GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)
Mostrando postagens com marcador cotidiano. Mostrar todas as postagens
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domingo, 4 de novembro de 2012

o beijo.

Era madrugada de domingo para segunda e, numa esquina do Leblon, em pé no meio-fio, quase pisando a pista dos carros, um casal se beijava ardorosamente. 
E se beijava...
E se beijava...
E se beijava...
Haja gerúndio (rectius, pretérito imperfeito) para descrever a continuidade. Não era um beijo lascivo, mas também não era um beijo apaixonado. Era tão somente um beijo intenso, genuíno, gostoso.

Todo mundo passava e olhava. Estava ali para qualquer um devassar a intimidade que o casal escolhera compartilhar e dali imaginar o que quiser. Outros casais olharam desconfiados. Grupos de meninas passaram com cara de estupefação e censura. Grupos de meninos por pouco não deram uma zombada. Um casal de idosos lançou um olhar pudico. Quem não estava de passagem, se punha a observar atentamente. Os garçons da lanchonete e o segurança da rua já brincavam: "será que querem quebrar algum recorde?" De fato, parecia... 

Tomei meu suco, pensei na vida, chequei minhas mensagens, troquei um lero e o casal continuava ali. Não iam se afogar em saliva? O fôlego em algum momento não ia acabar? O tédio? Não iam querer dar um passo à frente e ter que arrumar um quarto?

O beijo seguia em movimento retilíneo uniforme... Uma hora chegou a ficar monótono. Não tinha mão boba, não tinha arroubos, não tinha palavras ao pé do ouvido. O casal só se beijava, se beijava, se beijava, numa falta de constrangimento que eu particularmente só me permitiria por pouco tempo.

Contei quarenta minutos de um beijo ininterrupto. Como pode? Fui embora e eles ainda estavam se beijando. Passei de carro e olhei de perto. A vontade de buzinar era imensa, mas eu me segurei para não parecer a mim mesmo um recalcado, nem um intrometido.

A coisa até que estava com cara de armação. Suspeitei que fosse ação publicitária, câmera escondida, experimento de psicologia ou coisa do tipo, e que, ao final, os observados seríamos nós, os espectadores do espetáculo, em reação à cena inusitada.

Mas, apesar de algum ceticismo, acabei por ceder à máxima de que o amor é lindo, aposta uma ressalva: nem tudo o que é bonito é para se mostrar.

Em seguida, ouvi uma música romântica. Confesso que estava um pouco embalado. É, ainda sei me comover com pouca coisa e com breguices ostensivas. E um beijo ainda é um beijo.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A TENTAÇÃO DE MÃE VALÉRIA

Quem já perambulou por Ipanema bem sabe que nos postes de cada esquina, além da luz que ilumina a rua, fatalmente encontram-se cartazes com oferta tentadora de uma mãe-de-santo a iluminar corações aflitos e apaixonados:

MÃE VALÉRIA: TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS.

Acho bonito que exista uma mística, um jogo e, às vezes (aham), até um drama no apaixonamento e na sedução. Conquistar o outro e cativá-lo aos próprios braços é um trabalho difícil, embora ocasionalmente ele nos ocorra com tanta facilidade e surpresa que não raro somos levados a acreditar que há alguma explicação inesperada, como energias, cosmos, e outras baboseiras (?), por detrás. E se houver mesmo? Enfim.

Talvez a dificuldade do trabalho de conquista amorosa seja justamente a bilateralidade. E conquistar é verbo que pressupõe resultado: ninguém conquista como tentativa. Diferente de outros "projetos" aos quais nos dedicamos na vida, o projeto da conquista amorosa não funciona se estivermos obcecados, nem se focarmos todas as nossas energias para o resultado almejado. Nesse departamento, as coisas são diferentes: se formos com tudo, assustamos a quem queremos cativar. Se formos "com nada", ou melhor, se não formos, pagamos o preço da nossa omissão, embora alguns insistam em dizer que a rejeição acaba sendo convidativa. Pode até ser, mas não para quem age estrategicamente, isto é, para quem rejeita intentando conquistar. É que os apaixonados não conseguem mentir sobre a paixão: quando mentem é porque se atrapalharam tentando não apressar a verdade.

O que Mãe Valéria promete, com suas ligações transcendentais que nem ouso explorar, derrotar ou confirmar, é resolver essa questão difícil: eliminar a bilateralidade da conquista e simplesmente fazer conquistar o outro, como quem pratica um ato em vez de um contrato.

Meu "eu liberal" fica perguntando se isso é interferir demais na vontade alheia, se é que tal é verdade e não um mero engodo a se aproveitar da fragilidade dos apaixonados. Meu "eu romântico" (que não necessariamente se contrapõe ao liberal) pensa, por sua vez, em tom eufemístico: Mãe Valéria é só um empurrãozinho do universo para um amor consciente e voluntariamente dirigido.

O que quer que seja, Mãe Valéria é tentadora. Promete eliminar domingos chuvosos sofridos, leituras pessimistas de entrelinhas, desertos de espera por mensagens que tardam ou não chegam, palavras truncadas em esbarrões de corredor, discussão sobre se há ambiguidade ou univocidade nos gestos simples e complexos.

Promete debelar o frisson, que em alguns gera verdadeira inquietação epistemológica - tamanho é o amor à verdade -, de encontros tão bem justificados sob o manto da coincidência e da casualidade, bem como de desencontros igualmente bem justificados sob a escusa do azar e da fatalidade.

Alguns vão dizer que Mãe Valéria é como uma trapaça no jogo da conquista. É como usar um cheat. Você se diverte usando cheats? Eu me divirto, em geral.

A diversão é menos verdadeira porque usou cheat? Não sei. Nunca fui dessa galera que gosta de jogar games fazendo as missões e levando a sério o enredo. Talvez por isso jogos nunca foram atraentes em minha vida. Quando podia, colocava um cheat e ficava só zoando. Sentia menos desafio, eu concordo:  mas nunca quis buscar num jogo algo além de mero entretenimento. E adrenalina não me entretém.

