela entrou no banheiro dos homens sem querer.

Quando a gente se cruzar nessa cena louca, riremos um da cara do outro, pois ninguém terá entendido direito o que se passou. Ela olhará a plaquinha na porta e verá que se confundiu. Gargalharemos juntos e nessa hora minha vontade de ir ao banheiro passará, convencendo-me de que a fisiologia às vezes não mais é que mero pretexto para os chamados da psiquê. Psi... o que mesmo?

Tentando contornar seu constrangimento duplo, pelo banheiro e por ser logo eu quem abriu a porta, serei caloroso em minhas palavras e puxarei uma conversa.

E conversaremos longamente: descobriremos que ela, como eu, faz Direito, que estudamos em escolas próximas, que moramos não muito longe um do outro, que ela também gosta de jogar tênis, que ela também é muito fã de cinema nacional, que ela adora ir à boate às 5as feiras e que ela adoraria fazer uma tatuagem na nuca. Ai, eu não gosto de tatuagens, mas tudo bem. E depois de saber tudo, ou quase tudo, não teremos coragem de perguntar o nome um do outro. Será como se já o soubéssemos.

E então, depois de algum bla bla bla, sentaremos ao sofá vendo as pessoas jogando um fliperama nojento e, num misto de tédio e oportunidade, iremos nos entreolhar procurando respostas para um silêncio eloqüente que formulou a pergunta: e aí? E aí nos beijaremos tempo bastante para percebermos que foi certa a resposta.

Conversaremos mais, mais e mais. Pegarei seu telefone e ligarei no dia seguinte. Ficaremos mais e mais vezes e em breve nos descobriremos apaixonados. Iremos a vários shows legais, e outros nem tanto. Pediremos um ao outro em namoro. Trocaremos uma aliança de compromisso. Compraremos um apartamento juntos e para lá nos mudaremos. Daremos uma festa de casamento muito bonita. Trocaremos alianças de verdade bebendo champanhe. Viajaremos em lua-de-mel pela Europa, na primavera. Tomaremos chocolate quente conversando sobre o quanto a natureza é bela. Olharemos um para a cara do outro como dois bobos. Se estivermos sérios, riremos. Se já estivermos rindo, riremos de novo por já estarmos rindo.

Teremos filhos lindos e por eles, para eles e com eles. teremos trabalho. E também teremos cumplicidade. Teremos brigas, só para que de vez em quando sintamos a medida da realidade e lembremos que ainda seremos um casal. E teremos reconciliação, para nos convencermos de que somos mais fortes.

Envelheceremos juntos e cataremos os primeiros fios de prata na cabeça um do outro, quando o primeiro se sobressair na alvura do travesseiro e despertar-nos da quimera chamada juventude.

E já na tenra idade, tomaremos chá e veremos televisão. Viajaremos para uma casa de campo e ficaremos lendo amenidades enquanto chove lá fora, tornando o dia cinza. Prepararemos juntos o jantar e dormiremos sob o cobertor, abraçados, ainda que a noite esteja quente, porque bastará ligar o ar condicionado como escusa para estarmos mais próximos.

E, no dia seguinte, eu acordarei primeiro e ficarei contemplando sua beleza e acariciando sua nuca macia, de pele lisa e intocada: terei conseguido dissuadi-la de fazer a tatuagem.

E na hora de morrer, fato que inexoravelmente virá, verei que ela foi o amor de cada um dos dias, do primeiro em que a conheci até o último em que com ela estive. E então, somente a posteriori, como de fato parece ser o conceito de "amor da sua vida", descobrirei que foi ela o meu.

Só lhe falta um nome, ainda.

sábado, 24 de janeiro de 2009

meia molhada

pegando carona nos desprazeres amélie, que meu amigo nagreb relatou em seu blog.

Enquanto não inventarem uma meia impermeável, será a meia molhada uma das maiores fobias dos que não conseguem dormir sem esse precioso acessório que acalenta pés friorentos (não confundir com pé-frio) nas noites de frio ou de ar-condicionado.

É mortal o desprazer de se ir ao banheiro no meio da noite, esquecer de calçar os chinelos, e, sem querer, pisar no molhado de quem abriu a torneira com muita força, lavou o rosto de forma descuidada ou saiu do banho achando que iria lavar o chão. Ao primeiro toque, a água vai entrando na meia de leve, conquistando-a e escurecendo-a em sua alvura. A meia vai se contraindo e esfriando a pontinha dos dedos do pé, que enlouquecem de tanto incômodo.

Você, que a essa altura já deve estar ligeiramente cheio de sono, olha para o seu pé e vê aquela mancha do solvente universal de peso molecular 18atm. O que você faz?
Tira a meia? Coloca outra seca? Espera o molhada secar e enquanto isso vai fazer um lanche? Pega o secador? Põe atrás da geladeira? Vai dormir assim mesmo, afinal, que frescura !?

E se você está viajando, onde não tem outra meia, não tem secador, não tem geladeira, não tem absolutamente nada? Frescura ainda tem. Sempre tem. Mas ela não resolve o problema.

A janela mais próxima está aberta. E nesses momentos, ela parece ser a serventia da casa.



Ih, nada disso. É so enrolar os pés num lençol.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

RAPIDINHAS DE FIM DE ANO (atrasadas)

SHOPPING NO NATAL
Estão extremamente insuportáveis. A começar pela dificuldade de estacionar, de circular, de pagar o estacionamento e tudo o mais. O que mais irrita, porém, é o exército de vendedores nas lojas, que ficam na porta secando você para entrar, com uma simpatia tão excessiva que até os mais carentes desconfiam. Na Taco, por exemplo, desisti de entrar na loja com "medo" de ser atacado por um dos mil atendentes que se enfileiram como em linha de tiro na entrada da loja para atender o cliente. O pior é quando eu não estou procurando nada na loja e entrei só para ver o que tem de novo. É tão frustrante para o vendedor: ele, ali, esperando sua vez no rodízio de receber o cliente para ao fim receber talvez uma comissão e eu, também ali, praticando o famoso "só olhando". Melhor não passar da vitrine.

E QUEM NÃO PASSA O NATAL COM A FAMÍLIA?
Creio que deve ser das horas mais penosas para a vida de um trabalhador ter que estar em atividade na noite do dia 24 de dezembro. Tudo bem que pode haver uma compensação financeira que valha a pena o sacrifício, ou simplesmente é o plantão dele, mas... como fica? Os garçons, que têm que ficar servindo festas alheias, os porteiros, cuidando da portaria, os policiais, preparados para na noite natalina atirarem a qualquer hora, os médicos, lidando com a vida e com a morte na data de celebração máxima da primeira,... Fazer o quê?

E A CHATICE DOS RITUAIS...
Não me convencem mais os mil rituais e superstições de ano novo. Na verdade, nunca me convenceram direito, mas lá vai que alguma coisa eu fazia com medo dos sete anos de azar.  Pular ondinha, levar flores, entrar com o pé direito, comer uvas e por aí vai. Esse ano passei a virada normalmente: virou 2009 numa contagem regressiva vários uníssonos e eu gritei como se me aliviasse de ter acabado a tal contagem. Bastou-me, e foi bom estar sem nenhuma preocupação em pisar primeiro com um dos pés ou em entrar no mar assim ou assado. Tudo isso é muita perda de foco. Ah sim... e passei de verde, porque não tinha camisa laranja para vestir na virada. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

a moda engajada do próximo reveillon (2ª tiragem)


republicando,  no momento adequado (o texto é de 22 de fevereiro do ano que hoje termina)

lançarei moda:
ano que vem, passem o ano novo de laranja.
façam uma homenagem a quem desfaz o que fazem no ano novo.
façam uma homenagem a quem cata as garrafas caídas e as garrafas arremessadas.
façam uma homenagem a quem limpa os caroços das uvas e os bagaços de um ano velho.
façam uma homenagem a quem recolhe todos os cigarros e as cervejas da ebriedade alheia.
façam uma homenagem a quem não estoura o champanha, mas cata a rolha.

ano que vem, passem o ano novo de laranja.
pode não ser a cor da paz, mas é a cor da limpeza, mais do que o branco.
e sem superstições.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

eu, a chave, a velhinha, o medo e, quase, a generosidade.

Aconteceu há mais de seis meses, mas só hoje resolvi contar.

Estava caminhando na capital francesa como aqueles turistas que não querem nada. O dia estava um pouco nublado e eu já estava voltando para o hotel depois de bater pernas por muitas horas.

Entrei numa transversal de uma importante avenida e rumava em direção a uma das estações de metrô. Várias pessoas passeavam também, inclusive um casal de turistas brasileiros que não sei lá como me reconheceu enquanto conterrâneo e pediu em português para eu bater uma foto deles diante de uma casa que nada tinha de demais. Bati a foto e segui.

Dei alguns passos a frente e uma velhinha me abordou. Uma velhinha lá nos seus 70 anos, que falava um francês meio estranho, muito apressado, atropelando palavra. Parecia não ser francesa. Não estava muito bem vestida, tinha alguns dentes pretos, o nariz estranho, o cabelo mal-cuidado, algumas rugas e trajava um vestido preto nada elegante. Muitas rugas e a expressão desesperada. E por mais assustadora, até repugnante, que possa parecer essa velhinha, ainda era uma velhinha daquelas que inspira uma atenção especial. Não sei direito porque, mas tenho uma adoração especial por pessoas idosas, sendo os seres com os quais eu mais me sensibilizo.

Fato é que a velhinha estava com umas chaves na mão e em seu linguajar meio ininteligível, ou no mal-entendimento de meu parco francês, me disse que a chave ou a fechadura estava com problemas e me pediu ajuda para abrir a porta de onde morava. Não compreendi exatamente do que se tratava. Concordei com a cabeça e fui seguindo a mulher.

Entramos no quarteirão, pois seu prédio era daqueles cuja portaria não fica na rua, mas no interior do quarteirão, como alguns prédios do centro do Rio. O lugar estava vazio e não falamos nada até chegarmos ao portão principal. Já fui meio receoso sobre o que se seguiria, mas não quis pensar muito.

Chegando ao portão, pedi a chave para tentar abri-lo. Ela olhou educadamente e disse que a fechadura da portaria estava abrindo, mas que era para eu subir e tentar abrir a do apartamento dela. Pegou a chave e abriu o portão da portaria, dando um passo a frente e sinalizou para que eu também entrasse.

Não entrei. Travei no capacho e fiquei olhando para a cara dela, sem saber o que falar. Não iria subir aquele prédio vazio, num lugar em que eu não conhecia, com uma senhora que não havia me passado a melhor das impressões e estando eu sozinho na cidade . Fiquei com medo de que tudo aquilo fosse um golpe e ali minha viagem fosse para o beleléu. Imagina...

Falei a ela que não poderia subir, mas não quis explicar. Ela ficou desolada e perguntou o porquê de minha recusa, esboçando uma cara ainda mais desesperada. Comecei a suar frio tamanho era o conflito na minha cabeça: e se eu estivesse tratando como suspeita ou farsária uma velhinha necessitada e tão motivadora de compaixão? Ia deixá-la ali na rua implorando pela ajuda alheia para que ela conseguisse entrar em casa?

Ela me sensibilizou, mas meu lado racional e cunamãocional falaram mais alto. A história da chave não era lá muito plausível e o pedido de ajuda logo a mim, que não tenho cara nem know-how de chaveiro, não era muito razoável. E ainda lembrei de minha mãe, na minha distante infância, dizendo para eu não dar papo a estranhos. Por fim, preferi achar que era tudo um golpe e que o risco não compensaria a generosidade. 

Reiterei meu não e virei as costas dizendo a frase mais mãos-vazias da língua dos biquinhos e mil acentos: "desolé". Andei de volta para a rua. A velhinha ficou implorando para eu voltar, pedindo ajuda. Eu relutava em não olhar para trás, pois sabia que sua carinha enternecedora poderia me fazer voltar atrás na decisão de ignorar. Ela continuou a falar e eu seguia com o passo, embargado, tanto quanto sua voz, que ia sumindo como se ela tivesse resignado e fosse sentar e chorar.

Se sua voz sumiu em meus ouvidos, ainda continuou por um tempo a ecoar em minha cabeça. Até hoje, não sei direito se acertei ou errei em minha precaução ou em meu preconceito. Não quis pagar para ver, mas também esqueci que a dúvida impõe um preço um tanto salgado, parcelável em tantas vezes quanto for lembrada história. Compartilho a fatura.

Marcadores:

domingo, 21 de dezembro de 2008

VOLTEI.

Há quase dois meses não publico, à exceção de uma passagem justificando a ausência de um mês, que melhor e de forma mais bela se explica pela seguinte passagem, do texto que me consumiu as últimas duas semanas e que definitivamente não se encaixa no propósito desse blog (ou pelo menos se insere no que eu não quero para o blog) e portanto não será publicado:

"... tudo indicava o caminho de uma crescente entorpecedora, capaz de distrair, capaz de, por conta da dedicação exclusiva, fulminar o olhar atento de quem cria, como se a função poética tivesse sido emprestada a mais nobre serventia e em seu lugar entrasse, como mero tapa-buraco, a infrutífera e egoísta função metalinguística."

Entenda o tudo como o que hoje é nada.

Mas não importa: estou de volta.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

e então...

Não escrevo há quase um mês. Mesmo. Nem tentei escrever alguma coisa. Nada.

Blog e distração não combinam. Passo pela rua tão avoado que o metrô e as pessoas, o "onde" e o "o quê" das minhas inspirações, nada têm para mim de novo.

Tudo me é tão contingente, e eu, pudera, sou tão normal a mim mesmo que mal me percebo.

O blog tão vazio e eu tão carregado (ou tão leve). Carregado do indizível, ou talvez do impublicável. Longe do racionalizado. Cheio do intuível, do quase secreto e do preservado.

Distraído, quiçá blindado. E dentro de um cubo de espelhos, nada me resta no segundo. Então eu apelo à metalinguagem.

Logo voltarei.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O CÚMULO DA CARA DE PAU.

Já era tarde e eu estava no metrô voltando da faculdade para casa. O vagão estava um tanto cheio, mas havia ainda dois lugares disponíveis. Um deles era ao meu lado e o outro era à minha frente.

Entrou um cidadão no trem e se dirigiu ao lugar à minha frente. Acontece que esse lugar estava "ocupado" por um caderno do Iron Maiden de uma pessoa que ao lado ouvia música. Educadamente, o senhor que entrara apontou para o caderno, sinalizando que queria se sentar ali. O dono do caderno, meio contrariado, apontou para o outro lugar vago, sem tirar o fone de ouvido.

O cidadão que queria se sentar apontou mais uma vez sacudindo a mão, já um pouco impaciente. O dono do caderno resolveu falar, com cara de "deixa de ser chato" : - senta ali, cara.

O homem desejoso do assento, já estarrecido com a situação, aproximou sua cabeça à do dono do caderno e, em tom amaeaçador, falou algo como: - quero sentar aqui, meu camarada, entendeu?

Achei que os dois fossem acabar nas vias de fato, mas o rapaz do caderno ficou intimidado e, com cara de de "whatever... i'm a bitch", pôs o caderno no seu colo para dar o lugar. O cidadão que queria se sentar finalmente se sentou. Como ele era meio largo (e lá poderia eu falar de um "mundo e os gordinhos 2") e não cabia direito no banco, acabou ficando encostadinho ao ser cínico a que há pouco se opusera. O clima ficou tenso.

Na estação seguinte, desceram várias pessoas e o moço que antes queria se sentar acabou indo para outro lugar no vagão. Imediatamente, o caderno voltou ao seu lugar especial, como se ali fosse um trono, um camarote especial, uma área VIP ou coisa que o valha para aquele amontado de papel com o quase-amedrontador Eddie na capa.

Logo em seguida, entraram mais pessoas no vagão. Duas senhoras resolveram se sentar e, para uma delas, só sobrou o lugar que então acomodava novamente o caderno. Pensei que a via crucis mais ridícula de minha vida "disputar um lugar com um caderno" fosse ali recomeçar. A senhora com várias sacolas olhou para o homem e apontou para o caderno. O dono do caderno dessa vez olhou para ela, resmungou qualquer coisa e pôs o caderno de volta no colo. Estava com cara de decepcionado, desolado e decepcionado.

Que preguiça tola, porca e nojenta é essa de não querer ficar com o caderno no colo, na mochila, na cabeça ou no... ah, deixa pra lá.

Marcadores:

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A ÚLTIMA SEGUNDA DA QUINTA.

Na segunda, ela foi a quinta no ano.
Não era um pássaro, não era na construção.
Nem na Construção de Chico.
Não era de mentira, nem era abstração.

Na segunda, ela subiu do térreo. Até o quinto?
Desceu. Mas não foi até o quinto dos infernos.
Que a Quinta lá fosse próxima...
Mas ela pousou sobre um jardim qualquer.

Na segunda, em um segundo, a notícia se espalhou.
E logo os terceiros vieram ver o que acontera.
E assim ela foi a primeira às atenções,
o que nem pôde perceber, pois já passara das últimas.

Na segunda, todos foram às rampas e passarelas.
Viram o manto branco que sobre ela se fez sudário.
Viveram o baixo astral que sepultou o frenesi universitário.
Ouviram mil coisas a respeito, supuseram outras mil tão sem respeito.

Naquela segunda, os sinos não badalaram.
Mais alto gritaram as sirenes.
E mais forte giraram suas luzes,
em vermelho hemorrágico e aterrorizante.

Na segunda, uma cama dormiu vazia,
pois alguém escolheu dormir para sempre,
e escorregou, escorregou?, para a vida eterna.
Deslizando suave para não se sabe lá onde.

Foi sua última segunda.
Venceu a barreira que separa o aqui do acolá,
mas isolou-se pelo cordão de isolamento amarelo e preto,
que só os olhos ousaram atravessar.

Ninguém queria acreditar que, quando a tarde estava para cair, alguém preferiu se jogar.

Ninguém queria acreditar.

Marcadores: ,

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

fossa dominical

domingo é um dia perigoso.
não é à toa que no calendário ele vem marcado em vermelho.
é quase como se a folhinha dissesse: perigo!

domingo é aquele dia que você acorda tarde e cansado.
é o dia para pagar a conta do sábado.

no domingo, você já acorda para o almoço.
se fizer sol, pode até rolar uma praia.
mas se fizer chuva... é aquela preguiça.

ficar em casa no domingo é realmente complicado.
talvez seja gostoso pegar um livro e observar a chuva caindo em preto-e-branco.

computador e domingo são mistura letal: não só o domingo é perigoso.
MSN, orkut, joguinhos quaisquer... ultra-tedioso.

televisão e domingo parecem tanto combinar...
faustão, gugu, sílvio santos, fantástico....
e agora nem tem mais o topa tudo por dinheiro.

domingo para muitos é o dia do futebol.
de se preparar para zoar ou ser zoado pela semana em razão do seu time.

domingo é o dia daquela fina melancolia que pode se avolumar em depressão.
e domingo é a véspera da segunda, que já fica decretada desde a hora em que termina o fantástico.

domingo é o dia do descanso. domingo dormindo.
mas domingo também é o dia certo da insônia.

domingo é o dia de ir a missa.
a quem se importar.

domingo é o dia que começa tarde e acaba cedo.
é de forma alguma dia útil.

domingo é a fossa. quase séptica.
você fica pra baixo e se encontra na merda.

os domingos deveriam estar mais bem sinalizados.
estar em vermelho não basta. precisam estar em baixo-relevo.
e quase furando o papel.

sábado, 11 de outubro de 2008

maindaguép

O metrô perdeu muito de sua graça desde que eu comecei a usá-lo todo dia para voltar para casa da faculdade. O que antes para mim era um lugar para os achados caricatos e quase-literários que muitas vezes já trouxe aqui, atualmente são os quarenta ou mais minutos de suplício diário.

Se antes eu era capaz de me negar a pegar um livro, o MP3 ou o celular para jogar o tétrico Tetris, apenas para ficar observando as coisas que aconteciam no metrô, hoje não tem mais como. Entro no vagão e já penso no que eu usarei para me distrair. Se consigo sentar, leio alguma coisa. Se tenho o MP3, vou ouvir música. Mas se nada me restou além do celular, eu vou direto para o Tetris. Tenho quebrado o meu recorde a cada dia. Tetris vicia e dá insônia: na hora de dormir, até imagino os bloquinhos encaixando. É enlouquecedor.

Mas voltando ao metrô, essa semana ele me surpreendeu. Já estava eu absorto em meus tediosos pensamentos e passa-tempos, quando a tão fastidiosa gravação "Próxima estação: Estácio, Next Stop: Estácio Station" foi seguida por um MIND THE GAP, cuja mensagem corresponde ao tradicional "observe atentamente o espaço entre o trem e a plataforma".

Minha cabeça deu uma volta ao mundo. Consegui ser transportado ao tube londrino, com seus vagões apertadinhos, seu cheiro não muito agradável e o sotaque irritante do "PLEASE MIND THE GAP BETWEEN THE TRAIN AND THE STATION." E para falar dos souvenires mil que se vendem pela cidade com o tão falado MIND THE GAP? Tinha até uns trazendo piadinha sexual com esses dizeres.

O MIND THE GAP em sotaque tupiniquim é no mínimo estranho. É falado super rápido e quem não entende inglês vai achar que é um erro de gravação, um barulho do metrô, ou qualquer coisa que o valha. Quem entende inglês e sabe do que se trata, vai viajar internacionalmente na maionese. Em pleno Metrô do Rio, que não mais atende confortavelmente a sua demanda, que cresce a passos de tartaruga numa cidade hipertrofiada, que em certas horas vira a mais nojenta e popularmente agressiva lata de sardinha, o cidadão será remetido ao bom transporte público das metrópoles desenvolvidas.

Mas tudo bem, vou poupar minha acidez.... não é só no metrô londrino que há vãos entre os trens e a plataforma. E tombo é tombo, em qualquer lugar do mundo.

Marcadores:

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

o antes.

ele estava decidido que ia pegar o telefone e ligar.
já conseguira o número com uma amiga.
já conseguira coragem com um amigo.
e já conseguira conseguir consigo mesmo.

tanto lera o número no papel
que já o sabia de cabeça.
e já quase estava com dor de cabeça.

ia ligar, mas não sabia o que falar.
convidá-la para ir ao cinema...
ver o último filme do woody allen?
quem sabe o teatro?
até estava com a filipeta de desconto!

podia chamá-la para ir a praia...
mas e se ela estivesse numa "má fase"?
então pensou num flash...
e se ela estiver de TPM?
receberá um fora de uma fera?

domado pela própria dúvida,
resolveu apostar na própria intuição.
as palavras na hora viriam
e tudo seria lindo, como acontecem nos filmes.

ele estava mesmo decidido que ia pegar o telefone e ligar.
e se o telefone dela estivesse desligado?
e se o número fosse errado e desse engano?
toda aquela angústia para nada...

pensou e pensou.
ligou a TV para dar uma relaxada, mas a coisa estava difícil.
foi à geladeira beliscar qualquer coisa.
brincou com a cachorrinha que queria qualquer atenção...
ela tão esperta que já até sentia uma pontinha de ciúmes.

enfim, pegou o telefone na mão.
discou o número, algarismo por algarismo.
dois. cinco. três. quatro. quatro. três. três....
ai caramba, o último número era um quatro ou um nove?

fez unidunitê... deu nove.
apertou o botão que faltava...







e ligou.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

"brincadeira de criança... como é bom..."

PASSA SE NÃO FEDE, SE PASSAR FEDEU.
Estava esses dias visitando o colégio por onde passei onze felizes anos de minha vida e de onde tenho muitas das minhas melhores recordações. Passando pela escada, me lembrei de uma brincadeira das várias que aconteciam quando eu era criança.

Sempre que subíamos a escada lá pela segunda série primária, algum engraçadinho dava um tapinha no outro e falava "Passa se não fede, se passar fedeu". Era uma vergonha imensa você ser pego por essa brincadeira, porque ficavam contando regressivamente para você passar a tal "coisa" para alguém, ou federia. Que "coisa" era essa que se passava eu até hoje não sei, mas a brincadeira se alastrava como um vírus da gripe aspergido num elevador lotado.
Desenvolviam-se formas de não poder receber, uma delas era o cadeado. Você fechava os polegares com indicadores e ficava assim como se dissesse: "ha, não serei eu!" Mas tinha que ficar sinalizando o tempo todo, e era um saco ficar com a mão em posição de cadeado, então alguns engraçadinhos inventaram a idéia de engolir o "cadeado". A questão é que a pessoa engolia o cadeado e isso não ficava visível, logo todos fingiam que tinham engolido o cadeado quando alguém tentava "passar". Outra coisa que usavam era o "espelhinho", isto é, a mão virada em sinal para parar, como forma de devolver o que era passado.
A escada inteira ficava atenta para a brincadeira, pois ninguém queria "feder". Epidêmico.

PIQUE-QUALQUER COISA
Haja pique para tanta brincadeira. Lembro que era de lei sair da aula da tarde e ir para o pátio brincar de pique esconde ou polícia-e-ladrão. Tenho excelentes recordações desse tempo, exceto pela minha baixa habilidade em correr. Nunca foi meu forte, mesmo. Mas sempre fui bom estrategista, por isso odiava pique-pega. Não havia brincadeira mais idiota do que pique-pega, afinal, em que momento eu pensava ali?
Veio-me à cabeça agora o momento de tirar os times ou dividir as equipes. Havia vários métodos. Um deles era o par ou ímpar para saber quem seriam os cabeças, e dali escolhiam-se os participantes. Outro método era fazer uma fila em que se escolhiam as pessoas, não sei direto como era, mas todo mundo tentava burlar essa fila dizendo que era "ZERINHO", "FOLHINHA DE ABACATE, NINGUÉM ME RECOMBATE" (temo que minha memória esteja falha) ou "FILHINHO DE DEUS". Nossa mãe, ultra-apelativos esses bordões.

DESPOTISMO NO FUTEBOL
Minhas recordações do futebol infantil me remetem à porradaria, mandos e desmandos. Acho que o fato mais emblemático era o de um colega que simplesmente era o "dono da bola" no jardim de infância. Aliás, sem forçação de barra, acho que pensar, pensericar, sobre isso naquela época foi o primeiro e mais ultra-incipiente estalo na minha vida para o interesse pela política, pela diplomacia interna, pela organização da força, pela tal da natureza humana, se é que existe, pela formação do Estado e pela necessidade do Direito.
O futebol dependia dele, por mais que a bola e o campinho não lhe pertencessem. Ele era simultaneamente jogador e árbitro da partida. Ele mudava de time à hora que quisesse e ainda levava os gols que marcara ao longo de toda a partida para o time em que viesse a entrar. Isso queria dizer que, ao seu belprazer, havia vitória de um ou de outro lado. Ninguém nunca se rebelou contra a situação e todos se curvavam àquela estrutura tirânica e viciada. Arrisco-me a dizer que fariam o mesmo se tivessem a chance de estar na posição de dono da bola.
Daria uma tese de doutorado a análise daquela situação, e não raramente ela me vem à cabeça como um nanocosmo de sociedade, poder e Estado que, por ter vivido e sentido, pode me servir bem e à escala cabível como metáfora para algumas coisas que me cercam hoje.


CHARADINHAS INGRATAS.
Tem sempre alguém que ouve de irmão ou primo mais velho que o galo cantou para a galinha em Porciúncula e resolve trazer a novidade para a pirralhada.
Por volta da terceira série, lembro que um colega chegou para mim e perguntou se eu preferia dar ou receber. Acho que nem eu nem ele entendíamos bem do que se tratava a brincadeira, mas havia um temor absurdo em falar algo e ser muito zoado. Não me lembro do que respondi.
Em outra ocasião, a piadinha era a da galinha que botou na cueca três ovos e chocou um, do qual nasceu um pinto.
Entretanto, a melhor das charadinhas infantis aconteceu no terceiro ano do ensino médio. Isso mesmo, no ano passado. Não siga adiante, caso você não goste de piadinhas baixas. Ela consiste em perguntar para o próximo: "O que toma de café-da-manhã um indivíduo com um pênis grande? Você sabe?" Muitos ingenuamente respondem: "Não sei, o quê?"
E aí vem a resposta fatídica: "É foda ter pau pequeno, né..."

Marcadores: ,

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O TAXISTA QUE NÃO DEU PAPO

Li certa vez, se não me engano foi no blog do Bruno Medina, tecladista do Los Hermanos, que papo de taxista é o último aliado daquele que escreve crônicas. Tudo bem que os tímidos ou reservados dificilmente terão a chance de perceber que uma corrida no táxi significa muito mais do que se deslocar com grande custo de um lugar para outro, mas aqueles que gostam de puxar um papo certamente sabem o quanto os taxistas tem muito a acrescentar. (Vale dizer, tem até o blog de um taxista gaúcho , o Taxitramas. Leitura extremamente recomendada!)

Especialmente no Rio de Janeiro, onde a simpatia, a cordialidade e a "intimidade com estranhos" (aliás, título bem interessante do novo álbum do Frejat) são valores sempre em voga, é quase certo que alguma inserção pequena de assunto descortinará uma longa conversa. E os taxistas, como trabalhadores que passam grande parte do dia num carro celebrando a aleatoriedade da companhia, com várias pessoas "nunca antes vistas" (pareceu discurso do Lula) entrando e saindo de seus carros, sempre acabam tendo algo interessante para repassar do que ouvem ou do que vêem.

