Esses dias ouvi em conversa alheia, dessas que chegam ao ouvido implacáveis como perfumes de estranhos, uma mulher falar a seguinte frase: "a gente sempre acha que mormaço não queima, né".
"Mormaço não queima" ocupa um lugar de honra naquele rol de mentiras que sabemos ser mentirosas, mas que nos permitimos repetidamente viver por pura leviandade e preguiça. Quem nunca olhou para um céu nublado vertendo mormaço e pensou que jamais iria se queimar da mesma forma que num tremendo dia de sol de verão?
Tenho preguiça de passar filtro solar em qualquer outra situação que não aquelas em que o sol seja uma "função" no meu dia. No fim das contas, acabo passando filtro solar apenas quando o dia está lindo e eu sei que vou ficar muito tempo exposto ao sol, porque aí não consigo negociar com minha consciência.
Tirando dias "lindos", se me perguntarem se eu deveria ter passado filtro, eu diria que sim. Mas um "sim" sem convicção, quase que por vergonha em admitir um comportamento viciado, um "faça o que eu digo mas não faça o que eu faço". Lá no fundo, há uma crença latente, de uma fé quase inabalável, quanto ao fato de o mormaço não queimar, quanto ao risco corrido ser muito menor por ser apenas um mormaço, a ponto de não valer a pena passar o filtro solar at all. Como se o infortúnio da vida só incidisse sobre os outros.
Menos que isso e ficamos neuróticos.
Antigamente, eu dizia que eu só aprendia com erros quando errava pela segunda vez. Precisava ter certeza demais para poder confortavelmente contrariar minhas melhores intuições. Achava um comportamento epistemicamente correto... mas quanta pretensão! Talvez fosse só um jeito legal de dizer que, na verdade, só sofro de um excesso de otimismo, ocasional e seletivo, como se sempre dissesse que "comigo vai ser diferente". Nunca é tão diferente.
Como statements blindados sobre o mundo e contra o mundo, como verdades cujas fichas não caem, essas mentirinhas que contamos para nós mesmos vão funcionando como pequenas auto-indulgências diante da vida. Elas amolecem nossa existência. Estamos sempre a nos perdoar por transgredi-las, não importa o quão óbvio seja o passo em falso que se toma ou o preço amargo que se paga. Pouco faz diferença ter podido antecipar as consequências. Se aconteceu errado, não é nossa culpa. Ou não foi por causa daquilo. A causalidade vira nossa amiga e cúmplice: nunca foi ela. O azar, nosso inimigo, nosso algoz. Não estamos mais no controle.
Vamos acumulando nossas mentirinhas. Como uma fraqueza de espírito bem justificada. Como um pecado bem "pecável". E com a frivolidade de quem nem precisa pedir perdão.
No fundo, devemos estar certos, né?
GUIA DE LEITURA
Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):
Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)
(a nostalgia do que não tive)
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
OPERADORA DE CELULAR
(ou ensaio sobre 'turns on')
Certa vez, ouvi de uma amiga que não nos apaixonamos por pessoas, mas por traços em pessoas. Não sei se de todo concordo ou discordo, essa é uma boa indagação. Sei que faz algum sentido: sempre há aquele detalhe que nos chama a atenção e nos ressalta um diferencial na pessoa, às vezes uma besteira qualquer, a selar o suposto premente êxito daquela combinação existencial chamada casal. Um diferencial que revela alguma afinidade, como se na vida nosso fardo (ou benção) fosse encontrar um semelhante em meio a tanta gente diferente, isto é, fazer da semelhança o diferencial entre um e os tantos outros diferentes, por mais que assemelhados entre si na estranheza (indiferença?) que causam aos nossos códigos e corações.
Apaixonamentos são também das mais curiosas emoções. Por vezes revelam fetiches da alma, especificidades sentimentais, fantasias do coração, não necessariamente carregadas de lascívia, pelo menos não naquele momento, nem por aquela razão. Bem, (ainda) há quem se derreta em amores por uma posição moral específica que o outro possua, por um sonho de vida partilhado, por um passado sofrido semelhante, por todo um caldo de referências em comum. Religiões, filosofias, tradições culturais, a pertença a certo povo. Tudo isso nos identifica e nos aproxima. E com razão.