De desafiadora, sempre me bastou a vida: talvez ela assim o seja porque justamente consiste da "arte" (é tão brega dizer que algo é "a arte de") de conciliar vontades próprias com vontades alheias dentro das possibilidades fáticas que se põem sobre a mesa. A vida, em muito, é a correspondência entre o que nós queremos, o que os outros querem e o que se pode fazer. Mãe Valéria promete ajustar os dois últimos elementos aos desígnios do primeiro.

Isso pode significar destruir toda a graça da conquista e o próprio percurso amoroso que serve de lastro aos romances. Uma conquista amorosa suada acaba por valorizar o amor. Acho que Mãe Valéria, se é que vale a pena de alguma forma, não o vale como recurso principal, mas é fato que apaixonados sem esperança podem encontrar nessa oferta encantadora o melhor alento - e a última trincheira - para seus corações inquietos.

Falo de Mãe Valéria em tom documental, como se lá já tivesse ido. Nunca fui. Morro de vontade de ir, tanto como cronista curioso e cético desconfiado quanto como apaixonado ocasionalmente frustrado. Eu bem lá sei que Mãe Valéria não faz muito sentido: ela é reprovada em todos os meus testes lógicos e de coerência. Até consigo pensar em problemas à atuação de Mãe Valéria.

Vejam só. Se ela fosse infalível, haveria uma fila gigantesca de meninas à sua porta, ansiando pelo Príncipe Harry em seus braços: mas não existe Princípe Harry para todas e, ainda que houvesse, para ele chegar em três dias teria que passar um dobrado com sua agenda institucional. Do mesmo jeito, quando dois homens desejam a mesma mulher, quem leva a melhor? Quem chegar primeiro? Quem tiver o santo mais forte? Quem pagar mais? Problemas...

Fico me perguntando sobre o que Mãe Valéria fala e faz. Não pode ser possível que alguém se mantenha no mercado de condução-de-pessoas-amadas-em-tempo-recorde há tanto tempo com base em mentiras básicas ou bobas... Tudo bem, ainda que ela esteja mentindo como charlatã profissional, não é possível que coisa alguma aconteça (ou é?). Talvez ela seja apenas uma boa conselheira amorosa, não descarto a possibilidade. Seria uma "Hitch" carioca com leves predicados mediúnicos e epíteto matriarcal?

O que sei é que Mãe Valéria é uma tentação permanente. E não é porque me disseram que ela até é uma senhora bonita...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

facebook

o vazio do facebook é o vazio da própria vida.

uns começam a namorar...
as amigas dizem "ai que fofo", como se a vida fosse um filme da disney.
os amigos lamentam um a menos na guerra... mas daqui a pouco voltará.

outros terminam o namoro...
as amigas dizem "ai que pena", como se o filme da disney agora virasse uma comédia romântica e essa fosse só uma entrecena rumo ao final feliz.
os amigos comemoram, ou bebemoram, se o cara precisar afogar as mágoas: já aconteceu com todo mundo.

uns reclamam de futebol... isso quando UFC não tá na moda.
uns reclamam da vida... conheço um bem reclamão até.
uns reclamam do próprio facebook: sempre tem espaço para ser meta.

outros postam fotos, quantas viagens...
mas tem que ser para europa ou para nova iorque.
se botar foto da disney, é porque tem 15 anos.

facebook virou a alternativa não-paraíba frente à popularização do orkut.
mas por quê? agora tem nojinho virtual?

uns trocam a foto para aderir a movimentos fofos: personagem de desenho animado, êba!
uns curtem causas: tem que parecer engajado até aqui, né!
outros ficam no batepapo... puta que pariu: faltou inventar a função invisível e inventar um som melhor.

a boa do facebook é curtir. você clica e pronto.
ainda fica parecendo reservado ou um dropador de tiradas.
(não sei de onde tiraram que ser lacônico é chique).

tédio e facebook parecem feitos um para o outro.
ainda mais se tiverem inventado o F5.
vira uma compulsão!

Assinado: quem não vive sem.

sábado, 14 de agosto de 2010

o futuro é auspicioso

(ou crise de pouca idade)

o futuro é auspicioso
morar bem
casar bem
ter belos filhos
ganhar bem...

viajar para itaipava nos fins de semana
e para a europa nas férias de julho
comer fora com a família aos domingos
ler o jornal numa confortável poltrona

os dias cinzas serão prosaicos. não tem problema!
nos dias quentes darei voltas na lagoa,
tomarei água de coco no mirante,
passearei pelo parque lage.

a noite verei o fantástico, sem neuras.
depois, terei um sono dos anjos, finalmente.
acordarei na segunda-feira com um puta café da manhã,
o qual eu degustarei com a fome de começar uma nova semana.

dirigirei um carro automático grande
e passarei pelo Aterro, de óculos escuros,
do jeito mais "little joy" possível.
(de terno, indo para o trabalho)

trabalharei poucas horas, mas farei muita diferença no mundo.
se voltar cedo para casa e for horário de verão, ainda dá tempo de ir à praia.
ou só tomar um suco.

sem medo da rotina. sem medo da velhice.
ah sim, aposentadoria integral para morrer bem!


não sei se é pedir demais.
mas graças a deus que ainda posso sonhar.

domingo, 8 de agosto de 2010

"PODERIA TER SIDO VOCÊ"

O pombo morto - atropelado - no meio da rua vai muito além de despertar nojo: é o retrato vivo da morte e retrata como obra de natureza-morta o fatídico da vida.

Sua aparência expõe suas entranhas e não por acaso nos embrulha o estômago. Carne e sangue misturados, deformados. Reduzido a 2D, planificado contra sua vontade e carimbado no preto do asfalto, como uma efígie fúnebre num museu a céu-aberto.

Cerca-se dos mais variados públicos, entre os passantes que caminham apressados. Alguns nem percebem, porque distraídos. Outros percebem e desviam o olhar, enojados. Alguns percebem primeiro pelo tato: infortunados. Outros percebem e seguem admirando com certa curiosidade mórbida. A indiferença exige um esforço: a morte é muito distinta para se assimilar à paisagem.

