GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)
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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

OPERADORA DE CELULAR

(ou ensaio sobre 'turns on')

Certa vez, ouvi de uma amiga que não nos apaixonamos por pessoas, mas por traços em pessoas. Não sei se de todo concordo ou discordo, essa é uma boa indagação. Sei que faz algum sentido: sempre há aquele detalhe que nos chama a atenção e nos ressalta um diferencial na pessoa, às vezes uma besteira qualquer, a selar o suposto premente êxito daquela combinação existencial chamada casal. Um diferencial que revela alguma afinidade, como se na vida nosso fardo (ou benção) fosse encontrar um semelhante em meio a tanta gente diferente, isto é, fazer da semelhança o diferencial entre um e os tantos outros diferentes, por mais que assemelhados entre si na estranheza (indiferença?) que causam aos nossos códigos e corações.

Apaixonamentos são também das mais curiosas emoções. Por vezes revelam fetiches da alma, especificidades sentimentais, fantasias do coração, não necessariamente carregadas de lascívia, pelo menos não naquele momento, nem por aquela razão. Bem, (ainda) há quem se derreta em amores por uma posição moral específica que o outro possua, por um sonho de vida partilhado, por um passado sofrido semelhante, por todo um caldo de referências em comum. Religiões, filosofias, tradições culturais, a pertença a certo povo. Tudo isso nos identifica e nos aproxima. E com razão.

Em algumas vezes, a coisa é mais física e sensorial. Um jeito específico de olhar, de dançar, uma certa forma de dizer "oi", um toque provocativo, sardas, covinhas, cabelos de cor assim, olhos de cor assada, uma pele macia... Por vezes, o magnetismo é inconsciente. Dele só nos damos conta quando a falta nos bate à porta, inexorável. Como drogados, sentimos verdadeira crise de abstinência, como quando andamos na rua e uma brisa incauta nos carregas para dentro do nariz o perfume da pessoa, como um combustível de alta octanagem a fazer florescer de modo incendiário as piores e melhores memórias a ela associadas.

Noutras vezes, a paixão se sugestiona por besteiras culturais quaisquer. Desculpe-me por subestimá-las de plano. Sabe aquela pessoa que gosta dos mesmos filmes, dos mesmos livros, das mesmas músicas, dos mesmos jogos e tem um certo estilinho? Aquela menina que gosta daquela banda que ninguém conhece. Ou aquela menina que - what the hell!? - também joga aquele RPG online. Não importa quem ela seja, vai parecer uma enviada do destino. Alguém mais do que especial. Também pode ser só uma poser inteligente que arrumou um nicho onde se sabe mais valorizada. Não tem jeito: a adolescência envolve cair nesse engodo. Eu mesmo já achei que óculos de armação grossa fossem indício de todo um conjunto de características positivas. Hoje fico desconfiado de ser uma qualquer querendo pagar de inteligentinha/estudiosa ou uma hipster blasé que vá se incomodar com minha breguice genuína ocasional.

Contudo, as afinidades mais estranhas, nem por isso menos relevantes, são as operacionais, logísticas, utilitárias, práticas. Elas estão longe de serem necessárias, muito menos suficientes, para fazer brotar qualquer sentimento de proximidade romântica. Mas uma vez acontecendo o pontapé inicial romântico, elas prestam um papel importante em alimentar a coisa. E, por vezes, servem como critério eliminatório. Podem parecer frívolas, materialistas, coisa de gente vazia, a antítese do amor genuíno e desinteressado, o que até tem seu fundo de verdade. Mas não podem por isso ser ignoradas: entendê-las não implicará perdoá-las. Não necessariamente.

Afinal, como conta pontos positivos a seu favor alguém que more perto! Alguém que tenha um carro e saiba dirigir para viajar aos fins de semana sem grandes perrengues de rodoviárias. Alguém que não seja chata para comer, no sentido (você pensou em outra coisa!) que possa acompanhá-lo em qualquer restaurante. Alguém que tenha horários noturnos e não vá morrer de sono no seu auge metabólico. Alguém sem muitos amigos, para não ter muito com quem dividir horários. Ou alguém com muitos amigos, para quem sabe se fazerem novos amigos. Alguém que entenda de algum assunto técnico o suficiente para quebrar um galho cotidiano. Alguém com uma família legal para se aturar (quem sabe amar) nos eventos dominicais. Alguém que não tenha tatuagens ou piercings indiscretos para a vovó não ficar constrangida. Enfim, alguém que permita um relacionamento sem grandes esforços, sem grandes sacrifícios: os pequenos são bem-vindos como uma sacudida à sempre iminente monotonia.

E - por que não? - alguém que tenha a mesma operadora de celular. Ajuda muito. Com os planos ilimitados em voga entre usuários da mesma companhia, nada mais oportuno do que poder ligar e mandar mensagem sem se preocupar com a conta ao final do mês. Cuidado para não virar um telechiclete.  Fato é que uma maior viabilidade financeira do relacionamento não deixa de ser uma afinidade. Uma vez correspondida, é mais uma razão para correr para o abraço.