Em algumas vezes, a coisa é mais física e sensorial. Um jeito específico de olhar, de dançar, uma certa forma de dizer "oi", um toque provocativo, sardas, covinhas, cabelos de cor assim, olhos de cor assada, uma pele macia... Por vezes, o magnetismo é inconsciente. Dele só nos damos conta quando a falta nos bate à porta, inexorável. Como drogados, sentimos verdadeira crise de abstinência, como quando andamos na rua e uma brisa incauta nos carregas para dentro do nariz o perfume da pessoa, como um combustível de alta octanagem a fazer florescer de modo incendiário as piores e melhores memórias a ela associadas.
Noutras vezes, a paixão se sugestiona por besteiras culturais quaisquer. Desculpe-me por subestimá-las de plano. Sabe aquela pessoa que gosta dos mesmos filmes, dos mesmos livros, das mesmas músicas, dos mesmos jogos e tem um certo estilinho? Aquela menina que gosta daquela banda que ninguém conhece. Ou aquela menina que - what the hell!? - também joga aquele RPG online. Não importa quem ela seja, vai parecer uma enviada do destino. Alguém mais do que especial. Também pode ser só uma poser inteligente que arrumou um nicho onde se sabe mais valorizada. Não tem jeito: a adolescência envolve cair nesse engodo. Eu mesmo já achei que óculos de armação grossa fossem indício de todo um conjunto de características positivas. Hoje fico desconfiado de ser uma qualquer querendo pagar de inteligentinha/estudiosa ou uma hipster blasé que vá se incomodar com minha breguice genuína ocasional.
Contudo, as afinidades mais estranhas, nem por isso menos relevantes, são as operacionais, logísticas, utilitárias, práticas. Elas estão longe de serem necessárias, muito menos suficientes, para fazer brotar qualquer sentimento de proximidade romântica. Mas uma vez acontecendo o pontapé inicial romântico, elas prestam um papel importante em alimentar a coisa. E, por vezes, servem como critério eliminatório. Podem parecer frívolas, materialistas, coisa de gente vazia, a antítese do amor genuíno e desinteressado, o que até tem seu fundo de verdade. Mas não podem por isso ser ignoradas: entendê-las não implicará perdoá-las. Não necessariamente.
Afinal, como conta pontos positivos a seu favor alguém que more perto! Alguém que tenha um carro e saiba dirigir para viajar aos fins de semana sem grandes perrengues de rodoviárias. Alguém que não seja chata para comer, no sentido (você pensou em outra coisa!) que possa acompanhá-lo em qualquer restaurante. Alguém que tenha horários noturnos e não vá morrer de sono no seu auge metabólico. Alguém sem muitos amigos, para não ter muito com quem dividir horários. Ou alguém com muitos amigos, para quem sabe se fazerem novos amigos. Alguém que entenda de algum assunto técnico o suficiente para quebrar um galho cotidiano. Alguém com uma família legal para se aturar (quem sabe amar) nos eventos dominicais. Alguém que não tenha tatuagens ou piercings indiscretos para a vovó não ficar constrangida. Enfim, alguém que permita um relacionamento sem grandes esforços, sem grandes sacrifícios: os pequenos são bem-vindos como uma sacudida à sempre iminente monotonia.
E - por que não? - alguém que tenha a mesma operadora de celular. Ajuda muito. Com os planos ilimitados em voga entre usuários da mesma companhia, nada mais oportuno do que poder ligar e mandar mensagem sem se preocupar com a conta ao final do mês. Cuidado para não virar um telechiclete. Fato é que uma maior viabilidade financeira do relacionamento não deixa de ser uma afinidade. Uma vez correspondida, é mais uma razão para correr para o abraço.
Contudo, se a operadora for diferente e a pessoa ainda assim valer a pena, também não tem problema: já inventaram a portabilidade. Você pode correr imediatamente à loja da operadora para se perfilar ainda mais ao ser amado. Afinal, nem só de telepatia vive o amor. Um telefonema de vez em quando ainda é bem-vindo. Se for de graça, então...