Velado publicamente com a notoriedade que não tem um animal e muito menos um indigente, o pombo é finalmente recolhido para não se sabe lá onde e some na complexidade da cidade, depois dos seus 15 minutos de fama póstuma. Deixa com o mundo sua mensagem e, por meu intermédio, sai da vida para entrar numa história.

terça-feira, 18 de maio de 2010

DIGLET DIGLET, TRIO TRIO TRIO

Há coisas na vida que nos marcam para valer. Alguns vão falar de um grande amor, uma grande dor, uma viagem espetacular, um período sabático, um abraço de despedida, uma morte inesperada, um show inesquecível, ... Não tenho dúvidas de que isso tudo é marcante, afinal são coisas que tem uma capacidade admirável de abrir as gavetas mais protegidas das nossas memórias e ali se arquivarem, isso para não falar de quando esses grandes fatos são capazes de mudar o próprio curso de nossas vidas...

Admira-me, na verdade, é como certas coisas irrelevantes também ficam gravadas indelevelmente pelas paredes do túnel do tempo. A memória não tem boas razões para arquivá-la, os sentimentos não foram atingidos por aquela vivência, pode ter sido só mais um dado cotidiano da vida... não se sabe. Lembrar dessas coisas é quase indiferente à nossa existência, se não pelo fato de que, quando lembramos, ficamos pasmos por termos rememorado.

Confesso que sou nostálgico. Lembrar é tornar-se um expectador sensorial, sensível e anacrônico anacrônico de si mesmo. Às vezes é péssimo, mas, em geral, eu gosto. E gosto também quando trago à memória algumas coisas bestas e irrelevantes, que eu não sei porque ficaram armazenadas.

Eu e meus amigos lembramos - e o mesmo já havia acontecido com outros amigos - de um episódio de Pokémon situado em nossas vidas há mais de uma década. Não é um episódio dramático, decisivo, emblemático, nada. Era só mais um episódio, em que apareciam os Digletts e os Dugtrios. Você está lembrado?

O barulhinho que ambos faziam vinha na minha cabeça com perfeição e se repetia em coro. "Diglett, diglett, TRIO TRIO TRIO". A entonação era perfeita e eu era capaz de reproduzir. Ficamos algum tempo imitando os Digglets e Dugtrios em seu canto mágico, um pouco perplexos de termos lembrado de tal bobagem.

Recebi o vídeo no youtube da cena referida e minha maior surpresa foi ver os comentários. Acho que não fui o único a ter emoções com essa lembrança estranha. Houve um cara que escreveu "I'll probably remember this little tune until the day I die" e outro que colocou "I want it played on my funeral". Disseram também "everytime Pokemon is mentioned, someone has to sing this" e "this has been stuck in my head since it was first aired, memories". Teve ainda "Thanks for this video! It was stuck in my fiance's head so I got to annoy him with it."

Percebo que não sou o único a lembrar, nem a se estupefazer diante da lembrança...




quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O OI-TCHAU

Hay La, Hey Hello-a,
Hay La, Hey Hello-a,
Hay La, Hey Hello-a
Hay La, Hey Hello-a,

O oi-tchau é uma das espécies mais curiosas de cumprimento que há. Acontece quando você é apresentado a alguém no exato momento em que está se despedindo de outrem e indo embora. Às vezes é aquela pessoa que você evitou a festa inteira, por não ter ido com a cara. Pode ser também quem você não percebeu entre a multidão. Ou é a amiga do fulano que acabou de chegar na festa. Pode ser aquela pessoa que você sempre espia pelo orkut, mas nunca falou pessoalmente. Não importa.

O oi-tchau é um flash disparado ao céu: só há efeito tyndall. Um aceno que logo se retrai: parece que nem foi com você. É um bom dia às vésperas de escurecer. Um gol depois que o árbitro já apitou o término.

O oi-tchau, me permitam, é a função fática - a merda da função fática! - natimorta.
Nascimento e óbito na mesma certidão. Início e fim na mesma linha. Letra maiúscula e ponto final lado-a-lado. Se ao menos houvesse alguma certeza quanto ao parágrafo seguinte...

Hay La, Hey Hello-a,
Hay La, Hey Hello-a,
Hay La, Hey Hello-a
Hay La, Hey Hello-a,

sábado, 3 de outubro de 2009

cortar as unhas

Percebo que está tudo muito corrido na vida quando eu vou cortar as unhas e elas estão grandes, mas parece que foi logo ontem que eu as cortei pela última vez.
Explico e é fácil de entender: cortar as unhas é um momento de reflexão, igual à hora em que se fica debaixo do chuveiro,  ao lapso em que se coçam as costas ou ao ínterim ("vareia" de um segundo a algumas horas", vide o que eu escrevi sobre insônia) entre encostar a cabeça no travesseiro e efetivamente dormir.
Cortar as unhas é mais do que um ato de higiene. É um ato de auto-preservação e, também, de preservação alheia. Você destrói uma de suas armas, tolhe suas garras em nome de o tiro não sair pela culatra.
Cortar as unhas é um ato de auto-conhecimento. E não é a toa que as manicures têm seu lado psicóloga...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

"(F)RIO" DE JANEIRO

Vai galera, ponha o xale. Não só ponha o xale, de preferência quadriculado, como também calce a bota. Vista sobretudo o sobretudo, sobre tudo. Coloque os óculos escuros e se olhe no espelho com olhar insolente, afinal, ser sorridente e simpático é muito tropical e latino. Dê um nó maneiro no xale, ponha o iPod no ouvido. Ponha o pé fora de casa e disfarce o algum calor que você inevitavelmente estará sentindo. Mas não dá para dar bandeira e começar a suar!
Acenda um cigarro e tome um chocolate quente ou um café. De preferência, no Starbucks. Pare numa livraria e vá na seção de psicologia ou ciências sociais. Se for pra completar a total viagem, vale arrumar um guia de turismo.
Nunca olhe de frente para as pessoas, só perifericamente. E não tire os óculos escuros da cara, nem desmonte o carão, é bom para parecer reservado.
No auge do frio nesse Rio que congela, jogue-se na lareira, com tudo!
Eu ligo para o 193, relaxa. A neve não está tão alta para impedir os bombeiros de chegarem rápido.

