GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

SAIREI PARA A BOATE E ENCONTRAREI O AMOR DA MINHA VIDA.

(ou "elucubrações esperançosas")

Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida.

Entrarei na fila e lá mesmo ela me olhará, assim meio desconcertada, como se tivesse sido surpreendida por algo, e como se quisesse dizer alguma coisa diante de grata surpresa, mas não tivesse muita coragem.

Olharei pra ela, meio de rabo de olho, meio com vergonha, como se também quisesse dizer alguma coisa, mas também não tivesse lá muita coragem. E assim, sem palavras, a gente dirá muita coisa ao outro.

Entraremos e ela me olhará do alto da escada. Retribuirei o olhar, fazendo-a constrangida. Sem jeito, ela andará para algum lugar. Subirei a escada como se estivesse procurando alguma coisa, quando na verdade estarei procurando alguém. Entrarei na sala e irei até a janela fingir estar pegando um ar para ver se ela aparece. Se eu fumasse, acenderia um cigarro para conter a ansiedade. Não é o caso. Mas mesmo depois de alguma espera, ela não virá ao meu encontro. E, já cansado, eu sairei da sala e irei ao banheiro. Quando pegar na maçaneta do banheiro, ela se abrirá mais forte em minha direção e de lá sairá uma mulher, a mulher. Não porque eu estava indo no banheiro de mulheres ou ela na verdade fosse um homem, mas porque alguma coisa de engraçado deve haver para a gente se cruzar fisicamente, depois que nossos olhares já o fizerem como tácita função fática. Não poderá ser simplesmente eu chegar nela no sofá e dizer: oi, qual seu nome, quer tc? Simplesmente não funcionará. O encontro com o amor da sua vida tem que ser algo meio bizarro, esdrúxulo e quase irônico: ela entrou no banheiro dos homens sem querer.

Quando a gente se cruzar nessa cena louca, riremos um da cara do outro, pois ninguém terá entendido direito o que se passou. Ela olhará a plaquinha na porta e verá que se confundiu. Gargalharemos juntos e nessa hora minha vontade de ir ao banheiro passará, convencendo-me de que a fisiologia às vezes não mais é que mero pretexto para os chamados da psiquê. Psi... o que mesmo?

Tentando contornar seu constrangimento duplo, pelo banheiro e por ser logo eu quem abriu a porta, serei caloroso em minhas palavras e puxarei uma conversa.

E conversaremos longamente: descobriremos que ela, como eu, faz Direito, que estudamos em escolas próximas, que moramos não muito longe um do outro, que ela também gosta de jogar tênis, que ela também é muito fã de cinema nacional, que ela adora ir à boate às 5as feiras e que ela adoraria fazer uma tatuagem na nuca. Ai, eu não gosto de tatuagens, mas tudo bem. E depois de saber tudo, ou quase tudo, não teremos coragem de perguntar o nome um do outro. Será como se já o soubéssemos.

E então, depois de algum bla bla bla, sentaremos ao sofá vendo as pessoas jogando um fliperama nojento e, num misto de tédio e oportunidade, iremos nos entreolhar procurando respostas para um silêncio eloqüente que formulou a pergunta: e aí? E aí nos beijaremos tempo bastante para percebermos que foi certa a resposta.

Conversaremos mais, mais e mais. Pegarei seu telefone e ligarei no dia seguinte. Ficaremos mais e mais vezes e em breve nos descobriremos apaixonados. Iremos a vários shows legais, e outros nem tanto. Pediremos um ao outro em namoro. Trocaremos uma aliança de compromisso. Compraremos um apartamento juntos e para lá nos mudaremos. Daremos uma festa de casamento muito bonita. Trocaremos alianças de verdade bebendo champanhe. Viajaremos em lua-de-mel pela Europa, na primavera. Tomaremos chocolate quente conversando sobre o quanto a natureza é bela. Olharemos um para a cara do outro como dois bobos. Se estivermos sérios, riremos. Se já estivermos rindo, riremos de novo por já estarmos rindo.

Teremos filhos lindos e por eles, para eles e com eles. teremos trabalho. E também teremos cumplicidade. Teremos brigas, só para que de vez em quando sintamos a medida da realidade e lembremos que ainda seremos um casal. E teremos reconciliação, para nos convencermos de que somos mais fortes.

Envelheceremos juntos e cataremos os primeiros fios de prata na cabeça um do outro, quando o primeiro se sobressair na alvura do travesseiro e despertar-nos da quimera chamada juventude.

E já na tenra idade, tomaremos chá e veremos televisão. Viajaremos para uma casa de campo e ficaremos lendo amenidades enquanto chove lá fora, tornando o dia cinza. Prepararemos juntos o jantar e dormiremos sob o cobertor, abraçados, ainda que a noite esteja quente, porque bastará ligar o ar condicionado como escusa para estarmos mais próximos.