Contudo, se a operadora for diferente e a pessoa ainda assim valer a pena, também não tem problema: já inventaram a portabilidade. Você pode correr imediatamente à loja da operadora para se perfilar ainda mais ao ser amado. Afinal, nem só de telepatia vive o amor. Um telefonema de vez em quando ainda é bem-vindo. Se for de graça, então...

domingo, 4 de novembro de 2012

o beijo.

Era madrugada de domingo para segunda e, numa esquina do Leblon, em pé no meio-fio, quase pisando a pista dos carros, um casal se beijava ardorosamente. 
E se beijava...
E se beijava...
E se beijava...
Haja gerúndio (rectius, pretérito imperfeito) para descrever a continuidade. Não era um beijo lascivo, mas também não era um beijo apaixonado. Era tão somente um beijo intenso, genuíno, gostoso.

Todo mundo passava e olhava. Estava ali para qualquer um devassar a intimidade que o casal escolhera compartilhar e dali imaginar o que quiser. Outros casais olharam desconfiados. Grupos de meninas passaram com cara de estupefação e censura. Grupos de meninos por pouco não deram uma zombada. Um casal de idosos lançou um olhar pudico. Quem não estava de passagem, se punha a observar atentamente. Os garçons da lanchonete e o segurança da rua já brincavam: "será que querem quebrar algum recorde?" De fato, parecia... 

Tomei meu suco, pensei na vida, chequei minhas mensagens, troquei um lero e o casal continuava ali. Não iam se afogar em saliva? O fôlego em algum momento não ia acabar? O tédio? Não iam querer dar um passo à frente e ter que arrumar um quarto?

O beijo seguia em movimento retilíneo uniforme... Uma hora chegou a ficar monótono. Não tinha mão boba, não tinha arroubos, não tinha palavras ao pé do ouvido. O casal só se beijava, se beijava, se beijava, numa falta de constrangimento que eu particularmente só me permitiria por pouco tempo.

Contei quarenta minutos de um beijo ininterrupto. Como pode? Fui embora e eles ainda estavam se beijando. Passei de carro e olhei de perto. A vontade de buzinar era imensa, mas eu me segurei para não parecer a mim mesmo um recalcado, nem um intrometido.

A coisa até que estava com cara de armação. Suspeitei que fosse ação publicitária, câmera escondida, experimento de psicologia ou coisa do tipo, e que, ao final, os observados seríamos nós, os espectadores do espetáculo, em reação à cena inusitada.

Mas, apesar de algum ceticismo, acabei por ceder à máxima de que o amor é lindo, aposta uma ressalva: nem tudo o que é bonito é para se mostrar.

Em seguida, ouvi uma música romântica. Confesso que estava um pouco embalado. É, ainda sei me comover com pouca coisa e com breguices ostensivas. E um beijo ainda é um beijo.

sábado, 23 de junho de 2012

AMOR NOVINHO

Era dia dos namorados e eu já estava meio cansado das demonstrações publicas de afeto afeitas ao dia. Ora invejáveis, porque solteiro, ora apenas cafonas, porque o amor romântico é por si cafona quando somos terceiros, especialmente quando empatia não nos é o forte. Não me é o caso, para meu próprio desespero...

Eis que parei no sinal e começou a atravessar a rua um casal que devia ter lá seus 15 anos. Ela estava de uniforme escolar e segurava uma flor contra o peito. A outra mão dava ao garoto, que, vestido à paisana (em considerando que Abercrombie ainda não tenha virado um uniforme "laico" para a juventude carioca), destilava amor: tinha cara de que aquele era o primeiro dia dos namorados em que ele passava acompanhado. Quanto a ela, não tive duvidas: seu semblante era tão maravilhado que parecia suspirar.

Mergulhei meu olhar neles, que se entreolhavam com timidez e doçura, com uma cara de descoberta e arrebatamento. Não devem estar entendendo ainda porque aquela coisa tão linda faz tanta gente sofrer, chorar e até morrer. Seria encrenca de gente grande?

Se for o caso de que pensaram isso, não sei se ingênuos são eles ou se sou eu. Se ingênuos eles, aviso que desde logo os perdoo e os admiro por amarem sem as antecipações angustiantes que hajam carregado de desamores passados.

Se ingênuo eu, por estar praticamente babando diante de cena tão linda e pontual, reservo-me a defesa de que, independente das agruras que o amor esconda e reserve para o futuro dos amantes - e estatisticamente amores não dão certo para sempre -, o amor me comove esteticamente, especialmente se forem esses amores açucarados, retratados como polaróides dos melhores momentos, a desconsiderar o marasmo da rotina e as neuroses do passado. O amor é lindo mesmo.