sábado, 11 de abril de 2009

O INSETO QUE BATE CONTRA A JANELA

A aula era de direitos e garantias individuais e coletivos. Liberdade disso, daquilo, prestações negativas do Estado e esse juridiquês bonito que no final quer dizer que não viveremos numa ditadura.
Preso dentro da sala gélida, porém, estava um inseto de porte médio que passeava livremente entre os alunos concentrados e o professor de oratória irretocável e mãos eloqüentes. Mas o bichinho simplesmente me desviou a atenção. Não que eu tenha ficado contemplando sua solidão, que no fundo também era um pouco a minha, mas principalmente saltou-me aos olhos seu desespero ao querer sair da sala rumo pela janela. Estava a janela fechada, e ficou o bicho esbarrando no vidro, várias e várias vezes. Buscava uma fresta, mas ela não existia. Batia cada vez com mais força e tentava subir para procurar outra escapatória, no que chegava ao ar-condicionado com um fluxo congelante que o jogava para longe, escorregando tridimensionalmente em movimento caótico.
O inseto não desistia e tentava repetir o movimento, como se esperasse que em algum momento o ar condicionado simplesmente parasse, a janela simplesmente abrisse e ele pudesse conquistar sua liberdade assim facilmente. Afinal, a liberdade de um inseto não é direito fundamental. E quem vai garanti-la?
Somente uma boa alma poderia livrá-lo de tanto sofrimento, embora com algum custo: levantar-se para abrir a janela desviaria a atenção dos vários alunos compenetradíssimos, quase que enfeitiçados, pela aula maravilhosa. O professor também poderia ficar chateado, se seu espírito não compreendesse a metáfora existente em dar liberdade ao bicho preso. Na verdade, seria mais que metafórico: seria metonímico!
Mas simplesmente não aconteceu. O professor falou nas formas de avaliação e cobrança - uma prova e um trabalho  (talvez possa ser em grupo!) - e lá se foi toda a atenção no bicho, que simplesmente tornou-se invisível aos olhos ofuscados pelo vamos-ver de um futuro não tão distante.
Não que o bicho seja menos importante, né...

segunda-feira, 9 de março de 2009

CÂMERAS NO ELEVADOR.

Não mais serei o mesmo diante do espelho: não farei caretas com língua para fora, olhos envesgados ou cara retorcida. Não espremerei espinhas, não farei pose para me sentir bonito, não expirarei ar quente perto do vidro para embaçá-lo e depois escrever ou desenhar alguma coisa com o dedo. Não ensaiarei mais discurso, e nisso se vai minha oratória.

Não mais apertarei todos os botões para ficar ali só mais um pouquinho, curtindo o momento de transgressor.

Não mais pularei com os amigos e nem balançarei os quadris para que o elevador trema.

Não mais colocarei a mão entre as aberturas da porta pantográfica, como se brincasse com a sorte diante do aviso em contrário "mantenha-se afastado".

Não mais apagarei as luzes sorrateiramente, para fingir-me num filme de terror ou para assustar minha mãe. Nem apertarei o botão de emergência para simular que o elevador parou.

Não mais beijarei no elevador, aproveitando a privacidade e curtindo a adrenalina de o elevador poder parar e sermos surpreendidos.

Não mais me debulharei como um maníaco sobre a tal lei municipal de 1996 e as não sei lá quantas UFIRs cominadas aos infratores, o que talvez tenha sido meu primeiro contato com algum texto legal, daí alguma obsessão.

Não mais começarei a me despir antes de chegar em casa, quando o calor for muito, quando o desconforto da roupa for demais ou quando for preciso agilizar o processo para satisfazer o quanto antes imperativos fisiológicos invencíveis.

Não mais encostarei a cabeça na parede do elevador olhando para baixo nos dias tristes, ou olhando para cima nos dias cansados, nos quais o trajeto do térreo até o nono andar é um precioso momento de descanso.

Não mais viverei genuinamente a solidão do elevador, nem sua introspecção típica ao olhar para o nada daquelas paredes cubiculares, porque o nada estará me fazendo companhia e se fazendo perceber, apesar de ser nada. É que nessas horas o nada se faz tudo, e me olha, e me observa, e me constrange.

Tentarei encará-lo. E, quando olhar para o nada materializado em câmera, verei ainda meu próprio reflexo, como uma tácita chamada de consciência: "se toca!!!".
E depois disso tudo ainda querem que eu sorria...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

RAPIDINHAS DE FIM DE ANO (atrasadas)