Certa vez, ouvi de uma amiga que não nos apaixonamos por pessoas, mas por traços em pessoas. Não sei se de todo concordo ou discordo, essa é uma boa indagação. Sei que faz algum sentido: sempre há aquele detalhe que nos chama a atenção e nos ressalta um diferencial na pessoa, às vezes uma besteira qualquer, a selar o suposto premente êxito daquela combinação existencial chamada casal. Um diferencial que revela alguma afinidade, como se na vida nosso fardo (ou benção) fosse encontrar um semelhante em meio a tanta gente diferente, isto é, fazer da semelhança o diferencial entre um e os tantos outros diferentes, por mais que assemelhados entre si na estranheza (indiferença?) que causam aos nossos códigos e corações.
Apaixonamentos são também das mais curiosas emoções. Por vezes revelam fetiches da alma, especificidades sentimentais, fantasias do coração, não necessariamente carregadas de lascívia, pelo menos não naquele momento, nem por aquela razão. Bem, (ainda) há quem se derreta em amores por uma posição moral específica que o outro possua, por um sonho de vida partilhado, por um passado sofrido semelhante, por todo um caldo de referências em comum. Religiões, filosofias, tradições culturais, a pertença a certo povo. Tudo isso nos identifica e nos aproxima. E com razão.
Em algumas vezes, a coisa é mais física e sensorial. Um jeito específico de olhar, de dançar, uma certa forma de dizer "oi", um toque provocativo, sardas, covinhas, cabelos de cor assim, olhos de cor assada, uma pele macia... Por vezes, o magnetismo é inconsciente. Dele só nos damos conta quando a falta nos bate à porta, inexorável. Como drogados, sentimos verdadeira crise de abstinência, como quando andamos na rua e uma brisa incauta nos carregas para dentro do nariz o perfume da pessoa, como um combustível de alta octanagem a fazer florescer de modo incendiário as piores e melhores memórias a ela associadas.
Noutras vezes, a paixão se sugestiona por besteiras culturais quaisquer. Desculpe-me por subestimá-las de plano. Sabe aquela pessoa que gosta dos mesmos filmes, dos mesmos livros, das mesmas músicas, dos mesmos jogos e tem um certo estilinho? Aquela menina que gosta daquela banda que ninguém conhece. Ou aquela menina que - what the hell!? - também joga aquele RPG online. Não importa quem ela seja, vai parecer uma enviada do destino. Alguém mais do que especial. Também pode ser só uma poser inteligente que arrumou um nicho onde se sabe mais valorizada. Não tem jeito: a adolescência envolve cair nesse engodo. Eu mesmo já achei que óculos de armação grossa fossem indício de todo um conjunto de características positivas. Hoje fico desconfiado de ser uma qualquer querendo pagar de inteligentinha/estudiosa ou uma hipster blasé que vá se incomodar com minha breguice genuína ocasional.
Contudo, as afinidades mais estranhas, nem por isso menos relevantes, são as operacionais, logísticas, utilitárias, práticas. Elas estão longe de serem necessárias, muito menos suficientes, para fazer brotar qualquer sentimento de proximidade romântica. Mas uma vez acontecendo o pontapé inicial romântico, elas prestam um papel importante em alimentar a coisa. E, por vezes, servem como critério eliminatório. Podem parecer frívolas, materialistas, coisa de gente vazia, a antítese do amor genuíno e desinteressado, o que até tem seu fundo de verdade. Mas não podem por isso ser ignoradas: entendê-las não implicará perdoá-las. Não necessariamente.
Afinal, como conta pontos positivos a seu favor alguém que more perto! Alguém que tenha um carro e saiba dirigir para viajar aos fins de semana sem grandes perrengues de rodoviárias. Alguém que não seja chata para comer, no sentido (você pensou em outra coisa!) que possa acompanhá-lo em qualquer restaurante. Alguém que tenha horários noturnos e não vá morrer de sono no seu auge metabólico. Alguém sem muitos amigos, para não ter muito com quem dividir horários. Ou alguém com muitos amigos, para quem sabe se fazerem novos amigos. Alguém que entenda de algum assunto técnico o suficiente para quebrar um galho cotidiano. Alguém com uma família legal para se aturar (quem sabe amar) nos eventos dominicais. Alguém que não tenha tatuagens ou piercings indiscretos para a vovó não ficar constrangida. Enfim, alguém que permita um relacionamento sem grandes esforços, sem grandes sacrifícios: os pequenos são bem-vindos como uma sacudida à sempre iminente monotonia.