De mãos dadas atravessaram a rua. Estavam tão distraídos e deslumbrados que me pareceram desfilar sobre um tapete vermelho imaginário. Acho que nem no casamento poderiam parecer tão plenos. Subiram a calçada como se subissem ao altar. A flor solitária era segurada como buquê. Os passantes de Ipanema eram os convidados. O uniforme virara branco. A Abercrombie virara paletó. O doze de junho agora era treze de junho. O barulho dos carros e a freada dos ônibus tocavam Elgar. Esperei jogarem arroz do alto das janelas, mas parecia que só eu percebia aquela cena.

O sinal abriu e foi como se eu aterrissasse. Buzinaram atrás de mim, como se o atraso dos outros fosse mais importante que meu devaneio romântico sobre amor alheio. As buzinas devem ter razão, mas peço logo que me perdoem: era dia dos namorados e, só, só estava indo para a faculdade.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A TENTAÇÃO DE MÃE VALÉRIA

Quem já perambulou por Ipanema bem sabe que nos postes de cada esquina, além da luz que ilumina a rua, fatalmente encontram-se cartazes com oferta tentadora de uma mãe-de-santo a iluminar corações aflitos e apaixonados:

MÃE VALÉRIA: TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS.

Acho bonito que exista uma mística, um jogo e, às vezes (aham), até um drama no apaixonamento e na sedução. Conquistar o outro e cativá-lo aos próprios braços é um trabalho difícil, embora ocasionalmente ele nos ocorra com tanta facilidade e surpresa que não raro somos levados a acreditar que há alguma explicação inesperada, como energias, cosmos, e outras baboseiras (?), por detrás. E se houver mesmo? Enfim.

Talvez a dificuldade do trabalho de conquista amorosa seja justamente a bilateralidade. E conquistar é verbo que pressupõe resultado: ninguém conquista como tentativa. Diferente de outros "projetos" aos quais nos dedicamos na vida, o projeto da conquista amorosa não funciona se estivermos obcecados, nem se focarmos todas as nossas energias para o resultado almejado. Nesse departamento, as coisas são diferentes: se formos com tudo, assustamos a quem queremos cativar. Se formos "com nada", ou melhor, se não formos, pagamos o preço da nossa omissão, embora alguns insistam em dizer que a rejeição acaba sendo convidativa. Pode até ser, mas não para quem age estrategicamente, isto é, para quem rejeita intentando conquistar. É que os apaixonados não conseguem mentir sobre a paixão: quando mentem é porque se atrapalharam tentando não apressar a verdade.

O que Mãe Valéria promete, com suas ligações transcendentais que nem ouso explorar, derrotar ou confirmar, é resolver essa questão difícil: eliminar a bilateralidade da conquista e simplesmente fazer conquistar o outro, como quem pratica um ato em vez de um contrato.

Meu "eu liberal" fica perguntando se isso é interferir demais na vontade alheia, se é que tal é verdade e não um mero engodo a se aproveitar da fragilidade dos apaixonados. Meu "eu romântico" (que não necessariamente se contrapõe ao liberal) pensa, por sua vez, em tom eufemístico: Mãe Valéria é só um empurrãozinho do universo para um amor consciente e voluntariamente dirigido.

O que quer que seja, Mãe Valéria é tentadora. Promete eliminar domingos chuvosos sofridos, leituras pessimistas de entrelinhas, desertos de espera por mensagens que tardam ou não chegam, palavras truncadas em esbarrões de corredor, discussão sobre se há ambiguidade ou univocidade nos gestos simples e complexos.

Promete debelar o frisson, que em alguns gera verdadeira inquietação epistemológica - tamanho é o amor à verdade -, de encontros tão bem justificados sob o manto da coincidência e da casualidade, bem como de desencontros igualmente bem justificados sob a escusa do azar e da fatalidade.

Alguns vão dizer que Mãe Valéria é como uma trapaça no jogo da conquista. É como usar um cheat. Você se diverte usando cheats? Eu me divirto, em geral.

A diversão é menos verdadeira porque usou cheat? Não sei. Nunca fui dessa galera que gosta de jogar games fazendo as missões e levando a sério o enredo. Talvez por isso jogos nunca foram atraentes em minha vida. Quando podia, colocava um cheat e ficava só zoando. Sentia menos desafio, eu concordo:  mas nunca quis buscar num jogo algo além de mero entretenimento. E adrenalina não me entretém.

De desafiadora, sempre me bastou a vida: talvez ela assim o seja porque justamente consiste da "arte" (é tão brega dizer que algo é "a arte de") de conciliar vontades próprias com vontades alheias dentro das possibilidades fáticas que se põem sobre a mesa. A vida, em muito, é a correspondência entre o que nós queremos, o que os outros querem e o que se pode fazer. Mãe Valéria promete ajustar os dois últimos elementos aos desígnios do primeiro.

Isso pode significar destruir toda a graça da conquista e o próprio percurso amoroso que serve de lastro aos romances. Uma conquista amorosa suada acaba por valorizar o amor. Acho que Mãe Valéria, se é que vale a pena de alguma forma, não o vale como recurso principal, mas é fato que apaixonados sem esperança podem encontrar nessa oferta encantadora o melhor alento - e a última trincheira - para seus corações inquietos.