Assim que entro num táxi, trato de puxar assunto, principalmente quando estou sozinho. Não entra na minha cabeça a possibilidade de ficar vinte minutos dentro do carro com alguém sem trocar uma palavra que não a informação da rua para onde estou indo. Já chego perguntando há quanto tempo a pessoa trabalha em táxi, se gosta, o que fazia antes, se já foi assaltado, que coisas engraçadas já aconteceram e etc. O taxista geralmente se sente super prestigiado, afinal, tem alguém interessado em saber o que ele tem a dizer, e talvez seja naquela hora que ele entenda porque não preferiu ser maquinista de trem ou motorista de ônibus. No táxi, não tem o aviso ingrato de "SÓ FALE AO MOTORISTA O INDISPENSÁVEL".

Já ouvi muita história interessante de taxista. Teve um que teve o carro roubado três vezes no mesmo ano, teve outro que disse que não fica com mulher com "kit" (depois ele foi explicar que "kit" é filho de outro casamento). Até história dramática já ouvi: separação com traição, demissão do emprego de anos, ...

Mas nada em momento algum me chocou mais do que a história de um taxista que também era policial e contou a seguinte saga: trabalhando no táxi, foi assaltado certa vez, no que o levaram por algumas horas para um cativeiro e lhe fizeram várias ameaças , o que ele chamou de "tremendo esculacho". Obcecado pelo que lhe aconteceu, o taxista policial ficou por cerca de três meses passando diariamente no horário e no local onde tinha sido abordado, procurando pelos criminosos, até que um dia encontrou seus malfeitores. Contou o taxista: "Aí eu peguei eles e resolvi ajudar a família deles". Até eu entender o que aconteceu, minha ingenuidade já havia me custado meia hora.

E todo esse bla-bla-bla foi, na verdade, para contar a história que não houve. Numa das maiores corridas que eu já fiz, aquela que tinha em potencial um loooongo causo a ser desenvolvido, o taxista simplesmente não deu papo. Perguntou para onde eu ia com voz seca e cansada. Respondeu monossilabicamente à primeira pergunta, com uma voz de enfastiado que inibiu qualquer diálogo. Falei do tempo, e ele limitou-se a fazer uhum. Falei do Botafogo, e ele disse que não gostava de futebol. Botava um ponto final em todas as frases... é, mas diálogo se faz de reticências. Nada mais falei. Vim da Barra até a Zona Sul olhando desolado para a janela. Paguei a corrida e dei um boa noite, no que mal fui respondido.

Mas é o que eu falei no início... taxista e crônica combinam enfaticamente. Veja você... até taxista que não dá papo enseja uma crônica!

Marcadores: ,

domingo, 17 de agosto de 2008

O LIVRO EM CIMA DA ESTANTE

Coitado do livro em cima da estante.
É projeto frustrado em lembrança lancinante.
Sonho levado que se deixou adiar,
quando o sonhador permitiu-se vadiar.

Foi-se o tempo livre que seria tempo livro,
pois incapaz foi o papel na arte da sedução.
Trocado sem dó por filme, sono ou canção,
pereceu na vitrine de inquebrável vidro.

Vidro figurado, mas fronteira intransponível,
entre livro aproveitado e livro figurante.
A missão sempre e sempre preterível,
para a qual por fim me mostro hesitante.

Marcadores:

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

desperta-a-dor.

Ah, desliga meu despertador,
que hoje meu sono vai até mais tarde.
Desliga meu despertador, segura essa palavra,
palavra não-verbal, ferina, audaz e truculenta,
não digas mais esse acorda com tanto alarde,
não mais, nunca mais.

Desliga meu despertador e acerta meu relógio,
deixa que as horas passem e eu continue a sonhar.
O sonho é tão lindo, maravilhoso e perfeito,
é a ilusão tão doce de que não quero me privar.

Despertador, tenho um aviso a te dar
Vai-te embora, meu corta-barato,
demora-te longe, pedra no sapato.
Não dês em minha quimera seu nocaute sonoro,
não faças com que toda a água me saia de cada poro.

Despertador, teu nome é maldito.
Despertas a dor.... mas que faniquito!
Não te quero mais, deixa-me em paz.
Inimigo, salafrário e algoz, vai!
E sem demora, cala logo essa tua voz! Ai.

Marcadores:

GENTILEZA GERA... DINHEIRO

Fique tranquilo(a). Não irei falar de altruísmo lucrativo, caridade com retorno ou p(h)ilantropia.

Lembro uma vez lá com meus doze anos em que via TV e apareceu a tal história de um morador de rua que escrevia em vários viadutos da cidade de forma bastante peculiar vários dizeres filosóficos sobre o mundo, dos quais o mais emblemático era GENTILEZA GERA GENTILEZA. Foi assim apelidado de Profeta Gentileza. Achei a história dele muito interessante e curiosa (a quem interessar, procure no Wikipédia).

Passados mais de cinco anos, Gentileza se popularizou. Não que o Rio ou o mundo tenham se tornado mais gentis, ou que os cariocas tenham enfim se tocado e posto em prática a máxima que ilustra muitas das pilastras do Viaduto do Caju. Fato é que os dizeres GENTILEZA GERA GENTILEZA se tornaram aforismo profundo, atual e difundido, na paradoxal forma que é o cult de massas.

Muito, muito mais do que isso, GENTILEZA GERA GENTILEZA hoje estampa todo e qualquer produto. Já vi camiseta, chaveiro, boné, adesivos,... Esses dias comi em um restaurante em cujo jogo americano lá se vislumbravam as tais três palavras. Os garçons usavam uma munhequeira (!) com os mesmos dizeres. Como se não bastasse, há até até um outdoor imenso com a frase mágica na fachada de um dos mais vistosos hotéis da cidade.

Não dá pra entender, definitivamente, porque é que pegaram uma frase tão legal, verdadeira, capaz de esbanjar uma sabedoria magnífica, expressa em tamanha simplicidade, e tranformá-la em estampa para toda e qualquer pessoa sair por aí pagando de gentil e de atinado para o bla bla bla das virtudes do ser humano que tanto se perdem nesse tão cansativo e batido tal mundo pós-moderno.

É uma tentativa de empreender subliminarmente o espírito da gentileza nas pessoas através da divulgação massiva de palavrinhas mágicas? Algo como um "beba coca-cola" espalhado por todo e qualquer canto? É uma tentativa de relembrar a cada momento a tão sábia lição que o Profeta Gentileza nos trouxe?

Perdoe-me discordar, mas a popularizão da coisa a esse nível tão desconexo e extrínseco tira dela por completo seu enlevo. Vê-la a cada esquina, como mais um elemento de uma paisagem tão contrastante é simplesmente incluí-la nessa paisagem e fazê-la definhar, perdendo seu potencial de causar choque e reflexão. É como aconteca a cada vez que leio na traseira de um carro "Jesus Te Ama". Fico longe de pensar nesse tal amor de que se fala, mas imagino o quão chatalhão religioso deve ser o motorista.

Colocar GENTILEZA GERA GENTILEZA no mais diversificado tipo de produto causa exatamente isso. Gentileza não vai gerar mais porra nenhuma, além de dinheiro. Vai ser, se já não o é, uma frase qualquer, tipo aqueles dizeres com números e palavras em língua estrangeira que constam em camisas de grandes magazines, tipo aquelas que têm todos os estilos, inclusive o seu. Imagine você se daqui a pouco inventam uma camisinha verde e amarela com o GGG escrito. Até imagino o slogan: "para fazer com delicadeza e reciprocidade".

Diriam os indies que esse tal papo de Gentileza está virando muito mainstream. Prefiro a idéia de que a frase tão emblemática perdeu-se no oba-oba do fenômeno pop e na promiscuidade cultural que o mercado de aparências tanto demanda. E assim a coisa vai tendo sua essência transformada. Não que isso seja ruim, afinal, mutações culturais inserem-se num movimento implacável e irrefreável, necessário à própria evolução.

Mas tenham dó. GENTILEZA GERA GENTILEZA é lição tão preciosa no mundo que simplesmente não pode perder sua essência.

TOMBAMENTO JÁ!

Marcadores:

quarta-feira, 30 de julho de 2008

PARÊNTESES, a quem interessar

SE MUSE VIER AO BRASIL...
foram muitas as promessas que os milhares de fãs brasileiros fizeram para que o MUSE viesse ao Brasil. Eu particularmente prometi fazer um milheiro de Santo Expedito. Não acho que vá cumprir e talvez tenha que carregar essa dívida eternamente, se a fúria do santo não antes me fizer infortunado.

Teve gente muito desacreditada, pessimista, que disse que iria chover se o MUSE viesse. Eu entendo tamanho pessimismo, afinal, sempre aparecia um ou outro boato de que a banda viria e nada nunca se confirmou. Para terminar, a última turnê já tinha terminado e a banda só fazia uns showzinhos por aí ultra especiais, tipo Rock In Rio Lisboa, para o qual eu cheguei a comprar ingresso mas fui vetado pelos superiores hierárquicos ... mas por que nesse tempo tão morno ela viria pra América Latina, área de público e certezas financeiras duvidosas?

Mas continuando... teve gente que disse que ia chover se o MUSE viesse. Não que no Rio seja incomum chover, mas hoje o dia está muito lindo. Pouquíssimas nuvens, um azul maravilhoso, uma cara de verão. A praia está maravilhosa, a água está deliciosa, ... Tudo está belo. Não creio que vá chover.

Muse tocará em Brasília no sábado, a cidade em que quase não chove (haja secura na nossa capital!). Mesmo os brasilienses que apostaram que choverria se o Muse viesse, tomaram/tomarão na cara.

No mais, o show é daqui a pouco. E a ficha só tá começando a cair agora. Acordei hoje e não tinha me dado conta direito, estava com aquela coisa de que a noite de hoje seria algo comum, tipo ir no bar ou na Matriz. Mas as 10 da noite vão se aproximando, e começo a me tocar do que está por vir. Estou há dois meses evitando ouvir MUSE para ter na hora a sensação de ineditismo. Não quero saber do setlist de outros países. Não quero saber de nada.

Venha o show. Por muito o esperei.

30 de julho.

FECHO PARÊNTESES.

domingo, 20 de julho de 2008

O que fazemos quando não somos observados?

(esse texto estava pronto e esquecido desde abril de 2007 entre os rascunhos do SWB, então vai para vocês)

Pode ser no elevador, no computador, no banheiro, no último banco do ônibus e também no meio de multidões, onde você é apenas mais um. Sozinhos ou não, quando não estamos sendo observados, permitimo-nos ter certos comportamentos no mínimo peculiares.

Primeiramente, vêm as necessidades biológicas, que, como manda o figurino, devem ser feitas em particular. Sim, todas aquelas que envolvem o sistema excretor, o digestório, o respiratório (limpar o salão) e o que mais você quiser. Mas isso, todo mundo faz, até mesmo a Gisele Bundchen, e todo mundo sabe que todo mundo faz. Qual a graça?

Realmente nenhuma. Falo, na verdade, daquelas coisas que normalmente ninguém espera que você faça. Serve discurso na frente do espelho para aumentar o carisma (The Sims?), falar sozinho em outras línguas, e dançar alopradamente no meio da sala, ouvindo som em alto volume e fazendo air-guitar, air-drums, air-microphone ou air-coisa-que-o-valha,...

Vale gritar coisas indecifráveis, fazer aeiou para esticar as cordas vocais e esboçar caretas aleatórias, rindo de si próprio. Há quem lembre de fatos passados e ria sozinho. Há quem chore copiosamente. Alguns fingem atuar, inventam papéis e diálogos e põem-se à dramatização. Sem platéia, é claro.

Tem também aqueles hábitos feios, como jogar lixo no chão ou cuspir o chiclete na rua. Serve deixar o cachorro fazer cocô na rua e não limpar, afinal, ninguém vai saber quem foi. Outra coisa não muito legal é fazer gestos obscenos para alguém quando essa pessoa está de costas. Só tome cuidado para não haver um espelho por perto.

Mas o campeão dos campeões é a cantoria de chuveiro, afinal, ninguém está vendo e ignora-se solenemente o fato de que alguém pode estar ouvindo aquilo tudo, e, pior, achando um saco. Particularmente, eu tenho feito no banho um exercício quase que diário de meta-linguagem: canto Desafinado, do Tom Jobim.

Marcadores:

terça-feira, 15 de julho de 2008

19 anos

Estou prestes a completar 19 anos. É daqui a pouquinho. Dessa vez, nada mudará.

Meus primeiros anos de vida tinham o empenho de ir aumentando o número de dedos na mão que eu levantava quando alguém me fazia a pergunta da idade. Fiz uma mão aos 5, fiz as duas aos 10. Para informar a idade, depois das mãos completas, passei a apenas falar: era ridículo ficar mostrando as mãozinhas.

Depois das mãos completas, vieram as aspirações progressivas de adolescente. A primeira delas é a de chegar aos 12 anos. Idade de virar adolescente e de já poder entrar nos filmes com essa censuras.

Os pulos de aspirações daí em diante passariam a vir de dois em dois. Aos catorze, pude ir desacompanhado a grande parte dos shows e, claro, ver os filmes dessa censura.

Os dezesseis mais marcaram uma contagem regressiva para os dezoito do que outra coisa. Ah, claro, como esquecer? Ganhei o tão esperado direito de votar. Lembro do dia em que tirei o título. Devo ter sido dos poucos de minha geração a me sentir um pouquinho mais importante por poder, em proporção gota/oceano, influir nos destinos políticos do meu país.

Os dezoito anos, caraca, os dezoito anos! Merece um tratado à parte. Boate, carro, abrir conta, assinar os próprios documentos, viajar para o exterior sozinho sem autorização do Juizado, identidade verdadeira para tudo, enfim, é o mundo que abre as portas. Um début total, também cercado de responsabilidades, tradução do juridiquês "fim da inimputabilidade".

E agora, os dezenove. Os dezenove não são os dezenove anos. Os dezenove são os dezoito mais um. Nada muda. Só vou ficar mais velho e nada receberei em compensação. Qual a graça?

Todas as conquistas posteriores aos dezoito, não mais são/serão conquistas por mera mudança da idade. Serão minhas próprias conquistas, advindas unicamente do meu mérito, do meu esforço e dos meus destinos. É também a sensação de que ao mesmo posso tudo e ao mesmo tempo nada posso. Sobra a possibilidade, mas me falta a viabilidade. Faltam-me experiência, dinheiro, até audácia... Procuro-os.

Vêm os dezenove, que venham os vinte, que venham os trinta, que venham os quarenta, que venham os mil... os mil desejos traduzidos em um, que farei na hora de apagar a velinha. Que venham os sonhos, que venham em sonhos, que venham de sonhos e que venha o sono quando eu dele precisar.
Que venham as vontades, que venham de trator, que me derrubem em momento oportuno, mas que me façam crescer.
Que venham os ventos e em todas as direções, o que eu quero é me mexer.

A todas as coisas: que venham vindo, que venham quicando, que venham implacáveis, que venham como quiser.
Da vida eu não quero fugir, mas um dia dela me farão escapar. Que venha tudo, que venham todas e que tudo isso e tudo aquilo me façam viver em curtição infinita cada infinitésimo de segundo.

Marcadores:

a saga de um trident

O chicletinho estava se sentindo traído. Depois de estar na boca por algum tempo, fora jogado para ser trocado por coisa melhor. Ficara de lado, esquecido em lugar não muito oportuno, em lugar traiçoeiro. Não fora para o lixo por preguiça. Não fora de volta para o papelzinho, porque o papelzinho não mais era àquela altura. Ficara à espreita, tramando vingança.

Seu orgulho estava ferido. Depois de ter sido descartado, nem ao menos um lugar feliz o destino lhe reservou. Dali, assistia a tudo. Assistia ao deleite de que não podia participar, ao jogo das bocas que não mais lhe pertenciam. Ao jogo da oralidade verbal, da oralidade não-verbal. Ao jogo da oralidade que é de fato oralidade e dispensa formalidade.

Decidiu o chicletinho que por fim poria fim àquela brincadeira toda e, sabe-se lá como, jogou-se no meio de campo. Quase um mosh numa platéia de dois.

Suicídio. O chiclete partiu-se em vários. Grudou em tudo. Pegajoso, chicletoso e horroroso. Demorou um pouco a ser percebido e por pouco não foi confundido. Surpreendeu como se fosse uma punhalada nas costas e, como um balde de água fria, fez a alma despertar de uma ebriedade não-alcóolica.

O chiclete, no seu zero a zero que só marca um ponto na tabela, sacrificara seu corpo para lavar sua alma e restaurar seu orgulho. Ascetismo, sacrifícios, loucura,... Mas ele é que foi lavado, em derradeira instância, com água quente e gelo. Fani puro.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A tal maquininha da verdade

Acho insuportáveis essas maquininhas da verdade que alguns programas de TV tem usado para colocar entrevistas no ar e avaliar se as pessoas falam a verdade ou mentem.

Questionado sobre os métodos e resultados, o tal do perito que comanda a máquina chegou a afirmar que quando ela indica "verdade", a chance de acerto é de 95%, enquanto que, quando ela indica mentira, a certeza é de 99%.

Colocaram o Ronaldo, colocaram o casal Nardoni, colocaram inúmeras entrevistas recentes da TV brasileira e ali apuraram, com a majestade da pouca dúvida, o mais pretensioso veredito: o veredito sobre a verdade.

A máquina é bem simples. A entrevista vai passando e um visor na máquina vai indicando desde "verdade" até "mentira", passando por "altamente estressado","imprecisão", "dúvida" e etc.

O tal do perito vai analisando palavra por palavra e chega a dizer que trecho da frase está errado, até mesmo aventando hipóteses sobre porque a pessoa estaria mentindo. Ele é, de fato, um doutor da verdade.

E aí eu me pergunto: o que eu estava fazendo na frente da TV?

sexta-feira, 20 de junho de 2008

CEDENDO LUGAR A UMA GRÁVIDA.

É... o assunto de ceder o lugar permanece rondando minha cabeça. Não levem a mal a ruminância.

Não é novidade dizer que no metrô, no ônibus, no trem e em muitos outros lugares da coletividade urbana há assentos especiais preferenciais para idosos, deficientes físicos, pessoas com crianças de colo e, é claro, para as gestantes.

Não é difícil identificar um idoso: cabelos brancos, rugas, dificuldade pra andar,... são muitos os índices, por mais que seja extremamente difícil precisar se alguns tem mais ou menos que 65 anos. Mas isso é irrelevante, afinal, se a pessoa está com certa dificuldade na locomoção, ninguém vai pedir o documento para comprovar a condição de idoso e assim ceder o lugar.

As pessoas com crianças de colo são o que? Pessoas com crianças de colo. Simples e objetivo.

Os deficientes físicos também se fazem visíveis, seja pelo visível ou pelo invisível: muletas ou membros amputados. Não vale falar cadeira de rodas, pois se o cara preferir sair da cadeira para ir para o assento, já começam a desconfiar, não é?

E uma gestante? Tudo bem... uma gestante com 8 meses fica bem fácil de identificar. Mas e uma gestante com seus 2,3 meses? Com 5,6 meses? Sempre que vejo alguém que tem pinta de gestante, fico muito receoso de levantar e ceder o lugar. Vai que ela é toda encucada com aquela coisa de que "gravidez não é doença"? Vai que ela vai descer na próxima estação e nega a gentileza, me fazendo ficar em pé que nem um idiota?

Mas não é esse meu medo. Eu realmente temo estar diante de alguém que nada está esperando, além do ponto ou da estação em que vai descer. Vai que a suposta grávida nada mais é do que uma gordinha? Não aquelas gordonas, mas uma gordinha, com aquela gordurinha localizada em formato próprio. Como é que eu vou saber? Vou olhar para os seios da mulher, para ver se eles estão inchados? Ai meu Deus, vão achar que eu sou tarado. Vou perguntar se ela é grávida? E se ela encarar isso como uma provação, uma ironia constrangedora?

Levanto ou não me levanto? Pergunto ou não pergunto? Na dúvida... Na dúvida, permaneço na dúvida. Fico a viagem inteira olhando para saber. Se é mesmo uma grávida, estou sendo um babaca. Ela ali precisando sentar, e eu em um conforto do qual sou menos merecedor. Se é só uma gordinha,... como saber?

Avalio mais a tal barriguinha. Não sou conhecedor nem médico, ora bolas. Fico torcendo para ela vomitar, para ela fazer um desejo ultra-especial para a pessoa ao lado, para ela acariciar a barriga com olhar sonhador, para ela atender o telefone e dizer que os dois estão bem, para alguma outra pessoa cumprimentá-la pelo ser vindouro, ... Fico torcendo para ela vir até mim em tom mal-educado - e que seja assim, então! - e falar: sou grávida, pode ceder o lugar para mim?

Nunca teria tanto alívio em ser mal-tratado. E ainda lhe daria os parabéns, do fundo do coração.


"CAUSO" DO AUTOR
No auge de seus 14 anos, Felipe Drummond perguntou à moça da ótica de quantos meses era o filho que ela esperava. Ele jurava que ela estava grávida, mas tinha tanta, tanta certeza, que nem cogitou a hipótese de ela não estar grávida. A resposta foi o "hein?" mais sem jeito e revoltado do mundo. Trauma contado. Próximo!

Marcadores: , ,

terça-feira, 17 de junho de 2008

O melhor Sonho-de-valsa da minha vida

Para fugir do tédio das terças-feiras, me mandei para o centro da cidade, onde sempre me aparece algo interessante. Peguei o metrô, onde tive a alegria de encontrar um amigo em plena estação e fomos juntos conversando, sentados. Papo vai, papo vem, e entra uma velhinha no vagão, que, nessa altura, já se encontrava cheio. Logo me prontifiquei a ceder o lugar, que nem reservado era. A senhora agradece gentilmente e ali senta. Fico em pé do lado do banco continuando a conversa, até que sou surpreendido por um sorriso muito gentil e por uma voz doce, de vovó, que se dirige até mim dizendo: "Aceite esse bombom em retribuição à sua boa-educação e à sua gentileza". Seus olhinhos brilharam e os meus também. Agradeci e falei que não fizera nada demais. E não era mesmo. Mas ela acabara de me dar um Sonho de Valsa que teve gosto de Lindt. E nem sei porque joguei o papelzinho fora: não foi um bombom qualquer.

Marcadores:

1+1

Estou há um mês sem postar e dessa vez é fácil explicar: estive viajando.
Gostaria de agradecer a todos que não deixaram de visitar o SWB e que não se esqueceram que ele existe. Espero também que tenham gostado dessa repaginada no layout.

Passei três semanas fora do Brasil e pude fazer muitas observações que, à hora certa, depois da reflexão conveniente, serão trazidas a esse espaço.

Aconteceu uma coisa curiosa para mim enquanto pessoa que escreve (escritor fica muito pomposo), que foi a inclusão de um texto de minha autoria (em co-autoria com vários quaisquer do Orkut), o "JÁ ROUBEI NAS LOJAS AMERICANAS" numa prova de Língua Portuguesa da nona série do colégio do qual sou egresso. Foi uma grande honra ser lido por vários estudantes e receber os comentários e o carinho de muitos, que aqui vieram me prestigiar. Muito obrigado. Agradeço também de coração à minha querida ex-professora Tati pela oportunidade, que de certo se inclui em sua proposta pedagógica de mostrar que o ato de escrever não está restrito a grandes nomes de épocas remotas, mas diz respeito também aos perdidos na vida blogueira do tempo presente.

E, por que não lembrar? Hoje o blog fez 2 anos e 1 dia.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

mudamos de cor

azul.

domingo, 11 de maio de 2008

que se dane

Que se dane a tristeza dos que não fazem,
o atraso dos que não se anteciparam,
o passo em falso de quem não olhou,
o impossibilidade de quem se esqueceu,
a palavra atravessada de quem não cuidou.

Que se dane, que muito se dane,
quem fez pouco para o inexplicável,
quem ao explicar esbulhou a inocência,
quem ao inocentar imbuiu-se de culpa,
quem ao culpar não mais fez jus ao perdão.

Que se dane, e continue a se danar,
quem para gritar não teve culhão,
quem para amar faltou emoção,
quem para pensar preteriu a razão,
quem para falar perdeu a entonação.

Que se dane, que finalmente se dane,
quem por causa do quinhão perdeu-se do todo,
quem parou no tempo para a vã contemplação,
quem na ambição foi vítima do próprio engodo,
e quem queimou a língua por tanta afobação.

CESSE! Que não mais se dane aquele que
no sofrimento encontrar a estabilidade,
que na esperança encontrar a salvação,
esperando o tempo em sua morosidade,
para salvá-lo, então, num gesto último de redenção.

Marcadores:

quarta-feira, 7 de maio de 2008

RAPIDINHAS

TEMPERO CARIOCA
Saiu no Anselmo Gois, do jornal O GLOBO, em 15/4/2008:
"Alô, madames!
Acaba de nascer no Leblon, Zona Sul do Rio, uma grife especializada em roupas para...empregadas. É a Tempero Carioca, das sócias Astrid e Sara Rua. Só vai vender uniformes fashion para domésticas, babás, acompanhantes e afins."
P*** que pariu! Daqui a pouco essas madames vão fazer disputinha para ver quem tem a babá mais bem vestida da parada... só têm que tomar cuidado para a doméstica não despertar a atenção libidinosa do marido, ou na Zona Sul do Rio de Janeiro vai surgir uma loja feita para madames com aquele par de acessórios na cabeça: uma loja especializada em aumentar a altura das portas e o pé-direito dos apartamentos.


ESPELHO ÍNTIMO
Após longa caminhada pela Lagoa, surgiu uma boa idéia de ir a uma famosa rede de sorveterias do Rio de Janeiro. Juro que não esperava rir tanto lá dentro. Foi o seguinte: eu e meu amigo que é testemunha dessa história pedimos nossos picolés e ficamos matando o calor divagando o olhar pela loja, até que em certa hora nossos olhos, quase que simultaneamente, foram de encontro à seguinte plaquinha presa acima de uma geladeira:
"VEJA AQUI O TAMANHO DA SUA BOLA".
Era uma referência a um mostruário com imitações plásticas das bolas de sorvete.
Não conseguimos segurar o riso, que foi estrondoso e vexativo. Saímos correndo da loja e rimos por um quarteirão inteiro, igual dois loucos na rua. Mas isso não importa.
E então eu estava pensando: e no dia em que uma granja resolver colocar mostruários de frangos recém-natos. Nem o Siguimundo explica.


ELEVADOR DE MATERNIDADE
Um fenômeno da criação publicitária:
"Cursos para casais grávidos"
Poderiam expressar de uma forma menos bizarra a idéia de que a gravidez passa pela esfera do homem e da mulher né?
"Cuidado com o seu animalzinho no elevador!" (informe da fabricante do elevador)
Puta merda, where in hell alguém vai levar animalzinho para a maternidade e ainda precisar ter cuidados como "mantenha-o no seu colo", "não deixe que ele suje o ambiente" e etc?

Marcadores: ,

quarta-feira, 2 de abril de 2008

"JÁ ROUBEI NAS LOJAS AMERICANAS"

Não. Eu nunca roubei nas Lojas Americanas. Nem passou perto.

Como uma professora bem disse certa vez, o momento que separa o não-roubo do roubo é o da hora em que a torcida do Flamengo vem toda em cima de você olhar o que você está fazendo.
Eu realmente tenho medo da torcida do Flamengo, mas, mais do que isso, hoje incorporei o valor de não roubar como algo que independe do fato de alguém poder observar meu ato ou das possíveis sanções externas que venham a decorrer dessa incivilidade.

Muito me surpreendeu a existência no orkut de uma comunidade de nome "LOJAS AMERICANAS. VOCÊ JÁ FURTOU?", que reúne mais de 1100 membros numa celebração cinicamente ingênua ao ato ali glorificado de "subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel".

Não consigo ver orgulho nisso, mas tem gente ali com uma tremenda pose de malandro. Se a comunidade servisse apenas para as pessoas contarem peripécias de infância, como muitas realmente fazem, em que tal atitude não pode ser vista como mau-caratismo, mas como inconseqüência e imaturidade, até iria. Mas não. As pessoas, que certamente já não são mais crianças, ali contam o que fizeram na semana passada e o que ainda pretendem fazer.

Certas coisas me chamaram a atenção:

"O meu foi um cavaleiros do zodiaco isso foi a muito tempo, e quando muleque ja tinha as manhas todas, comprar besteiras para pegar a sacola e botar tudo dentro e sair na maior .. esse foi o meu maior furto e o seu ?" Anônimo.
Roubar brinquedo dos grandes já é sacanagem.

"La tinha bala a peso, eu pegava uns 50 gramas de balas pesava e pagava, depois com a sacola aberta eu topava de confeito e chocolates, qualquer coisa ja tava pago mermo. hehehe" Não-anônimo.
Juro que esse "hehehe" foi a pior coisa.

"Foi só uma vez qd tinha uns 12 anos, mas peguei sonho de valsa, batom, creme de cabelo e lápis de olho. Fui uma 2ª vez, mas fui pega! Nunca mais voltei..." Anônimo
A didática da sanção, vulgo aprender na porrada.

