GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A velhinha da xerox

Aqui no Centro do Rio, do lado do prédio onde meu pai trabalha, tem uma lojinha muito pequena onde funciona uma minipapelaria, na qual fazem xerox, vendem canetas, papéis, filmes fotográficos e tiram fotos 3x4 instantâneas.

Nessa minipapelaria, trabalhava uma velhinha, seu marido (eu acho) e seu filho (eu acho). Sempre estava algum dos três trabalhando, e a senhora costumava ficar numa cadeira na porta da papelaria, pois lá dentro não havia ar condicionado e ela parecia sentir calor. Era de pele branca e possuía os cabelos branquinhos. Nem magra, nem gorda. Sempre sorridente. Era fofinha, por mais que dizer isso soe redundante.

Desde os meus 14 anos, quando eu comecei a me aventurar pelo Centro da cidade, exorbitando do eixo Copacabana-Ipanema-Leblon, eu inevitavelmente passava por essa minipapelaria. Sempre fazia questão de olhar para dentro da loja e ver se a velhinha estava lá. Por alguns anos foi assim e sempre estava ela lá, sentada na tal cadeira, entre a rua e a loja, vendo as pessoas passarem e falando com os clientes.

A gente só se falou uma vez na vida e isso já deve ter uns cinco anos. Eu estava com meu pai e ele foi fazer uma foto para tirar o passaporte. Ela acompanhou o outro moço que ali estava a fazer a foto na cabine instantânea. Disse, ao fim, que meu pai era lindo. Ganhou pai e filho.

Eu ficava realmente feliz a cada vez que passava pela loja e constatava a presença tão agradável daquela senhora, ainda que a gente não se falasse, ainda que eu a olhasse sem retorno, ainda que eu não comprasse nada naquela loja humilde, ainda que eu nunca fizesse minhas fotos 3x4 naquela máquina suja onde diariamente dezenas de pessoas deixavam estampadas suas faces pouco (falsas) ou nada sorridentes.

A cada vez que eu passava pela loja e via a velhinha com suas bochechas levemente coradas rindo e interagindo com os que ali estavam era como se eu marcasse um item positivo dentre os vários que constam do check-list de estabilidade de vida. Era como uma confirmação de que as coisas continuavam no seu lugar, do mesmo jeito que se entra no seu colégio antigo e as pessoas ainda usam o mesmo uniforme e reclamam dos mesmos professores, ou que depois de longos e tenebrosos invernos o telefone da sua ex-namorada ainda é o mesmo ou que no Natal ainda farão aquela sobremesa com receita especial que há tantas ceias aguça os apetites. Posso fazer uma lista de coisas mais óbvias, ou nem tanto, que dão essa sensação de que o mundo ainda é mundo e de que você ainda está no seu tempo. Um dos meus marcos era passar pelo Centro e olhar a velhinha na sua cadeira.

Se eu era um estranho para ela, só mais um dos trocentos que transitavam diariamente pela Cinelândia, ela não era uma estranha para mim. Era a velhinha fofinha da xerox. A presença dela, silenciosa, ali bastava. Se ela estivesse ali, como sempre, estava bom para mim. Ela não precisava saber que eu existia, que eu me importava com ela, que ela fazia alguma diferença no meu dia.

Desde que comecei a estagiar no Centro, meu trânsito pela lojinha da velhinha passou a ser diário. Comecei a sentir sua falta depois que por muitos dias eu passava por lá e ela não estava. Andando rápido, como sempre, eu passava pela loja e procurava a velhinha. Demorava mais no passo para conseguir olhar lá dentro, pois na porta ela não estava. Em vão. Pensei se ela estaria meio doente, se estaria cansada de ir para o centro todo dia, ... Por alguns dias eu quis entrar na loja e perguntar para o senhor que ali continuava trabalhando diariamente o que havia acontecido com a velhinha. Achei, porém, que seria freak demais. E eu talvez não suportasse muito bem ouvir da boca dele, tendo que lhe dar alguma resposta, que algo de muito ruim havia acontecido, se esse fosse o caso.

Deixei para perguntar para o meu pai, afinal, ele está sempre por ali e deveria estar melhor informado. Segunda-feira agora, perguntei para ele, enquanto tomávamos café-da-manhã na lanchonete que fica ao lado da lojinha. Ele falou que estava tudo bem com a velhinha e que ela sempre estava por lá. Aliviei-me por um segundo, confiando na inconfiável noção de tempo do meu pai. A garçonete, porém, interrompeu nossa conversa e falou, um tanto desolada, que aquela senhora falecera já havia três meses.

Até hoje não sei seu nome, não sei sua origem, não sei sua idade e nem especulo sobre a sua causa mortis. Não preciso saber e sabê-lo talvez tornasse as coisas mais corriqueiras, mais desimportantes e menos simbólicas. Se ainda puder me redimir desse não-saber, que no fundo só serviu a tornar a senhora ou a história mais interessantes, resta aqui uma homenagem...
Post mortem, ainda que seja, infelizmente.

6 comentários:

João Medeiros disse...

é estranho pensar nos que já se foram porque, de alguma maneira, quer dizer que eles ficaram

Princia disse...

:,)

Julia Leal disse...

=/ É incrivel como a gente se apega a pessoas desconhecidas por um simples sorriso.

Palatus disse...

Oh vida, sempre acaba e acho até bom que acabe mesmo para alguns, o problema é que muitas pessoas pensam que vão viver para sempre. Bela homenagem...muito bem dita. Um abraço, Drummond.

Vicez disse...

Identifiquei-me com esse seu texto. =/

fabiana disse...

Lindo... Gostei da ternura do texto. Acho que ela gostaria também e te agradeceria com um sorriso fofo.