Falo de Mãe Valéria em tom documental, como se lá já tivesse ido. Nunca fui. Morro de vontade de ir, tanto como cronista curioso e cético desconfiado quanto como apaixonado ocasionalmente frustrado. Eu bem lá sei que Mãe Valéria não faz muito sentido: ela é reprovada em todos os meus testes lógicos e de coerência. Até consigo pensar em problemas à atuação de Mãe Valéria.

Vejam só. Se ela fosse infalível, haveria uma fila gigantesca de meninas à sua porta, ansiando pelo Príncipe Harry em seus braços: mas não existe Princípe Harry para todas e, ainda que houvesse, para ele chegar em três dias teria que passar um dobrado com sua agenda institucional. Do mesmo jeito, quando dois homens desejam a mesma mulher, quem leva a melhor? Quem chegar primeiro? Quem tiver o santo mais forte? Quem pagar mais? Problemas...

Fico me perguntando sobre o que Mãe Valéria fala e faz. Não pode ser possível que alguém se mantenha no mercado de condução-de-pessoas-amadas-em-tempo-recorde há tanto tempo com base em mentiras básicas ou bobas... Tudo bem, ainda que ela esteja mentindo como charlatã profissional, não é possível que coisa alguma aconteça (ou é?). Talvez ela seja apenas uma boa conselheira amorosa, não descarto a possibilidade. Seria uma "Hitch" carioca com leves predicados mediúnicos e epíteto matriarcal?

O que sei é que Mãe Valéria é uma tentação permanente. E não é porque me disseram que ela até é uma senhora bonita...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

epílogo epistolar

(setembro / 2010)

engraçado ver como você saiu mesmo da minha vida. hoje vi sua foto e olhei lá no fundo do brilho dos teus olhos: eles não mais me comovem, por mais enigmáticos que ainda possam parecer.

talvez você ainda me inspire este texto, mas sou só alguém que ri de uma desgraça superada. este texto não rende homenagens a você. ele é na verdade uma homenagem a mim mesmo: acho-me bom por ter saído fora do poço que você me significou.

tuas músicas não mais me tocam, nossos lugares não mais me mexem, tuas lembranças são neutras.

convivo com teus fantasmas como se ordinários fossem. também nunca esperei os esquecer de vez. eis que de repente, você está ali me olhando... mas eu só volto a viver. emito uma auto-nota de "i see dead people" sem me alterar em um batimento cardíaco sequer.

meu coração ainda se debate - ainda bem! - por mais que combalido: sinto-o pulsar como um ex-combatente que bem conheceu os horrores da guerra e hoje anda com mais calma.

minha sensação é a de final de filme, e agora me coloco a resenhá-lo, como se o fade out estivesse a se aproximar. fui o protagonista e - acredite! - o antagonista do meu próprio enredo, uma trama de romance que virou superação, exatamente no dia em que percebi que não era você a atriz principal, mas limitava-se a uma mera coadjuvante. a história era toda minha. o roteiro era todo meu. o conflito era todo meu, o conflito era todo eu.

sem mais delongas, esse óscar eu dou a mim mesmo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

ué mas eu não sei

certezas e incertezas me assolam...
não preciso da verdade:
eu preciso é da certeza.

outro dia eu fiz uma pergunta e uma proposta...
e me tascaram de resposta:
"ué, mas eu não sei..."

o silêncio se instaurou nas reticências
fui eu quem não soube o que fazer!
e nem o que dizer.
mas na dúvida alheia produzi uma certeza:
tô fora de gente indecisa!

doeu um pouquinho, devo dizer.
o "não sei" na verdade era só para atenuar
a impossibilidade cabal de interação
entre quem tem certeza de querer
e quem tem certeza de não querer,
mas não tem coragem de falar.

sábado, 14 de agosto de 2010

A-VENTURA DE NOVEMBRO

(nota: estou abrindo o baú)

(DEZEMBRO/2008)

A ventura de novembro mais foi uma aventura, ou, talvez, um devaneio do ingrato acaso, ao qual hoje rendo minhas homenagens por tamanha engenhosidade.

Fui flamenguista por um mês. E isso já diz muita coisa, embora nada houvesse de futebol no meio disso.

O prólogo da aventura se desenrolou num armazém em clima de luto pós-eleitoral que de pronto se reverteu tão logo foram despertadas as paixões íntimas, introvertidas, mas controversas. E depois, o encontro casual nos pirineus franceses da praia rubro-negra, lá do décimo andar, em que tudo era branco e macio sob uma bandeira do Brasil, com dores nas costas e olhares que se prolongavam em não quererem se desencontrar, pedindo o que depois, não tão depois, viria.

Um não tão depois que durou pouco menos que uma semana, algum tédio, e muita gastação de francês e cultura de cinema Estação. E tudo começou a acontecer numa sexta em que quase chovia, ainda que ninguém quisesse ir à praia ou à piscina, coisa de quem anda de mal com São Pedro, sempre a lançar suas maldições meteorológicas.