SHOPPING NO NATAL
Estão extremamente insuportáveis. A começar pela dificuldade de estacionar, de circular, de pagar o estacionamento e tudo o mais. O que mais irrita, porém, é o exército de vendedores nas lojas, que ficam na porta secando você para entrar, com uma simpatia tão excessiva que até os mais carentes desconfiam. Na Taco, por exemplo, desisti de entrar na loja com "medo" de ser atacado por um dos mil atendentes que se enfileiram como em linha de tiro na entrada da loja para atender o cliente. O pior é quando eu não estou procurando nada na loja e entrei só para ver o que tem de novo. É tão frustrante para o vendedor: ele, ali, esperando sua vez no rodízio de receber o cliente para ao fim receber talvez uma comissão e eu, também ali, praticando o famoso "só olhando". Melhor não passar da vitrine.
E QUEM NÃO PASSA O NATAL COM A FAMÍLIA?
Creio que deve ser das horas mais penosas para a vida de um trabalhador ter que estar em atividade na noite do dia 24 de dezembro. Tudo bem que pode haver uma compensação financeira que valha a pena o sacrifício, ou simplesmente é o plantão dele, mas... como fica? Os garçons, que têm que ficar servindo festas alheias, os porteiros, cuidando da portaria, os policiais, preparados para na noite natalina atirarem a qualquer hora, os médicos, lidando com a vida e com a morte na data de celebração máxima da primeira,... Fazer o quê?
E A CHATICE DOS RITUAIS...
Não me convencem mais os mil rituais e superstições de ano novo. Na verdade, nunca me convenceram direito, mas lá vai que alguma coisa eu fazia com medo dos sete anos de azar.  Pular ondinha, levar flores, entrar com o pé direito, comer uvas e por aí vai. Esse ano passei a virada normalmente: virou 2009 numa contagem regressiva vários uníssonos e eu gritei como se me aliviasse de ter acabado a tal contagem. Bastou-me, e foi bom estar sem nenhuma preocupação em pisar primeiro com um dos pés ou em entrar no mar assim ou assado. Tudo isso é muita perda de foco. Ah sim... e passei de verde, porque não tinha camisa laranja para vestir na virada.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O CÚMULO DA CARA DE PAU.

Já era tarde e eu estava no metrô voltando da faculdade para casa. O vagão estava um tanto cheio, mas havia ainda dois lugares disponíveis. Um deles era ao meu lado e o outro era à minha frente.

Entrou um cidadão no trem e se dirigiu ao lugar à minha frente. Acontece que esse lugar estava "ocupado" por um caderno do Iron Maiden de uma pessoa que ao lado ouvia música. Educadamente, o senhor que entrara apontou para o caderno, sinalizando que queria se sentar ali. O dono do caderno, meio contrariado, apontou para o outro lugar vago, sem tirar o fone de ouvido.

O cidadão que queria se sentar apontou mais uma vez sacudindo a mão, já um pouco impaciente. O dono do caderno resolveu falar, com cara de "deixa de ser chato" : - senta ali, cara.

O homem desejoso do assento, já estarrecido com a situação, aproximou sua cabeça à do dono do caderno e, em tom amaeaçador, falou algo como: - quero sentar aqui, meu camarada, entendeu?

Achei que os dois fossem acabar nas vias de fato, mas o rapaz do caderno ficou intimidado e, com cara de de "whatever... i'm a bitch", pôs o caderno no seu colo para dar o lugar. O cidadão que queria se sentar finalmente se sentou. Como ele era meio largo (e lá poderia eu falar de um "mundo e os gordinhos 2") e não cabia direito no banco, acabou ficando encostadinho ao ser cínico a que há pouco se opusera. O clima ficou tenso.

Na estação seguinte, desceram várias pessoas e o moço que antes queria se sentar acabou indo para outro lugar no vagão. Imediatamente, o caderno voltou ao seu lugar especial, como se ali fosse um trono, um camarote especial, uma área VIP ou coisa que o valha para aquele amontado de papel com o quase-amedrontador Eddie na capa.

Logo em seguida, entraram mais pessoas no vagão. Duas senhoras resolveram se sentar e, para uma delas, só sobrou o lugar que então acomodava novamente o caderno. Pensei que a via crucis mais ridícula de minha vida "disputar um lugar com um caderno" fosse ali recomeçar. A senhora com várias sacolas olhou para o homem e apontou para o caderno. O dono do caderno dessa vez olhou para ela, resmungou qualquer coisa e pôs o caderno de volta no colo. Estava com cara de decepcionado, desolado e decepcionado.

Que preguiça tola, porca e nojenta é essa de não querer ficar com o caderno no colo, na mochila, na cabeça ou no... ah, deixa pra lá.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

fossa dominical

domingo é um dia perigoso.
não é à toa que no calendário ele vem marcado em vermelho.
é quase como se a folhinha dissesse: perigo!

domingo é aquele dia que você acorda tarde e cansado.
é o dia para pagar a conta do sábado.

no domingo, você já acorda para o almoço.
se fizer sol, pode até rolar uma praia.
mas se fizer chuva... é aquela preguiça.

ficar em casa no domingo é realmente complicado.
talvez seja gostoso pegar um livro e observar a chuva caindo em preto-e-branco.

computador e domingo são mistura letal: não só o domingo é perigoso.
MSN, orkut, joguinhos quaisquer... ultra-tedioso.

televisão e domingo parecem tanto combinar...
faustão, gugu, sílvio santos, fantástico....
e agora nem tem mais o topa tudo por dinheiro.

domingo para muitos é o dia do futebol.
de se preparar para zoar ou ser zoado pela semana em razão do seu time.

domingo é o dia daquela fina melancolia que pode se avolumar em depressão.
e domingo é a véspera da segunda, que já fica decretada desde a hora em que termina o fantástico.

domingo é o dia do descanso. domingo dormindo.
mas domingo também é o dia certo da insônia.

domingo é o dia de ir a missa.
a quem se importar.

domingo é o dia que começa tarde e acaba cedo.
é de forma alguma dia útil.

domingo é a fossa. quase séptica.
você fica pra baixo e se encontra na merda.

os domingos deveriam estar mais bem sinalizados.
estar em vermelho não basta. precisam estar em baixo-relevo.
e quase furando o papel.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

"brincadeira de criança... como é bom..."

PASSA SE NÃO FEDE, SE PASSAR FEDEU.
Estava esses dias visitando o colégio por onde passei onze felizes anos de minha vida e de onde tenho muitas das minhas melhores recordações. Passando pela escada, me lembrei de uma brincadeira das várias que aconteciam quando eu era criança.