"Caraca, amei essa comunidade, pq eu e minha prima qndo eramos pequenas, tinhamos mania de comer tudo qnto era tipo de bala de lá, minha tia qndo nos via fazendo isso ficava pocessa da vida. Até q um belo dia fomos eu, minha prima e meu irmão, (mas nós exageramos na dose), cada um encheu q camisa q estava vestido (sem tirar a blusa) de balas, doces, chocolates e etc e saimos na maior cara de pau. Já na rua, qndo minha tia viu nossas blusas na mesma hora mandou-nos voltar. E o mico de devolver aquilo tudo, ai q horror, foi terrível, nunca mais me esqueço desse dia. Até hoje qndo lembramos disso ficamos rindo muito, mas na hora foi desesperador, mas passou e conseguimos entregar tudo (rsrsrs). Mas tb acho q a criança q nunca roubou uma juquinha se quer das lojas americanas, é pq não teve infância. Sem querer incentivar ninguém." Anônimo
Com essa tia, até o juiz Lalau devolve o que roubou sem pestanejar.

"tipo eh serio... fora um monte de balas e chocolates qnd vou pro cinema faço a feira o meu maior foi sei lah lembro mais naum" Não-anônimo
Repare no tempo verbal do verbo ir.

"peguei um mentos que já estava aberto e comi. dah um pso na consciencia, mas da proxima vez vou ver se dah pra pegar um inteiro, se tiver coragem eh claro! u,u" Não-anônimo
Não ficou satisfeito.

" ja roubei uam bola lah, eu lembro q a bola custava uns 20 conto!!auHAuahUAHuahUAHUa!!foi meu maior furto!!!" Não-anônimo
Legal hein cara!


"Gente naum é por nada mais acho que barrei vcs!!Começo com as guloseimas,parto p/ folhas de ficharios.canetas,lapiseiras(material escolar),produtos de beleza,bonequinho furby(custava na época R$150,00),cartoes de aniversarios.....que vergoinha,paro por aki!!" Não-anônimo
Bonequinho Furby já foi demais, convenhamos. Esses olhos vivos dele tem mais impacto do que "sorria, você está sendo filmado"

"Já roubeu bonecas, coisas da barbie, coisas para cabelo, mas hoje em dia não tenho mais essa cara de pau não." Não-anônimo
É realmente uma questão de cara de pau?

"mas um amigo meu já roubou 7 dvds em um dia só, e o amigo dele já colocou um dvd player que tava em cima das caixas dentro do bag do violao..." Não-anônimo
Diga-me com quem andas, ...

"porra ces são fracos... já roubei um dvd e um cd...é facil só raspar a paradinha do dvd(mas tem q ser vagabundo) com um cartão(tipo riocard q nem o meu) e pegar o cd pu dvd enfiar na mochila e sartar fora!!!!" Não-anônimo
Orkut, a escola do crime.

"um celular com um cartão de crédito fake ;X" Anônimo
Esse roubou as Lojas Americanas e mais alguém, né...

"Eu já catei um DVD lá mas não brigaram comigo pq sou filho do gerente" Anônimo
Santo de casa não faz milagre.

"Eu trabalhava lá e digamos q eu num gastava dinheiro com lanche... :D" Não-anônimo.
Esse merecia ir pro quadro "Funcionário do mês."

"para mim foi um cd do linkin park foi massa bote dentro da minha camisa de manga comprida o alame estava com defeito ai eu comprei um cd para a minha mãe ainda possima robei um cd do linkin park" Não-anônimo
Essa certamente me lembrou "meu guri" do Chico Buarque. "Chega suado e veloz do batente e traz sempre um presente pra me encabular."

"Ja tentei Sair Com um PS-2 mas o Seguranca Disse q eu so sairia se Pegasse Um pra ele xD Ai eh Fodz" Não-anônimo
É aquele papo: você tem que me ajudar para eu te ajudar.

"To pegando todo dia um boneco dos cavaleiros dos zodiaco, original. Que custam 110 reais. Furta e uma palavra muuito forte, vamos dz q eu to pegando oq a sociedade me deve ;D." Não-anônimo
Essa realmente me chocou. Como se não bastasse o ato de furtar ser praticado diariamente, como quem monta uma coleção, o rapaz ainda argumenta mal e porcamente de forma a tentar justificar seus furtos.
Aliás, começa dizendo que ele não pratica furtos, pois esse é um termo muito forte. Pô... vai dizer que é expropriação revolucionária? São outros tempos, meu camarada.
Vem o absurdo: ele só está pegando o que a sociedade lhe deve. Pergunto-me em que o rapaz foi lesado para merecer reparação? De que lógica ele parte... a lógica do pobre coitado? A lógica da compensação? Bem, acredito que lógica da compensação não parece ser válida se praticada de forma não-institucionalizada.
Mas então... desde quando a sociedade deve um boneco do Cavaleiro do Zodíaco a alguém? Daqui a pouco vem gente dizer que a sociedade deve um Rolex a todo mundo. Volto à pergunta: de que lógica ele parte? Não parte de lógica nenhuma, de ideologia nenhuma. Faz o furto e tenta justificar com qualquer porcaria de argumento. Totalmente ilegítimo. Meu Deus... quando eu leio esse ";D" minha raiva aumenta ainda mais.

Alarme PIPIPIPIPIPI de porta para todos esses aí. Tenha dó.
Que venha a torcida do Flamengo.


A SE PENSAR...
Porque o crime de pirataria, hoje tão comum e praticado, não é tão estigmatizado? De maneira essencial, ele é um roubo. No entanto, creio que ele vem se tornando legítimo, por significar fator de não-alienação cultural/informacional a muitas(quase todas) pessoas. Nesse sentido, para amenizar o problema, vale levantar também as iniciativas não apenas do Radiohead, com o inovador sistema de lançamento do último disco, como também das várias empresas que desenvolvem software livre e nem por isso logram insucesso financeiro.

Marcadores: ,

terça-feira, 25 de março de 2008

23 formas de ser FOFO(a)

A tem um chaveiro de pelúcia;
B troca a's por alfas no nome do orkut;
C vai em projetos sociais para tirar fotos;
D só usa calcinhas com motivos infantis;
E tem um telefone rosa;
F compra balinhas a mais para distribuir na sala;
G sempre traz presentinhos furrecas das viagens;
H dá sorrisos forçados;
I é tão prestativo que beira a canonização;
J fala qualquer coisa só para estar falando;
L com tudo concorda;
M tem fotos espontâneas forjadas;
N fala com voz de criança;
O só conhece o futuro do pretérito;
P usa o miguxês;
Q ganhou o prêmio "clichês de orkut" do So What's Beyond!;
R sempre cita uma frase feita da revista capricho;
S finge saber como as mulheres pensam;
T tudo anota;
U tem uma emoticon para cada hora;
V é a voz da pieguice;
X não fala palavrão;
Z escreve qualquer coisa nos comentários.

Ai, que graça.

Marcadores:

sexta-feira, 14 de março de 2008

GARFADO.

Depois de um texto que está parecendo (apenas parecendo, eu enfatizo!) proselitismo babaca da Campanha da Fraternidade, que se manifesta contra o aborto e o uso de células embrionárias em favor da valorização da vida (há controvérsias), trago aos meus leitores - só leitores, porque não comentam - um texto retirado das percepções mais loucas do meu ser.


GARFADO.
Padeço de uma sensação péssima toda vez em que alguém passa com um garfo e olho para as suas quatro pontas. Imagino aquele instrumento indo de encontro ao meu peito e fazendo algo como guelras em minha pele. Imagino a dor que sentiria. Imagino a dor que se multiplicaria quando eu olhasse aquele estrago.

Imagino-me num filme, num dramalhão desses, levando uma garfada. Sou atacado e mantenho a serenidade e, olhando nos olhos de quem me garfou, puxo o garfo para fora do meu peito sem mudar minha expressão, sem soltar um ai sequer, como se estivesse resignado a morrer dali em diante. E aí, então, solto o garfo no chão, que cai fazendo um grande barulho. O filme tem suas cores em degradê de sépia e as nuances de meu rosto assim se fazem mais visíveis. Falo alguma palavra de vingança em tom monocórdio, fecho os olhos e caio duro ao duro chão. Outro barulho forte. O filme, ou a cena, acaba com um close no garfo meio ensangüentado, que assim chega a brilhar bastante.

É duro. Não consigo comer um bife olhando fixamente para a hora em que o garfo o espeta. Por mais que aquela carne esteja descaracterizada, é carne. O garfo no bife é o garfo em mim, o garfo em meu peito, o garfo que não consigo suportar. O garfo que me faz guelras, o garfo que dilacera minha pele, o garfo que expõe meu sangue, o garfo que bota em uma moldura minhas entranhas, o garfo que eu quero longe de mim.

O garfo que leva a carne à minha boca.
A minha boca que vai à carne.
A boca que vai à minha carne.

... que tortura!

Marcadores:

quinta-feira, 13 de março de 2008

AMBULÂNCIA

Toda vez em que uma ambulância passa é a vida de alguém que está quase indo para o beleléu.

Para você que está caminhando na rua e ouve aquela sirene ensurdecedora, é mais um "barulhinho" que te chama a atenção num lapso. A luz vermelha girando loucamente, o motorista vestido de branco dirigindo atento, com a coluna curvada para frente, aquela luz interior da parte traseira do veículo, que, por um vidro opaco, sinaliza somente que ali há vida à beira da morte.

A ambulância corre tanto, que vem tão rápida e se vai tão rápida que o beleléu é uma abstração para terceiros: não existe, não se faz sentir. O beleléu só é beleléu para quem ali está, entre o tudo e o nada, ou para quem acompanha quem ali está.

A ambulância é mais um elemento de uma paisagem catastrófica urbana. Tão banal. É a sirene que vira poluição sonora. É itinerante e intermitente. A certeza do "de vez em quando". É o motivo da curiosidade das crianças, que sempre querem entrar numa ambulância e ver o que tanto tem lá dentro.

A ambulância, em toda sua pressa e e prerrogativa legal de livre trânsito, pode servir para desafogar o tráfego. Pode atrair espertinhos que vão atrás dela aproveitando-se do espaço aberto pela urgência e pela solidariedade aos necessitados. Espertinhos para os quais a vida de alguém que está indo para o beleléu é só mais uma facilidade que o acaso lhes deu de presente, quase que advinda de alguma espécie de princípio de conservação da bonança.

Talvez o que separe a ambulância do carro da funerária, além do vermelho e do preto característicos, seja o fio de esperaça que uma tem e a outra não. A iminência não é a certeza. A ambulância é um flerte. O carro da funerária é um beijo. A pressa e a calma. A instabilidade e o retilíneo.

E se em algum momento a ambulância que voava aos brados de cor encarnada e pintada de múltiplos decibéis desliga sua sirene no meio de um percurso e diminui a velocidade? Um fechar de olhos, um último suspiro. Seria o momento mais poético das vias da cidade. A hora em que a ambulância sinaliza seu fracasso, sua insuficiência, o fim de sua esperança. A desistência. A hora em que todos os carros param, que todas as sirenes, buzinas e gritarias se desligam e há um mergulho no silêncio sereno de uma efemeríssima eternidade - a hora em que tudo pára para a contemplação -, o silêncio de respeito à hora em que a campainha do beleléu tocou e a porta foi aberta para alguém entrar.

Toda vez em que uma ambulância passa pode ser a hora de se refletir sobre alguma coisa que a cerca. Mas é difícil pensar em algo nessa hora porque ela é rápida e impessoal. Isso a torna abstrata. Isso reduz ao trivial a luta que ali dentro se trava. As ambulâncias deveriam trazer um letreiro externo eletrônico contendo os seguintes dizeres, ao lado de uma foto do indivíduo em atendimento num momento feliz de sua vida:
ESTAMOS TENTANDO SALVAR A VIDA DE FULANO DE TAL.

E se as pessoas parassem suas vidas quando vissem uma ambulância para começar a rezar, a mentalizar coisas positivas para a vítima?
As ambulâncias deixariam de ser mais umas ambulâncias dentre várias que escandalosamente se manifestam.
A vítima deixaria de ser mais uma vítima, mais uma estatística.
Os pedestres deixariam de ser só mais alguns andando na rua para formarem uma torcida.

A lógica do "é só mais um, então dane-se" e a lógica do "inevitável, então deixa para lá" deixariam de ser a tônica de como a vida vê a vida, da forma como o semelhante vê o semelhante.

A hora da ambulância seria o chamado recorrente, material, sonoro e colorido de que a vida deve celebrar a vida. Uma tomada de consciência. Um estalo. Uma forma que o Dr. Acaso, renomadíssimo publicitário, achou para divulgar, ainda que objetivando alguma percepção do inconsciente, o produto que ninguém precisa comprar, pois é o bem que todos já têm. Bem perecível, cuja data de validade não se conhece e que, cedo ou tarde, mal ou bem, encontra no beleléu seu pouso derradeiro. Seu repouso.

Marcadores: ,

sábado, 1 de março de 2008

RAPIDINHAS

IMPACIÊNCIA.
- Vó... vó... eu preciso comer comida árabe.
- Por que?
- Porque eu to grávido e se não comer meu filho vai nascer com cara de esfirra.

COAXO.
Casal de uns 16 anos passeando pelo shopping em clima romântico pára em frente da loja de utensílios domésticos e de presentes para casamento, quando a menina aponta muito animada e saltitante para várias coisas na vitrine. Vira-se para o rapaz impetuosamente e fita-o com cara de "eu quero", no que é respondida pelo moço com uma fisionomia desconcertada, como se o pedido fosse extremamente inoportuno. O rapaz coaxou.

Ok, relatado.

PARONÍMIA
Sinto cinto quando sento.
Sinto que aperta no assento.
Cinto que aperta com acento.
Da cintura, há perto aperto.

OLIMPÍADAS
li no informe: "rio 2016: cidade aspirante"
1. viva a cocaína.

DISNEY 2008
É impressão minha ou eu fui o único que não foi pra Disney nessas férias?
Tô quase fazendo um álbum "Disney 2008" no meu orkut e colocando uma foto com um zero cortado, tipo um conjunto vazio. Talvez seja o bolso que esteja vazio.

Marcadores:

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

SOBRESSALTO.

O cabelo sorvetão e o excesso de maquiagem tudo revelavam sobre a idade daquela senhora que, com um bando de bolsas de lojas chiques, andava pela rua sobre um salto barulhento, capaz de ser ouvido mesmo com os ruídos da rua.

Andava de nariz erguido e tinha um olhar esnobe. Talvez fosse esposa de empresário ou alta aposentada do serviço público. Tinha cara de viúva, daquelas que descobrem a vida com a morte do marido.

Suas sacolas nada mentiam sobre suas possibilidades. Somente marcas caras, tirara o dia para renovar o guarda-roupa. E o salto talvez tivesse significado simbólico para além do estético. O salto era daquele tipo não-sandália. Hum.... acho que não fui elucidativo. Bem, não entendo de saltos, mas o que aqui descrevo prendia-se que nem um tamanco.

Volto ao que me chamou a atenção. Velhas como essa, embora se achem a última bolacha do pacote, acham-se por todo canto. Mas não é todo dia que o trânsito pára por causa de uma delas.

Tudo começou na incivilidade da senhora, que pôs o pé na rua e caminhou até a intersecção entre a faixa lateral e a central, ou, melhor dizendo, que foi para o meio da rua. Levantou sua mão de forma quase libidinosa, como se fosse colocá-la sensualmente à boca, e ficou agitando os dedos, como se aludisse a outra coisa impudica. Tudo isso para chamar um táxi que se aproximava.

O buzinaço começou. A velha parou o trânsito no meio da rua. O táxi parou todo errado para que ela entrasse no ponto em que estava, afinal, uma madame daquela se movimentar de encontro ao meio-de-transporte feriria o orgulho de um ser tão high-profile. O motorista, que economizou na hora de comprar o carro e não colocou as benditas trancas automáticas, teve que dar um quase 180 digníssimo para abrir a porta traseira do carro. E as buzinas não paravam.

Assim que a porta abriu, a ilustre senhora começou a colocar, em cínica tranquilidade, as sacolas para dentro, empurrando-as para o outro lado do banco. Chegada a hora de finalmente entrar no táxi, ainda lançou um olhar indiferente aos automóveis barulhentos que atrás se amontoavam, manobrando com dificuldades para tentar seguir caminho.

Para sentar, colocou-se de costas e sentou seu traseiro gelatinoso no banco, ainda com os pés para fora do automóvel. Depois, deu uma viradinha e colocou um pé no carro. Depois, a mu... não houve depois para o movimento de embarque. O taxista percebeu que havia um guarda de trânsito por perto, que, felizmente, num raro momento de distração em que conversava com um guardador, não percebeu o circo instalado naquela rua. Temeroso por uma multa, tratou de dar uma arrancada.

Na arrancada, a senhora apressou o movimento, mas, na imprecisão de uma mexida em espasmo, um dos pés de seu salto acabou caindo no chão, solitário e reluzente. Com a porta meio-aberta e com um pé enrugado à mostra, o táxi seguiu adiante apressado, deixando o salto para trás. Jogado no meio da rua, o salto ainda atrapalhava mais o trânsito, pois ninguém conseguia simplesmente passar em cima daquele ostensivo acessório. Os mais irritados até pensaram que o ato de deixar o salto no chão foi premeditado, significando um "big foda-se" da velha, que, ao invés de exibir retratação pelo transtorno que causara, quis tirar mais uma com a cara dos motoristas que há pouco atrapalhara.

O táxi não pôde andar muito, pois logo o sinal fechou. Estava distante uns cinqüenta metros do salto abandonado. Uma eternidade que a equação t=s/v não ousaria descrever e que poucos tentariam enfrentar. Mas teremos a nossa heroína.

Já dizia a filosofia de botequim que ninguém gosta de sair do salto. A porta do táxi se abriu e de lá saiu uma velha. Primeiro pôs os pés pra fora. Um deles estava descalço e era meio enrugado. O outro vinha sobre um salto. Puxou suas compras e saiu do táxi. Simulando ser o Garrincha, pois jamais teria a humildade de descalçar o salto que restara, a senhora caminhou a passos curtos e tortos rumo ao salto que deixara cair. Caminhava no meio da rua, novamente parando o trânsito e suscitando as ensurdecedoras buzinas.

Quando estava quase alcançando o polêmico calçado abandonado, a senhora tropeçou. Foi literalmente um salto rumo ao chão. Pááááá! Sentiu ela a dureza do asfalto, ficando estática. Em instinto vingativo, ninguém queria parar para ajudar a pobre malfeitora, mas todos acabaram parando.

E o trânsito novamente parou. Dessa vez, porém, as buzinas cessaram, afinal, não havendo como executar um réquiem, preferiram fazer um minuto de silêncio.

- Mas vaso ruim não quebra mesmo! - gritou um motorista para fora de seu carro, quando viu a velha voltar a se mexer, ainda no chão, logo exclamando em voz sinuosa: "mas não chame o 193, quero a ambulância do meu plano!"

Marcadores:

sábado, 23 de fevereiro de 2008

pós-epílogo.

Foi-se.

Para o enfermeiro, foi o último acontecimento do seu plantão.
Para a família, foi dor.

Para o cara da funerária, foi o ganha-pão.
Para a família, foi sofrimento.

Para o escriturário do cartório, foi o terceiro atestado de óbito do dia.
Para a família, foi tristeza.

Para o jornal, foi um nome no obituário.
Para a família, foi pesar.

Para o coveiro, a segunda vez que pegava na pá.
Para a família, foi adeus.

Para o padre, foi mais uma missa.
Para a família, foi penar.

Para o INSS, foi menos um aposentado.
Para a família, foi comoção.

Para a Justiça, foi o inventariado.
Para a família, foi a herança.

Para o IBGE, foi a estatística.
Para a família, foi duro.

Para a vida, foi o fim.
Pára a vida: é o fim!

Para a família, virou lembranças e saudades,
enclausuradas na moldura de um porta-retrato,
ou guardadas numa das redomas acrônicas do coração.

Marcadores: ,

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

a moda engajada do próximo reveillon

lançarei moda:
ano que vem, passem o ano novo de laranja.
façam uma homenagem a quem desfaz o que fazem no ano novo.
façam uma homenagem a quem cata as garrafas caídas e as garrafas arremessadas.
façam uma homenagem a quem limpa os caroços das uvas e os bagaços de um ano velho.
façam uma homenagem a quem recolhe todos os cigarros e as cervejas da ebriedade alheia.
façam uma homenagem a quem não estoura o champanha, mas cata a rolha.

ano que vem, passem o ano novo de laranja.
pode não ser a cor da paz, mas é a cor da limpeza, mais do que o branco.
e sem superstições.

Marcadores:

domingo, 10 de fevereiro de 2008

C16H13ClN2O, not yet.

ai ai bem,
esse sono que não me vem.

cabeça que só roda,
livro que não me relaxa
até o lençol me incomoda...
o travesseiro não encaixa.

ai ai bem,
esse sono que não me vem.

disseram-me pra comer alface,
talvez assim eu relaxasse.
receitaram-me passiflorine,
e até filme chato no telecine.

ai ai bem,
esse sono que não me vem.

o bocejo faz-se constante,
meu deus, já são 5 da matina!
encaminha-se o sol fulgurante,
decreta ao insone um dia de latrina.

ai ai bem,
esse sono que não me vem.

mas na verdade, o sono vem.
eu é que não consigo adormecer.
sonho (?!) hoje com o sono REM,
à espera do próximo anoitecer.

Marcadores: ,

sábado, 19 de janeiro de 2008

PAUSA.

Atravesso um momento infeliz para esse blog. Não consigo sentar e escrever, não consigo ter fluidez em minhas palavras. Falta-me inspiração. Sobra-me vontade.

Penso em tantas coisas na rua que dariam bons textos, mas a efemeridade de um pensamento é tão implacável quanto frustrante. As coisas se perdem. Minha cabeça não está boa.

Ficarei um tempo sem escrever.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

SOERGUIMENTO.

Meu prazer em revirar quinquilharias me fez esses dias descobrir algo inusitado na sacola de supermercado onde guardamos as fotos de família muito, muito antigas. Em meio ao preto e branco nostálgico da distante mocidade de minha avó, encontrei perdida a fotografia de uma senhora que ninguém em casa soube dizer quem era.

Fiquei intrigado - seria forçação dizer encantado - com a pessoa que não quis posar para a câmera e seus olhos fechou. Num misto de proeminência e de anonimato, a musa que hoje inspira o verbo tem o ar de uma vovó moradora de rua, embora não me pareça uma qualquer, ou, do contrário, não teria sido motivo para uma foto.

Seu vestuário esquisito talvez fosse seu charme. Um vestido preto, sem brilho. No pescoço, algo como um pano de chão desfiado que simula um echarpe. Em suas mãos, como se fosse a "miss rugas 1940 e porradas", um cetro ornamentado. O chapéu que compunha o look era a última moda em... não sei onde a foto foi tirada.

Minha velhinha da foto permanece uma incógnita. Seria ela uma pedinte? Uma louca que a família não quis manter em seu seio? Uma exótica? Uma assídua por brechós? Uma "nada" abandonada que alguém achou engraçado e quis registrar para a posteridade?

Resgato hoje esse registro e mergulho na imaginação, como num passeio a uma feira de antiguidades. Meu Deus, o que essa foto fazia no meio de várias outras fotos que nada tem a ver com ela? A idosa desconhecida é uma viagem, uma abstração. Hoje está morta, eu tenho certeza, e agora se faz viva, eu também tenho certeza. Hoje está eternizada na internet. Daqui a pouco vão digitar no Google alguma coisa qualquer e ela vai aparecer. Estilistas descolados buscarão nela inspiração para seus próximos desfiles. Gurus tentarão adivinhar a cor de seus olhos. Psicólogos decifrarão seu pensamento. Sua bizarrice vai comover multidões. Reconhecimento post-mortem.

Marcadores:

sábado, 5 de janeiro de 2008

O COPO

O copo é objeto fundamental das às vezes etílicas confraternizações sociais, nas quais bater os copos um nos outros é a apoteose do momento.

O copo é um objeto democrático. Todos usam, mesmo que diferentes copos reproduzam as estruturas sociais vigentes, indo desde o copo de requeijão ao cálice da mais nobre vidraria.

O copo é curioso. Em sua lascívia fálica, materializa a promiscuidade. Uma cópola plural. Passa de boca em boca deliberadamente. Experimenta de tudo, em todos. O copo é a via da dispersão: dispersa micróbios, dispersa angústias.

E depois de tudo, quando há copos vazios, de tanto que a cara encheram, o copo vai para a purificação hídrica remir-se de seus pecados.

"Em mão de bêbado, copo fora do escopo é certeza de ex-copo."

Marcadores: ,

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O TRATOR DAS MINHAS VONTADES.

Eu estava quase dormindo, quando pensei na expressão "o trator das minhas vontades". Eu achei que fosse uma frase marcante, uma obra-prima da retórica. Ainda acho isso, mas, a cada vez em que olho para essas 5 palavras, elas perdem esse efeito.

Eu queria fazer um texto em que eu usasse esse título. Na verdade, você pensa em trator, e vem aquele veículo imenso, com aquela coisa de metal na frente, implacável, intransponível, que chega passando em cima e não quer nem saber o que está na frente. É um trator, não é um carrinho de obras.
Imagine o "carrinho de obras das minhas vontades"... é como se eu dissesse que eu vou levando-as aos trancos e barrancos e que, por qualquer trombada, elas podem ir ao chão.
Imagine também "a bicicleta de minhas vontades". Só funciona direito na ciclovia, e eu ainda preciso ficar pedalando. Ou melhor, "a bicicleta ergométrica de minhas vontades". A vontade é tanta e o esforço é imenso, mas eu nunca saio do mesmo ponto.
Talvez nada se comparasse a "o caminhão das minhas vontades". Lembro-me do Caminhão do Baú, com os sonhos de consumo das donas-de-casa. Minhas vontades não incluem geladeiras, máquinas-de-lavar ou fornos microondas.
E se fosse o "patinete de minhas vontades". Até dá ambiguidade, pareço aquelas crianças de cinco anos que querem um patinete de Natal e colocam isso na cartinha para o papai noel. Infantil demais, fora.
A "carreta das minhas vontades". Lembro-me dos digníssimos catadores de lixo da cidade que empilham suas tralhas usando os papelões das caixas de caras TV's e de outros mimos que não podem comprar. Ficam só com a caixa, e carregam com a própria força aquela carreta imensa pelas ruas. Muitas vezes não conseguem e tudo aquilo cai. Triste. Imagina minhas vontades caindo assim pela rua e eu tendo que catá-las só porque juntei mais do que podia? É provável, mas prefiro ser otimista.

Pois é... voltemos ao "trator de minhas vontades", à imagem do trator. Pois é, minhas vontades são fodas, uhul, vem com tudo. Mas, lembremos: o trator precisa de alguém que dirija. Sei dirigir trator? Olha a responsabilidade.
O trator precisa de combustível. Entenda por combustível o que quiser. Dinheiro, pique, pessoas para fornecer o combustível, ...
O trator não é um ônibus. No máximo, tem dois lugares. Vontades fortes, que vem em trator, não podem envolver muita gente. No máximo, pode-se cooptar alguém para ser carona nessa aventura.
O trator é um trator. Imenso. Não passa em vários lugares, não é versátil, exige infra-estrutura megalomaníaca e traz decepções se for transitar em lugares complicados.

A vida é complicada. Não quero ficar entalado. Não quero ficar isolado. Não quero passar em cima de ninguém. Não quero depender de grandes feitos.

É, o trator não me serve.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

2BÁ

(COM O PERDÃO PELO ESTEREÓTIPO)

Clube de "elite" do Rio de Janeiro.
Aquele domingo ensolarado.
O parquinho é multicolorido.
As crianças refletem a luz.
As babás absorvem-na.
Hierarquia que se faz de acordo com absorção de luz?
Brasil!

As babás no clube de elite estão todas vestidas de branco.
Uniforme: proletárias. Alienadas?
As crianças brincam, se divertem, pulam e gritam que querem picolé e títulos de nobreza.
As babás os olham. Não olham seus filhos.
Seus filhos? Onde fica filho de babá?
Em clube de elite, certamente não.
Num confronto da "tropa de elite"? Seria azar.
No conforto do "videosurveillance for babies"? Babá eletrônica,não é mais fácil?
Sob a proteção do Estado? Em Estado/estado deplorável?
Na foto 3x4 dentro da carteira da mãe?

Babá olha filho dos outros.
Olha filho de/da mãe que tem que trabalhar.
Ela também é mãe que tem trabalhar.
E daí? E daí nada, ué.

Filho de babá não grita que quer picolé.
Nem nobreza togada ele pode ser.
Filho de babá, é filho de babá.
Recebe presente de segunda mão.
Já deve ter brincado de pião.
Já deve ter soltado pipa.
E talvez nunca tenha usado camisa pólo.

O parquinho tem dois bancos: um bom e um ruim.
É quase como comparar o Itaú Personnalité com o espaço debaixo do colchão.
No banco bom, ficam as mãedames, digo, madames.
No banco ruim, quem se senta? Babás, daqueles nomes estranhos, bem nome de babá, geralmente terminado em -ina.
Como não pode ser a fulana, vira a Fulina.

Ser madame não é muito difícil.
O reconhecimento se dá pelo flanelinha que fica em frente àquele restaurante que - um absurdo, amiga - ainda não descobriu o cômodo serviço de valet.
"Estaciona aqui, madame!"
(O trem superlotado mandou lembranças.)