E, no dia seguinte, eu acordarei primeiro e ficarei contemplando sua beleza e acariciando sua nuca macia, de pele lisa e intocada: terei conseguido dissuadi-la de fazer a tatuagem.

E na hora de morrer, fato que inexoravelmente virá, verei que ela foi o amor de cada um dos dias, do primeiro em que a conheci até o último em que com ela estive. E então, somente a posteriori, como de fato parece ser o conceito de "amor da sua vida", descobrirei que foi ela o meu.

Só lhe falta um nome, ainda.

23 comentários:

Thadeu disse...

Penso nisso todos os dias.
Não direi genial porque não é... Mas tocante. E, por que não, catártico?

fabiana disse...

adorei!!! a forma como você descreveu o encontro e a vida a dois é cativante. Eu também gostaria muito que fosse assim (só não sei se velhinha tomando chá... acho que preferia estar fazendo bungee-jumping, mas who knows?) Talvez não tenhamos tudo isso, mas isso tudo em partes; é muito legal sabermos que existe essa oportunidade, não?

Julia Leal disse...

Cara, sério esse foi um dos textos mais legais que você já escreveu. Podia fazer um curta em cima disso =)
Beijos ;*

samanta fonseca disse...

depois diz que não sabe escrever de amor.

Mauricio disse...

realmente foda. fiquei emocionado, juro, tá muito legal.

Felipe Drummond disse...

gostaria de saber que mauricio é... :P

Contrastes disse...

Muito bom mesmo.
Vc narra como se já tivesse acontecido.
Conocordo contigo quando vc diz que o encontro com o amor da nossa vida tem que ser bizarro e irônico.
Caso contrário não há história para contar,e se não houver troca de olhares,a vergonha inicial, o relatório dos sonhos, anseios e histórias, então não terá sido diferente,não terá sido notavelmente especial.

.luísa pollo disse...

ficou bonito o texto, admito. Mas descordo em parte. Não que não acredite em um grande amor, "o" grande amor. Mas acho que ele acaba. Acaba mas sempre estará lá. Não necessariamente você terminará sua vida ao lado de seu grande amor. A vida tem muitas reviravoltas, e acho interessante ter outras pessoas que não o verdadeiro. E tambem ainda não sei o nome do meu, só temos suspeitas, saberemos mesmo no momento de nossa morte, como você disse.

rubel brisolla disse...

Puta que Pariu.


AGORA Você mandou.



Lindo, cara. Sensacional. Você se superou brilhantemente.

rubel brisolla disse...

OBS: Casa da Matriz, não é?

Dani Lauría disse...

Alguém quer encontrar o amor da vida na Matriz, né, Drummond !
Adorei, lindo texto, mas o amor da minha vida eu encontraria na pista de cima, não saindo do banheiro ahahhah
beijos

Mauricio disse...

Mauricio Mitidieri muito prazer senhor Felipe Drummond haha

Bonie disse...

Lindo.

A-do-rei.

sineide disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
princia disse...

Lindo e sensível na medida. Olha que eu nem sou romântica (?)...
Tomara que vc a encontre, seja na Matriz, na Pista 3... hehe

tocqueville disse...

Lendo eu percebo q somos radicalmente diferentes meu irmao, mas a sincronicidade eh sutil: temos em comum a capacidade de sonhar, mesmo q em estado latente.

Isadora Garcia disse...

Belo texto! Gostei do final: "Só lhe falta um nome, ainda."
Estou começando um novo blog agora, o endereço é: http://apoesianosconecta.blogspot.com
Depois dá uma conferida, ok?
Beijos!

Indelével disse...

Nossa...vivo tenho devaneios desse tipo. Até se vou à padaria imagino que vou encontrar o amor da minha vida, mas confesso que nunca fui tão longe...

hhasudusahuhduisaidhisahudhsad

Muito bom, hein!
Gostei, gostei..

elisa disse...

Me parece q muitas candidatas a protagonistas vão aparecer para ser esse nome.

beijocas,

Guilherme disse...

Nao acredito que nao escrevi aqui!
Meu texto preferido. Brilhante mesmo.
(faco questao de nao usar UMMMM acento sequer so de picuinha)

Terra disse...

Realmente... Sensacional texto.

Felipe Drummond disse...

Eu que não tinha gostado, agora também gostei.

Chris disse...

Deixando aqui o meu registro de que li o seu texto. Gostei bastante, ótima sensibilidade, assim como também curti uma carona despretensiosa que se tornou num longo papo.

Você sabe o que penso. Mas por que não? Espero que você a encontre, numa boate ou não. E me avise quando acontecer. :D