Sempre que subíamos a escada lá pela segunda série primária, algum engraçadinho dava um tapinha no outro e falava "Passa se não fede, se passar fedeu". Era uma vergonha imensa você ser pego por essa brincadeira, porque ficavam contando regressivamente para você passar a tal "coisa" para alguém, ou federia. Que "coisa" era essa que se passava eu até hoje não sei, mas a brincadeira se alastrava como um vírus da gripe aspergido num elevador lotado.
Desenvolviam-se formas de não poder receber, uma delas era o cadeado. Você fechava os polegares com indicadores e ficava assim como se dissesse: "ha, não serei eu!" Mas tinha que ficar sinalizando o tempo todo, e era um saco ficar com a mão em posição de cadeado, então alguns engraçadinhos inventaram a idéia de engolir o "cadeado". A questão é que a pessoa engolia o cadeado e isso não ficava visível, logo todos fingiam que tinham engolido o cadeado quando alguém tentava "passar". Outra coisa que usavam era o "espelhinho", isto é, a mão virada em sinal para parar, como forma de devolver o que era passado.
A escada inteira ficava atenta para a brincadeira, pois ninguém queria "feder". Epidêmico.

PIQUE-QUALQUER COISA
Haja pique para tanta brincadeira. Lembro que era de lei sair da aula da tarde e ir para o pátio brincar de pique esconde ou polícia-e-ladrão. Tenho excelentes recordações desse tempo, exceto pela minha baixa habilidade em correr. Nunca foi meu forte, mesmo. Mas sempre fui bom estrategista, por isso odiava pique-pega. Não havia brincadeira mais idiota do que pique-pega, afinal, em que momento eu pensava ali?
Veio-me à cabeça agora o momento de tirar os times ou dividir as equipes. Havia vários métodos. Um deles era o par ou ímpar para saber quem seriam os cabeças, e dali escolhiam-se os participantes. Outro método era fazer uma fila em que se escolhiam as pessoas, não sei direto como era, mas todo mundo tentava burlar essa fila dizendo que era "ZERINHO", "FOLHINHA DE ABACATE, NINGUÉM ME RECOMBATE" (temo que minha memória esteja falha) ou "FILHINHO DE DEUS". Nossa mãe, ultra-apelativos esses bordões.

DESPOTISMO NO FUTEBOL
Minhas recordações do futebol infantil me remetem à porradaria, mandos e desmandos. Acho que o fato mais emblemático era o de um colega que simplesmente era o "dono da bola" no jardim de infância. Aliás, sem forçação de barra, acho que pensar, pensericar, sobre isso naquela época foi o primeiro e mais ultra-incipiente estalo na minha vida para o interesse pela política, pela diplomacia interna, pela organização da força, pela tal da natureza humana, se é que existe, pela formação do Estado e pela necessidade do Direito.
O futebol dependia dele, por mais que a bola e o campinho não lhe pertencessem. Ele era simultaneamente jogador e árbitro da partida. Ele mudava de time à hora que quisesse e ainda levava os gols que marcara ao longo de toda a partida para o time em que viesse a entrar. Isso queria dizer que, ao seu belprazer, havia vitória de um ou de outro lado. Ninguém nunca se rebelou contra a situação e todos se curvavam àquela estrutura tirânica e viciada. Arrisco-me a dizer que fariam o mesmo se tivessem a chance de estar na posição de dono da bola.
Daria uma tese de doutorado a análise daquela situação, e não raramente ela me vem à cabeça como um nanocosmo de sociedade, poder e Estado que, por ter vivido e sentido, pode me servir bem e à escala cabível como metáfora para algumas coisas que me cercam hoje.


CHARADINHAS INGRATAS.
Tem sempre alguém que ouve de irmão ou primo mais velho que o galo cantou para a galinha em Porciúncula e resolve trazer a novidade para a pirralhada.
Por volta da terceira série, lembro que um colega chegou para mim e perguntou se eu preferia dar ou receber. Acho que nem eu nem ele entendíamos bem do que se tratava a brincadeira, mas havia um temor absurdo em falar algo e ser muito zoado. Não me lembro do que respondi.
Em outra ocasião, a piadinha era a da galinha que botou na cueca três ovos e chocou um, do qual nasceu um pinto.
Entretanto, a melhor das charadinhas infantis aconteceu no terceiro ano do ensino médio. Isso mesmo, no ano passado. Não siga adiante, caso você não goste de piadinhas baixas. Ela consiste em perguntar para o próximo: "O que toma de café-da-manhã um indivíduo com um pênis grande? Você sabe?" Muitos ingenuamente respondem: "Não sei, o quê?"
E aí vem a resposta fatídica: "É foda ter pau pequeno, né..."

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O TAXISTA QUE NÃO DEU PAPO

Li certa vez, se não me engano foi no blog do Bruno Medina, tecladista do Los Hermanos, que papo de taxista é o último aliado daquele que escreve crônicas. Tudo bem que os tímidos ou reservados dificilmente terão a chance de perceber que uma corrida no táxi significa muito mais do que se deslocar com grande custo de um lugar para outro, mas aqueles que gostam de puxar um papo certamente sabem o quanto os taxistas tem muito a acrescentar. (Vale dizer, tem até o blog de um taxista gaúcho , o Taxitramas. Leitura extremamente recomendada!)

Especialmente no Rio de Janeiro, onde a simpatia, a cordialidade e a "intimidade com estranhos" (aliás, título bem interessante do novo álbum do Frejat) são valores sempre em voga, é quase certo que alguma inserção pequena de assunto descortinará uma longa conversa. E os taxistas, como trabalhadores que passam grande parte do dia num carro celebrando a aleatoriedade da companhia, com várias pessoas "nunca antes vistas" (pareceu discurso do Lula) entrando e saindo de seus carros, sempre acabam tendo algo interessante para repassar do que ouvem ou do que vêem.

Assim que entro num táxi, trato de puxar assunto, principalmente quando estou sozinho. Não entra na minha cabeça a possibilidade de ficar vinte minutos dentro do carro com alguém sem trocar uma palavra que não a informação da rua para onde estou indo. Já chego perguntando há quanto tempo a pessoa trabalha em táxi, se gosta, o que fazia antes, se já foi assaltado, que coisas engraçadas já aconteceram e etc. O taxista geralmente se sente super prestigiado, afinal, tem alguém interessado em saber o que ele tem a dizer, e talvez seja naquela hora que ele entenda porque não preferiu ser maquinista de trem ou motorista de ônibus. No táxi, não tem o aviso ingrato de "SÓ FALE AO MOTORISTA O INDISPENSÁVEL".