Mas a madame gosta de estar bela.
Quem sabe um dia ela aparece na Caras, sendo lida por alguém no cabelereiro ou na privada?
As madames curtem bolsas de marca.
Usam óculos escuros para parecerem reservadas.
E às vezes tentam vestir umas roupas meio moderninhas para disfarçar a idade.
São as craques da jogatina suja que é o jogo de aparências.
São mães que muitas vezes não sabem botar a mão na massa.
Tem nojo de cocô de criança.
E não tem paciência para dar papinha, embora conheçam o tapinha.
É para fingir que educam.

Aquela colônia de madames conversa.
Uma comenta a última proeza do filhinho, que já sabe falar inglês e está com viagem marcada para a Disney.
Do outro lado há uma colônia de babás, que também conversam.
Uma comenta a última proeza do filhinho, que só verá na próxima folga, mas que já sabe falar planta ao invés de pranta, e que, de marcada, só a consulta no posto de saúde para o próximo mês.

Mães do mesmo jeito, embora uma delas não passe de uma mera progenitora.
Diametralmente opostas.
Separadas por um grosseiro abismo hierarquizante.
Empregadora e empregada.
Dominante e dominada.
Zara e Renner.
Débito e crédito.
À vista e promissória.
Medicamento de referência e medicamento genérico.

Uma é a high society. Ai, que chique!

A outra é só uma babá. Serviçal.
Pajeia o filho da high society quando o pequeno desfruta do mais alto grau de nobreza, no caso, de realeza: é quando ele está ao trono e desfere o verbo, em modo imperativo.
"Fuliiiiiiiina, vem limpar. Acabei!"

Marcadores: ,

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

EPOPÉIA.

Marcílio era de família pobre,
era mais um que não tinha o que comer.
Não tinha terra, mulher ou cobre,
quase um nada, só entendia de sofrer.

Tendendo a zero, sabia esse Marcílio,
que seu caminho teria de traçar.
Não contava com ninguém para auxílio,
à própria sorte, decidiu se lançar.

Foi pra cidade, onde a terra era mais "fértil".
Mas sua enxada, não soube onde deixar.
Pegou em armas, carregou-as de projétil.
Seu negócio, ali, era matar.

O dedo no gatilho era senhor de destinos,
para trabalhar, era só o bolso inchar.
Nessa vida de final de intestino,
o clandestino pensou em prosperar.

De pé na rua descobriu a loteria,
onde com sorte poderia se acertar.
Aquela vida de bandido largaria,
em sua a terra a todos iria ajudar.

Eis que a sorte bateu à porta,
e a Marcílio resolveu premiar.
Largou o moço de vez a vida torta,
pelo sertão voltaria a se enfiar.

Quando então voltava ao velho chão,
a Dona Sorte resolveu evaporar.
Bateu o ônibus num minicaminhão,
e o desastre foi um baita de um pesar.

Na colisão espalharam-se vários corpos,
e o tal dedo de Marcílio foi pelo ar.
Se o rabecão veio levar toda a tragédia,
um gavião o pobre dedo fez devorar.

E o dinheiro da ventura de Marcílio,
não conseguiu em ajuda se converter.
Seus conterrâneos que precisavam de auxílio,
na fome grande permaneceram a esmorecer.

Foi enterrado como indigente num cemitério próximo ao local do acidente. Andava sem documentos, pois era criminoso procurado pela polícia da cidade onde tentou fazer carreira no mundo sinuoso que preferiu à honestidade insustentável dos miseráveis. Ninguém se interessou por saber quem era para lhe dar um enterro digno. Até a faculdade de medicina mais próxima dispensou o cadáver desfigurado e sem um (mortífero - não sabiam eles) dedo.

Marcadores:

sábado, 3 de novembro de 2007

ESTÉRIL OLHAR.

Antes de colocar aqui o texto, quero explicar o que aconteceu. Passei pela rua e vi isso tudo que vou relatar. Cheguei em casa e decidi escrever, mas estava sem saco de escrever normalmalmente e me limitei a digitar com toda espontaneidade tudo o que vinha à cabeça para que, depois, com tempo, pudesse compor o texto com a qualidade que sempre busco.

Eis que hoje venho para escrever o tal texto, mas, ao ler a tempestade de idéias que compilara, não consegui continuar. Há erros de grafia, idéias sem nexo, mas qualquer tentativa de remoldá-las prejudicaria a sensação que tive, e a que tento passar.

estéril olhar.
mãe com criança sentada na calçada. olha pro nada. sacode a mão repetitivamente, tilintando as moedinhas que ali estão. não está descalça, mas está mal vestida.
em seu colo, deitado, dormindo que nem um anjo, com uma bermuda bege clara, limpinha, e uma camiseta listrada, limpinha, está um bebê que dorme serenamente. lindinho, uma gracinha. uma fofura. aquele bebezinho passa fome? passo por ele. tento não voltar e dar a moeda,. estava com 3 reais no bolso e tive preguiça de parar pra dar. merda de egoísmo. passo e não tenho coragem de voltar, não tenho coragem de ir até lá e dar para aquela mãe. queria eu que ela nao estivesse precisando. e aquele pedacinho de gente, uma vida que nao tem metade das oportunidades que eu tive, que não pode deitar na cama e relaxar, mas que dorme melhor que eu, com essa insonia, essa culpa burguesa, essa bosta de quem passa e quer fechar os olhos par aum problema .mas não consegue. e vem aqui escrever, impotente. é incapaz de tirar esse pijaminha confortável, sair do ar condicionado de casa agora descer e procurar a mãe para lhe dar um trocado, uma comida um agrado... quem sabe uma atenção seja tudo o que necessita aquela pessoa, que traz seu anjo, em bons trajes, em sono dos inocentes, para o relento da noite.
o que faço para essa situação? simplesmente cago porque tem aos montes? é uma merda. lamento diariamente passar pela rua e ver isso. a culpa é de quem? foda-se de quem é a culpa. vamos resolver. juntos. unidos. to cansado de teorizar o brasil do futuro enquanto o brasil do presente não come. não quero mais ver anjinhos que comem e anjinhos que dormem com fome.
aliás, dormir com fome deve ser a pior coisa que tem. não aguento ficar poucas horas sequer de jejum. minha vó sempre me oferece um leite quente antes de dormir e eu recuso... queria oferecer esse leite, esse alimento às crianças que sofrem por perto. queria.

Marcadores: ,

domingo, 30 de setembro de 2007

COISAS QUE EU OUÇO POR AÍ E VEJO POR AÍ....

Dia de chuva intensa no Rio. Estava na sala de aula literalmente no meio de um bando de desconhecidas que se conheciam. Captei vários momentos de uma conversa hilária.
DIÁLOGO I
-Você vai pegar um táxi?
- Claro, não gosto de ficar molhada de chuva, só de outro jeito.

DIÁLOGO II
- Hoje você vai falar com ele?
- Vou sim.
- E aí.. ou namora ou cai fora, né?
- É.

DIÁLOGO III
- Professor, pode-se dizer que a Regência é a república?
(sem respostas)

DIÁLOGO IV (esse foi comigo!)
- Nossa, você sabe bem História. Quem substituiu Dom Pedro II quando acabou o segundo reinado em 1889?
- Mal. Deodoro da Fonseca, após o Golpe.
- Po, não foi a Princesa Isabel?
(bem que poderia ter sido)

TESTEMUNHA OCULAR I
Meio da aula de história e meus olhos vão parar numa certa cena. Menina de má aparência, meio marrentinha, pega uma bala na mochila. Desenrola o papel de bala com cuidado, sem fazer muito barulho. Em momento algum deixa de prestar atenção ao professor. Coloca sorrateiramente a bala na boca e fecha a mão no papel da bala, como se dali a pouco, num passe de mágica, ela fosse abrir a mão e o papel sumisse. Mas essa aí não sabia fazer mágica coisa alguma. Não era ilusionista. Era porca mesmo.
Não deixei de observá-la, pois sabia que o papel teria que ter algum destino. Se ela tivesse modos, ou teria guardado o papel em suas coisas para depois jogá-lo no lixo, ou já teria levado ao lixo de uma só vez. Não deu 10 segundos e ela começou seu plano secreto.
Primeiramente, colocou a mão aberta sobre a cadeira, como se estivesse se apoiando. Continuava olhando para o professor, como se estivesse parada, sem fazer nada. Só eu observava aquelas mãos infelizes e percebia que por trás daquela feição aparentemente concentrada no desenrolar da monarquia brasileira estava uma mente maquiavélica com um braço efetivo de atuação, ou melhor, uma mão de efetiva atuação.
Ela tratou de empurrar o papel de bala para o mini-vão existente entre a madeira da carteira e a estrutura de aço a que essa madeira está presa. O papel não entrou de primeira. Foi preciso que ela fosse amassando-o e o empurrando pouco a pouco, de forma que ele ali ficasse comportado. Terminado o serviço, ainda deu uma espreguiçada para disfarçar.
Pois é... eu também estou com preguiça de jogar no lixo essa cidadã cujo destino interceptou o meu naquele dia. Mas, vocês também sabem: não dá para simplesmente fechar os olhos e esquecê-la, tal como fechar a mão e fazer o papel sumir. O que faço, então?
Simples. Pego essa porquinha, faço com ela uma historinha e vou amassando-a e colocando-a entre o vão virtual - real extensão do meu pensamento - chamado So What's Beyond. E sempre tem alguém observando, ou melhor, lendo.


_______________________

Entrarei muito em breve em novembro e dezembro, meses em que terei trocentas provas de vestibular. Logicamente, estarei impedido de escrever com calma e, assim, o blog ficará um tempo desatualizado. Torçam por mim!
Em breve voltarei.

Marcadores: ,

domingo, 23 de setembro de 2007

ENGAVETADAS.

ERVILHA DE CHEIRO
Altura: 100-180cm
Semeadura: Outono-Inverno
Germinação: 10-16 dias
IMPRÓPRIO PARA ALIMENTAÇÃO




Tenho sementes de "ervilha-de-cheiro" num envelope lacrado. Comprei quando tinha 8, 9 anos, em Petrópolis, numa loja daquelas que vende de tudo para o campo. Tínhamos um sítio pelas redondezas e pensei em plantar num vasinho e observar a planta crescer. A foto que vinha no envelope mostrava flores bonitas, de pétalas enrugadas, com várias cores. Sinceramente, não sei o porquê do nome ervilha de cheiro. Mal consigo imaginar qual seria o cheiro da tal "ervilha".

Naquela época, eu estava descobrindo muita coisa na natureza. O sítio me ajudou bastante nisso. O sítio e o Flight Simulator. Na verdade, mais o sítio do que o Flight Simulator. Estava começando a entender alguma coisa de plantas, animais, relevo e água, e grande era o meu entusiasmo por ver uma planta que eu plantei ter crescido.

A memória me manda sinais de sua imperfeição ao não conseguir me relatar por que as tais sementes não ficaram por Petrópolis, não foram plantadas, não foram jogadas no lixo, mas, num quase êxodo rural, vieram parar em uma gaveta de meu armário, em pleno celeuma urbanóide que é Copacabana.



A embalagem me diz que as sementes foram analisadas em fevereiro de 98, possuindo validade até fevereiro de 2001. Não tive coragem de abrir o saco de sementes para ver como elas estão, depois de 6 anos após a derradeira - e não aproveitada - oportunidade de fazê-las crescer. O papel já está ficando amarelado, do mesmo jeito que eu me torno barbado e tenho que arrancar meus sisos. Sinal dos tempos.

Estavam elas no fundo de uma gaveta, embaixo de muitos papéis importantes de minha vida. Várias notas fiscais de peças de computador, título de eleitor, CPF, comprovante de matrícula, comprovante disso e daquilo, atestado disso e daquilo. Não sei o que fazia um envelope de sementes de ervilha cheirosa ali.

Essas sementes ficaram guardadas na gaveta, como eu disse, junto com muitos outros papéis importantes. Talvez esteja aí a razão por elas estarem ali até hoje: devem ter alguma importância na minha vida. Se eu as tivesse plantado, suponho que não tivessem tanta relevância ao ponto de eu escrever sobre elas no presente momento.

E qual seria essa importância? Não sei bem. Elas me lembram alguma frustração por não alcançar certos planos, por desistir de certas idéias e por engavetar certos projetos... na verdade, por engavetar sementes.



Marcadores: ,

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

MORAL DA HISTÓRIA.

Aconteceu essa semana.

- É assim ó: uma bala redonda, pequena, vem de várias cores numa mesma embalagem, são enroladas num papelzinho assim... tô procurando há tempos e não acho.

- Ahn... acho que não tem não.

Aquela vontade de uma sobremesa que dá depois do almoço estava difícil de aguentar. Pior, quase como uma grávida, despontara para um desejo súbito, por algo específico, insubstituível. Procurava com meus amigos de baleiro em baleiro a tal bala.

- Moça, você tem uma balinha azedinha, pequenininha, vem de várias cores, ... - perguntava, tentando gesticular o formato da balinha.

Uma amiga minha, que também estava tentando lembrar a que bala eu me referia, falava nomes e tipos de bala, mas não acertava. Até que despontei com a brilhante associação.

- Ela é meio achatada, um disco bicôncavo... parece uma hemácia.

Risos gerais. Continuei procurando. Fui a cinco baleiros. A duas bancas de jornais. Ninguém sabia que bala era essa.

- Olha, se por acaso você achar a bala, traz o papelzinho aqui que a gente compra no distribuidor e vende, tudo bem? - falou uma vendedora de forma muito atenciosa.

Usando a última carta do baralho, fui à cantina do colégio. Ou era ali, ou não era mais. O momento recebeu a devida solenidade. Chegando à cantina, havia mais dois ou três alunos de séries mais baixas do Colégio, que ali faziam não sei o que.

- Oi moça, tenho uma missão difícil para você. Já procurei em tudo que é lugar, mas não acho. Quero uma balinha azedinha, pequenininha, achatada nos pontos, vem umas 12 por embalagem, ela é embalada que nem jujuba. Sabe qual é? - perguntei.
- Deve estar mentindo. - disse o moleque que me ouvira, já me olhando de forma insolente.
- Nada. - desconversei.

A moça me apareceu com uma jujuba. Não, eu não queria jujuba.
- É uma bala mesmo... tem certeza que não tem?
- Tem aí, "Cleiton"? - perguntou ao outro balconista.
- Tem não. - respondeu o colega.
- Ahn... então deixa. Obrigado. - lamentei, afinal, teria que ficar sem a tal balinha naquele dia.

Não iria escapar daquela só com essa frustração. A situação precisava de um gran finale, algo marcante, algo tocante, algo imprevisível, quiçá inesquecível. E a inserção inusitada daquele dia veio por parte do moleque, que destilou seu instinto zoador pré-adolescente, seu ódio, sua imaturidade, sua única forma de aparecer para o outro coleguinha.

- Se *udeu, haha! - pronunciou sua presunçosa, e suja, boca.

Pensei comigo num infinitésimo de segundo. Qual foi a daquele rapazinho? Protótipo de gente... Ainda tem muito pra ver na vida. Criança mal-amada? Criada pela empregada? Usando Adidas, correntinha... e se achando o máximo. Não sabe o que é largar a banana. Não sabe o que são reações orgânicas. Um grande merdinha.

Sou polido. Às vezes. Mas com quem não conheço, sou polido sempre. Se sou mal-amado, já não sou criança. Nunca tive empregada. Uso Adidas, mas não uso correntinha. Já larguei a banana. E já aprendi 80 reações orgânicas. Uns me acham um grande merdinha. Outros não. Sou polido. E fiz-me polido:

- Nossa, está exaltado esse rapaizinho, hein? - falei e fui embora.

Saí de fininho. Aquela pessoa não tinha nada a me acrescentar e distância é o que mais quero de energúmenos.

A balinha... realmente fiquei sem. E ainda levei essa desaforo pra casa. Sim, eu levo desaforo pra casa.

[após um longo e tenebroso inverno de dois dias...]

Estava hoje no Zona Sul, fui comprar um biscoito com uma amiga, que também me acompanhara no incidente da balinha dois dias antes. Na fila do caixa, conversávamos, até que meus olhos foram de encontro a algo em que custei a acreditar.

Jogado no meio de muitas balas nos penduricalhos que há no caixa, lá estava a balinha que tanto procurava. Um pacote com 8. Cada deles, com 12. 96 balinhas à minha disposição. Não hesitei e peguei. Era a balinha. A azedinha, a pequenininha, coloridinha, embalada feito jujuba, em forma de disco bicôncavo e parecendo uma hemácia. No Zona Sul, jogada, sozinha, com a embalagem meio empoeirada, até.

Paguei. 8 reais. Não valia tudo isso, eu sei. No Centro, compro pela metade do preço. Mas ali valia tudo. Pela balinha eu fazia tudo.

Moral da história:
Quem não procura, acha.

Sem moral da história:
O moleque.

Marcadores:

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

IDADES, SUPLÍCIOS E ELEVADORES.

Joãozinho tinha se atrasado para sair de casa e estava afobado para chegar logo à escola e não perder a prova do dia. Fechou a porta e esperou impaciente o elevador ir ao seu andar.
Bastou o elevador chegar para que tivesse a ingrata surpresa de ali encontrar aquele vizinho cinquentão e seus assuntos sem assunto. Pois é, papo de elevador é pura função fática fadada ao insucesso. Quando não se fala sobre o tempo, sobre corrupção na política ou sobre o cansaço da vida moderna, repousa sobre o ambiente um silêncio irritante.

Joãozinho morava no prédio desde que nasceu e todos o viram crescer. De uma criancinha que vivia com a fraldinha cheia, virou um rapaz não muito alto. Fato é que os vizinhos costumavam associá-lo, sempre, à primeira impressão ("a primeira impressão é a que fica") que tiveram: a criancinha de fraldinha. E dali vinha não só o apelido no diminutivo, como também o discurso batido, tanto dentro do elevador, como dentro do prédio, na rua ou no supermercado, ...:
- Mas como você está grande! - Tá crescendo, hein? - Vai chegar ao teto! - Já tá um homem!

Joãozinho já estava acostumado. Não havia uma pessoa que falasse coisa diferente, fosse adulta, fosse idosa, fosse homem, fosse mulher. E todos o viam com certa freqüência, de forma que não havia como haver tanto espanto com seu crescimento, que, aliás, já havia dado uma séria desacelerada havia algum tempo, estando quase imperceptível. Ele reconhecia o carinho das pessoas e a falta de assunto melhor, mas, como não tinha palavras insossas à altura para responder tais comentários, limitava-se ao sorriso amarelo sem-graça, quase envergonhado.

Na pressa daquele dia, a lei de Murphy fez-se presente. Mal entrara no elevador, mal cumprimentara o tal do cinquentão, mal apertara o botão para a portaria, quando o elevador deu defeito, parou e os dois vizinhos ali ficaram presos. Joãozinho viu que iria, de qualquer jeito,, perder a prova e tratou de se acalmar, afinal, era só fazer uma segunda chamada, daria até para estudar mais.

E ali estava Joãozinho, com o vizinho cinquentão no elevador, na tal situação do silêncio fastidioso. (Antes que vocês pensem que vai rolar alguma pederastia na situação... não, não vai.) Eis, porém, que o cinquentão decide quebrar o silêncio, mostrando sua linguagem de cinquentão pseudo-antenado em tendências jovens.

- E aí parceiro, agora vamos ter que esperar.
- Pois é... - falou Joãozinho sem jeito.

Ficaram dois segundos ouvindo o eco de palavras jogadas ao ar, esperando que alguém retomasse o verbo. Pensaram, pensaram, e não veio assunto à cabeça. Falar do tempo? Ah, hoje está sol, mas é dia de semana, que diferença faz? Falar da corrupção na política? Bah, coisa de revoltado ou de nerd. Falar do cansaço da vida moderna? Isso é coisa de velho, o que Joãozinho de fato não era, e que o cinquentão tentava a duras penas abafar. E, depois de alguma reflexão, surgiu o tal assunto.

- Mas como você cresceu, hein rapaz?
- Pois é...
- Tomou fermento?
- Não, que isso.
- Tá fazendo alongamento?
- Faço não.
- Tá tomando hormônio?
- Preciso não. - respondeu Joãozinho. Caraca, que saco. Precisava ele explicar que há uma coisa hipófise, que produz uma coisa chamada somatotropina que promove uma coisa chamada crescimento?
- Quando eu era moleque, a gente não era grande assim não. É que a alimentação da geração de vocês é muito diferente. Tem tanta gente com mais de dois metros. Aliás, você já pensou em jogar basquete ou vôlei?
- Nada... fico só na pelada, mesmo.
- Ahn, sei, só na pelada. Revista de mulher pelada, você quer dizer?

Joãozinho riu desconcertado. Que ele lá tivesse suas Playboys ou suas fotos e vídeos "impróprios" no computador, mas o que haveria de ser falado naquela hora? Que ele realmente adorava deleitar-se com tal tipo de material? Perguntar se o tiozão queria emprestado? Respondeu quase constrangido:

- Ah, também, né!
- Ahnn... sei. Mas você está com que altura? - perguntou o tiozão, mostrando ser ruminante no aspecto assuntos e conversas.
- Quase um metro e oitenta.
- Nossa, até ontem você era um bebê, andava no carrinho! E por falar em outro carrinho, já tirou carteira?
- Ainda não, só faço dezoito no final do ano.
- Dezoito anos, já vai poder comprar Playboy legalmente! Haha, que barato! - o cinquentão comprovadamente ruminava assuntos.

Joãozinho já estava de saco cheio daquela conversa, quando lembrou que o elevador possuía alarme. Apertou-a imediatamente, desviando-se de qualquer assunto que o vizinho levantasse. Pouco lhe importava ficar preso naquele elevador, mas estava desesperado para fugir daquela conversa circunstancialmente impreterível. PIII PIII pra cá, PIII PIII pra lá e o elevador por aparente milagre voltou a funcionar.

Chegaram ao térreo e, quando iam se despedir, Joãozinho foi importunado por mais três moradoras, três velhinhas, que esperavam o elevador parado com sacolas de compras do supermercado.

- Mas era o menino que estava aí preso, coitado! - ressaltou uma delas, logo em seguida vertendo sua fisionomia para o espanto de quem vê tudo mudado - Meu Deus, como você está crescido!
- É mesmo, Bete! Lembro de quando lhe comprei um chocalho para o chá de fraldas, e olha como ele está agora! - endossou a outra.
- Mas está uma gracinha, deve estar fazendo um sucesso entre as meninas da classe! - apostou entusiasmada a terceira idosa.

Já era muito para Joãozinho. Não bastasse o cinquentão, que àquela hora já sumira de seu campo de visão, agora vinham aquelas doces senhoras com suas amáveis palavras. Pobrezinho... ele não era tão grande, ele não lembrava do chocalho e muito menos era tão popular assim entre as meninas.

- Meu filho, você pode nos ajudar a subir com as compras?
Joãozinho respondeu positivamente, afinal, já não ia mesmo para a escola e de nada custava ajudar aquelas velhinhas. Cumprido o favor com carinho, voltou para casa, no que a mãe o atendeu com feição aborrecida e desatinou a falar após reputar como lorota a tentativa de explicação que lhe foi dirigida pelo filho:

- Mas você já é quase um homem, tem que se programar para imprevistos. Veja, você não é mais aquela criancinha que precisa ficar sendo acordada, lembrada, conduzida. Quase um homem!

Depois de tanta aporrinhação, Joãozinho trancou-se no quarto impaciente. Revoltado como adolescente, ranzinza como um velho. Não mais sabia o que era. Quase um homem, talvez.

Marcadores:

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

MOMENTO POEMA.

Poema... coisa que raramente faço. Então vão dois escritos recentemente.
Gostaria de dizer que o primeiro, por mais incrível que isso possa parecer, foi escrito num dia em que estava muito feliz e animado. Sei lá como ele apareceu.


CAMINHO ATÉ A BEIRA DO PENHASCO
(mas sem coragem de dar o último passo)

Quando tudo parecia dar errado,
surgiu o milagre.
Quando tudo parecia dar certo,
surgiu o imprevisto.
Quando tudo tendia a fúria,
surgiu a palavra.
Quando não havia mais palavra,
fez-se o silêncio.

Quando tudo era silêncio,
fez-se o escuro.
E aí, tudo pareceu perdido,
e não surgiu um norte,
e não surgiu a sorte.
Também não surgiu a morte,
e ficamos a ver navios,
porque não deu pra soltar as amarras.



NÃO É NO GOOGLE
Procure espaço,
procure o compasso ,
procure o escasso,
procure um traço.

Procure o ócio,
procure negócio,
procure o sócio,
procure consórcio.

Procure conforto,
procure o porto,
procure torto
procure o horto.

Procure o fio,
procure o Rio,
procure no cio,
procure o plantio.

Procure, enfim,
procure assim,
procure o fim...
Procura sem fim.

Marcadores: ,

E O CALENDÁRIO DE 2020

Hoje é 24 de agosto de 2007. Diga-se de passagem, completam-se 53 anos do suicídio de Vargas. Pegue o calendário de seu celular ou do PC e veja o dia 24 de agosto de 2020. O que você vê? Um dia em branco? Uma nebulosa?

Futuro, meu caro futuro, ele está lá. Coisa estranha ver o dia ali, ver todos os dias ali, saber que eles existirão, mas não saber se você estará lá para ver tudo acontecer e, caso esteja, não saber como acontecerá. Mas imagine-se lá, acordando e vendo no relógio ao lado, estampado, 24/8/2020. Você, como bom conhecedor de história, há de se lembrar que é dia de celebrar a morte do mais importante presidente do Brasil (se nenhum outro à altura aparecer até lá... acho difícil).

Mas e daí? Você se levanta e toma café? Você beija sua mulher e vai trabalhar? Você está entrevado numa cama sem poder andar? Você está rico? Você está pobre? O dia está chuvoso ou o tempo está aberto? As pessoas falam com você? Você está em que cidade? Seus amigos de hoje ainda são seus amigos? Muitos de seus parentes já são falecidos?

Dúvida que instiga, dúvida que fascina, dúvida que angustia. Esses dias estava observando o dia 16 de julho de 2049, o dia em que, com a graça das graças, completarei meu sexagésimo aniversário. Já serei eu vovô nesse dia? Já serei pai? Serei alguma coisa na vida? Terei motivos para ter orgulho? E para ter satisfação? Já terei vivido o triplo de tempo que já vivi... por que experiências terei passado? Garanto que muitas agradáveis, e muitas desagradáveis. Quais?
O que me espera para que eu chegue até lá?

Não aguento mais apertar o botão do ponto de interrogação. Aliás, fazer isso é tão fastidioso quanto povoar a cabeça com essas suposições sobre o futuro. Também não adianta planejar em minúcias algo que depende de tantas variáveis que me fogem ao controle. E... veja bem... futuro para ser futuro tem que surpreender. Mas uma surpresa que só pode ser percebida quando nos lembramos dele já enquanto passado. Algo do tipo:
"Caraca, jamais pude imaginar que tudo isso fosse acontecer, e ainda mais dessa forma!"

Encerro, e peço que não me apedrejem, com o maior dos clichês, embora o mais verdadeiro, desde que interpretado convenientemente.

carpe diem.
(amanhã vou à praia)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

PET SHOP BOY

- Olha, mãe, que bonitinho.
- É minha filha, veja que fofinho.

O menino estava sentado na calçada, à penumbra das luzes das ruas e das vitrines. Seu olhar era distante e sua fisionomia era abatida.

- Mãe, porque ele está sozinho?
- Porque ele vai ser vendido, oras.

O menino não tinha pais. Não os conhecera. Vivia sozinho. Não estava acostumado a carinho, nem a atenção. Era só mais um infeliz, como muitos, tentando ser indiferente à própria vida e à própria realidade, pouco lhe importando se o destino lhe seria favorável ou excludente.

- Mas ele não sente saudades dos pais?
- Mas ele é bicho, Carolina!

O menino também não sentia saudades dos pais. Como poderia tê-las, se nem os conhecera?
Se ele era bicho, talvez Manuel Bandeira dissesse que sim.

- Porque ele está tremendo de frio?
- Porque deve estar frio lá dentro.

No frio da rua, o menino também tremia. Não só de frio, mas de fome e de desespero. Não tinha agasalho, não tinha atenção, não tinha escola, não tinha dignidade, não tinha alguém que com ele se preocupasse, não tinha teto, não tinha aquele edredom para noites geladas, nem a sopa quente e nutritiva que vovó faz.

- Vamos comprar, mãe?
- Tá maluca, Carol? Não tem como levar não, deixa que outra pessoa compra e cuida.
- Ahhhhhhh... por favor, por favor!
- Não. Agora vamos embora.

E foram-se embora sem notar que ao lado da vitrine do pet-shop, onde ali estava um exemplar de fofura vendido por não menos que um salário mínimo, havia um menino. Um menino sem fofura, um menino que nem salário mínimo valia, mas que também estava sozinho, não tinha pais e tremia de frio.

Por ser menino, por estar no escuro ou por ser só mais um entre muitos meninos desse Brasil, passou despercebido.
Talvez se fosse cachorro, numa vitrine, iluminado e em destaque, alguém lhe desse atenção.

Invejando uma vida de cão, o menino deitou-se no chão, encolheu-se de frio e fechou os olhos, desejoso de que na próxima encarnação nascesse cachorro.