Uma sexta que não teve cinema no Estação, mas a distância das cadeiras azuis nocivas à coluna, ah minha coluna, e os papos alheios que envolviam viuvez, barcos e o tempo. Uma distância que foi se superando quando as mãos se aproximaram, quando a conversa convergiu e quando os olhares novamente se encontraram não mais querendo se desencontrar, exceto por uma vergonha boba, daquelas bem singelas, que encerram os sentimentos mais sutilmente gostosos que o ser humano gosta de viver, o que nos distrai e nos alimenta o inquieto comboio de cordas.

Por fim, e era só o começo, os olhos novamente se encontraram, sintonizaram-se como antenas da alma e fecharam. Fecharam porque se fizeram prescindíveis quando tudo o mais já estava junto, juntinho, e os óculos se encostavam, se tocavam, se estalavam e se embaçavam, como uma metonímia para dois intelectos que convergiam em carne. E dali foram para um céu de diamantes cafeinado.

O domingo estava de um sol maravilhoso, porque ninguém levou roupa de banho. A contradição estava no ar condicionado, na biblioteca e nos livros, que se venceram pelos sucos, pela pizza, pelo calor do outro, pelas obras da lanchonete, e pelo centro preto e seu sofá cultural, muito melhor, embora menos simbólico, que o banquinho de madeira duvidosa dali não muito distante.

Os dias seguintes foram os maravilhosos dias seguintes. Ora chuva, ora sol, algum descontentamento de São Pedro e de outro não tão santo assim. Vivia, sem me dar conta, uma contagem regressiva previamente anunciada, a qual eu ignorei em achando que comigo seria diferente. Uma contagem regressiva rumo a não se sabia quando, que degenerou em não saber como.

As mensagens, as entonações, os olhares, os beijos, os carinhos, os segredos, os "te adoro" e "psius" não ditos, mas sussurrados a um coração efervescente e enfeitiçado... tudo indicava o caminho de uma crescente entorpecedora, capaz de distrair, capaz de, por conta da dedicação exclusiva, fulminar o olhar atento de quem cria, como se a função poética tivesse sido emprestada a mais nobre serventia e em seu lugar entrasse, como mero tapa-buraco, a infrutífera e egoísta função metalingüística.

Os encontros no meio da semana, no corre-corre das semanas de provas, os almoços apressados, a ventania entre os dois grandes prédios anunciando o tempo a mudar... O namoro num dos parques da cidade, num sábado sabático que dormiu pouco para acordar cedo sobre os cacos da sexta que avançou incauta pela madrugada. O namoro nos banquinhos de madeira verdadeira, à sombra de um dia nublado e das árvores que o espírito pueril ousou escalar, sob uma chuva rala e fria que pedia licença poética para cair em tão caloroso momento.

O bolo estava pronto e nele faltava uma cereja. A cereja do pedido em namoro, que eu entendi como ato declaratório quando a todos, e a quem realmente importava, parecia ato constitutivo. A cereja da minha hesitação, que deveria ser posta em cerimônia, em grande momento... no grande momento que não chegou a acontecer. Hesitei porque estava certo demais de que aquilo derradeiramente aconteceria. Inundei-me por essa certeza e acanhei-me pela prudência da muita certeza: estava tão certo que eu duvidei. Foi esse o equívoco? Restará a duvida.

Novembro encaminhava-se para seu final e junto levava minha aventura a seu desgaste. O antepenúltimo dia do mês foi estranho. Era sexta, chovia e algo havia se desencontrado. Havia a gripe, o vírus, o RNA, o DNA e minhas palavras se desencontraram entre a suposta graça da piada e a frustração de uma lembrança.

O penúltimo dia do mês, que era para ser o sábado tão esperado de ir à praia, da praia a que São Pedro legaria todas as bênçãos, foi o dia da espera pela ligação, pela mensagem... o dia da ansiedade enlouquecedora que pôs na cabeça caraminholas como que em prenúncio ao que não muito depois se seguiria, como se "o deserto da espera tivesse cortado os fios".

O último dia de novembro foi o último em que as coisas estiveram bem, ou assim pareceram estar. É como aquelas melhoras súbitas do quadro clínico logo antes da morte. Um cinema, um passeio, um andar juntos sob um sol gostoso e uma brisa fresca, um passeio no aterro à procura dos banquinhos. Quando finalmente se achou um banquinho, dessa vez de pedra, vieram os beijos e os carinhos, que se deixaram constranger pelos olhares alheios, pelos cachorros passeando a esmo e por um batuque bate-lata de projeto social que perturbava os ouvidos e impedia - impediu - de se ouvir no coração do outro o batimento acelerado tuntz-tuntz, a rave cardiológica extasiada chamada paixão. E aí, quem sabe, surgiu a dúvida de se tudo isso ainda existia... é que no fundo pareceu haver só um silêncio.

Entramos em dezembro juntos, no computador. Um olhando a cara do outro, separados por um abismo chamado internet, sob uma certa estranheza que não se explicava. Um olhar perdido, uma palavra que não encontrava eco, um sorriso que não alcançou lugar, um encanto a esmorecer, como se o que se tinha de melhor estivesse escorrendo implacável por mãos fechadas. Fomos dormir, talvez fosse só uma fase.

