GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

eu, a chave, a velhinha, o medo e, quase, a generosidade.

Aconteceu há mais de seis meses, mas só hoje resolvi contar.

Estava caminhando na capital francesa como aqueles turistas que não querem nada. O dia estava um pouco nublado e eu já estava voltando para o hotel depois de bater pernas por muitas horas.

Entrei numa transversal de uma importante avenida e rumava em direção a uma das estações de metrô. Várias pessoas passeavam também, inclusive um casal de turistas brasileiros que não sei lá como me reconheceu enquanto conterrâneo e pediu em português para eu bater uma foto deles diante de uma casa que nada tinha de demais. Bati a foto e segui.

Dei alguns passos a frente e uma velhinha me abordou. Uma velhinha lá nos seus 70 anos, que falava um francês meio estranho, muito apressado, atropelando palavra. Parecia não ser francesa. Não estava muito bem vestida, tinha alguns dentes pretos, o nariz estranho, o cabelo mal-cuidado, algumas rugas e trajava um vestido preto nada elegante. Muitas rugas e a expressão desesperada. E por mais assustadora, até repugnante, que possa parecer essa velhinha, ainda era uma velhinha daquelas que inspira uma atenção especial. Não sei direito porque, mas tenho uma adoração especial por pessoas idosas, sendo os seres com os quais eu mais me sensibilizo.

Fato é que a velhinha estava com umas chaves na mão e em seu linguajar meio ininteligível, ou no mal-entendimento de meu parco francês, me disse que a chave ou a fechadura estava com problemas e me pediu ajuda para abrir a porta de onde morava. Não compreendi exatamente do que se tratava. Concordei com a cabeça e fui seguindo a mulher.

Entramos no quarteirão, pois seu prédio era daqueles cuja portaria não fica na rua, mas no interior do quarteirão, como alguns prédios do centro do Rio. O lugar estava vazio e não falamos nada até chegarmos ao portão principal. Já fui meio receoso sobre o que se seguiria, mas não quis pensar muito.

Chegando ao portão, pedi a chave para tentar abri-lo. Ela olhou educadamente e disse que a fechadura da portaria estava abrindo, mas que era para eu subir e tentar abrir a do apartamento dela. Pegou a chave e abriu o portão da portaria, dando um passo a frente e sinalizou para que eu também entrasse.

Não entrei. Travei no capacho e fiquei olhando para a cara dela, sem saber o que falar. Não iria subir aquele prédio vazio, num lugar em que eu não conhecia, com uma senhora que não havia me passado a melhor das impressões e estando eu sozinho na cidade . Fiquei com medo de que tudo aquilo fosse um golpe e ali minha viagem fosse para o beleléu. Imagina...

Falei a ela que não poderia subir, mas não quis explicar. Ela ficou desolada e perguntou o porquê de minha recusa, esboçando uma cara ainda mais desesperada. Comecei a suar frio tamanho era o conflito na minha cabeça: e se eu estivesse tratando como suspeita ou farsária uma velhinha necessitada e tão motivadora de compaixão? Ia deixá-la ali na rua implorando pela ajuda alheia para que ela conseguisse entrar em casa?

Ela me sensibilizou, mas meu lado racional e cunamãocional falaram mais alto. A história da chave não era lá muito plausível e o pedido de ajuda logo a mim, que não tenho cara nem know-how de chaveiro, não era muito razoável. E ainda lembrei de minha mãe, na minha distante infância, dizendo para eu não dar papo a estranhos. Por fim, preferi achar que era tudo um golpe e que o risco não compensaria a generosidade. 

Reiterei meu não e virei as costas dizendo a frase mais mãos-vazias da língua dos biquinhos e mil acentos: "desolé". Andei de volta para a rua. A velhinha ficou implorando para eu voltar, pedindo ajuda. Eu relutava em não olhar para trás, pois sabia que sua carinha enternecedora poderia me fazer voltar atrás na decisão de ignorar. Ela continuou a falar e eu seguia com o passo, embargado, tanto quanto sua voz, que ia sumindo como se ela tivesse resignado e fosse sentar e chorar.

Se sua voz sumiu em meus ouvidos, ainda continuou por um tempo a ecoar em minha cabeça. Até hoje, não sei direito se acertei ou errei em minha precaução ou em meu preconceito. Não quis pagar para ver, mas também esqueci que a dúvida impõe um preço um tanto salgado, parcelável em tantas vezes quanto for lembrada história. Compartilho a fatura.

13 comentários:

fabiana disse...

Incrível como essas coisas marcam. Nunca vai saber, infelizmente, se era só solidão ou um golpe. mas enfim, você foi, você respondeu ao chamado. esta talvez seja a atitude, estar aberto.

Rodrigo disse...

"brasileiros que não sei lá como me reconheceu enquanto conterrâneo"

sera q era algo q estavas vestindo?

pense nisso...

João Manoel Nonato disse...

Após chamar o texto de medonho e retificar-me - medonha a situação! - venho ratificar minha opinião:

Fosse eu no seu lugar, sei não. Provavelmente iria atender ao apelo inicial, atitude quase automática (ainda que minhas experiências com idosos tendam a ser traumáticas), mas certamente não teria coragem pra segui-la.

Não sei em Paris, mas por aqui é inviável. Mesmo que sejam velhinhas de 70 anos...

fabiana disse...

uma vez aconteceu uma coisa parecida comigo no Rio... eu fui... e era golpe! Ainda bem que eu nao fiquei traumatizada rsrsrs

João Medeiros disse...

e a velhinha desolée tb... q fase

fabiana disse...

Felipe, Feliz natal!!

Laura disse...

Eu, sinceramente, achei que você fosse ser estuprado pela velhinha... Mas entendo pq vc não continuou... já passei por uma dessas tbm.. simplesmente olhei pra velhinha e disse "arranja outro trouxa" [pq ela queria que eu levasse as compras dela do shopping até a casa dela que supostamente era ali do lado... enfim, serafim.]

Antonia disse...

Curiosamente, acho que lá seria pior do que aqui. Mas isso pode ser só preconceito meu. Aqui no Rio as pessoas assaltam de uma vez, lá em Paris dão golpe em otários. Mas podia ser só uma velhinha indefesa, no final das contas. Mas se alguém jogasse um anel na sua frente e falasse "gold" pode ter certeza que é golpe. Já fizeram isso comigo duas vezes lá e sabe, se não fosse golpe, eles não falariam em inglês... c'est la vie.

.luísa pollo disse...

se ela o oferecesse balas, e não chaves, você teria subido as escadas.

Felipe Drummond disse...

Hahaha Luisa, aí mesmo que eu não teria subido.

elisa disse...

Vcs ainda têm o coração bom, eu provavelmente tinha me desvencilhado da velhina na rua mesmo... Seguir uma velhinha em Paris?! Nem por euros...

Marco Sá disse...

Bom texto.
Mas eu tb não teria subido. Fato.

Julia Leal disse...

Acho q você não deveria ter subido mesmo não.... vai saber se a velha era uma maniaca ou era assaltante sei lá o_O E no final das contas ela deve ter encontrado outra pessoa para ajuda-la.
;*