E - por que não? - alguém que tenha a mesma operadora de celular. Ajuda muito. Com os planos ilimitados em voga entre usuários da mesma companhia, nada mais oportuno do que poder ligar e mandar mensagem sem se preocupar com a conta ao final do mês. Cuidado para não virar um telechiclete. Fato é que uma maior viabilidade financeira do relacionamento não deixa de ser uma afinidade. Uma vez correspondida, é mais uma razão para correr para o abraço.
Contudo, se a operadora for diferente e a pessoa ainda assim valer a pena, também não tem problema: já inventaram a portabilidade. Você pode correr imediatamente à loja da operadora para se perfilar ainda mais ao ser amado. Afinal, nem só de telepatia vive o amor. Um telefonema de vez em quando ainda é bem-vindo. Se for de graça, então...
segunda-feira, 30 de abril de 2012
A TENTAÇÃO DE MÃE VALÉRIA
Quem já perambulou por Ipanema bem sabe que nos postes de cada esquina, além da luz que ilumina a rua, fatalmente encontram-se cartazes com oferta tentadora de uma mãe-de-santo a iluminar corações aflitos e apaixonados:
MÃE VALÉRIA: TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS.
Acho bonito que exista uma mística, um jogo e, às vezes (aham), até um drama no apaixonamento e na sedução. Conquistar o outro e cativá-lo aos próprios braços é um trabalho difícil, embora ocasionalmente ele nos ocorra com tanta facilidade e surpresa que não raro somos levados a acreditar que há alguma explicação inesperada, como energias, cosmos, e outras baboseiras (?), por detrás. E se houver mesmo? Enfim.
Talvez a dificuldade do trabalho de conquista amorosa seja justamente a bilateralidade. E conquistar é verbo que pressupõe resultado: ninguém conquista como tentativa. Diferente de outros "projetos" aos quais nos dedicamos na vida, o projeto da conquista amorosa não funciona se estivermos obcecados, nem se focarmos todas as nossas energias para o resultado almejado. Nesse departamento, as coisas são diferentes: se formos com tudo, assustamos a quem queremos cativar. Se formos "com nada", ou melhor, se não formos, pagamos o preço da nossa omissão, embora alguns insistam em dizer que a rejeição acaba sendo convidativa. Pode até ser, mas não para quem age estrategicamente, isto é, para quem rejeita intentando conquistar. É que os apaixonados não conseguem mentir sobre a paixão: quando mentem é porque se atrapalharam tentando não apressar a verdade.
O que Mãe Valéria promete, com suas ligações transcendentais que nem ouso explorar, derrotar ou confirmar, é resolver essa questão difícil: eliminar a bilateralidade da conquista e simplesmente fazer conquistar o outro, como quem pratica um ato em vez de um contrato.
Meu "eu liberal" fica perguntando se isso é interferir demais na vontade alheia, se é que tal é verdade e não um mero engodo a se aproveitar da fragilidade dos apaixonados. Meu "eu romântico" (que não necessariamente se contrapõe ao liberal) pensa, por sua vez, em tom eufemístico: Mãe Valéria é só um empurrãozinho do universo para um amor consciente e voluntariamente dirigido.
O que quer que seja, Mãe Valéria é tentadora. Promete eliminar domingos chuvosos sofridos, leituras pessimistas de entrelinhas, desertos de espera por mensagens que tardam ou não chegam, palavras truncadas em esbarrões de corredor, discussão sobre se há ambiguidade ou univocidade nos gestos simples e complexos.
Promete debelar o frisson, que em alguns gera verdadeira inquietação epistemológica - tamanho é o amor à verdade -, de encontros tão bem justificados sob o manto da coincidência e da casualidade, bem como de desencontros igualmente bem justificados sob a escusa do azar e da fatalidade.
Alguns vão dizer que Mãe Valéria é como uma trapaça no jogo da conquista. É como usar um cheat. Você se diverte usando cheats? Eu me divirto, em geral.
A diversão é menos verdadeira porque usou cheat? Não sei. Nunca fui dessa galera que gosta de jogar games fazendo as missões e levando a sério o enredo. Talvez por isso jogos nunca foram atraentes em minha vida. Quando podia, colocava um cheat e ficava só zoando. Sentia menos desafio, eu concordo: mas nunca quis buscar num jogo algo além de mero entretenimento. E adrenalina não me entretém.