Marcadores: ,

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

SÓ FALTOU A SUÁSTICA.

(rapidíssima)

Não sei se vocês acham humilhação entrar nessa loja popular, mas eu vou numa boa. E compro. No entanto, eles sempre estão lançando umas camisetas cujas estampas me deixam irritados demais. Em geral, são temas políticos que poucas pessoas conhecem e acabam usando a camisa sem ter a mínima idéia do que seja. Há um tempo atrás, eles lançaram uma camisa onde havia escrito CCCP. Para quem ainda não sabe, CCCP era a abreviação, em russo, de URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Quem sabia disso? Garanto que poucos. Quem conhece a história da URSS? Quem tem uma mínima idéia do que foi a experiência soviética? Quem sabe o que é socialismo, comunismo, Marx, Lenin, Stalin,...? Quem aceitaria desfilar conscientemente com o nome de uma das potências da Guerra Fria? Eu lá sei.

Mas isso não é nada. Ontem a Renner me reservou uma surpresa especialmente desagradável. Há agora uma linha de camisetas com temas alusivos à Alemanha, não sei se é coisa desse ano ou se é sobra de estoque do ano passado, quando houve a Copa em terras germânicas. Estava lá passeando pela loja, quando vejo uma Cruz de Ferro estampada, com uma águia atrás. Para quem não sabe, a cruz é um dos símbolos da Wehrmacht, o exército nazista alemão responsável por uma série de atrocidades notórias. A águia não estava no formato nem na posição utilizados nos tempos nazistas, mas perceptivelmente era uma águia. Em volta da imagem, a inscrição "STARKER MANN", que quer dizer homem forte. Uma alusão ao Reichsführer - "guia do império" -, título ao qual Adolf Hitler atendia?
Mais a frente, outra camisa da mesma série. Dessa vez, só havia a Cruz de Ferro, com as inscrições circundantes: "Blue Steel - Revolutionary Culture".
Sinceramente, acho que só não estamparam a suástica porque é crime ostentá-la.

Marcadores:

quarta-feira, 11 de julho de 2007

APARELHO DE FONDUE.

Maldito hábito de guardar as coisas e nunca usar. Acho que foi comportamento herdado dos egípcios, que levavam vários pertences para a tumba na esperança de usá-los em outra vida.

Fato é que o aparelho de fondue estava guardado desde 1984. Intacto, no armário lá de cima, aqueeeeele que ninguém nunca mexe, junto com vários outros presentes.

Presentes de casamento. O casamento aconteceu há 23 anos atrás. Amigos, parentes e etc. presentearam os jovens noivos com várias coisas para a casa. Jarras, talheres, cristais, pratos e também um aparelho de fondue importado. Ficou lá ele encostado.

Nesses 23 anos, muita coisa aconteceu. Viagens, brigas, encontros, desencontros. Filhos, claro, filhos, cá estou eu! Separação... nem tudo é pra sempre. Mudança de casa. Cada um para um canto. Os presentes foram parar com a noiva.

O aparelho de fondue, vocês sabem, ficou na casa da noiva, no tal armário. Armário quase intocado, como se guardasse um resquício de um passado talvez não muito bem assimilado. Estava lá, tudo embaladinho. A panela do fondue brilhante, sem uma ferrugem sequer, com seu cabo de madeira ainda lustrado. Quatro garfinhos, com pontas bem afiadas e cabo de madeira, também, cada um com uma bolinha de plástico de cor diferente em sua ponta. Bonitinho o detalhe. Estavam todos eles embaladinhos em papelão, bonitinhos, esperando quase que sentados para serem usados. Junto do conjunto, uns cinco potinhos tipo cinzeiro, pretos. Envoltos em plástico-bolha, o qual não tive coragem de estourar, lá estavam os potinhos coladinhos, também embalados em papelão. Esperavam a carne, o pão cortado ou as frutas a serem banhadas em chocolate.

A caixa do aparelho de fondue mostrava uma foto ilustrativa do que seria jantar fondue a dois. Duas taças de vinho, o fondue e a fumacinha saindo da panela. Colada na caixa, um adesivo da Roberto Simões (Presentes de qualidade, presente em Copacabana, Leblon, Ipanema, Centro, bla bla bla). Não achei a carta de votos de feliz matrimônio para identificar quem comprou o presente e acabei ficando na curiosidade.

Acabou que hoje eu precisei de um aparelho de fondue. Bem, eu sabia que havia um guardado lá no armário. Não hesitei em pedir, mas hesitaram em me atender. Depois de alguma conversa, consegui. Tão logo estive com ele em minhas mãos, bateu uma peninha de usá-lo. Bem... após esperar mais de vinte anos para ter sua serventia, ele já devia ter desistido de ser usado. Embaladinho, parecia estar em um sono profundo de decepção, de inutilidade.

Mas eis que eu o acordo. Tiro-o da caixa, desembalo tudo, lavo cada peça e o monto. Jogo álcool na parte de fazer fogo, acendo um fósforo, e ele começa a produzir calor e uma luz azul. A panela vai ao fogo e recebe aquele queijo meio estranho de fondue, que logo é derretido. Com os garfinhos, espetam-se pães que se lambuzam no tal queijo e vão à boca em deleite gastronômico. Os potinhos não foram usados, ficando para a próxima.

Acabada a comilança, vai tudo à pia . Detergente, esponja, muita esfregação, água e etc. E então estava tudo limpinho, pingando e escorrendo. O aparelho de fondue teve sua primeira vez, e agora estava ali, como qualquer outro estaria, esperando para ser guardado e utilizado em ocasiões futuras.

Será que ele ficou feliz? Ou preferiria o dito cujo ter ficado ali, guardado, embalado, conforme saiu da fábrica no início da década de 80? Época essa quando não havia internet, quando não havia celular, quando eu não era nascido... quando entre dois noivos ainda havia a magia de um casamento, de que hoje sobrou alguma amizade e vários presentes que, por razões adversas, não tiveram a oportunidade de serem usados. A amizade está guardada no coração (ó que piegas!). Os presentes, no armário lá de cima. Aquele tal armário, sabe?
Até quando, não se sabe.



Curiosidade: Minha avó, casada em 1956, ainda guarda presentes de casamento nunca usados. Suponho que isso seja uma forma de fazê-los ganhar valor de mercado para serem vendidos a um antiquário. Vai entender.

Marcadores: , ,

quarta-feira, 20 de junho de 2007

SAMY DA BOLIVAR NÃO TEM A NAMORADA.

Pode parecer manchete de jornal, reportagem de capa de revista de fofocas ou até mesmo mensagem de telegrama em código, mas é essa a mensagem escrita num dos principais túneis da cidade.

Quem é Samy? O que é Samy? Com esse apelidinho nada masculino, fico na dúvida do sexo e também da opção sexual desse personagem (ave substantivo comum de dois gêneros!) infeliz que não tem a namorada. E o detalhe mora aí: ele não é um solteiro qualquer, que não tem namorada, ele simplesmente não tem a namorada. Na verdade, fico pensando se esse(a) tal é mesmo solteiro(a) ou se ele(a) é negligenciado(a) pela namorada, num namoro de mão única.

Para ser conhecido como Samy da Bolívar, creio que ele tenha alguma relevância nesse grupinho ou nesse lugar que se chama Bolívar. Vai ver é o chefe de uma trupe de pré-adolescentes que aterroriza parquinhos infantis ou que joga ovos na careca dos velhinhos. Pode ele estar na época de descobrir o amor, envolvendo-se naqueles casinhos infantis em que a menina ainda morre de vergonha de andar de mãos dadas ou de beijar o rapaz, daí parecer que eles nem namoram.

Mas volto à tal da namorada. Quem seria essa moça tão estimada capaz de esnobar o honrado Samy da Bolivar? Será que ela recebeu flores no Dia dos Namorados ou ganhou um presentinho de nosso amiguinho Samy? Será que Samy é tão romântico? Imagino Samy indo à floricultura todo animadinho, comprando umas flores a dedo, ensaiando um versinho e, ao declamá-lo e entregar o presente à namorada, ser tomado em deboche pela parte amada. Será que Samy lamenta a falta de reciprocidade da relação?

Eu sei lá. Só vi que no túnel tava escrito que ele não tem a namorada. Na verdade, acho, ou tenho certeza, de que Samy não tem bons amigos. Pensando bem, quem pegaria seu spray de grafite para espalhar pelas ruas da cidade um problema amoroso entre um casal de namorados? Talvez um mal-amado também desejoso do afeto da moça. Talvez alguém que queira se vingar do maquiavélico Samy, que já tramou ciladas para muita gente. Talvez um louco, o próprio Samy!, que adora referir-se a si próprio em terceira pessoa, num relato auto-biográfico.

Realmente não sei. Mas que está lá, está lá. E para quem quiser ler. Passando de ônibus rumo ao trabalho, voltando para casa, cruzando o bairro ou até mesmo espairecendo na urbanidade do túnel, todos tomam conhecimento de que Samy da Bolivar não tem a namorada. Anúncio profético, revelador, momento apoteótico da vida de qualquer um, capaz de mudar a rotina de muita gente.

Marcadores:

sábado, 16 de junho de 2007

Bolo e guaraná... é o seu aniversário!




Não sei quando o So What's Beyond foi pensado, mas sei que ele veio ao mundo dia 16 de junho de 2006. Lembro que era uma daquelas sextas-feiras de tédio e que eu estava com muita vontade de escrever algo além daquelas dissertações escolares quinzenais de 25 linhas.

E assim foi feito."So What's Beyond?" nasceu com uma mensagem meio pretensiosa de apresentação, alguém querendo posar de enigmático. Até hoje não entendo porque batizei o blog com esse podre e também pretensioso nome em inglês. Se fosse hoje, não colocaria nada nessa língua, mas usaria um nome brazuca do melhor estilo.

Meus primeiros textos tinham como tema básico os relacionamentos e o comportamento humano, com enfoque em alguns sentimentos como a amizade (e as críticas a algumas hipocrisias - como eu gosto disso), o alívio, o sofrimento por antecedência, entre outros. Às vezes o SWB ficou um pouco auto-ajuda, como aconteceu com o texto do sucesso, fruto de muita reflexão e conversa prévias. Certo dia, resolvi expôr algum sarcasmo e acidez, num texto levemente humorístico sobre os clichês de orkut, que teve sua segunda edição há pouco tempo. Ambos posts receberam muitos comentários e elogios, bem como a outra sátira bem recente informações úteis.

Mas teve um dia em que eu sentei inspirado na cadeira do PC e escrevi, numa tacada só, um texto que eu considero um divisor de águas entre minhas publicações. Os que me conhecem, sabem que esse é um dos meus preferidos. Tá aí, "Como se sente uma pessoa depois de matar alguém?" a razão por que já me chamaram de mórbido, maluco e etc. Ok.

Outros relatos com comentários filosóficos e comportamentais também marcaram presença nesse um ano de blog, como é o caso do texto sobre o pombo que presencia a agonia de seu semelhante, e do meu queridíssimo "pisando em fezes", uma descrição quase-emocionante das reações de quem se apóia onde não deve.

Mas foi pelas crônicas que eu descobri grande vocação, a começar pelo hilário "mundo e os gordinhos" , que trazia a descrição de um fato que me aconteceu de verdade e algumas críticas (mal-feitas) a certos aspectos sociais vinculados à obesidade. As rapidinhas (I, II e III) também trouxeram historinhas engraçadas do cotidiano, além de outras notas mentais de fácil digestão, valendo destacar a rapidinha IV, que trouxe um desabafo sarcástico contra a calamitosa criminalidade. Noutro dia, quis escrever sobre uma observação socio-econômica que há muito já fazia, e saiu um panfleto de "reajustem a esmola". Outra mensagem de cunho social que destaco foi o relato quase-emocionado do trabalho duro de muita gente que não tem emprego, baseado num dia de perambulação pelo centro do Rio, onde várias coisas me tocaram. Destaco também a crônica do consultório médico, construída após muita observação in loco.

Superei-me na introspectividade com o texto sobre "a morte (alheia) - sic", que aborda essa tão discutida questão humana da ótica de quem fica , e também com a imperdível análise sobre as várias modalidades do ato de chorar . Mas um dos meus preferidos dessa linha é o ensaio sobre o ato de burlar, escrito num momento de certa inspiração.

Fiz também um texto enigmático num momento de raiva, em que eu me impunha certa censura, tamanha minha covardia para dizer com palavras ofensivas e diretas que eu achei certa coisa uma grande bosta. A senha para ler o tal texto poucos descobriram, e quem o fez viu que não havia crítica nenhuma ao carnaval, mas sim à carnavalização de certas coisas.

E um dia, depois de muitos textos num certo padrãozinho, acordei com vontade de fazer um texto maluco (para os meu padrões) . Eu tinha um rascunho sobre a preguiça humana, que sairia como mais um texto normal "conto que ilustra x. o que é x? exemplos de x", mas eu de repente mudei a história toda e botei Noé no meio, numa alucinação de ares apoteóticos, e assim saiu "a hora de abrir o guarda-chuva". E não expliquei nada, cada um entendeu uma coisa, foi uma barbaridade. A mesmíssima coisa aconteceu com o texto (prosa? poema?) que mostra a observação de várias pessoas interrompendo suas atividades para irem à janela verem se um carro se espatifou logo embaixo. Nada diferente na penúltima postagem, o conto que reputo como um dos mais interessantes, pela história e pela crítica: "E tudo termina em..." .

Chegamos aqui, à mensagem de um ano do SWB, após uma breve e pouco linear retrospectiva das águas que rolaram nesse período. Eu preciso agradecer a todos vocês que por um ano leram o blog, comentaram e participaram de alguma forma. Essa interatividade é muito gratificante, e vocês não fazem idéia de quanto eu fico feliz quando me contatam no MSN ou me param na escola para dizer "Pô, sabe aquele texto? Achei muito legal!".

Daqui a pouco vou ficar sem palavras.
Muito obrigado, meus caros.

Até o próximo ano... :-)
Felipe Drummond
16/6/2007

segunda-feira, 4 de junho de 2007

E TUDO TERMINA EM...

Era madrugada e não chovia. Chegou à delegacia um homem, fortinho, com seus 25 anos, acordou o funcionário de plantão e avisou rapidamente que estava indo para a sala do delegado, recebendo como resposta grunhidos indecifráveis. Rumou ao fim do corredor e, esmurrando a porta do Dr. Silveira, desatinou a falar para o também dorminhoco delegado, sem perceber que esse estava passeando nos recantos do inconsciente, numa Pasárgada onde os delegados podem dormir à vontade.
- Dr, eu matei uma pessoa.
- Mmmmm, aaaaahhh... só daqui a pouco, vai.
- É o senhor quem sabe.

Sentou-se na cadeira impaciente, enquanto o delegado ajeitou-se na poltrona, encostando sua cabeça no estofado, sem antes coçar seu sobressalente papo. Depois de ver o delegado roncar e até mesmo babar, o cidadão resolveu pronunciar.

- Delegado, eu matei uma pessoa. Vim aqui confessar, oras!
- Confessar o que... eu lá tenho cara de padre? - respondeu o agente da lei, tentando emergir ao estado de vigília.
- Doutor... você pode achar estranho, mas... eu matei o padre!

O delegado esboçou um franzir de sombrancelhas e repetiu, sílaba por sílaba, sem demonstrar qualquer exaltação digna da comoção esperada pelo assassinato do padre do bairro.

- Vo-cê-ma-tou-o-pa-dre?
- Matei. A pauladas.

O delegado levantou-se da cadeira, ajeitou o colete, respirou fundo e pronunciou-se a respeito.
- Ahn... bem... vamos fazer o boletim de ocorrência.
- Mas eu não vou ser preso? - perguntou o assassino com uma pontinha de esperança.
- Calma calma, vamos por partes.

O delegado sentou-se à máquina de escrever e começou a datilografar. "Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 1971" Sonolento que estava, demorou a perceber que a máquina estava sem papel.
Abriu a primeira gaveta e tateou-a em vão. Abriu outra gaveta e nada.

Olhou para a máquina, a máquina olhou para ele. E nada. O delegado virou-se para o criminoso confesso e fitou-o com um olhar insípido, como se estivesse diante de um "ladrão" de amostra grátis de supermercados, aqueles que pegam várias vezes a amostra para não ter que comprar o produto. Abriu a boca, mas hesitou em falar. Respirou fundo e disse em ar solene.

- Olha, meu filho, estamos sem papel para fazer o BO. Se você puder voltar amanhã, em horário comercial, eu ficaria agradecido.
- Mas doutor...! - falou o assassino, estupefato com o que ouvira.

Talvez o delegado fosse inimigo do padre. Talvez fosse anti-eclesiástico. E talvez fosse o sono o responsável por tamanha indiligência. Ou talvez fosse a fome. Fato é que o delegado, sempre que acordava, tinha uma fome da pesada.

Abriu sua agenda de telefones e ligou para a pizzaria mais próxima. Nessa hora, o funcionário de plantão e seu estômago já estavam bastante despertos. Cordial como só, o delegado ofereceu antecipadamente o alimento ao subalterno e ao homicida.

- Vocês aceitam?

Não tardou e todos compartilharam do mesmo pão (com queijo, orégano e outras coisas em cima). E o vinho? Bem... se a igreja mais próxima, onde naquela exata hora putrefazia-se o corpo do padre, não fosse tão longe, era só ir lá buscar que a ceia estaria completa. Ninguém iria notar mesmo.

Marcadores: , ,

sexta-feira, 25 de maio de 2007

a janela que tudo ouve, mas nem tudo vê.

O carro seguia.

A dona de casa lavava a louça.
A criança dormia.
A idosa assistia à televisão.
O casal bebia.
O vestibulando estudava.

O carro freou.

A dona de casa deixou o prato cair.
A criança roncou.
A idosa mudou de canal.
O casal se serviu de vinho.
O vestibulando perdeu sua concentração.

O carro começou a cantar pneu.

A dona de casa fitou o prato em cacos.
A criança mudou de posição.
A idosa mudou de canal novamente.
O casal fez tim-tim.
O vestibulando bateu na mesa.

O carro bateu.

A dona de casa foi para a janela.
A criança acordou sobressaltada e foi para a janela.
A idosa pegou sua bengala e foi para a janela.
O casal levantou-se e foi para a janela.
O vestibulando pulou da cadeira e foi para a janela.

Olharam, olharam... nada.

A dona de casa foi recolher os cacos do prato.
A criança voltou à cama.
A idosa voltou para a poltrona, pois a novela já ia começar.
O casal pôs-se a bebericar.
O vestibulando tornou a estudar.

O carro, bem... devia estar na rua de trás.

Marcadores:

sexta-feira, 11 de maio de 2007

A HORA DE ABRIR O GUARDA-CHUVA

Estou andando pela rua e começa o leve ruido da chuva. Ela vem rala, inconstante, incapaz de alterar minha indiferença. As pessoas, porém, apertam o passo, pois não querem chegar molhadas. Algumas abrem o guarda-chuva, mas o meu está no fundo da mochila, lá atrás.

A chuva engrossa um pouco. Os óculos recebem alguns pingos por conta do vento que a faz cair oblíqua. Nada que atrapalhe significativamente a visão, mas que é capaz de trazer alguma irritação. A pele já está úmida, mas continuo a andar sob a chuva. Não vale a pena pegar o guarda-chuva, daqui a pouco ela deve parar.

Mas ela não desiste. Pingos mais grossos começam a cair e a camisa já parece um tanto molhada. O cheiro de chuva torna-se forte. Cheiro estranho, ora aprazível, ora repugnante. Algumas pessoas buscam se proteger como podem: colocam sacos plásticos na cabeça, andam curvados, entram numa marquise. Os mais precavidos abrem o guarda-chuva. Aliás... porque não abro o guarda-chuva?

Não vou parar pra decidir, dane-se. Vamos pernas, rápido. Não olha em volta, não olha em volta. Andar firme e decidido, andar firme e decidido. Marchando, marchando, correndo. Pára, chuva, porque eu não quero parar pra pegar o guarda-chuva! Pára!

[...]

Essa filha da mãe conseguiu me tirar da indiferença, mas afirmo com plena certeza que ela é totalmente indiferente a mim. Essa insensível, incapaz de ouvir os meus clamores... Vai refrescar o inferno e o diabo, vai!

Mas então ela me ouve. E aumenta. E aumenta. E aumenta. E tudo fica molhado. E a água sobe até minhas pernas, sobe até o meu peito. Está formado o dilúvio.
E vem Noé, com sua barba encharcada, suado e meio p*** da vida por estar trabalhando em condições insalubres. Ele me leva para sua arca.
Onde está o meu par belo e maravilhoso para continuarmos a espécie?
- Já tá aqui de favor, estou salvando você desse aguaça... não reclama! - responde o velho.

[...]

Puta merda, onde fui me meter?
Ai... meu guarda-chuva, querido guarda-chuva, onde você está?
Mas agora já é tarde...

Marcadores:

domingo, 29 de abril de 2007

RAPIDINHAS 4

ESPECIAL CRIMINALIDADE.

SINAL DOS TEMPOS
Vinha conversando com o taxista, quando surgiu o assunto criminalidade. Ele disse que já havia sido assaltado muitas vezes, mas que já havia bastante tempo desde o último assalto: dezembro de 2006.

ESSAS COISAS...
Assistia a TV, coisa que raramente faço, quando apareceu um repórter ao lado de alguns elementos com a face borrada. Em seguida, ele disse: "estão aqui os menores que foram apreendidos pela polícia". Ele não disse isto, mas eu concluí que as apreensões do dia juntaram-se às armas e drogas que serão destruídas em breve no Aterro do Flamengo. Bem que muitos gostariam.


EGOÍSMO SALUTAR
Roubaram de um amigo meu, além da paz e de algum dinheiro, o MP3. Abordaram-no de bicicleta em Ipanema e ele teve de entregar tudo, sob pena de levar um tiro. E ele entregou aquela caixinha musical recheada de preciosidades como Jethro Tull, Muse, Pink Floyd e outras maravilhas.
Eu não quero, de jeito algum, que aquele energúmeno se deleite nos mesmos sons que me fascinam. Não quero que ele fique exuberado com os solos fantásticos do Pink Floyd, nem com a flauta contagiante do Jethro Tull. Não quero! Imagina se ele vai em direção à próxima vítima assobiando Bourée, crássico do J.T.? Não dá, é quase como ver, ou melhor, ouvir o paraíso antes de chegar ao inferno.

PESADELO
Sonhei que estava andando por Copacabana com minha máquina fotográfica. Sabe-se lá por que, estava com ela na mão. Caminhava reto, quando me aproximei de um grupo de meliantes, tentando esconder a máquina. Fazia uma força incrível, mas não conseguia colocá-la em sua respectiva bolsinha. Eles viram a máquina e me lançaram um olhar diferente, algo como "olha o cara aí". Apertei o passo, mas eles vieram atrás, e depois ficaram me circulando em espiral, cada vez mais se aproximando de mim e aí não sei mais o que aconteceu. Foi mal, gente.

VONTADE
Gostaria de ter um rifle de longo alcance, com aqueles scopes potentes, para ficar o dia inteiro plantado em algum lugar, esperando a hora certa de estourar a cabeça de algum pilantra que aterroriza essa cidade. E já tem dois anos que não jogo Counter-Strike!

REGIME SEMI-ABERTO
Eu e meus amigos vivemos em regime semi-aberto. Habitamos o complexo penitenciário Zona Sul, cada um em pavilhão (Copacabana, Ipanema, Leblon, ...) e respondemos ao artigo I do Código Quemal Brasileiro: possuir mais dinheiro que o necessário para fazer um lanche. No entanto, temos a grande regalia de poder sair para estudar durante a semana, sempre sujeito a algum tipo de coerção das forças superiores, como furtos, ameaças, seqüestros-relâmpago, entre outros. Mas é preciso voltar para a cadeia antes das 10, sob pena desses processos coercivos se acentuarem, chegando a custar a nossa vida. No fim-de-semana, temos o banho de sol, o banho de chuva (eita tempo maluco!) e as visitas íntimas. Mas o horário para voltar ao cárcere permanece. Estamos presos sem condenação formal e não sabemos qual será nossa pena. Tem alguns que acabam levando pena de morte ao acaso (convencionaram chamar de bala perdida), mas enquanto isso ou outra coisa não acontece, parece que estamos sob prisão perpétua.

(Ouvindo: Banda - Musica)

Marcadores:

quinta-feira, 12 de abril de 2007

NO CONSULTÓRIO (particular)

Em geral, tudo começa com uma dor. De cabeça, de estômago, na articulação, de cotovelo,... não importa. Detectada a irregularidade, é hora de averiguá-la e tratá-la. Ansiedade pelo diagnóstico, preguiça de ter que fazer algum tratamento, medo de tomar injeção ou de ter que operar, ... especular não adianta, é preciso ir ao médico.

I. A ESCOLHA
Por indicação de conhecidos, unidunitê no livro de credenciados do plano de saúde ou método diferente, escolhe-se o médico com quem será feita a consulta, a ser marcada por telefone.
- Consultório do Dr. Epaminondas Silva, bom dia. - atende a secretária, com voz cansada quase-simpática.
- Bom dia, eu gostaria de marcar uma consulta...
[...]
- Só tem quarta-feira, às 3:00.
- Tudo bem.
- Então está marcado, senhora. O endereço é Rua Bla bla, 123, sala 321.
- Obrigado e confirmado.

II. A PROCURA
Papel à mão com o endereço anotado, busca-se o prédio do consultório. Acompanhante? Sempre, afinal, diante da possibilidade de não ter boas surpresas durante a consulta, é bom levar um ombro amigo para dar apoio moral.
Acha-se o prédio, que é grande, com várias salas. Elevadores? Em geral dois, que andam sempre lotados. Só em um há ascensorista, responsável por ouvir os andares e apertar os botões respectivos, sem esboçar qualquer reação facial.
Chegando-se ao andar, é hora de procurar o consultório. Olha-se de porta em porta, verificando a plaquinha. Médicos, dentistas, advogados, psicoterapeutas, portas sem plaquinhas (aí podemos imaginar mil coisas... serviço de acompanhantes? contrabandistas?), olha ali o Dr. Epaminondas!
Diante da porta, respira-se (suspira-se?) fundo. Após captar coragem, dedo em riste rumo à campainha.

III. PRELIMINARES
A eternidade entre o "dlin-dlon" e o girar da maçaneta pelo outro lado é considerável, tempo capaz de se pensar em mil coisas, na vida e no futuro que pode selar aquele médico em cujo consultório se entra.
A secretária, cuja aparência física fantasiava-se através da voz, dá o ar da graça com um "boa tarde", ou, se estiver ocupada ao telefone, o que não é raro, limita-se a sorrir.
Na sala de espera, outras pessoas: moças com crianças pequenas, senhoras arrumadas e senhores engravatados, com pasta no colo e olhar cansado. Em geral, folheiam alguma revista de amenidades, como Caras ou Veja.
Basta entrar no recinto para que todos se voltem à nova presença,. Em seguida, os olhares retornam ao desencontro típico de sala de espera. Quem está acompanhado, fala aos sussuros. Quem está com criança, divide o tempo entre controlar o pequeno e tentar ler alguma coisa. Quem tem a pasta, pigarreia. Na verdade, todos podem e costumam pigarrear, basta que estejam um pouco nervosos e/ou tenham algum problema de garganta.

Em certa hora, alguém acaba puxando algum assunto, algo como aquelas conversas vãs de elevado que versam sobre o tempo, sobre o último eliminado do Big Brother, sobre o babado da semana, ou sobre a revolta com a situação social do país (discussão regada a muitas frases feitas, é claro).
Mas tudo é interrompido pelo barulho da porta da sala o médico e a saída de um paciente. Logo em seguida, a secretária chama outra pessoa que estava na sala de espera. Essa se levanta em meio ao silêncio recém-instaurado, e dirige-se à famigerada sala. As conversas voltam, as leituras voltam e a paciência começa a se esgotar, o que não acontece completamente, afinal...
Um tempinho depois, a pessoa que entrara sai. Poucos segundos passam e seu nome é chamado pela secretária. Chamada estranha, não assimilada rapidamente, afinal, não é uma chamada de escola para verificar presença, nem uma chamada de ganhador do sorteio. É a chamada para entrar na sala do médico, pô!

III. A HORA H
O traseiro é retirado da cadeira cinematograficamente e, já de pé, o andar é firme e obstinado. Da cadeira à porta da sala do médico, metros transformam-se em milhas. Os ouvidos parecem captar a Marcha Imperial do Star Wars, dando àquele reles trajeto ares de desfile cívico.

Pensando com seus botões, talvez nem valha a pena fazer todo esse drama só porque a doença pode estar perto, sendo um fino couvert para a morte.Vai que o médico fala que está tudo bem e que a dor é só impressão? Mas... e se o médico for incompetente e não souber diagnosticar direito o problema? E se a doença for desconhecida no mundo médico? E se os remédios forem caros demais? Pois é... tudo isso pode acontecer, como pode não acontecer. A ansiedade é grande, mas você está ali, pertinho de saber o que aparentemente virá.