Já ouvi muita história interessante de taxista. Teve um que teve o carro roubado três vezes no mesmo ano, teve outro que disse que não fica com mulher com "kit" (depois ele foi explicar que "kit" é filho de outro casamento). Até história dramática já ouvi: separação com traição, demissão do emprego de anos, ...

Mas nada em momento algum me chocou mais do que a história de um taxista que também era policial e contou a seguinte saga: trabalhando no táxi, foi assaltado certa vez, no que o levaram por algumas horas para um cativeiro e lhe fizeram várias ameaças , o que ele chamou de "tremendo esculacho". Obcecado pelo que lhe aconteceu, o taxista policial ficou por cerca de três meses passando diariamente no horário e no local onde tinha sido abordado, procurando pelos criminosos, até que um dia encontrou seus malfeitores. Contou o taxista: "Aí eu peguei eles e resolvi ajudar a família deles". Até eu entender o que aconteceu, minha ingenuidade já havia me custado meia hora.

E todo esse bla-bla-bla foi, na verdade, para contar a história que não houve. Numa das maiores corridas que eu já fiz, aquela que tinha em potencial um loooongo causo a ser desenvolvido, o taxista simplesmente não deu papo. Perguntou para onde eu ia com voz seca e cansada. Respondeu monossilabicamente à primeira pergunta, com uma voz de enfastiado que inibiu qualquer diálogo. Falei do tempo, e ele limitou-se a fazer uhum. Falei do Botafogo, e ele disse que não gostava de futebol. Botava um ponto final em todas as frases... é, mas diálogo se faz de reticências. Nada mais falei. Vim da Barra até a Zona Sul olhando desolado para a janela. Paguei a corrida e dei um boa noite, no que mal fui respondido.

Mas é o que eu falei no início... taxista e crônica combinam enfaticamente. Veja você... até taxista que não dá papo enseja uma crônica!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A tal maquininha da verdade

Acho insuportáveis essas maquininhas da verdade que alguns programas de TV tem usado para colocar entrevistas no ar e avaliar se as pessoas falam a verdade ou mentem.

Questionado sobre os métodos e resultados, o tal do perito que comanda a máquina chegou a afirmar que quando ela indica "verdade", a chance de acerto é de 95%, enquanto que, quando ela indica mentira, a certeza é de 99%.

Colocaram o Ronaldo, colocaram o casal Nardoni, colocaram inúmeras entrevistas recentes da TV brasileira e ali apuraram, com a majestade da pouca dúvida, o mais pretensioso veredito: o veredito sobre a verdade.

A máquina é bem simples. A entrevista vai passando e um visor na máquina vai indicando desde "verdade" até "mentira", passando por "altamente estressado","imprecisão", "dúvida" e etc.

O tal do perito vai analisando palavra por palavra e chega a dizer que trecho da frase está errado, até mesmo aventando hipóteses sobre porque a pessoa estaria mentindo. Ele é, de fato, um doutor da verdade.

E aí eu me pergunto: o que eu estava fazendo na frente da TV?

sexta-feira, 20 de junho de 2008

CEDENDO LUGAR A UMA GRÁVIDA.

É... o assunto de ceder o lugar permanece rondando minha cabeça. Não levem a mal a ruminância.

Não é novidade dizer que no metrô, no ônibus, no trem e em muitos outros lugares da coletividade urbana há assentos especiais preferenciais para idosos, deficientes físicos, pessoas com crianças de colo e, é claro, para as gestantes.

Não é difícil identificar um idoso: cabelos brancos, rugas, dificuldade pra andar,... são muitos os índices, por mais que seja extremamente difícil precisar se alguns tem mais ou menos que 65 anos. Mas isso é irrelevante, afinal, se a pessoa está com certa dificuldade na locomoção, ninguém vai pedir o documento para comprovar a condição de idoso e assim ceder o lugar.

As pessoas com crianças de colo são o que? Pessoas com crianças de colo. Simples e objetivo.

Os deficientes físicos também se fazem visíveis, seja pelo visível ou pelo invisível: muletas ou membros amputados. Não vale falar cadeira de rodas, pois se o cara preferir sair da cadeira para ir para o assento, já começam a desconfiar, não é?

E uma gestante? Tudo bem... uma gestante com 8 meses fica bem fácil de identificar. Mas e uma gestante com seus 2,3 meses? Com 5,6 meses? Sempre que vejo alguém que tem pinta de gestante, fico muito receoso de levantar e ceder o lugar. Vai que ela é toda encucada com aquela coisa de que "gravidez não é doença"? Vai que ela vai descer na próxima estação e nega a gentileza, me fazendo ficar em pé que nem um idiota?

Mas não é esse meu medo. Eu realmente temo estar diante de alguém que nada está esperando, além do ponto ou da estação em que vai descer. Vai que a suposta grávida nada mais é do que uma gordinha? Não aquelas gordonas, mas uma gordinha, com aquela gordurinha localizada em formato próprio. Como é que eu vou saber? Vou olhar para os seios da mulher, para ver se eles estão inchados? Ai meu Deus, vão achar que eu sou tarado. Vou perguntar se ela é grávida? E se ela encarar isso como uma provação, uma ironia constrangedora?

Levanto ou não me levanto? Pergunto ou não pergunto? Na dúvida... Na dúvida, permaneço na dúvida. Fico a viagem inteira olhando para saber. Se é mesmo uma grávida, estou sendo um babaca. Ela ali precisando sentar, e eu em um conforto do qual sou menos merecedor. Se é só uma gordinha,... como saber?

Avalio mais a tal barriguinha. Não sou conhecedor nem médico, ora bolas. Fico torcendo para ela vomitar, para ela fazer um desejo ultra-especial para a pessoa ao lado, para ela acariciar a barriga com olhar sonhador, para ela atender o telefone e dizer que os dois estão bem, para alguma outra pessoa cumprimentá-la pelo ser vindouro, ... Fico torcendo para ela vir até mim em tom mal-educado - e que seja assim, então! - e falar: sou grávida, pode ceder o lugar para mim?