De desafiadora, sempre me bastou a vida: talvez ela assim o seja porque justamente consiste da "arte" (é tão brega dizer que algo é "a arte de") de conciliar vontades próprias com vontades alheias dentro das possibilidades fáticas que se põem sobre a mesa. A vida, em muito, é a correspondência entre o que nós queremos, o que os outros querem e o que se pode fazer. Mãe Valéria promete ajustar os dois últimos elementos aos desígnios do primeiro.
Isso pode significar destruir toda a graça da conquista e o próprio percurso amoroso que serve de lastro aos romances. Uma conquista amorosa suada acaba por valorizar o amor. Acho que Mãe Valéria, se é que vale a pena de alguma forma, não o vale como recurso principal, mas é fato que apaixonados sem esperança podem encontrar nessa oferta encantadora o melhor alento - e a última trincheira - para seus corações inquietos.
Falo de Mãe Valéria em tom documental, como se lá já tivesse ido. Nunca fui. Morro de vontade de ir, tanto como cronista curioso e cético desconfiado quanto como apaixonado ocasionalmente frustrado. Eu bem lá sei que Mãe Valéria não faz muito sentido: ela é reprovada em todos os meus testes lógicos e de coerência. Até consigo pensar em problemas à atuação de Mãe Valéria.
Vejam só. Se ela fosse infalível, haveria uma fila gigantesca de meninas à sua porta, ansiando pelo Príncipe Harry em seus braços: mas não existe Princípe Harry para todas e, ainda que houvesse, para ele chegar em três dias teria que passar um dobrado com sua agenda institucional. Do mesmo jeito, quando dois homens desejam a mesma mulher, quem leva a melhor? Quem chegar primeiro? Quem tiver o santo mais forte? Quem pagar mais? Problemas...
Fico me perguntando sobre o que Mãe Valéria fala e faz. Não pode ser possível que alguém se mantenha no mercado de condução-de-pessoas-amadas-em-tempo-recorde há tanto tempo com base em mentiras básicas ou bobas... Tudo bem, ainda que ela esteja mentindo como charlatã profissional, não é possível que coisa alguma aconteça (ou é?). Talvez ela seja apenas uma boa conselheira amorosa, não descarto a possibilidade. Seria uma "Hitch" carioca com leves predicados mediúnicos e epíteto matriarcal?
O que sei é que Mãe Valéria é uma tentação permanente. E não é porque me disseram que ela até é uma senhora bonita...
MÃE VALÉRIA: TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS.
Acho bonito que exista uma mística, um jogo e, às vezes (aham), até um drama no apaixonamento e na sedução. Conquistar o outro e cativá-lo aos próprios braços é um trabalho difícil, embora ocasionalmente ele nos ocorra com tanta facilidade e surpresa que não raro somos levados a acreditar que há alguma explicação inesperada, como energias, cosmos, e outras baboseiras (?), por detrás. E se houver mesmo? Enfim.
Talvez a dificuldade do trabalho de conquista amorosa seja justamente a bilateralidade. E conquistar é verbo que pressupõe resultado: ninguém conquista como tentativa. Diferente de outros "projetos" aos quais nos dedicamos na vida, o projeto da conquista amorosa não funciona se estivermos obcecados, nem se focarmos todas as nossas energias para o resultado almejado. Nesse departamento, as coisas são diferentes: se formos com tudo, assustamos a quem queremos cativar. Se formos "com nada", ou melhor, se não formos, pagamos o preço da nossa omissão, embora alguns insistam em dizer que a rejeição acaba sendo convidativa. Pode até ser, mas não para quem age estrategicamente, isto é, para quem rejeita intentando conquistar. É que os apaixonados não conseguem mentir sobre a paixão: quando mentem é porque se atrapalharam tentando não apressar a verdade.
O que Mãe Valéria promete, com suas ligações transcendentais que nem ouso explorar, derrotar ou confirmar, é resolver essa questão difícil: eliminar a bilateralidade da conquista e simplesmente fazer conquistar o outro, como quem pratica um ato em vez de um contrato.