Finalmente, entra-se no consultório. A varredura visual é instantânea e tão cedo se acha, em meio a porta-retratos, livros, plantas, móveis e bugigangas diversas (em geral, presentes de pacientes como vidros, cinzeiros, portas-lápis e etc) um ser trajando jaleco de um branco impecável abotoado sobre camisa social, de humor minimamente simpático, de feições esperançosas, de grafia cursiva incompreensível (que se projeta invariavelmente sobre canetas de mais de 20 reais - eles não usam BIC) e, claro, de uma praticidade à toda prova.
O resto, sinceramente, é plenamente variável. Como eles mesmos gostam de dizer, cada caso é um caso. E o seu caso, não vem ao caso agora. Mas para o texto não ficar perdido, ao acaso, vamos supor que você só precisa tomar um remedinho que se compra na farmácia ao lado, e tudo se resolverá. E, claro, tem que voltar no mês seguinte.

IV. RELAX! (nem sempre)
Despedidas cordiais, votos de boa-sorte. A sala do médico é deixada pra trás e mais alguém da espera é chamado. A secretária gentil se volta para você e lhe pede a carteirinha do plano de saúde. Não tem plano? Pagamento à vista ou no cartão, sem problemas.
Efetuado o pagamento, volta-se à porta. E da porta, vai-se ao elevador. Do elevador ao térreo. Do térreo a farmácia. Da farmácia para casa.
Felizmente, o diagnóstico foi reconfortante: nada de grave.
Poderia não ter sido assim. Quem sabe aquela saída o guiasse ao hospital mais próximo com uma cirurgia de emergência? Quem sabe aquela saída o levasse à Igreja para pedir pela saúde? Quem sabe aquela saída o levasse ao show do My Chemical Romance, patrocinado pela Softy Kid's, fabricante de lenços de papel?
Cruzes! Deus me livre e guarde! Daqui a pouco isso vira caso de psiquiatria...


(espero, um dia, fazer a intratextualidade de escrever a mesma crônica sob a ótica de um usuário do SUS, mas infelizmente não tenho - e não pretendo ter na pele - essa vivência)

Marcadores:

domingo, 8 de abril de 2007

PRISÃO DE CÉREBRO.




Há três textos que quero concluir. Tenho todas as idéias e estruturas mentalizadas, num bolo cerebral, mas não consigo expurgá-las de maneira satisfatória ou não entediante. Elas tão quase saindo, quase lá.
Só hoje, já tentei quatro vezes produzir alguma coisa, esta é a quinta. Nem sei qual dos três continuo a escrever. Se abro um, prefiro o outro, e assim sucessivamente. Agora criei um quarto texto, que talvez não passe de um rascunho. Essa meta-texto está mais para uma mera enrolação para encher linguiça e não deixar a semana passar em branco no SWB. Vale realmente a pena postar toda essa baboseira?
__

Estou no quarto dia de não conseguir escrever nada. Mas hoje não adianta reclamar, terei que escrever, de bom grado ou não, a redação de trinta linhas para a escola. Redação essa que já vem em uma forma, pronta, intocável, onde se coloca, apenas, um fluido de idéias de maneira sucinta , mas persuasiva. Quem disse que é bom persuadir assim? Por que não posso criar um texto aberto, que se limite a conduzir o leitor à reflexão, não ao convencimento?

E os três textos que estão na marca do pênalti continuam lá. Faço deles meu "goal", mas se continuar nesse ritmo, vejo que eles em breve serão chutados para escanteio.

___

Essa páscoa foi, em termos de escrita, improdutiva. Bem, acho que preciso comer mais chocolate, ou qualquer outra coisa que solte.

Marcadores:

domingo, 1 de abril de 2007

Quando olho para frente.

Quando olho pra frente, sinceramente não sei

Não sei se virá, não sei se não virá.
Não sei se vou até lá, ou se fico por acá.
Não sei se corro ou se choro,
Não sei se respiro e revigoro.

Não sei se lá é claro ou escuro,
Não sei se para seguir estou maduro.
Não sei se lá há amor ou ternura,
nem se vale a pena essa procura.

Sei que nada sabem sobre
aqueles que tentam prever.
Se é só a Ele que cabe determinar,
quem sou eu para tentar advinhar?

Olhar para frente pode trazer um desvio,
que não ajuda, mas traz fastio.
Esse amanhã só me traz interrogação...
Bah! Melhor viver, com pé no chão.
(e ** na mão, é claro)

Marcadores:

domingo, 18 de março de 2007

INFORMAÇÕES ÚTEIS

[impróprio para menores de 18 anos - estou usando carteirinha falsa para escrever]

"Noite Caliente: Siri compra enxoval erótico para primeira noite com Alemão." captado pela visão no TV FAMA.
Se ele recusar a moça, cujo nome já sugere uma solitaria, poderá deleitar-se com as estampas da roupa de cama. Cada um na sua, é claro.

"Família tenta viver um ano sem papel higiênico." (Terra)
Aposto que assinaram algum jornal. Dingo-bel, dingo-bel.

"Glória Maria deixa seios a mostra ao usar vestido transparente." (Terra)
Não, obrigado.

"Com filha presa, Claudete Troiano deixa de fazer programa." (Terra)
Conseguiram ser mais maliciosos que eu. Bom, até onde eu saiba, ela é apresentadora de TV, não praticante da profissão mais antiga do mundo.

"Luma de Oliveira está com namorado novo." (Terra)
Ok, anotado.

"BBB: Bruna diz que já comeu fezes." (Terra)
Estavam eles brincando de "eu já"?

"Sasha já é pré-adolescente" - Revista Caras, há uns meses atrás.
Agora que Dona Hipófise já deu seu alô, as próximas serão "Sasha já usa sutien" e "Sasha já usa absorvente".

"Antonio Carlos Magalhães tem alta" - Caras
Já que teve alta, porque não subiu de vez?

"A Adriana Bom Bom come 20 claras de ovos por dia, ela malha, exercita-se... 20 claras, a Adriana Bom Bom..." - captado pela audição, domingo de manhã.
Sem comentários.

"Ana Maria Braga não quer presentes de casamento" - O Fuxico
É que, como vocês sabem, geralmente presentes de casamento são chiques, o que não combina com ela.

"Passarinhos urbanos cantam rap, diz estudo" - Terra

Ah se todo rap fosse de passarinho...

"'Eu devia ter lavado as mãos' diz Analy sobre Fani" - Terra
Mas é claro! Antes e depois, aliás!


Como bem diz um querido professor meu, estou (ou tento ser) cáustico.


Foto minha, montagem minha - Flickr

Marcadores:

Aos prantos.

Começamos a vida chorando. Pais e familiares vibram com o nosso primeiro choro, afinal, é a primeira demonstração de saúde que damos. Na vida de recém-nascido, o choro é a nossa única maneira de expressarmos, ainda que de forma imprecisa, as sensações que nos importunam.
Da linguagem do choro até as primeiras palavras, ainda há muito chorinho a ser dado, principalmente naquela hora em que deixamos de ser os rapaizinhos e mocinhas de 3, 4 ou 5 anos que querem que sejamos e pedimos a mamadeira, a chupeta ou o denguinho na hora de dormir. É o choro de birra, por fome ou por sono.
Temos os nossos primeiros contatos sociais logo que entramos para a escolinha e, até que nos adaptemos satisfatoriamente ao novo ambiente, ainda há muito a se chorar. É o choro pelo qual se chama mamãe.
No entanto, tão logo estejamos integrados aos coleguinhas de pré-escola, chorar é um ato que traz humilhação, sendo alvo da primeira manifestação de escárnio possível, quase um embrião do "bullying": Seu bebê chorão!

A partir da adolescência, chorar ganha várias interpretações, por quem chora e por quem presencia o momento. O choro de desabafo caracteriza-se por poder servir como maravilhosa via de catarse, ou seja, uma forma de liberar tensões ou emoções reprimidas, a ser usada em horas escolhidas pelo usuário, tal qual um calmante. No entanto, é para muitos uma demonstração de instabilidade emocional e, em vez de se dizer "que bebê chorão", sugere-se que a pessoa vá ao analista.

O choro de desespero normalmente associa-se a gritos e a situações de estresse que aparecem inesperadamente e de maneira aguda. Uma mãe que vê seu filho sendo levado por seqüestradores (para não falar do caso recente do João Hélio) ou alguém que recebe uma trágica e arrebatadora notícia não se acanhará em gritar e espernear, como se pedisse ajuda, piedade ou coisa que o valha.

Não se esqueça o choro seco, por dentro. Aquele que quer sair, mas não consegue. Na verdade, traduz-se numa ânsia de choro, e acompanha tristeza, poucas palavras e feições serenas, expoentes de um desencanto com algo da vida ou com ela própria. Depressivo e negativamente contagiante.

Há também o choro social. Discreto, controlado e apresentável, mas nem por isso menos verdadeiro. São lágrimas que escorrem com discrição, óculos escuros em dias de chuva, lenços à mão, além da voz baixa e nefasta. Comum em enterros e missas de sétimo dia.

E como não falar, é claro, do choro de alegria? Um choro reconfortante, que alivia e enaltece, em geral conseqüência de uma boa notícia. Às vezes, confunde-se com o choro pós-susto.

No entanto, nem sempre chorar é uma atitude sincera. Para muitos indivíduos, o choro com lágrimas de crocodilo é um dos mais eficazes e apelativos métodos de exercer chantagem e manipulação.

Chorar também pode ser algo profissional. Acredite ou não, há mulheres que trabalham como carpideiras, pessoas contratadas para chorarem em velórios e enterros. Ah, claro, como poderia me esquecer da dramaturgia, cujos praticantes são especialistas em forjar choros dos mais naturais possíveis?

Nem todos sentem-se à vontade para chorar. O sexo masculino, principalmente, é socialmente impedido de tal ação, devido à conotação negativa que essa atitude ganhou, sendo habitualmente relacionada a desvios sexuais e fraquezas de espírito.

Chorar está relacionado de forma intrínseca ao ser humano. Alguns o fazem em maior quantidade, outros menos, outros não fazem. Alguns por motivos banais, outros por motivos razoáveis e outros por razões menores, bem menores.
De maneira geral, o choro é mais uma forma de exposição, às vezes liberação, do que sentimos, muitas vezes procurando ajuda no outro. Entretanto, nem sempre esse outro recebe de maneira aberta e solidária o clamor emitido. Não por acaso, há o ditado popular sobre cuja temática já escrevi anteriormente: "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Se pudesse, trocaria a forma verbal "é" por "ocasionalmente pode ser". Afinal, se não fosse a solidariedade, que, embora hoje deturpada, é base e princípio da sociedade, o que seria de nós? Não sei, talvez fôssemos mais chorões do que já somos, apenas por não podermos contar uns com os outros.

Marcadores:

sexta-feira, 16 de março de 2007

METALINGUAGEM

"Quando escrevo, tento ficar igual ao ar que é colocado para dentro dos pulmões. Inspirado."

F E L I P E D R U M M O N D
(em momento de fecunda criatividade)

terça-feira, 13 de março de 2007

O QUE VALE É A INTENÇÃO?

Gostaria de trazer à reflexão o seguinte assunto: até que ponto pensar em fazer algo se compara a de fato fazê-lo?
Exemplificando: desejar trair é tão grave quanto trair? Desejar matar é tão grave quanto matar? Desejar ajudar é tão louvável quanto ajudar?
Devolvo as perguntas transformando em interrogação um discurso comum no contexto de aniversariantes que deparam-se com presentes mixos: O que vale é a intenção?

Dar a mesma resposta a cada uma das inúmeras situações em que essa pergunta é cabível seria uma generalização incrivelmente tola, portanto, trarei alguns casos à discussão, a começar pelo primeiro exemplo.

I. O PRESENTE INDESEJADO
Pr-s (pre-scriptum): pergunto-me se com 5 anos, a criança já faria esse questionamento... será?

O aniversário de cinco anos traz consigo o deslumbramento de completar uma mão inteira na contagem das "primaveras", assim como a sensação de grandeza, imponência, afinal, são cinco anos! Festa de aniversário, bolo, guaraná, muitos doces para você. E, claro, como não poderia faltar, presentes. Depois daquela farra toda de correr, pular, brincar, cantar, comer e receber os cumprimentos de todos, chega a hora de abrir os tão esperados presentes, tão sonhados desde o último aniversário. A ordem de abertura é sempre a mesma. Primeiramente, abrem-se os embrulhos grandes, que aparentam ter caixas dentro e que, quando sacudidos, fazem barulhinho de plástico batendo por dentro. Geralmente, esses embrulhos costumam ter brinquedos dos bons. Em seguida, é a vez dos embrulhos menores, mas que ainda aparentam ter caixas e fazem o famigerado barulhinho. Esses tem brinquedos do tipo cacareco, exceto se for Lego. Por último, vêm os embrulhos moles, macios, que geralmente contêm os presentes que nenhuma criança quer receber: roupas. A decepção é instantânea e arrasadora com esse tipo de presente, que geralmente, é dado por pessoas de certa idade, como tias-avós e avós.

Se a criança ainda tem sua sinceridade aflorada, é natural que ela se manifeste claramente sua decepção com o presente que ganhara. Nessa hora, pode vir um pai, uma mãe, ou um irmão mais velho consolar o pequeno decepcionado. Após um breve e ineficaz discurso sobre o valor das roupas, sua utilidade prática e a beleza do presente ganho, é possível que se chame o recurso de dizer que o que vale é a intenção, a fim de que a criança não fique chateada com aquela tia-avó que deu o presente

É razoável? Sim, afinal, a dileta senhora teve o carinho de comprar alguma lembrancinha e, provavelmente, jamais passou por sua cabeça o desejo de desapontar o pequeno. Na verdade, ela apenas foi infeliz em comprar a lembrança , talvez porque na sua época roupas eram presentes que crianças gostavam, evidenciando aí a diferença de gerações, ou porque escolher uma roupinha que fique engraçadinha é mais fácil do que optar por um brinquedo dentre muitos numa loja infantil de grande variedade. Numa próxima vez, ela acerta!

II. DE BOAS INTENÇÕES, O INFERNO ESTÁ CHEIO
Com lugar cativo no hall das frases feitas, essa sentença resume o comportamento de muitas pessoas que, por mais que desejem fazer boas ações, acabam desvirtuando-se da intenção original por várias razões. Há os preguiçosos, para os quais tudo só funciona da boca pra fora e que, quando se vêem diante de pôr em prática tudo o que preconizam, preferem ficar sentados na cadeira, só coordenando. Há também os covardes, que na hora H amarelam, inibidos por n outros motivos. Para esses, meu pesar: de que adianta ter uma boa intenção se ela não é honrada?
Não podemos nos esquecer, porém, dos desajeitados e azarados, que tentam, tentam mas não conseguem chegar aonde precisam e aí fracassam. Seria injusto não levar em conta a perseverança e a atitude da pessoa e, para esse caso, acho que é válido aceitar sua boa intenção e dar-lhe uma outra chance para o acerto.

III. PUNE-SE A TENTATIVA?
Depende. Analisando pela lei, vemos que a tentativa não é punida quando o crime não se consuma por ineficácia absoluta do meio ou impropriedade do objeto, isto é, quando não há maneiras disponíveis no momento de se praticar o crime. É como tentar matar alguém a petelecos. É diferente, portanto, de alguém que atira em outro a fim de matar, mas o tiro pega na perna e a vítima sobrevive.
Considero que a mente criminosa não é ocasional ou aleatória. Às vezes, desejar matar alguém acontece em momentos de raiva, insatisfação e etc, mas controlamo-nos suficientemente para que isso passe sem maiores resquícios. No entanto, isso pode persistir a ponto de gerar agressividade, hostilidade e outros "ades" que perto de armas - brancas ou de fogo - criam um meio de alta eficácia e aí não será punida a tentativa, mas sim o crime consumado. É bom não esquecer que as ações práticas sempre começam em pensamentos.



Ando meio frustrado com a baixa participação de meus queridos leitores, que nas últimas mensagens não me presentearam com seus comentários. O que tem acontecido?

PS: A título de curiosidade, informo que esse texto foi elaborado ao longo de quatro meses. Intenção persistente a minha, não?


(Ouvindo: Deep Purple - Strange Kind Of Woman
Radiohead - Paranoid Android)

Marcadores:

terça-feira, 6 de março de 2007

CHUTANDO A "PEDRA NO MEIO DO CAMINHO".

ANALISANDO O ATO DE BURLAR, EM VÁRIAS SITUAÇÕES


A regra geral válida para todos que passem por aqui é ler esse texto. Pode ser por consideração à minha pessoa ou ao meu texto, por extrema falta do que fazer, por gosto pela leitura, enfim, espera-se que você leia. Mas você pode burlar essa regra e simplesmente ir fazer outra coisa. Que tal? Tome sua decisão.




Obrigado por chegar até aqui. Você não burlou a regra, essa em específico, mas de fato já burlou muitas outras. Algumas delas eram burras, sem razão de ser, regra pela regra, ao passo que outras não. Em algumas vezes você o fez de maneira consciente, em outras não. O fato é que burlar determinações dos mais variados tipos é algo presente constantemente na vida das pessoas. Os brasileiros até rebatizaram o infringimento de "jeitinho brasileiro", o que para muitos, acredite, é motivo de orgulho, algo como poder de superação e sabedoria de vida.

Burlamos diariamente uma série de leis, embora em geral nos esforcemos cada vez mais para não fazê-lo. Atravessamos a rua fora da faixa e ficamos conversando com a porta do elevador aberta, às vezes sem nos darmos conta. Baixamos da internet músicas, filmes e livros sem pagar um direito autoral sequer, e ainda usamos programas de computador burlados, ou, em linguagem específica, crackeados. Subornamos policiais e outros funcionários públicos e os deixamos serem subornados.

Burlamos também os princípios não formalizados da cidadania, aquela que exige muitas vezes desprendimento, solidariedade e sentimentos humanos que se pautam pelo altruísmo. Subimos ou descemos do ônibus quando ele está fora do ponto, fazemos vista grossa para não ceder lugar a idosos e necessitados, furamos filas imensas por conta de nossa pressa, paramos o carro no meio da rua para ir comprar alguma coisa rapidinho, só porque presumimos essa rapidez. Somos vencidos pela preguiça ou pela desatenção, e, na praia, deixamos o lixinho na areia, em vez de coletá-los e depositá-los no lugar apropriado.

Burlamos, com ajuda química ou não, nosso superego. Ou os entorpecentes químicos o burlam para nós? Enfim, não importa. Não raro emergem das entranhas do nosso pensamento para a nossa consciência muitas lembranças, sensações e atitudes das mais inesperadas, e muitas vezes das mais inapropriadas para o momento, também. Libertamo-nos dos grilhões de nossas próprias mentes quando pensamos diferente, isto é, tentamos ver por uma ótica a que não estamos acostumados, o que dá trabalho.

Burlamos por pressão social, quando outros esperam de nós certas posturas ou nos compelem a fazermos algo para que sejamos os "laranjas", os "testas-de-ferro" no caso de o problema eclodir. Outras vezes, fazem-nos vanguardistas em certas atitudes, para que demos pioneiramente nossa cara a tapa e, caso o tapa aconteça, venha na nossa cara, não na deles. Quase cobaias de laboratório.

Burlamos por descaso social em relação à regra. "Já que todos fazem, por que não posso fazer também"? Simplesmente porque a unanimidade não reflete necessariamente a melhor forma de se proceder e, também, porque o travesseiro tem hábitos noturnos e espera os que têm boa índole. Basta que esses se deitem para que em suas cabeças se desenvolva um turbilhão de pensamentos movidos pelo arrependimento e pela infelicidade, pelas dúvidas do "e se...?" Sofrimento que não muitas pessoas conseguem sofrer, justamente aquelas que lutam para que isso não aconteça.

Burlamos ditames sociais burramente estabelecidos e essas tantas e tantas burlas fizeram com que evoluíssemos. O homem cresceu da transgressão, não da acomodação, e muitas vezes violou leis para que isso acontecesse. Em geral, é claro, ignoraram-se as regras ilegítimas, que, afinal, mais cedo ou mais tarde viriam a cair, visto que legislações que burlam a vontade da população não se sustentam por muito tempo.

O que não podemos burlar é normalmente aquilo que nos atordoa. Não sabemos superar a morte e assim tornamo-la misteriosa, cheia de mitos, histórias e subjetividade. Tentamos (ou não) acreditar que ela possa ser superada, e a isso muitas pessoas dedicam seu tempo e sanidade mental.

Também não burlamos conscientemente a nós mesmos e, nesse ponto, volto à história do travesseiro. Conseguir enganar a si próprio com plena noção de estar fazendo isso é impossível, sendo quase como criar uma realidade paralela em que simultaneamente sabemos e não sabemos quem somos e o que fazemos.

Burlar exige coragem e, acima de tudo, bom senso. Não digo que burlar seja sempre aceitável, mas as regras em geral não são perfeitas e cumpri-las por simples obrigação pode ter conseqüências mais danosas do que não cumpri-las. É necessário também atentar para o infringimento à liberdade alheia, o que, se acontecer, pode deslegitimar qualquer transgressão.

Ressalte-se aí que a única solução eficaz para problemas que advêm de leis e regras em geral não é burlar, medida paliativa por excelência, mas sim alterar essas normas de maneira a adequá-las às mais diversas situações. E ainda assim, burlar pode vir a ser necessário.

PS. Piadinha sem graça: por que seria paradoxal se um dos maiores paisagistas brasileiros defendesse o comunismo?

Marcadores: ,

quinta-feira, 1 de março de 2007

brainstorms #1

Nada como não ter nada para fazer, quando se tem algo pra fazer.

pensamento - inovação - fugir do próprio clichê - lembrança - idéia - lâmpada acesa - criar - transgredir - superar - obra-prima - eternizar-se

gotas - respingos - trovoadas - céu desabando - chuva - são pedro em necessidades fisiológicas n. 1 - guarda-chuva - pisar na poça - deslizamentos - inundação - leptospirose - ficar em casa - ver TV

unhas - pele - marcas - desconforto - agonia - necessidade extremada - coceira - fricção prolongada - alívio

fumacinha - forno - fogão - frigideira - prato - alta temperatura - luvas - mesa - garfo - fome (gula?) - faca - ansiedade - garfo 2 - comida - boca - quente - queimar a língua - gritar - urrar - beber - reclamar - voltar a comer - saciar - preguicinha - sesta


(Ouvindo: Pink Floyd - Us And Them)

Marcadores:

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

RAPIDINHAS 3

PAZ: OBJETIVO OU SOLUÇÃO?
Passeatas pela paz ou contra a violência geralmente me trazem uma dúvida existencial. A paz é um objetivo ou uma solução? Sinceramente, por mais que Gandhi tenha dito que "não existe caminho para a paz, a paz é o caminho", tenho que discordar do sábio mestre, pois não acredito que, ao menos em termos macro-sociais, isso funcione. É preciso estabelecer rumos concretos para que se consiga a paz tais como políticas de educação que diminuam a criminalidade ou, nos casos em que o problema já se consumou, policiamento ostensivo. Será que pedir paz é como ficar apenas gritando "aprovação, aprovação, aprovação!" em ano de vestibular?

ONDE ENFIARAM AQUELAS PULSEIRAS?
Não, certamente não foi naquele lugar. Ainda assim, me pergunto onde foram parar todas aquelas pulseiras de várias cores, ressaltando-se as amarelas, que, por entre 2005 e 2006, constituíram uma das maiores e mais efêmeras modinhas já vistas na história?
Para cada causa, uma pulseira. Bem, esse foi o título de uma matéria da época sobre o tema. Lembro que havia as pulseiras com as cores de times de futebol, as que eram contra o racismo e outras formas de preconceito e, claro, a principal e pioneira pulseirinha: a que encabeçava a luta contra o câncer, mais conhecida como LIVESTRONG. Essa sem dúvida foi a mais vendida e a mais clonada no mercado negro, e provinha de um projeto do ciclista Lance Armstrong, vitorioso na batalha contra essa trágica doença. Ganhei uma de presente de uma saudosa grande amiga e usei-a até o dia em que vi uma igual no pulso de um infeliz que fumava soberbamente. Em outras palavras, um tremendo paga-pau, tal qual outros que usavam a pulseira só para aparecer. Bem, onde foram parar aquelas pulseiras? Aliás... onde está a minha?

SALADA DE ESTILOS (ou mais uma fantasia, apenas?)
Transitava por Cabo Frio, região litorânea do RJ, em plena segunda-feira de carnaval quando me deparei com uma cena no mínimo estranha. Um homem de uns 50 anos, com aqueles bigodes grandes, usava um chapéu de cowboy imenso e trajava uma camisa - acredite -da banda de symphonic power metal com temas medievais e mitológicos Rhapsody Of Fire. Seria uma fantasia de carnaval? Ou só mais um preconceito de minha parte?


Terminei as 3 rapidinhas com perguntas. Que estranho.

Marcadores:

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

O novo bloco de carnaval.

Pois é, o carnaval no país é cercado por suas peculiaridades. Por mais paradoxal que às vezes possa parecer, qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, serve de motivo para euforia e confraternização. Uns se fantasiam, outros se pintam, mas todos trazem a indumentária adequada à época, nem que seja no espírito.
Relevam-se as dificuldades e as tristezas para que se viva um momento de esquecimento, uma fuga de uma às vezes triste realidade que só se modifica com trabalho árduo e meios eficazes.
Ovacionam as multidões o carnaval, afinal, é ele que faz com que as pessoas não tenham trabalho ou aula. Adiam ainda mais o começo do ano útil no país.
Trânsito caótico é marca registrada das comemorações carnavalescas, que congestionam o fluxo de veículos devido ao grande número de indivíduos na maior desordem possível. Atrapalha-se a vida de quem não quer participar, num ato de significativo desrespeito à liberdade alheia.
Em bailes de clubes e salões, o panorama de carnaval é um pouco diferente, exceto pela presença das mães-corujas, que não se cansam de fotografar seus filhos - pequenos ou não - em atos carnavalescos: farra e gritaria. Ops, esqueci de dizer que elas também gostam de ver as fantasias usadas.
Super interessantes, aliás, são essas fantasias. O nome é esse mesmo, fan-ta-si-a, isto é, não tem compromisso com o real, com a verdade. É falso, e como tal deve ser tratado.
Tanta gente unida por algum propósito. Acho que é só se divertir. Tudo bem, nada melhor a ser feito nos tempos de folia. Há gente que prefere pegar a condução e ir pra casa descansar, e há quem gosta de assistir da janela ou da sombra, sem se expôr ao calor de quase outono.
Ora ora, como tudo na vida, o carnaval não é unanimidade.

Bestificados com a manifestação ficam os que estão alheios a ela, em especial gringos e outros transeuntes, que acenam positivamente para a algazarra que se cria. Talvez nem entendam o que se passa.
Acenam para as câmeras e agentes da mídia os foliões, que querem ali registrar sua presença e mostrar um pouco do show de alegria que fazem. Nos seus 15 minutos de fama, distribuem sorrisos e gestos, disputando espaço no enquadramento fotográfico.
Blocos novos surgem a cada carnaval, carregados por seus foliões, que gostam de entoar coros com as mais diversas músicas em uníssono. Até mesmo as canções mais tristes e melancólicas são cantadas em tom de alegria (ou de indiferença?), como se de nada prestasse a tristeza que motivou o poeta ao fazer artístico. Não dão ao momento o tom que ele pede.
Às vezes, esses blocos desfilam sem bandeiras e, assim, sem porta-bandeira. Não têm o que levar à frente, não têm razão de ser e, assim, muitas vezes acabam por ali mesmo definhar, como uma forma inflada que, sem conteúdo, murcha. Ainda que isso não aconteça, a Quarta-feira de cinzas está ali, disposta a sufocar a euforia e retomar a rotina de ações e de idéias.
Carnaval é assim. Para uns, momento de folia. Para outros, o choro da despedida da carne (alheia?).
Assim é o carnaval. Teatral. Uns riem, outros choram. Mas todos na mesma festa.


(não, eu não estou maluco)

Marcadores:

domingo, 11 de fevereiro de 2007

O TRABALHO DOS SEM-EMPREGO

(E OUTRAS OBSERVAÇÕES)

Um passeio pelo Centro da capital fluminense é sem dúvidas algo bastante produtivo para quem quer observar pessoas. Não o fiz com essa intenção, mas, uma vez estando por lá para resolver outras coisas, prestei atenção em alguns detalhes que recheiam o coração financeiro da cidade.

O mercado informal foi, sem dúvida, a área que mais me saltou aos olhos. Fiquei exuberado com a capacidade das pessoas de, apesar de não possuírem um emprego, terem e honrarem um trabalho. Cada um procura ganhar sua sobrevivência como dá e da melhor maneira possível. Não obstante terem que trabalhar sob chuva e sol, sem direito a férias, décimo-terceiro ou folga remunerada, o enorme contingente de trabalhadores informais mantém a cabeça erguida e o sorriso no rosto, e não raramente dão show de vendas e simpatia.

O vendedor de tira-bolinhas-de-roupa. Esse é capaz de dar muita inveja a muitos salesmen por aí. Sem nenhuma inibição, chama os pedestres de maneira carinhosa e, com muita lábia e sorrisos desdentados, consegue expôr a eles seu produto. Ressalta de maneira ímpar as vantagens do aparelho e ainda permite um test-drive. Sua garantia, dispensa termos, contratos ou assinaturas, sendo só de três palavras: "estou sempre aqui". Vende bem e, quando não vende, conquista a simpatia de quem passa, que dele faz uma boa imagem. O mesmo efeito de uma boa propaganda.