Nunca teria tanto alívio em ser mal-tratado. E ainda lhe daria os parabéns, do fundo do coração.


"CAUSO" DO AUTOR
No auge de seus 14 anos, Felipe Drummond perguntou à moça da ótica de quantos meses era o filho que ela esperava. Ele jurava que ela estava grávida, mas tinha tanta, tanta certeza, que nem cogitou a hipótese de ela não estar grávida. A resposta foi o "hein?" mais sem jeito e revoltado do mundo. Trauma contado. Próximo!

terça-feira, 17 de junho de 2008

O melhor Sonho-de-valsa da minha vida

Para fugir do tédio das terças-feiras, me mandei para o centro da cidade, onde sempre me aparece algo interessante. Peguei o metrô, onde tive a alegria de encontrar um amigo em plena estação e fomos juntos conversando, sentados. Papo vai, papo vem, e entra uma velhinha no vagão, que, nessa altura, já se encontrava cheio. Logo me prontifiquei a ceder o lugar, que nem reservado era. A senhora agradece gentilmente e ali senta. Fico em pé do lado do banco continuando a conversa, até que sou surpreendido por um sorriso muito gentil e por uma voz doce, de vovó, que se dirige até mim dizendo: "Aceite esse bombom em retribuição à sua boa-educação e à sua gentileza". Seus olhinhos brilharam e os meus também. Agradeci e falei que não fizera nada demais. E não era mesmo. Mas ela acabara de me dar um Sonho de Valsa que teve gosto de Lindt. E nem sei porque joguei o papelzinho fora: não foi um bombom qualquer.

quinta-feira, 13 de março de 2008

AMBULÂNCIA

Toda vez em que uma ambulância passa é a vida de alguém que está quase indo para o beleléu.

Para você que está caminhando na rua e ouve aquela sirene ensurdecedora, é mais um "barulhinho" que te chama a atenção num lapso. A luz vermelha girando loucamente, o motorista vestido de branco dirigindo atento, com a coluna curvada para frente, aquela luz interior da parte traseira do veículo, que, por um vidro opaco, sinaliza somente que ali há vida à beira da morte.

A ambulância corre tanto, que vem tão rápida e se vai tão rápida que o beleléu é uma abstração para terceiros: não existe, não se faz sentir. O beleléu só é beleléu para quem ali está, entre o tudo e o nada, ou para quem acompanha quem ali está.

A ambulância é mais um elemento de uma paisagem catastrófica urbana. Tão banal. É a sirene que vira poluição sonora. É itinerante e intermitente. A certeza do "de vez em quando". É o motivo da curiosidade das crianças, que sempre querem entrar numa ambulância e ver o que tanto tem lá dentro.

A ambulância, em toda sua pressa e e prerrogativa legal de livre trânsito, pode servir para desafogar o tráfego. Pode atrair espertinhos que vão atrás dela aproveitando-se do espaço aberto pela urgência e pela solidariedade aos necessitados. Espertinhos para os quais a vida de alguém que está indo para o beleléu é só mais uma facilidade que o acaso lhes deu de presente, quase que advinda de alguma espécie de princípio de conservação da bonança.

Talvez o que separe a ambulância do carro da funerária, além do vermelho e do preto característicos, seja o fio de esperaça que uma tem e a outra não. A iminência não é a certeza. A ambulância é um flerte. O carro da funerária é um beijo. A pressa e a calma. A instabilidade e o retilíneo.

E se em algum momento a ambulância que voava aos brados de cor encarnada e pintada de múltiplos decibéis desliga sua sirene no meio de um percurso e diminui a velocidade? Um fechar de olhos, um último suspiro. Seria o momento mais poético das vias da cidade. A hora em que a ambulância sinaliza seu fracasso, sua insuficiência, o fim de sua esperança. A desistência. A hora em que todos os carros param, que todas as sirenes, buzinas e gritarias se desligam e há um mergulho no silêncio sereno de uma efemeríssima eternidade - a hora em que tudo pára para a contemplação -, o silêncio de respeito à hora em que a campainha do beleléu tocou e a porta foi aberta para alguém entrar.

Toda vez em que uma ambulância passa pode ser a hora de se refletir sobre alguma coisa que a cerca. Mas é difícil pensar em algo nessa hora porque ela é rápida e impessoal. Isso a torna abstrata. Isso reduz ao trivial a luta que ali dentro se trava. As ambulâncias deveriam trazer um letreiro externo eletrônico contendo os seguintes dizeres, ao lado de uma foto do indivíduo em atendimento num momento feliz de sua vida:
ESTAMOS TENTANDO SALVAR A VIDA DE FULANO DE TAL.

E se as pessoas parassem suas vidas quando vissem uma ambulância para começar a rezar, a mentalizar coisas positivas para a vítima?
As ambulâncias deixariam de ser mais umas ambulâncias dentre várias que escandalosamente se manifestam.
A vítima deixaria de ser mais uma vítima, mais uma estatística.
Os pedestres deixariam de ser só mais alguns andando na rua para formarem uma torcida.

A lógica do "é só mais um, então dane-se" e a lógica do "inevitável, então deixa para lá" deixariam de ser a tônica de como a vida vê a vida, da forma como o semelhante vê o semelhante.

A hora da ambulância seria o chamado recorrente, material, sonoro e colorido de que a vida deve celebrar a vida. Uma tomada de consciência. Um estalo. Uma forma que o Dr. Acaso, renomadíssimo publicitário, achou para divulgar, ainda que objetivando alguma percepção do inconsciente, o produto que ninguém precisa comprar, pois é o bem que todos já têm. Bem perecível, cuja data de validade não se conhece e que, cedo ou tarde, mal ou bem, encontra no beleléu seu pouso derradeiro. Seu repouso.