Meu "eu liberal" fica perguntando se isso é interferir demais na vontade alheia, se é que tal é verdade e não um mero engodo a se aproveitar da fragilidade dos apaixonados. Meu "eu romântico" (que não necessariamente se contrapõe ao liberal) pensa, por sua vez, em tom eufemístico: Mãe Valéria é só um empurrãozinho do universo para um amor consciente e voluntariamente dirigido.
O que quer que seja, Mãe Valéria é tentadora. Promete eliminar domingos chuvosos sofridos, leituras pessimistas de entrelinhas, desertos de espera por mensagens que tardam ou não chegam, palavras truncadas em esbarrões de corredor, discussão sobre se há ambiguidade ou univocidade nos gestos simples e complexos.
Promete debelar o frisson, que em alguns gera verdadeira inquietação epistemológica - tamanho é o amor à verdade -, de encontros tão bem justificados sob o manto da coincidência e da casualidade, bem como de desencontros igualmente bem justificados sob a escusa do azar e da fatalidade.
Alguns vão dizer que Mãe Valéria é como uma trapaça no jogo da conquista. É como usar um cheat. Você se diverte usando cheats? Eu me divirto, em geral.
A diversão é menos verdadeira porque usou cheat? Não sei. Nunca fui dessa galera que gosta de jogar games fazendo as missões e levando a sério o enredo. Talvez por isso jogos nunca foram atraentes em minha vida. Quando podia, colocava um cheat e ficava só zoando. Sentia menos desafio, eu concordo: mas nunca quis buscar num jogo algo além de mero entretenimento. E adrenalina não me entretém.
De desafiadora, sempre me bastou a vida: talvez ela assim o seja porque justamente consiste da "arte" (é tão brega dizer que algo é "a arte de") de conciliar vontades próprias com vontades alheias dentro das possibilidades fáticas que se põem sobre a mesa. A vida, em muito, é a correspondência entre o que nós queremos, o que os outros querem e o que se pode fazer. Mãe Valéria promete ajustar os dois últimos elementos aos desígnios do primeiro.
Isso pode significar destruir toda a graça da conquista e o próprio percurso amoroso que serve de lastro aos romances. Uma conquista amorosa suada acaba por valorizar o amor. Acho que Mãe Valéria, se é que vale a pena de alguma forma, não o vale como recurso principal, mas é fato que apaixonados sem esperança podem encontrar nessa oferta encantadora o melhor alento - e a última trincheira - para seus corações inquietos.
Falo de Mãe Valéria em tom documental, como se lá já tivesse ido. Nunca fui. Morro de vontade de ir, tanto como cronista curioso e cético desconfiado quanto como apaixonado ocasionalmente frustrado. Eu bem lá sei que Mãe Valéria não faz muito sentido: ela é reprovada em todos os meus testes lógicos e de coerência. Até consigo pensar em problemas à atuação de Mãe Valéria.
Vejam só. Se ela fosse infalível, haveria uma fila gigantesca de meninas à sua porta, ansiando pelo Príncipe Harry em seus braços: mas não existe Princípe Harry para todas e, ainda que houvesse, para ele chegar em três dias teria que passar um dobrado com sua agenda institucional. Do mesmo jeito, quando dois homens desejam a mesma mulher, quem leva a melhor? Quem chegar primeiro? Quem tiver o santo mais forte? Quem pagar mais? Problemas...
Fico me perguntando sobre o que Mãe Valéria fala e faz. Não pode ser possível que alguém se mantenha no mercado de condução-de-pessoas-amadas-em-tempo-recorde há tanto tempo com base em mentiras básicas ou bobas... Tudo bem, ainda que ela esteja mentindo como charlatã profissional, não é possível que coisa alguma aconteça (ou é?). Talvez ela seja apenas uma boa conselheira amorosa, não descarto a possibilidade. Seria uma "Hitch" carioca com leves predicados mediúnicos e epíteto matriarcal?
O que sei é que Mãe Valéria é uma tentação permanente. E não é porque me disseram que ela até é uma senhora bonita...
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
desaprendi a curtir uma fossa
Desaprendi a curtir uma fossa e hoje me vejo no dilema: a fossa é melhor curtindo ou não curtindo?