Em dezembro não haveria mais ventura nem aventura. A segunda-feira de primeiro de dezembro teve cara de hiato: o dia que antecedeu o fim, que antecedeu a terça e nada mais.

E a terça, enfim... a terça em que a velhinha de que mais gostava no meu prédio morreu, o dia em que se completaram vinte anos da morte do meu tio, o dia em que eu armei pela primeira vez uma árvore de natal na vida, numa ironia do destino, do ingrato não-tão-ingrato acaso ao qual eu novamente rendo minhas homenagens.

A terça-feira encerrou o último capítulo e iniciou o epílogo da aventura não mais venturosa: um dia lindo, um passeio lindo... o sal foi até o açúcar. Fingindo-se gringos e destilando nosso francês mais uma vez, fomos às alturas, e lá do alto, tão distante da cidade, dos carros e das pessoas, foi-se vendo o quão distante também estávamos um do outro. De repente, não mais que de repente, as mãos não mais se achavam, os olhares se encontravam e logo se perdiam e as palavras doces não mais reverberavam. O sal fizera-se amargo, azedo, intragável. Depois, um almoço no lugar dos barcos, da viuvez e do tempo. Comi risoto e ela foi nos salgadinhos mistos, então para quê mais o sal? Fui feito redundante.

E depois bateu um sono e uma preguiça de tudo, até de irmos até o banquinho de madeira duvidosa onde tudo havia começado. E aí fomos para os pirineus franceses, de táxi, um ao lado do outro, íamos para o mesmo endereço, mas já trafegávamos caminhos diferentes. Saltamos e caminhamos paralelos, mas separados por um muro invisível, estranho, que instigou a dúvida e culminou na pergunta: "o que aconteceu?" e na resposta: "não sei." E o silêncio. Havíamos chegado e eu esperava que ela subisse para trazer minha mochila que eu preferi não carregar (talvez já soubesse que o dia seria pesado demais) para então poder ir para casa.

Minha mochila veio junto com um pedido de tempo. Um tempo que eu não entendi. Um tempo que não era grandeza primitiva da física e talvez mais fosse uma sutileza literária, um eufemismo para outra coisa que ali não era evidente. Um tempo para resolver toda uma confusão na qual eu não conseguia acreditar. Conversamos brevemente e nos entreolhamos no que não parecia um término, mas um entreato. Seguimos em direções opostas, às vezes olhando para trás.

Nos dias seguintes... ah, deixa para lá. Os dias seguintes já mostravam um dezembro consumado, uma tragédia em que eu não quis acreditar: episódios almodováricos demais para minha hollywoodiana previsibilidade do inusitado e conversas perdidas em um palácio do governo sobre uma situação já tão desgovernada, com direito a batuque bate-lata perdido e a uma curiosa, simultaneamente literal e figurada, pedra no meio do caminho.

Os dias seguintes foram a esperança se esvaindo a cada dia, à medida que o acaso se revelava mais irreverente, ingrato, confuso, louco... ou talvez o louco não fosse o acaso... ou o acaso nada mais fosse do que loucura. Ou nada era verdade. Não sei.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

VACILO

abati-me porque sou humano. e nem o ano novo me fará mudar. e nem uma roupa nova me fará mudar. e nem um carro novo. e nem uma viagem maravilhosa. e nem uma menção honrosa. e nem a mega-sena acumulada (há quem duvide...). e nem um texto libertador. e nem um filme esclarecedor. e nem uma nova profissão de fé. e nem um novo deus.

abati-me porque sou humano: pleno na consciência de um vazio... que às vezes parece cheio por já conformado ou por inconsciente, distraído.

abati-me. e nem as drogas me farão mudar. e nem as farras me farão mudar. e nem as gatas me farão mudar. e nem os amores antigos, mesmo que ressuscitados ao auge.
já os amores novos, quem sabe...
e o tempo, talvez...

que até lá eu não tenha perecido, pelo menos.

sábado, 14 de novembro de 2009

o brócolis

Eu olhei para o brócolis e tive vontade de escrever um texto, mas fiquei me indagando sobre o que meus caros leitores teriam a dizer sobre isso depois de mais de um mês que eu fiquei sem escrever, digo, sem publicar.

O brócolis não tem lá muitos atributos que mereçam ser poeticamente entronizados, se lá é verdade que a poesia é capaz disso tudo. O brócolis é verde como qualquer planta, é relativamente macio, como qualquer alimento e é saboroso como qualquer coisa que se põe à boca quando se está com fome. E ele também é rugoso. Rugoso de um jeito que chega a incomodar, mas na aula de biologia a gente aprendeu que é só para aumentar a superfície de contato, então vamos relevar essa marca da mãe natureza.