A moça que faz batata frita no meio da rua. Pode parecer ridículo, mas fiquei observando clinicamente o cuidado com que ela colocava as batatas na frigideira, mexia-as, tirava-as, colocava no saquinho, dava tapinhas no saquinho para caber mais, colocava mais batata, pegava um guardanapo e servia-a ao cliente de cara aberta, ainda oferecendo em tom muito solícito ketchup ou mostarda. Ainda que aquele não fosse o melhor ofício do mundo ou o que lhe permitisse melhores condições de vida, fazia-o com prazer. E só isso já valia.

O casal que vende bebidas. Tem uma barraquinha bem arranjada, com guarda-sol para caso de sol ou de chuva, uma "vitrine" com frascos vazios e muita disposição para encarar o número significativo de vendas. Está ali desde cedo até depois do entardecer, atendendo pedidos, botando a mão no isopor com as bebidas, dando o troco e agradecendo a preferência. Oferece os preços mais baixos das redondezas a fim de atrair clientes, mesmo sem conhecer formalmente a lei da oferta e da procura.


A vendedora de canetas de um real. Magra e baixinha, desfruta o auge de seus quase 40 anos ao sol escaldante da Av. Rio Branco trajando calça jeans, camisa jovem e mochila desportiva. Instala sobre um papelão em formato retangular uma bandeja de tamanho médio, sobre a qual coloca várias canetas dos mais variados tipos, tamanhos e cores. Todas por um real, tal qual anuncia a cartolina desenhada à mão e pregada dos lados da bandeja. Atende, em geral, o público feminino e ainda dá conselhos sobre qual caneta combina mais com a cor da carteira ou da bolsa. Concluída a venda, embolsa um real, mas abre um sorriso de ganhadora da mega-sena e dispara um "obrigada" verdadeiro e atencioso. De nada.

Maximizar a produtividade não é objetivo exclusivo de empresas formais. Chamou-me a atenção uma "empresa" de venda de DVDs copiados que se instala diariamente às 6 horas sob a marquise de um grande prédio. Estabeleceram ali algo como uma linha de montagem, contando com uma especialização da atividade de cada funcionário com organização de fazer jus às melhores proposições fordistas. Na verdade, ficou faltando a esteira.
A primeira funcionária é a responsável pela "vitrine". Expõe no chão os vários títulos de filmes e shows que disponibilizavam, atende diretamente aos clientes respondendo a eventuais perguntas e, após a escolha do freguês, direciona o mesmo a próxima funcionária. A segunda vendedora é a responsável por pegar, numa caixa imensa com inúmeros dvd´s, o título escolhido e o encarte correspondente. Coloca-o na caixinha e emite um papel com o valor a ser cobrado. Munido desse papel, o cliente dirige-se à próxima funcionária, que recebe o dinheiro, anota-o em um livro caixa e preenche o cartão de garantia, que dá um prazo de 15 dias para troca. A passagem pela quarta funcionária é facultativa, mas nunca ignorada, pois, afinal, é importante testar o disco comprado para não correr o risco de se decepcionar posteriormente, só que sem ter o PROCON para recorrer.
Pausa para observações. As quatro funcionárias andam muito bem vestidas, levemente maquiadas, são muito sorridentes e ainda falam português correto, sem apelações da informalidade, portando-se à imagem e semelhança das vendedoras das butiques de madame que movem o caríssimo Shopping Leblon. E tudo isso sem a presença de uma supervisora que só conhece o modo imperativo e não se cansa das sugestões enfáticas "sorria", "diga boa-tarde", "diga obrigado", "seja paciente" e etc.


São esses alguns poucos exemplos do trabalho que, embora muitas vezes perpasse por atos ilícitos e condenáveis, é levado a sério e com dedicação. (Favor não comparar com traficantes de drogas ou criminosos de alta periculosidade. Não quero entrar no mérito da questão, mas as diferença são notáveis) Trabalho esse que muitas vezes não é valorizado como deve, apenas por estar a margem das estatísticas ou de olhares políticos. Trabalho esse que encaro como forma de superação - quase apelação para sobrevivência - de muitos que estão excluídos do acesso ao emprego, cercado de todas as garantias e merecidos benefícios que lhe cabem.

Ressalte-se aqui a quantidade de pessoas que estão bem empregadas, mas não fazem jus a isso. Trabalham sem vontade, sem prazer, atendem mal, não dão o melhor de si. Isso acontece especialmente no funcionalismo público, embora haja muitos servidores nessa área que trabalham por dois, por três ou pela equipe toda. Mais desalentador ainda é ouvir gente nova dizendo querer fazer concurso público porque ganha bem e não faz nada. Ora ora, para onde estamos caminhando?

Pois é, centro da cidade é isso. Gente que não tem emprego e trabalha, gente que tem emprego e trabalha e gente que tem emprego e não trabalha. Esqueci alguém? Ah, claro... gente que não tem emprego nem trabalha. Olhe-me aí, mas só por enquanto, tá?

Marcadores: ,

domingo, 28 de janeiro de 2007

A morte (alheia) - sic.

Se me perguntarem o porquê do sic ou dos parênteses na palavra alheia, respondo que é redundante dizer que falar sobre morte é referir-se à alheia, ou, do contrário, ousaria colocar-me no lugar nada verossímil de Brás Cubas, ao relatar suas próprias memórias póstumas no eterno clássico machadiano.

Vejo o quanto pretensioso seria eu falar sobre a morte em si, tanto se fosse para dizer que ela é um fim como se fosse para dizer que ela é um novo começo. Não falar sobre ela talvez trouxesse problema também, afinal, tem gente que encara sua própria morte com total indiferença. Mesmo assim não falarei, pois não quero expôr concepções que são mera questão de fé e fazer desse espaço um blog puramente catequista.

Falarei sobre a morte para quem fica, mas de um jeito leviano. Se querem saber, não tenho propriedade nenhuma para falar sobre esse assunto e escrevo por mero impulso. Ainda não perdi nenhuma pessoa próxima e, portanto, prometo que, se ainda mantiver esse blog quando isso acontecer, dar-me-ei ao trabalho de escrever sobre o mesmo assunto.

Dizem que quem fica é que sofre. Quem fica sofre, de fato, mas... quem garante que quem partiu não está sofrendo também? Essa questão é de jurisdição das religiões, e cada uma prega uma visão diferente sobre o assunto.

Quem fica, sofre. Mesmo. A sensação de perda evoca também outros pensamentos bastante penosos, dentre os quais destaco as saudades e o arrependimento.

Saudades. Por curiosidade, foi eleita recentemente a 7ª palavra mais difícil de se traduzir. Também deve ser difícil verbalizar as saudades em relação a um ente que se foi. São saudades bem duras, porque se sabe que a falta da pessoa tende a crescer com o tempo, porém nunca poderá ser saciada. Novamente, muitas religiões trazem perspectivas reconfortantes e consoladoras no tocante a essa questão, dizendo, por exemplo, que após a morte todos se encontram no paraíso.

Arrependimento. Nesse caso, do que se fez e do que deixou de se fazer. Sinceramente, não sei qual é o pior - nem se são diferentes. Emergem lembranças: palavras atravessadas, transfixantes, lançadas em momentos de raiva; brigas desnecessárias, que desgastaram a relação; mentiras que esperaram - e ainda esperarão, até quando? - esclarecimentos.
Vêm à tona os programas desmarcados por preguiça ou existência de outras prioridades, as vezes em que se preferiu ver TV ou sair de casa a ter a companhia do outro ou os desejos que eram sempre adiados.

Comparecer ao velório, ao enterro e às celebrações póstumas. Desnecessário descrever o quanto esse roteiro é penoso, especialmente nas suas duas primeiras etapas. Aparece a vontade - e a impotência - de devolver a vida à matéria já organizada, como alguém que, apertando o ON, energiza e liga um equipamento elétrico. Reles mortais não podem fazer isso. Por fim, há o último adeus, que, infelizmente, é sem resposta.

Igualmente ruim, deve ser lidar com os pertences do querido falecido. Olhar para a cama onde a pessoa dormia, para a escova de dentes que usava, para o guarda-roupas com muitas peças que marcaram dias especiais, para os manuscritos, documentos e outros cacarecos guardados para algum dia em que fossem precisos. Sentir o exímio poder do olfato de revolver lembranças ao , por exemplo, sentir o perfume que a pessoa usava.

Depois, as questões de herança, às vezes temperadas com desgostosas brigas familiares. Provar a lentidão da justiça com os trâmites do processo de inventário e ter mais esse aborrecimento.

Se o tempo não for o melhor remédio, certamente é um dos melhores. Com o passar dos meses e anos, o trauma do acontecido vai passando. As lágrimas que dele decorrem vão escasseando, embora as lembranças da pessoa e as saudades não se apaguem.

Preferimos nossa própria morte à daqueles que realmente amamos, afinal, sabemos que a segunda é suficientemente dolorosa, mas nada conhecemos em relação à primeira. No fundo, talvez haja alguma curiosidade em ver o que vem depois, se é que esse depois existe. Levando isso em conta, pode até soar egoísta preferir a própria morte à alheia, pois faremos os outros sofrerem.

Paro por aqui com essa vã discussão. Afinal, não importa quando, a morte inevitavelmente vai acontecer, e com direito a toda essa repercussão.

Para isso, Noel Rosa andou se precavendo. Em 1933, declarou não querer, quando morrer, nem choro, nem vela, mas uma fita amarela gravada com o nome de sua amada. Foi ele atendido?

(Ouvindo: Chico Buarque, Cazuza e etc.)

Marcadores: ,

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

A razão de tanta ausência. E as RAPIDINHAS 2.

Não acredito que consegui ficar pouco mais de um mês sem colocar absolutamente nada nesse blog. Quase entrando em depressão, confesso que minha criatividade e pensatividade não andam em suas melhores épocas. Mas não foi só por isso. Para você que leu o título dessa postagem e está ávido por saber qual foi de fato a razão de tanta ausência, prepare-se.

Penso com meus botões... caí em minha própria crítica e agora estou aqui com uma pontinha de arrependimento de ter esculachado tanto um clichê, que, apesar dos pesares, até que faz sentido. Bem... erm... digamos que o verão me tirou desse blog. Ahhhh, o verão...

Sim, fui curtir o verão e as minhas férias. Arrisquei-me, fiz coisas novas, algumas estrepolias, mas nada extravagante, como já era de se esperar. Estava em ritmo de festa e de viagem e só hoje parei com um instinto quase avassalador de escrever alguma besteira. E cá estou.

RAPIDINHAS 2.

PAPOS ESCATOLÓGICOS À MESA

Eu não participo desta opinião, mas há tanta gente que se irrita com papos escatológicos à mesa. Concordo que a bomba de metano ou substâncias pastosas castanhas podem não ser o melhor assunto enquanto se degusta alguma iguaria sem igual, mas, já que esses assuntos são tão naturais ao ser humano quanto comer, chegando a constituírem o início e o fim do mesmo processo metabólico, qual o problema em se falar neles? Como diria Kléber Bam Bam, que atualmente ganha a vida animando festinhas de 15 anos, "faiz parte, gente".
Por falar nisso, estou colecionando eufemismos para o ato de defecar. Só não posto aqui, pois posso ser acusado de racismo, e isso não seria muito legal. Aliás, nunca fiz coleção de nada, essa é a primeira. Comecei bem, não?

METRÔ. (merdô)
A cada vez que ando de metrô pela cidade, impressiono-me ainda mais com a falta de respeito e cidadania dos usuários desse serviço público. Algumas pessoas levam ao máximo a cultura do querer tirar vantagem sobre qualquer coisa, utilizando-se de qualquer meio.
1.Acho intolerável as pessoas que entram apressadamente no vagão do metrô assim que a porta abre sem esperar que os querem sair saiam. Por que diabos vão se atropelando uns aos outros igual a uma horda de esfomeados que, no deserto, vislubram um oásis?
2.Pior do que isso são aqueles infelizes que ocupam a escada rolante inteira com seus volumes (geralmente traseiros) esparramados pelo já curto espaço, impedindo quem está com pressa de subir a escada rolante pelo lado vago. Por favor, fiquem do lado direito da escada rolante!
3.O que mais me mata de raiva, porém, são os vagabundos, pilantras, desumanos e sem-vergonhas que sentam nos assentos especiais destinados a deficientes, idosos, gestantes e lactantes, e simplesmente ignoram a presença de algum desses beneficiários no vagão. Com fones de ouvido, livros e outras artimanhas, fingem que não vêem nem o sofrimento daquelas velhinhas e velhinhos, já cansados pelo trabalho de uma vida inteira, em se manterem de pé nem a complicação que é viajar com criança de colo num coletivo lotado. Emissários do desrespeito, aqui vai minha mensagem: tirem seus fones de ouvido que os alienam, parem de ler o livrinho que parece torná-los cultos, e, finalmente, levantem essa cauda folgada e cedam o lugar. Quem realmente precisa, agradece. Mesmo.


SACODINDO O LEGO NA CAIXA
Tão bom quanto presenciar o nascer do sol (prefiro-o ao pôr do sol) ou vislumbrar uma bela paisagem é ouvir sons agradáveis. Há gente que delira ao ouvir canto de pássaros, o bater das ondas ou, usando um exemplo bem fácil, ouvindo uma boa música.
Enquanto criança, as pecinhas de Lego eram o que me proporcionava esse prazer. Poucas coisas se comparavam a pegar a caixinha do brinquedo, encostá-la no ouvido e chacoalhá-la sem parar para ouvir aquele barulhinho tão gostoso. Fazia isso sempre que ganhava um novo, aliás, esse era o método que eu usava para perceber, sem desfazer o embrulho do presente, que ali havia Lego, na época meu brinquedo preferido. Método infalível: Lego sacodido tem um som único, inconfundível.

(Ouvindo: AC/DC- Back in Black)

Marcadores:

sábado, 23 de dezembro de 2006

CLICHÊS DE ORKUT II - O RETORNO

Não é porque são clichês que eles estão imunes à ação do tempo. Clichês vão e vêm, a medida que novos surgem também. (rimou!)
Por conta disso, os clichês de Orkut que eu listei nos primórdios do blog estão, em certa parte, defasados. Nada melhor do que atualizar o catálogo para a primavera-verão 2006-2007 no Orkut, não?

Agradecimentos ao Marco Tulio e à Ligia, que citaram alguns desses clichês nos comentários do Clichês I e também ao poeta RUBEL BRISOLLA pela mesma ajuda. (Vale lembrar que o Rubel criou há pouco um blog e sua leitura está recomendadíssima ;-)


Ahhhhh, o verão...
Essa é para aqueles que realmente curtem a vida, tiram onda legal e aproveitam ao máximo todos os momentos, situações e experiências novas, sacou lek? Carpe diem pô!
Ahhh, o verão!
Enfrentar as praias lotadas, com cheiro de maconha pra tudo que é lado. Besuntar-se de protetor solar, para não ficar igual um camarão. Ser vítima de arrastões, crime mais frequente nessa época do ano. Chegar em casa e estourar a conta de luz por ter que ligar o ar condicionado. Dormir seco e acordar suado. Assistir à proliferação de mosquitos transmissores de doenças e, por que não pegar uma dengue, já que a onda é aproveitar todas as novas sensações da estação?
O pior do verão, porém, é aturar o mais novo clichê de Orkut, "Ahhh, o verão!"
Tenham piedade.
(essa foi para o meu "about" do Orkut)

"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis". Fernando Pessoa
Deturparam a frase de um grande poeta transformando-a em símbolo do ideário imediatista e "de momento" que andam vivendo. Acho que essa é candidata ao grande clichê do ano, afinal, é o coringa das legendas de fotos e dos "quem sou eu".

"O topo é meu" (na ridícula briguinha por prevalência em testimoniais)
Certa vez, li a seguinte frase"Virei alpinista, só o cume interessa".
Ok.

GÊMEAS (em legendas de fotos)
Audaz. Exagerado. Só não sei se é pior que o já manjado "bff". Será que é uma influência do mais novo filme da Xuxa sobre a população juvenil, num revival da infância desúditos da Rainha dos Baixinhos? Acho que não. Mas já que insistem, só me resta uma pergunta: são bivitelinas, né?

QUARTETO
Essa legenda geralmente acompanha foto de quatro meninas em posições alusivas ao filme "As Panteras", metidas a formar uma trupe perigosa. Não esqueçam, jovens meninas, que mais de três já é crime por formação de quadrilha, segundo o Art. 288 do Código Penal, aqui transcrito: "Associarem-se mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes".

INCOMPARÁVEIS, INSUBSTITUÍVEIS
Até que se arrume um(a) melhor, é claro. Freud diria que é uma denegação, isto é, inconscientemente a pessoa quis dizer "descartável".

NOVAS TENDÊNCIAS...
1.Ficar com álbum zerado
Recurso utilizado por muitos que gostam de parecer reservados, difíceis e recatados. Quase um charme a mais. Alguns diriam que é c*-doce.

2. Colocar fotos sem legenda.
Para os seguidores da máxima "uma imagem vale mais que mil palavras". (Como não concordo nem discordo dessa frase, fiz um blog e um fotolog, tá?)

3. Ficar em no máximo 9 comunidades.
Será que é porque 9 é o quadrado de 3, que significa plenitude? Ou é apenas uma tentativa de dar visibilidade às comunidades mais importantes?

4. Definir-se enquanto apolítico ou libertário (essa é velha, mas...)
Apolítico porque "política virou coisa de nerd, já que o Brasil não tem mais jeito e é todo mundo corrupto mesmo, vou mesmo é me mudar para os Estados Unidos. É sempre a mesma pilantragem e nada se resolve, odeio política". Assim se desperta um ataque de pelanca rebordosa em Aristóteles.
Libertário porque "po lek tem que liberar mesmo, tem que ser todo mundo na paz, sem conflito, só na harmonia. Paz e amor, bicho. Libera geral mesmo." A inspiração? Acho que veio de Viva La Revolucion do For Fun, a música dos revolucionários de butique da geração MTV, que querem pagar de politizados e socialmente conscientes. Para esses, um professor meu diria, sem mais delongas: "tolinhos".

Chega. Cansei.
Volto na próxima estação com a sátira de "ahhh, o inverno...", quem sabe...


(Ouvindo: Ronco da minha avó. Barulho da digitação no teclado. De vez em quando alguns cliques e também fungadas... resquícios de um recente resfriado. E só.)

Marcadores: , ,

sábado, 9 de dezembro de 2006

PISANDO EM FEZES.

(está longo, mas vale a pena ;-)

Andar pelas ruas é, sem dúvida, um prato cheio para fazer observações antropológicas de todo tipo. Fazê-lo em Ipanema então, nem se fala. São dondocas, executivos, estudantes, funcionários itinerantes (office boys), camelôs, fazedores de porra nenhuma e até mesmo marginais desfilando sobre as calçadas desse famoso bairro da Zona Sul carioca. Isso sem falar, é claro, nos cachorros, tanto os vadios quanto os de madame, que não raramente empesteiam as ruas com seus dejetos mal-cheirosos e horrivelmente pastosos.

E eles foram os culpados. Caminhava com um amigo no sentido Copacabana quando quase preenchi com substância castanha as reentrâncias da sola de meu tênis. Por sorte, percebi o que havia no chão e desviei a tempo. Ainda assim, me surpreendi, afinal, não é todo dia que se encontra uma senhora quantidade de fezes caninas no meio da calçada da principal rua de Ipanema, a Visconde de Pirajá.

Meu instinto sádico-observador, que em raras vezes se manifesta, aflorou na mesma hora. Com a quantidade de gente que passava, fatalmente "alguéns" iriam pisar naquela caca toda e, quando isso acontecesse, poderia presenciar a reação de cada pessoa e descrevê-la aqui no blog, com direito aos detalhes mais sórdidos. Tratamos de entrar numa galeria que tinha uma sacada da qual podíamos assistir, de camarote, o desfile alheio rumo à bosta. Só faltava pipoca e refrigerante.

Aquela massa castanha clara concentrava-se em duas porções razoavelmente grandes, situadas próximas uma da outra, que reluziam levemente a um sol vespertino de quase-verão carioca. Nossa mãe... quem fora o dono mal-educado e infeliz que deixou seu cachorro defecar ali e, pior, nem teve o cuidado de limpar o feito? Não me importava, no momento.

Estávamos ansiosos e assistíamos àquele espetáculo como quem via uma partida de futebol: emoções e mais emoções.
Primeiro, os chutes para fora: na correria do dia-a-dia, muitos passaram por ali sem dar a mínima para onde pisavam mas, por sorte, não pisaram no cocô. Ahhhh!
Depois, os chutes na trave: havia quem chegasse bem perto mesmo, quase em tangente, mas não o suficiente para fazer estrago. Uhhh!
Por último, defesa brilhante do goleiro: houve um cidadão que conseguiu pisar, precisamente, no limpo espacinho entre as duas porções do material... salvo pelo anjo da guarda!

Passaram dondocas, estudantes, fazedores de porra-nenhuma, pessoas com carrinhos de criança, idosos (gostaríamos de poder poupar esses dois últimos do dissabor de uma bela pisada) e nenhum assumiu a artilharia. O desempate, porém, ainda estava por vir.

Homem, 30 anos, talvez drogado, talvez prostitúido... não sei. Vestia roupas escuras e andava bastante rápido, em largas passadas. Estava em rota de choque e não percebeu, até que deu mau passo (não interpretem mal, por favor). Queria ter uma microcâmera situada próxima ao local do ato para ver o sapato do moço indo de encontro a maciez pastosa do barro e, se possível, também um microfone, a fim de captar aquele barulho que vocês conhecem muito bem e para o qual não encontrei nenhuma onomatopéia aceitável (talvez ploft?).

Goooool!
E ele não saiu para a comemoração. Aliás, quem comemorou fomos nós, sádicos espectadores daquele show escatológico que, àquela altura do campeonato, fazia-nos rir sem parar. A pressa do elemento era tão grande que, mesmo percebendo que pisara onde não devia, não se permitiu parar de andar para olhar a sola de seu calçado, mas, enquanto caminhava, levantou o pé rapidamente e olhou de relance para o material que ali se acomodara. Por uma fração de segundo, fez cara feia, proferiu algum palavrão indecifrável e continuou sua marcha como se nada tivesse acontecido. Deixou para limpar depois, talvez quisesse perfumar algum ambiente com aquele cheiro bastante aprazível. Mas a bola bateria na rede mais uma vez...

O próximo infeliz entrou em palco meio desajeitado, cansado, trajando uniforme de carteiro e portando encomendas à mão. Parou na calçada e olhou em volta como se procurasse o número do prédio. Não conseguindo ler, deu um passo a frente, colocando um de seus pés bem do lado de uma das porções do digníssimo excremento, sem ali encostar, porém. Posicionou-se diante do gol para cobrar um pênalti. Novamente, olhou para o número do prédio e, dessa vez, conseguiu fazê-lo. Aliás, naquele mesmo prédio ele faria sua entrega.

Decidira para que canto do gol iria cobrar a penalidade máxima. para dali provavelmente partir para a comemoração. De rumo tomado, só faltava dar o primeiro passo. O carteiro ajeitou o pé, levantou-o lentamente para, em seguida, confirmar o placar de 2x0 após uma belíssima pisada, da qual não se deu conta.

Nosso carteiro atacante seguiu em direção ao prédio sem olhar para o sapato ou sentir o fétido odor do produto final do metabolismo digestório canino (bela perífrase para cheiro de m**da). O gol fora marcado por acaso e continuava despercebido.

A torcida, confortável e cheirosa em seu camarote, continuava a rir sem parar, mas o espetáculo ia terminando por ali. Depois de duas pisadas homéricas, registradas de maneira científica na memória e, agora, nesse blog, era hora de ir embora e seguir nosso rumo anterior, não sem, antes, tirar com o celular uma foto daquela caca toda. (não postei a foto por preguiça de pegar o cabo do celular e etc, perdoem-me!)


O texto poderia acabar aqui, como mais uma descrição de fatos cotidianos, a exemplo do que vinha fazendo nas últimas mensagens. No entanto, vou acrescentar alguma coisa.

II. BREVES ACRÉSCIMOS

Comparar o caso de pisar em fezes com as adversidades que a vida nos traz (ou presenteia, como diriam alguns) pode soar muito forçado, aliás, eu mesmo acho isso de leve. No entanto, foi uma metáfora que encaixou minimamente naquilo que lhes trago hoje.

No curso da vida, cada vez mais rápida, somos eventualmente atrapalhados por obstáculos. Alguns deles nos param de verdade. Alguns lerdam nossa caminhada. Outros não atrapalham de cara, mas "grudam" e continuam ali, latentes, para, a qualquer hora, virem à tona e "federem".

Esses que grudam e ficam latentes são os que, em geral, nos pedem decisão, situação essa que não é das mais fáceis.

Tem gente que prefere seguir adiante com o problema, fingindo que ele não existe. Por preguiça, medo ou domínio da situação (ou a impressão de), arrisca-se a deixar que o problema se potencialize, cresça, e depois vire uma grande questão a ser resolvida.

Tem gente que adota medidas paliativas, tirando o excesso do problema (em linguagem metafórica, tira-se o excesso dos lados, mas deixa "algo" na reentrância da sola do tênis), mas deixando parte significativa lá, que continua na ameaça de eclodir e deflagrar uma crise. Talvez, seja a medida mais sensata, desde que, depois, na hora apropriada, resolva-se a questão por inteiro.

Há, ainda, os prevenidos (talvez perfeccionistas), que, mesmo sem estarem se incomodando diretamente com o problema latente, param tudo na hora e se dedicam a resolvê-lo totalmente, a extingui-lo por completo e eliminar qualquer chance futura de complicação. Cortam o mal pela raiz, mas muitas vezes o fazem em horas inoportunas e dão ao caso prioridade desnecessária, o que não raramente atrapalha outros passos da caminhada.

Cada problema, porém, pede uma conduta individual, e decidi-la requer bom senso, experiência e conhecimento da questão, o que muitas vezes acaba constituindo-se num novo problema. Vale, portanto, o conselho Hipoglós: "é melhor prevenir do que remediar".

Em outras palavras, meus caros leitores, olhem para o chão e desviem da m****.

_________________

PS: Desculpem-me o atraso para novas postagens, mas atualmente estou lento para escrever, mas acredito que tem coisa boa vindo por aí.


(Ouvindo: muita, muita coisa)

Marcadores: ,

sábado, 18 de novembro de 2006

RAPIDINHAS 1.

Não é o que vocês estão pensando.
Bem, senti a necessidade de postar algumas coisas breves, que não exigem comentários longos nem análises profundas. São apenas pensamentos rápidos, instantâneos, que passam pela minha tela mental e dela saem rapidamente, mas que eu gostaria de relatar. Na verdade, eu deveria criar um blog paralelo chamado SO WHAT´S ABOVE? (valeu pela idéia, Zé), mas a preguiça me impediu e só me restou esse pífio recurso.
Com vocês, as rapidinhas (prometo ser breve - ou não).


SUBMUNDO
Semana passada, a banda de uns amigos meus fez um show num lugar aqui na Zona Sul ao qual nunca havia ido. Quando vi o ingresso, pensei que o lugar teria uma fachada apresentável, uma porta grande, um mural com alvarás de funcionamento e telefones úteis (Disque Denúncia: 2253-1177), além de um armário, digo segurança, de traje passeio completo, verificando identidades e falando "Estou só fazendo meu trabalho" quando alguém tentasse romper a censura, se ela houvesse.

O fato é que quando cheguei ao endereço do local, o choque entre imaginação e realidade foi estupendo, voou x para tudo que é lado. (x = o que constitui pensamento e realidade). O que vi não foi fachada, não foi porta grande, não foi mural, não foi armário, ops, segurança!

O lugar era uma casa semi-abandonada, com paredes amarelas mal-pintadas, já descascadas, sem porta principal, e com resquícios de obra por tudo que é lado. Madeiras podres encostadas em degraus de uma escada, pregos enferrujados espalhados pelo chão com bactérias de tétano clamando por contato e poeira de obra no chão e no ar, como se tivessem acabado de ali marretar uma parede.

O lugar não possuía fachada, de maneira que passaria despercebido como mais uma obra de reforma inacabada, se não fosse pelas pessoas que se concentravam em sua entrada. Os que lá estavam pela primeira vez também olhavam meio espantados e comentavam incessantemente sobre o lugar esdrúxulo, para muitos também inóspito. A porta de entrada, discreta e estreita, mais parecia uma porta de fundos, daquelas por onde sai o lixo e transitam cargas pesadas.

No lugar não havia mural com alvarás de funcionamento. Talvez nem alvará tivesse, dadas as pífias condições de evacuação em caso de emergência, planejamento quase nulo de programas anti-incêndio, anti-pânico e etc. Telefone do Disque-Denúncia, então... seria auto-destruição! Nas paredes, só quadros quase eróticos, que mais despertavam risadas debochadas do que qualquer outra coisa.

O lugar não tinha armário, digo segurança, mas sim um dos organizadores do minievento, que era quem controlava a entrada de ingressos e de pessoas. Sujeito de média estatura, franzino, não mais que 20 anos, sorriso no rosto, traje casual, quase playsson, e vocabulário bastante jovem. E também estava só fazendo o trabalho dele.

Ah sim... e o show foi bem legal!