Por muito tempo eu pensei que curtir uma fossa era algo que me tornava mais digno: era a solenidade moral de suportar a própria humanidade. Vítima da própria tragédia, sofrer enobrecia e me tornava altivo, e, como um título de capitalização, acreditava que cada lágrima derramada me contaria créditos para depois, na justiça divina das compensações, trocar por momentos de alegria. Escravo da fantasia, nada era tão alegre quanto imaginar um momento de alegria quando eu estava triste: um sorriso esboçado é como uma gargalhada, as cores são mais vívidas e o mundo é fluido.
Não sei mais o que é curtir uma fossa. Talvez porque a fossa mais fosse problema bioquímico do que os fatos e os acidentes da vida. Estar na fosssa hoje para mim é raro, o que é muito bom. Mas a mesma humanidade que eu suporto - e admiro - é inexorável em não fazer da felicidade uma constante. Do contrário, a própria felicidade não faria sentido ou não teria enlevo, pois que parâmetro haveria para ela se sobressair?
Não sei mais o que é curtir uma fossa. Simplesmente não sei mais escolher aquela música que me deixa reflexivo, complexo e mergulhado nos meus pensamentos. As baladas funestas de outrora hoje me soam artificiais: não consigo mais me enganar. O lirismo da poesia é forçado: o amor romântico é superado pela realidade, como se um filme de drama tivesse virado um documentário em primeira pessoa, nu e cru. As memórias não mais me comovem, os traumas estão bem resolvidos e as esperanças frustradas do passado viraram uma lembrança neutra de uma ingenuidade superada.
Hoje sofro como quem cumpre uma formalidade e enfrenta os ossos do ofício da própria vida, como alguém que encara o tráfego para voltar para casa ou que espera a fila do restaurante para conseguir uma mesa... Sofro de bom-humor, quase zombando de mim mesmo, como quem vive um pesadelo com a certeza de que é só um pesadelo. Como quem assiste agoniado um filme de terror, mas não perde a noção de que está diante de um filme. Sofro pelo suspense da vida, só para ter um pouquinho de emoção. Se antes curtir a fossa significava um momento estranho de alegria dentro de uma tristeza maior, hoje a fossa é a própria imperfeição da boa vida, a contingência triste da própria felicidade.
Sofro sendo feliz.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
NO MORMAÇO DE UM DIA NUBLADO
Há dias cinzentos na vida: esse não é um problema. A vida é meio cinzenta. Nem sempre vamos para a cama com o cansaço gostoso de final de um dia maravilhoso, da mesma forma que nem sempre a cama, em gesto de resignação, se mostra a melhor solução para virar a página.
A graça dos extremos é o cinza. Porque o preto é o preto, o branco é o branco. E o cinza é só uma indeterminação entre pólos determinados: nunca se é um, nunca se é outro. Na verdade, se é um pouco de um, um pouco do outro... no fim, um pouco de si mesmo. Equilibradamente desequilibrado.
O cinza é o resultado de uma balança com ponteiros trêmulos. Engana-se e se traveste pela luz que nele incide. Nebuloso é percebê-lo. Ora é tão escuro que é preto, ora é tão claro que é branco. Nunca se revela por inteiro e deixa nos olhos uma dúvida sutil: faltou ver algo, porventura apagado pela escuridão ou ofuscado pela claridade?
O céu encoberto é a melhor paleta de cinzas que há. Um grande espelho a céu aberto, digo, a céu fechado. Neles se enxergam - e enxergam os seus dias - aqueles que não estão enebriados por júbilo nem afogados em penar, pois esses não conhecem os meios-termos.
O cinza é a virtude dos sãos, dos comedidos, dos côngruos, dos sóbrios, enfim, dos chatos para quem a vida nem sempre é sonho ou pesadelo. A virtude dos que conseguem ver seja o sol tentando aparecer por entre as nuvens, seja as nuvens carregadas encobrindo o brilho do sol, pois, mais do que sol ou chuva, vêem o mormaço perene e uniforme que queima, esquenta e ilumina. Sabem a obviedade - e por isso não sofrem por antecedência - de que, enquanto não escurecer de vez, ainda é dia.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
GENIAL
(co-autor telepático e não-autorizado: João Manoel Nonato)
O que têm de especial os grandes gênios da humanidade? Indaguei-me sobre isso esses dias ao ver o mundo dos gênios cultuados (Paris é o antro!) em contraste com os cultuados gênios dos submundos (a internet é um grande submundo).