Mas o brócolis hoje foi digno de um texto. Do mesmo jeito que outros assuntos frequentemente aqui o são. Não porque sejam em si dignos ou indignos, românticos ou não-românticos, tocantes ou não tocantes. Amor em si não é poesia. Decepção em si não é poesia. Nem poesia em si é poesia, oras!

O brócolis também não é poesia em si. E para que se torne, não basta que eu fique aqui elogiando suas curvas, seu sabor, seu traço geométrico, ... É preciso que eu tire dele algo para além dele mesmo. Talvez seja essa a graça da poesia: não estar em si, não ser ínsita ao objeto poético. Ela dialoga com quem lê ou com outra coisa qualquer que quem lê percebe.

O brócolis hoje talvez não faça sentido nenhum a vocês. Nem a mim faz muito, para dizer a verdade. Mas foi fantástico olhar para o brócolis e ter o ímpeto de fazer com que ele não fosse só mais um brócolis comido, digerido e expurgado na minha vida. Foi fantástico fazer com o brócolis o mesmo que eu faço com outras coisas mais nobres da vida. Tudo bem que o brócolis não é tão nobre nem tão inspirador quanto a paixão, a desilusão e esses sentimentos arrebatadores que comumente me encantam. Fato é que esses sentimentos são tão mais brócolis do que eu pensava quanto o brócolis é tão mais esses sentimentos quanto eu supunha.

No "papel", tudo cabe...

domingo, 13 de setembro de 2009

MONOSSÍLABO TÔNICO

(resíduos do último eu-apaixonado...)
Espero seu monossílabo tônico e quero que ele venha com mais força do que sua tônica habitual, para me arrebatar de vez, seja de entusiasmo, seja de frustração.
Seja seu monossílabo tônico a resposta binária que distinguirá o nunca do pra sempre, ainda que no fundo eles sejam a mesma coisa: detêm a mesma certeza, que no fundo é a pretensão humana quanto a um futuro do qual se pensa senhor, e se destroem facilmente em face de alguma ou qualquer novidade, daquelas que, com o perdão da redundância, não se estão realmente esperando.
Quero o monossílabo tônico, pode ser um ou o outro, como a expressão de uma vontade. Não uma vontade espasmódica, estabanada, dessas que sai por aí como mero capricho, mas uma vontade pensada. Tão pensada e repensada, que, de infinitas, complexas e impronunciáveis sílabas, conseguiu-se resumir a uma só, porta-voz de todas as razões que a motivam.
Difira o defiro do indefiro. É tudo que peço. Sigo viagem ou me mudo para a sua vida?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

ENQUANTO A MENSAGEM NÃO CHEGA

(postando textos esquecidos entre os rascunhos desse blog...)
Enquanto a mensagem não chega, não desgrudo do celular. Olho as horas, entro no joguinho, vejo fotos antigas (algumas tão nostálgicas), vejo as mensagens que recebi e as mensagens que enviei.
Ponho o aparelho no bolso, mas a cada minuto me lembro de que eu posso não ter sentido a vibração e aí a SMS estaria lá, me esperando, depois de tanto que eu já a esperei.

Espero ainda, e isso é tudo o que me resta fazer, por mais que paciência não seja lá minha maior virtude. No auge de meu imediatismo a longo prazo, traduzido em querer para ontem o que se terá para o resto da vida, eis que o telefone vibra e quer chamar a atenção.
Mas é minha mãe ligando. Ou é só um amigo perguntando qual é a boa. Ou é só a operadora oferecendo mais um serviço. Ou é engano. Nada relevante.
No que espero, não vem. No que desisto de esperar com uma pontinha de esperança de que na distração acontecerá, também não vem. Mas se relaxo completamente e realmente me convenço de que nada acontecerá, aí ganho razões para ainda acreditar. Expectativas e esperanças não são exatamente sinônimos.
A mensagem tão esperada chega, mas não traz nada de muito especial. Será que é melhor ligar?

quinta-feira, 21 de maio de 2009

VIGÍLIA.

Não pode mais ser você a  dignitária de meus sonhos, nem por seu veneno transformá-los de súbito em pesadelos, quando tomo a consciência de ser tudo aquilo quimera mera vivida como realidade sem verdade. Ou não seriam?

Você não é mais você, porque sua pele não mais está encostada à minha, nem minhas mãos acariciam mais sua nuca quente, e nem meus dedos passeiam e se entrelaçam em seus fios de cabelo levemente suados. E não mais estamos levemente distraídos.

Você não é mais você. Você hoje é só o que eu guardei, o que eu lembro. Você não é mais física, é psicológica. Você não é mais objeto, é projeção. Você não é mais sujeito, você hoje é tão somente seus predicados que em mim restaram como um souvenir de desventura.

Porque você não é mais você, tornou-se mera experiência sensorial. Nessa linha tênue que separa o ser do sentir ser, o númeno do fenômeno, é que me deparo com a dúvida e o desespero de se estar sonhando ou se vivendo. Não porque não sonhamos enquanto vivemos, afinal, não somos somente matéria certa, localizada e determinada. Nem porque não vivemos enquanto sonhamos, pois ainda temos sensações, sentimentos e verdades durante o sono.