A CHAVE PEQUENA, A FECHADURA, A DISPUTA E AS LAMÚRIAS
Descera com um amigo para comer um cachorro quente e voltava para a casa do meu pai, onde estávamos fazendo p. nenhuma no MSN. Ao chegar à portaria, verifiquei que o porteiro não estava em seu posto habitual, mas sim fora do prédio conversando com entusiasmo com outros porteiros. Assim, decidi pegar minha chave para abrir o portão, a fim de não incomodar o momento de prazer do prezado funcionário. Como estava bastante enrolado, com um copo pendurado na boca, duas paçocas na mão, e tentando abrir uma delas para comer, peguei o chaveiro e dei-o para meu amigo abrir a porta. Por algum acaso do destino, entreguei-lhe o chaveiro segurando especificamente uma maldita chave, a da tranca da bicicleta, que é pequenina e tragicamente maleável. Não percebendo que era uma chave de bicicleta, meu amigo enfiou a chave na fechadura e tentou abrir. Quando rodou, a chave havia quebrado lá dentro, e um pedaço dela jazia no interior da fechadura, enquanto o resto ainda estava na mão dele, sendo observada com duas caras de espanto do tipo "e agora?".

Nessa hora, o porteiro veio ver o que havia acontecido e chamou sua esposa dentro do prédio para abrir a porta pelo lado de dentro. Constatando que um pedaço da chave estava ali entalada, tentou retirá-lo com as mãos, em vão. Depois, pegou a verdadeira chave daquela porta e catucou ali, também em vão. Quando olhei em volta, três outros porteiros da rua que com ele conversavam, também vieram ver o que ali se passava. Cada um deu seu palpite sobre o assunto, sugerindo uma maneira de resolver a questão. Pareciam disputar quem ia futucar primeiro a fechadura, para ali tentar sua vitória sobre os demais.

Enquanto isso, a esposa do porteiro falava incessantemente palavras de desânimo. Deu uma senhora bronca no seu marido, em palavras quase incompreensíveis. "Que que ocê tava fazendo do lado di fora?" O marido respondeu: "Viajando, mulé!". A senhora retrucou: "Não podi ficá do lado di fora não". E depois ela insistiu em seu pessimismo, desencorajando também os demais a tentarem a sorte: "Vai tê qui chamá o chavêro memo, pódi desistir" "A porta vai ficá aberta i vai chamá ladrão". Confesso que sua cara amarrada e sua voz profética realmente me deixaram desacreditados quanto a uma rápida solução para tudo aquilo, mas, quando ia me afogar nessa descrença, fui subitamente surpreendido por um gritinho de orgulho do tipo eu-humilho.

Um dos porteiros havia conseguido, com um arame, colocar o toquinho de chave para fora, e iniciava uma dancinha de vitória fazendo com a boca um estranho barulho, quase um urro, como se quisesse dizer "sou vitorioso". De fato ganhara a guerra: vencera a disputa e suplantara a desesperança.

FÉRIAS!
Poucas coisas se comparam à sensação de falta de pendências, que é um dos prazeres que só consigo ter durante as férias. Aquela sensação de dever cumprido, de poder ficar de pernas pro ar, de poder respirar aliviado, enfim. Acho que a melhor parte é a de poder acordar tarde, sem ouvir o barulho desagradável do despertador, que anuncia o fim do descanso.
No entanto, lá para janeiro, essas e outras sensações começam a disputar espaço com o tédio e com o desejo de presenciar novas emoções durante o ano letivo, de rever os amigos, de voltar ao aprendizado, enfim, de voltar às aulas. E nem por isso o despertador deixa de ser odíavel.
Ai, se eu ainda estudasse à tarde...

(Ouvindo: Helloween - The Dark Ride)

Marcadores: ,

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Frases feitas

Não tem jeito. Elas estão em ímãs de geladeiras, em peças publicitárias, em agendinhas femininas, na última edição da Revista Capricho ou até mesmo em discussões inteligentes das quais se espera uma mínima argumentação lógica e coerente. Afinal, nem tudo é perfeito. (há!!!)

Começo por aí a falar das frases feitas, redondas, embaladas, portadas em embalagem prática onde só falta o "abra aqui" ou o "serve fácil". Frases feitas rapidamente tornam-se máximas, como se fossem frutos de um conhecimento universal e irrefutável que a qualquer hora pode ser utilizado para, com um breve dizer, destruir qualquer outro pensamento que vinha sendo construído.

Não há nada mais decepcionante do que, em uma discussão qualquer, ser interrompido por máximas isoladas e apresentadas de maneira simples, como "tudo é relativo", "toda unanimidade é burra", "nem tudo é perfeito", entre outras.

Tão irritantes quanto são os clichês que as feministas-de-butique usam. (O feminismo-de-butique é um assunto que eu quero tratar em breve, portanto, pouparei-os da falação.) Quem nunca ouviu "todo homem é canalha", "homem é tudo igual", "os homens são a cabeça, mas as mulheres o pescoço" para fazer a defesa de piadinhas machistas muitas vezes lançadas por puríssima brincadeira?

Os clichês de política também são recorrentes e geralmente começam com "A culpa é de...". Ah sim, a culpa geralmente é do governo ou então da mídia. A culpa nunca é da massa ignorante que não sabe eleger políticos ou de acasos do destino que prejudicam o sucesso do país.

Uma das frases feitas mais manjadas é geralmente usada quando se fazem generalizações quaisquer. Dou uma bala para quem acertar a frase, que é contraditória em si. Ganhou a bala quem disse que "para toda regra há uma exceção". E qual é a exceção dessa regra? Ganha uma Coca-cola quem me convencer de algo.


Prefiro uma macarronada italiana servida numa cantina a um Cup Noodles esquentado no microondas e comido às pressas no caminho para o trabalho. Sim, às vezes ele cai bem, mas o prato da nonna é indubitavelmente melhor. Ele dá mais trabalho? Dá. É menos prático que o macarrão instantâneo? É. Entretanto, todo o trabalho, a elaboração e o requinte compensam, no final.

O mesmo acontece com as frases feitas, que de feitas, elaboradas nada têm. Apesar de serem práticas, pouquíssimo trabalhosas, servirem fácilnão chegam aos pés de idéias bem desenvolvidas, fundamentadas e elaboradas com cuidado.

E aí... qual delas lhe apetece mais?



(Ouvindo:
Masterplan- Enlighten me
Franz Ferdinand - Darts Of Pleasure
Linkin Park - Crawling)

Marcadores:

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

A inflação, a esmola e a vida do mendigo.

Atire a primeira pedra quem nunca foi abordado pela expressão "Me dá um trocado", seguida pelos vocativos tio, tia, madame, senhor, doutor, ou até mesmo pelas recentes gírias cumpadi, fiel, parsero, preibói,..

Dada a situação social calamitosa do país, as cidades brasileiras vivem lotadas de pedintes, que, assolados pela miséria e marginalidade, vêem na benevolência alheia a única - ou a melhor - maneira de sobreviverem dignamente.

No entanto, é cada vez mais difícil sobreviver de esmolas na rua. Somada a outros fatores, há a inflação e a falta de reajuste esmolal. Mas como? Eu explico. Ah, sim... antes de qualquer coisa, esclareço não sou economista, analista econômico nem praticante de qualquer outro ofício que lide profissionalmente com o assunto.

Quando se dá uma esmola, é tendência natural dar a menor quantia razoável possível ao pedinte. Em termos de Brasil, isso quase sempre corresponde (e correspondeu) ao famosíssimo R$ 1,00 (um real), seja em moeda ou em nota. Raramente vejo alguém dando dois reais ou mais, ou então dando alguns poucos centavos.

Tanto há 12 anos, quando foi criado o Plano Real, quanto hoje, depois de muitas reviravoltas da economia brasileira, a esmola básica sempre é de um real. E ele é sempre prático, acessível, razoável. Um real é a primeira nota que aparece na carteira, a primeira que sai do bolso, enfim... é o mais manjado dos "dinheiros".

Mas a cada dia vale menos. É verdade, há 10 anos , compravam-se muito mais coisas com um real do que hoje. A desvalorização da moeda acarretou um aumento de preços e, portanto, numa compensação com o aumento de salários. Vejamos: o salário mínimo, em 1996, era de 100 reais, enquanto que, hoje, é de 350 reais. Aumento de 250% em 10 anos.

E a esmola? Essa sempre foi de um real. Ninguém a reajustou de acordo com o aumento do salário mínimo ou do encarecimento da cesta básica. Ninguém aplicou nela os mil índices inflacionários de institutos-renomados-de-economia-e-variação-de-preços-para-o-consumidor.

"Reajustar para quê? Já é uma esmola mesmo, de cavalo dado não se olham os dentes." diriam alguns. Também não sei para que reajustar. Dizem que a esmola vicia o cidadão e o impede/inibe de ir à luta por emprego ou melhores condições. Outros defendem-na, dizendo que ela resolve paliativamente o problema emergencial dos altamente necessitados.

Querendo ou não, o fato é que os pedintes de todo meu Brasil precisam "pedir" três vezes mais do que faziam há 10 anos para fazerem uma mesma aquisição, seja de comida, roupas ou drogas. E se estiverem insatisfeitos com suas condições de x (a maioria das palavras traria impropriedade vocabular, mas espero que entendam a idéia), não há sindicatos e não vale fazer greve. Muito menos pedir demissão.

(Foto e efeito por mim mesmo)

Marcadores: ,

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Dinheiro na mão é vendaval

Por que razão as pessoas costumam dar nomes especiais ao dinheiro? Há quem o chama de grana, trocado, bufunfa, cobre, tostão, ... Sem ele, estamos duros, quebrados ou até mesmo falidos. Com ele, temos bala na agulha (imagine!).

Mais engraçados ainda são os apelidinhos que as cédulas recebem. Abaixo, segue o nome de algumas, com fotos que tirei ontem, quando pus-me a clicar miudezas que via pela frente.

Ah, e claro... não venham me dizer que eu sou um porco capitalista ou que a ganância é minha parceira pessoal, porque não é verdade.


Cinqüentinha



Dez Mangos



Dôrreal



Por enquanto é só. Perdoem-me a superficialidade de hoje :-)

Felipe.

Marcadores: ,

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

O mundo e os gordinhos.

Estava eu no ônibus, absorto em meus pensamentos, quando me toquei de que eu havia deixado de ser uma pessoa observadora. Pois é verdade: de uns tempos para cá, as coisas acontecem e muitas vezes eu não as percebo. Entretanto, na hora em que tive esse estalo, a consequência foi natural: "vou passar a observar mais".

Na mesma hora, entrou no ônibus uma notável senhora de uns 30 anos, com algumas sacolas de compra e os dois reais da tarifa à mão. Esperou a fila para a roleta, até que sua hora chegou e, após entregar as duas moedas à cobradora, iniciou sua via crucis de meio metro.

Sua largura era sua cruz. O espaço entre a roleta e o vidro, seu calvário. A roleta e o vidro, seus algozes. Lentamente, a mulher levantou suas sacolas para cima da roleta, passou-as para o outro lado, deixou o braço abaixar. Com um pequeno passo a frente, enfiava toda sua saúde naquele espaço mínimo pelo qual precisava passar.

Era necessário que ela se comprimisse. Tratou de encolher a barriga, mas o traseiro era preponderante e não havia jeito de passar se não amassando-o contra o vidro. A medida em que ela passava, só se via aquela abundância hemisférica, literalmente falando, planificando-se contra a superfície polida do vidro, e distorcendo-se diante de meus olhos.

Para não ficar entalada e assim obter um constrangimento inimaginável dentro do coletivo, a moça iniciou um movimento giratório alternado, facilitado por sua roupa de tecido razoavelmente deslizante. Após algumas rodadinhas que deslocaram a roleta, foi possível que a senhora por ela passasse, triunfante, e alcançasse o não tão espaçoso corredor do ônibus, numa cena que facilmente comportaria como trilha sonora Chariots of Fire, do grande Vangelis.


Esse caso ilustra uma das muitas dificuldades que a população de grande inércia - ou com ela mal distribuída - enfrenta diariamente. São passagens estreitas, poltronas de cinema subdimensionadas, olhares asquerosos, roupas que dificilmente caem bem, cadeiras de plástico que se espatifam,...
Sem falar na constante pressão que os gordinhos sofrem por conta do bombardeio midiático em cima do corpo escultural, magro, perfeito, simbolizado por beldades de uma finura que chega a ser patológica.

O contexto não é favorável aos gordinhos. Paradoxalmente, o tamanho notável lhes é aviltante, torna-os menores. Marginalizados, alguns muitas vezes recorrem a soluções aparentemente milagrosas, que inundam a TV com promessas incríveis de rápido emagrecimento. Outros preferem ir ao analista. Outros simplesmente fecham a boca. Outros isolam-se na internet sob a forma de avatares.

Em escala minoritária, estão os menos encucados, que ignoram solenemente o fato de serem gordinhos, e conseguem levar uma vida comum. Há até quem saiba aproveitar de seu tamanho para fazer-se uma figura única, autêntica, destacada dos demais.

Infelizmente, porém, os que sabem lidar com os alguns (ou muitos) quilos a mais são poucos. A maioria ainda se incomoda bastante com isso. Assim, podem acabar por relegar a segundo plano aspectos do ser realmente importantes.

Aspectos do ser realmente importantes. Sim, são aqueles que quase sempre são invisíveis aos olhos. Aqueles que só o coração percebe. Aqueles que garantem uma amizade, um casamento, um carinho, um amor, uma vida, e não podem ser quantificados, muito menos por balanças mal-aferidas, pessimistas e repressoras.


(Ouvindo: Muse - Sing for Absolution)

Marcadores: ,

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

10 mudanças que o Orkut provocou na minha vida.

Ele realmente mudou minha vida.
Entrei no Orkut no final de julho de 2004 e logo me deparei com aquela mensagem profética, embora eu não tenha dado me conta disso na hora:

Orkut é uma comunidade online que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis.
Proporcionamos um ponto de encontro online com um ambiente de confraternização, onde é possível fazer novos amigos e conhecer pessoas que têm os mesmos interesses.
Participe do Orkut para ampliar o diâmetro do seu círculo social.

Passados mais de dois anos desde a primeira vez que dei de cara com o azulzinho do qual desde então sou frequentador assíduo, farei um balanço das mudanças na minha vida que ele me proporcionou.

1. Descobri que não sou o único a gostar de certas coisas e a ter certos hábitos dos mais banais possíveis que antes eu considerava bizarros e "extremissimamente" raros entre a população. Não sei se isso me consolou quanto às minhas loucuras e manias, mas que me fez rir muitas vezes, fez. Aliás, para isso até criaram a comunidade: "sou normal, descobri no Orkut".

2. Virou a primeira coisa que eu acesso tão logo entro na internet. Não é a página inicial, porque a tenho em branco, mas é sempre o primeiro site que eu abro.

3. Percebi ainda mais o carinho e a consideração que algumas pessoas nutrem por mim, através, é claro, dos testimoniais, e também pude demonstrar o mesmo em relação a elas.. Por mais que às vezes os depoimentos soem hipócritas e descaradamente posers, na maioria das vezes eles têm seu valor. É como dizer "eu te amo" para a sua esposa. Ela já sabe, mas nunca custa reforçar.

4. No Orkut, encontrei gente da minha família, primos próximos, aos quais me aproximei mais e mais através da internet. Quem diria?

5. Vagando de profile em profiles, encontrei muitas pessoas do meu colégio com gostos muito parecidos e também afinidade, e de muitas dessas pessoas eu virei amigo mesmo. Quem diria... se não fosse o Orkut, continuaria naquele "Fulano? Só conheço de vista." De fato, o Orkut me permitiu e muito aumentar meu círculo social, de maneira que, uns 50% dos amigos que eu mais prezo hoje, eu conheci pelo Orkut.

6. Muitas comunidades me propiciaram discussões bastante inteligentes e enriquecedoras. O Orkut tem isso: é um imenso fórum de discussões. Pena que com sua extrema popularização ele venha perdendo esse caráter, haja vista que os fóruns estão lotados de publicidades vazias e exaustivas.

7. Fuxicar. Sem dúvida, o Orkut é prato cheio para quem gosta de dar uma olhadinha na vida e nos contatos do próximo. Seria hipócrita em dizer que eu não faço isso, mas esse lado paparazzi do Orkut, para mim, não é uma doença.

8. Apresentar pessoas pelo Orkut é bastante prático. Quando você está falando de alguém para algum outro amigo que não conhece essa pessoa, nada melhor do que enviar enviar o profile do indivíduo referido. O kit já vem completo: interesses, auto-descrição e fotos. Sim, fotos!

9. Fotos! É mesmo! Talvez uma das grandes graças do Orkut seja o álbum fotográfico. Quem não gosta de ver álbuns de fotos? (Todos digam que sim, vai!) Virtualmente, o Orkut dá conta desse recado.

10. Reencontrar velhos amigos/conhecidos também foi uma excelente experiência que meu caro azulzinho me proporcionou. Retomei contato com várias pessoas com quem tinha estudado durante a pré-escola (há mais de uma década), e com outros que já saíram da minha escola atual. Sem dúvida alguma, esse foi o lance mais legal do Orkut, pois me permitiu (re)conhecer minha atual namorada e, por meio dela, dezenas de outras pessoas muito legais. Vale lembrar que ela havia estudado comigo há 10 anos atrás e, depois de reencontrá-la no Orkut num lance meio inusitado (digamos que rolou de primeira uma forte simpatia - os franceses diriam um coup en foudre -, já que, nos idos 1996, eu já tinha uma quedinha de criança por ela), começamos a conversar bastante e... deu no que deu!


É por essas e por outras que eu digo, sem titubear, que o Orkut mudou minha vida. E completamente pra melhor. A tal profecia da página inicial concretizou-se, enfim.


Trago à mesa outra questão: a Internet e seus serviços afastam as pessoas?
Não quero deixar a pergunta no ar e, portanto, darei minha singela opinião. Como diriam os Mamonas Assassinas, a Internet é uma faca de dois legumes.
Há quem usa a Internet e nela se fecha em um mundinho particular, virtual, de solidão, isolando-se do mundo e d"a tanta vida lá fora" (citando Pais e Filhos de Renato Russo), como também há quem sabe usar a Internet para conhecer novas pessoas, fazer novos amigos, conhecer novas maneiras de pensar, entre outros, e consegue trazer essas conquistas "virtuais" para a vida real, realíssima, de carne e osso, cara a cara, olho a olho e etc.

Make it worth =)

Felipe Drummond

(Ouvindo: Franz Ferdinand- Jacqueline)


PS2: Próximo post será coisa séria, eu espero.

Marcadores:

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Era sábado, acabara de sair da aula, e vinha caminhando com meu amigo desde o colégio em direção a minha casa. Depois de passarmos em um comitê eleitoral de um candidato a senador e interpelarmos fortemente o seu representante, que também nos deu material promocional de um tucano que realmente parece um tucano e quer ser presidente, cruzávamos a Praça Nossa Senhora da Paz quando me deparei com uma cena tanto esquisita quanto natural.

No chão, ao sol, havia um pombo dentro de uma gaiola que mal comportava o bicho, que batia asas, piava, se mexia, enfim, parecia desesperado. Ao seu lado, um senhor de uns 60 anos fumava e observava a praça. Em sua volta, mais de 30 pombos, alguns em posição de chocar, outros indo de um lado pra outro. O que mais intrigava, porém, é que a esmagadora maioria daquela pombarada toda voltava seus olhos para o pobre engaiolado. Aliás, muitos deles estavam tão concentrados que mais pareciam assistir a um espetáculo.

Juro que fiquei espantado com a cena. Não que eu tenha me comovido ou me enternecido, mas num ímpeto decidi ir falar com o senhor que trouxera o pombo para a humilhação em praça pública. Mas a reflexão inerente à situação veio antes.

Pergunto: estariam os pombos num pífio sentimento de impotência, parados, vidrados, diante da impossiblidade de algo fazer para ajudar o seu semelhante? Estariam os pombos apenas satisfazendo-se com o sofrimento alheio? Estariam os pombos no auge de uma curiosidade columbídea (sou sacana: do mesmo jeito que fiz com o murídeo de outro post, vão ao dicionário!) quase-mórbida?

Não sei. Por um instante, eles me pareceram humanos. Aliás, quero dizer que esse por um instante foi meramente estilístico, eles de fato pareceram e continuam me parecendo humanos nesse aspecto.

Creio que muitos de imediato vão levantar o braço e dizer que tudo que eu estou escrevendo aqui é bobagem. Não tem problema, eu respeito. No entanto, continuo a achar que o ser humano muitas vezes fica saciado com o penar do outro. Muitas vezes, ou seja, nem sempre. Esse sentimento tem seus quês de sadismo (numa extensão de sentido), de "ainda bem que não é comigo" e de "vamos ver até onde isso vai". Exemplifico cada um.

I.
Certa vez ouvi de um amigo o chamado Princípio de Conservação da Auto-estima. Explico: a auto-estima em um ambiente se conserva. Portanto, se alguém está ganhando auto-estima, com certeza tem alguém que a está perdendo. Dessa maneira, se tem alguém se danando, há outrem que se enaltece.

II
Muitas vezes é inconsciente e passa despercebido o pensamento de "ainda bem que não é comigo". Aconteceu com algum conhecido uma tragédia, daquelas que ocorrem de 1 em 1 milhão e, às vezes, são tão improváveis quanto ganhar a loteria chutando em todas as casas o mesmo número. Pois é... o que pensar? Ó, coitado de Fulano!!! Pergunto se não passou pela cabeça: Nossa, sou um cara de sorte! (ou de falta de azar, como quiserem)

III.
Acontece simplesmente quando se quer ver o circo pegar fogo. Para quê? Para saber como um circo pega fogo, para ter o espetáculo de fogo, chamas e cheiro de lona queimada. Sensações raramente vivenciadas. Usam-se os outros e as experiências alheias para construir-se experiência própria, como usam-se cobaias em testes científicos.

E o que vocês pensam?

E com vocês, o final da história.
Entramos eu e meu amigo na praça e fomos perguntar ao senhor que trouxe a gaiola com o pombo por que ele o fizera. Ele, muito educado, logo tratou de apagar o cigarro e de conversar simpaticamente conosco. Contou que aquele pombo aparecera em sua janela, doente, com o bico machucado, e que desde então ele pegou o bichinho, levou-o ao veterinário, alimentou-o direito, e estava preparando a ressocialização do animal, que em breve aconteceria, daí ele ter levado o pombo à praça.
(Isso inclusive dará margem em breve a outro assunto nesse blog, as conclusões precipitadas, visto que eu achava que o senhor tinha más intenções com sua ação e, no final, percebi que não era nada disso.)


Até a próxima.
Felipe

(Ouvindo: Beatles - A day in the life)



Marcadores: , ,

terça-feira, 29 de agosto de 2006

O TEMPO EM CINCO TEMPOS

Em virtude da comemoração dos 60 anos de minha escola e do dia de Santo Agostinho, lançou-se no CSA um concurso de poemas, cujo tema a ser desenvolvido era o tempo.
Confesso que escrever poemas não é uma atividade que me atraia bastante, mas resolvi escrever alguma coisa. E saiu isso aí abaixo.
______________________________________

O TEMPO EM CINCO TEMPOS.

Tempo de parar,
parar para pensar.
Tempo de pensar,
pensar no seu passar.

Se parar, porém, não poderei aproveitar:
o carpe diem, não terei como praticar.
Resta-me apenas pensar
no tempo que tudo há de trazer e de levar.

Há tempo para dar e receber amor,
esse que transforma instante em eternidade.
Há tempo para plantar e para colher,
e nesse ciclo perpetuar a continuidade.

Há tempo para se dar ao próprio tempo,
e ter, assim, o melhor remédio.
Cada um tem seu próprio tempo,
e, para aqueles que ele é lento, há o tédio.

O tempo passa e os dias vão.
O tempo passa e os dias vêm.
Sou um constante mutante na vida,
essa louca espera do dia em que irei também.

______________________________________

(A propósito, estou entre os dez finalistas do concurso, cujo resultado final sairá na quinta-feira, mas duvido que ganhe, pois os outros poemas no páreo estão bem melhores)

(Ouvi ao fazer o poema:
Angra - Time
Pink Floyd - Time ... sugestivo não?)

Marcadores:

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Como uma pessoa se sente depois de matar alguém?

Fico imaginando o que se passa pela cabeça de alguém que mata outrém, da maneira que o for.

I.
Imagino um motorista que atropela e mata um pedestre sem intenção de fazê-lo. Ele sai do carro, vê a pessoa estatelada no chão, com um red glow circundante (para não dizer que havia sangue para tudo que é lado), sem movimentar-se, sem respirar, enfim, sem vida.
O que pensa a pessoa que não freou na hora certa,ou distraiu-se ouvindo o rádio e não notou que alguém cruzava a pista? O que ela pensa a respeito do outro cidadão que na correria do dia-a-dia viu sua vida literalmente atropelada? E se o rádio estivesse desligado e as atenções estivessem direcionadas ao volante? E se o acidentado tem filhos que o esperam e que dele dependem, esposa que o ama, pais que dele se orgulham, sonhos que o esperam... por quanto mais eles serão adiados? E se... tudo aquilo não tivesse acontecido?
E logo depois vêm os curiosos, todos naquele olhar mórbido, para ver o que aconteceu, para ter uma aula de anatomia cujo professor é a própria vida, para satisfazerem-se perversa e inconscientemente de que o morto não foi um deles, ... E logo depois vem a polícia, que burocraticamente encara o drama das pessoas e registra o caso como se fosse mais um - e não deixa de ser, para eles. E vem o Corpo de Bombeiro, ao som das sirenes ensurdecedoras, que alucinam e inserem combustível na cadeia de pensamento dos "e se..." e dos "e agora".
Pois é... e agora, José? Você matou um cara e está aí, ao lado do infeliz, ambos sem ação, um pela própria morte, outro pela morte alheia, pensando não apenas nos trâmites legais que você vai encarar, como também naquelas cenas horríveis que, infelizmente, tornar-se-ão inesquecíveis. Por que aquilo foi acontecer justo com a sua pessoa? E, pior, você não teve a intenção!


II.
Em seguida, imagino alguém que, só para aparecer, costuma andar armado pra sair na rua. Não é mau, não é perverso, tem boas intenções, mas não resiste a fazer uma pose de machão briguento. Certo dia, está no bar tomando umas cervejinhas com uns amigos e respectivas esposas, curtindo um futebol na televisão e rindo dos causos cotidianos que contam uns aos outros. Por azar, na outra mesa há um engraçadinho um tanto piadista que não para de fazer gracinhas à esposa do indivíduo machão e, certa hora, esse se irrita e começa uma clássica briga de bar, que em situações comuns terminaria numa pequena pancadaria, quebra de cadeiras e ânimos exaltados, se não fosse pela arma que o cara portava. Esqueci de dizer que ele era esquentadinho. Aliás, sangue quente e poder são componentes de uma mistura letal. Nunca dão certo. Xingamento vai, xingamento vem. A arma é sacada e, em poucos segundos, todos em volta se espantam, arregalam os olhos e assistem ao espetáculo de quando o dedo indicador faz o trágico movimento para trás e sela ali o destino de um abusadinho. Apenas um abusadinho.
A ficha logo cai para o "machão" que, ali, vê cair sua macheza quando o seu "e agora?" remete ao xadrez para o qual logo será enviado e onde terá de realizar algumas brincadeiras com seus companheiros de cela. Esse cidadão acaba de tirar a vida de outrém, por um motivo fútil. Não soube ouvir quieto, não soube ignorar, não soube dar a outra face. Danou-se por não levar desaforo para casa, danou-se por querer posar de "eu tenho a força", danou-se porque achou que valia a pena lutar pelo que chamam de honra e dizem ser importante, danou-se!
E, da mesma forma como aconteceu com o pobre do motorista, todos fazem uma roda em volta do agonizante abusadinho, e presenciam esse a titubear suas últimas palavras, não compreendendo, porém, se essas são xingamentos (jamais chegarão ao destino), lamúrias (jamais sensibilizarão quem as ouve) ou últimos pedidos de vida (jamais serão atendidos). Há o último suspiro. Novamente pergunto... e agora, José? Não tarda, a polícia vem, junto com sua sirene insuportável. Lá está você, olhando também para o morto, com um arrependimento que nem cabe na sua razão, com um desejo inexplicável de poder voltar ao tempo e remendar uma parte do recente passado infeliz, que sufoca seu presente e condena seu futuro. Você é algemado e tiram, assim, a sua liberdade, já que você tirou a vida de outrém e portanto oferece risco à sociedade. Mas você? Um cara cheio de boas intenções que só curtia posar de machão? Pois é, meu amigo. Você. A sorte o escolheu. Sua mulher o olha com nojo e se afasta. Seus amigos também afastam-se, com medo de não serem tomados como cúmplices no crime. Sozinho no mundo, a viatura o espera, com destino ao inferno. Sua vida ali acaba. Naquele dia, você matou alguém e cometeu suicídio com apenas uma bala.



III.
Logo depois imagino um matador de aluguel. Ele procura seu alvo, localiza, mira, puxa o gatilho, confere se a vítima já bateu as botas e, em seguida, vai embora friamente, como alguém que bate o ponto depois do expediente e segue para a casa.
E depois daí não consigo mais imaginar nada. Isso para mim não faz sentido algum. Não consigo abstrair a esse ponto. Perdoem-me, caros leitores.



(Ouvindo: Silêncio.)

Marcadores: , ,