A questão é se mais vivemos ou mais sonhamos. E o ponto mais crítico é passar de um ao outro. Descobrir que o que achávamos que era vida era sonho, e que o que pensávamos ser devaneio era vida. Passear pelas esferas da realidade e da fantasia, conjugadas à da verdade ou à da mentira. São as quatro nebulosas e indeterminadas. E entre elas nós tão somente oscilamos, errantes, ainda achando que beliscar-nos a qualquer hora vai nos dizer em qual delas estamos: a realidade mentirosa, a realidade verdadeira, a fantasia verdadeira ou a fantasia mentirosa.

Na ignorância de onde estamos, simplesmente escolhemos onde queremos estar. Escolhi que ali estava sonhando com aquilo que em outro momento escolhera ser verdade. Mas porque hoje escolhi que não é mais verdade, o sonho virou pesadelo. Mas saber que se está sonhando ou pesadelando é como estar dentro de um simulador maravilhoso ou aterrorizante com a mão preparada para, a qualquer momento, apertar o botão de emergência. Apertei o meu.

Meus olhos se abriram, mas o coração continuava disparado. A luz entrou por minhas pálpebras cegando-me, mas ainda pairavam as imagens que estava vivendo. O cheiro da manhã buscou meu nariz, mas ainda era seu perfume que monopolizava meu olfato. Eu tentava ser eu, sozinho, na cama, mas ainda era eu, com você, dentro da minha cabeça.

Mas tudo isso foi cessando e eu, que tentava atônito buscar seu perfume nos recônditos da pele macia de teu pescoço contorcido em júbilo, percebi que era eu que estava deitado, contorcido, retorcido e distorcido no meu ser.

Despertei, como quero despertar a cada segundo, e ainda vim glamorizar via palavras essa desgraça, partilhando-a. Quem sabe, com ela fora de mim, talvez seja mais fácil eliminá-la...

domingo, 21 de dezembro de 2008

VOLTEI.

Há quase dois meses não publico, à exceção de uma passagem justificando a ausência de um mês, que melhor e de forma mais bela se explica pela seguinte passagem, do texto que me consumiu as últimas duas semanas e que definitivamente não se encaixa no propósito desse blog (ou pelo menos se insere no que eu não quero para o blog) e portanto não será publicado (publicado em agosto de 2010):
"... tudo indicava o caminho de uma crescente entorpecedora, capaz de distrair, capaz de, por conta da dedicação exclusiva, fulminar o olhar atento de quem cria, como se a função poética tivesse sido emprestada a mais nobre serventia e em seu lugar entrasse, como mero tapa-buraco, a infrutífera e egoísta função metalinguística."
Entenda o tudo como o que hoje é nada.
Mas não importa: estou de volta.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

e então...

Não escrevo há quase um mês. Mesmo. Nem tentei escrever alguma coisa. Nada.
Blog e distração não combinam. Passo pela rua tão avoado que o metrô e as pessoas, o "onde" e o "o quê" das minhas inspirações, nada têm para mim de novo.
Tudo me é tão contingente, e eu, pudera, sou tão normal a mim mesmo que mal me percebo.
O blog tão vazio e eu tão carregado (ou tão leve). Carregado do indizível, ou talvez do impublicável. Longe do racionalizado. Cheio do intuível, do quase secreto e do preservado.
Distraído, quiçá blindado. E dentro de um cubo de espelhos, nada me resta no segundo. Então eu apelo à metalinguagem.
Logo voltarei.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

o antes.

ele estava decidido que ia pegar o telefone e ligar.
já conseguira o número com uma amiga.
já conseguira coragem com um amigo.
e já conseguira conseguir consigo mesmo.

tanto lera o número no papel
que já o sabia de cabeça.
e já quase estava com dor de cabeça.

ia ligar, mas não sabia o que falar.
convidá-la para ir ao cinema...
ver o último filme do woody allen?
quem sabe o teatro?
até estava com a filipeta de desconto!

podia chamá-la para ir a praia...
mas e se ela estivesse numa "má fase"?
então pensou num flash...
e se ela estiver de TPM?
receberá um fora de uma fera?

domado pela própria dúvida,
resolveu apostar na própria intuição.
as palavras na hora viriam
e tudo seria lindo, como acontecem nos filmes.

ele estava mesmo decidido que ia pegar o telefone e ligar.
e se o telefone dela estivesse desligado?
e se o número fosse errado e desse engano?
toda aquela angústia para nada...

pensou e pensou.
ligou a TV para dar uma relaxada, mas a coisa estava difícil.
foi à geladeira beliscar qualquer coisa.
brincou com a cachorrinha que queria qualquer atenção...
ela tão esperta que já até sentia uma pontinha de ciúmes.

enfim, pegou o telefone na mão.
discou o número, algarismo por algarismo.
dois. cinco. três. quatro. quatro. três. três....
ai caramba, o último número era um quatro ou um nove?

fez unidunitê... deu nove.
apertou o botão que faltava...







e ligou.