Os gênios cultuados - sinto-me à vontade para não me estender - respondem por padrões artísticos, filosóficos, religiosos, políticos - culturais de uma maneira geral - que vão além do seu tempo e da sua localização espacial. É possível dizer que Picasso, Monet, Rousseau, Beethoven, Platão, Aristóteles, isso para não citar outros, são uns quaisquer? Discorde-se da teoria rousseauniana ou se odeie a Nona Sinfonia, algo é inegável: o valor social e a projeção temporal-espacial que elas têm. Essa genialidade dos grandes, portanto, é um aspecto de intersubjetividade, para além não apenas de uma objetividade externa à apreciação, como se a genialidade estivesse na própria obra ou idéia, como também de uma subjetividade "achista", como se a genialidade dependesse diretamente dos "eu gosto" caprichosos do receptor da obra, à vontade para "achar" toda e qualquer coisa.
Os cultuados gênios dos submundos - é sobre esses que eu quero falar - é que me suscitam uma boa reflexão sobre a tal da genialidade. Escrevem, falam, fotografam, pintam, compõem, têm espasmos volitivos, mijam, peidam... como qualquer um pode fazer, mesmo os gênios. Se outrora eram os artistas e pensadores dos círculos restritos, da cultura alternativa, dos guetos urbanos, hoje se expõem nas mídias da contemporaneidade: youtube, twitter, blogs, flickrs, etc. Colocam ali o que quer que seja, o que depois pode de fato se mostrar a oitava maravilha do mundo, e se jogam na multidão, à espera, quem sabe, por serem pinçados e alçados à fama viral.
Nesse atacadão de coisas sujeitas à apreciação coletiva, alguns começam a ser chamados de gênios e outros são simplesmente desprezados. Por que alguns são gênios e outros não? Não sei. Fato é que quando alguém começa a ser chamado de gênio, o efeito dominó se instala. É a hype. Se tão dizendo, então é porque é. Não importa o que a arte ou a idéia do cara é. Importa é que seja incompreendida. Muitos são chamados instantaneamente de gênios por receptores (leitores/ouvintes/espectadores/...) que não entendem a obra. Mais do que um problema de incompreensão, é um problema de auto-estima e com possibilidade dupla de resultado. Ou se cultua ou se destrói.
Pensa o receptor que a incompreensão de que ele sofre deve ser um sinal da genialidade do autor ou de sua completa mediocridade: o cara deve ser bom demais e complexo demais (ou apenas simples e óbvio demais, e por isso deve-se estar entendendo algo errado, pois se espera uma interpretação grandiosa - lembram-se da pedra no meio do caminho?) para pertencer a esse mundo dos mortais e a ele se fazer entender, então vamos cultuá-lo ou destruí-lo, a depender da hype. Mais uma vez, é um exercício de intersubjetividade, tão volúvel quanto tributária, de sobremaneira, da "lógica tostines": considera-se bom porque dizem que é bom ou dizem que é bom porque considera-se que é bom?
No fundo, eis um grande desafio à sinceridade. Um desafio eterno, parte inconsciente, parte consciente, de dizer ao mundo a própria impressão sobre a coisa sem levar em conta a impressão geral. A parte inconsciente traduz a dificuldade (alguns, eu inclusive, diriam a impossibilidade cabal) de se desimpregnar do que se enraizou ao longo da vida. A parte consciente, por sua vez, é a questão de se peitar o resto e bancar ser a voz dissonante.
O mais engraçado é quando "bancar ser a voz dissonante" passa a ser a hype da vez. Aí, discordar vira um automático, criticar vira uma obrigação e ser diferente torna-se um imperativo. O problema é que, quando todo mundo fica igualmente diferente, a aleatoriedade passa a ser previsível. E aí, quem então vai bancar ser o rebelde entre os rebeldes?
Lembro-me da chamada na sala de aula nos primórdios escolares. Muitos falam "presente", alguém resolve falar "presidente", outro fala "presunto", o cara do fundo fala "penitente". Um teimoso voltará a falar "presente" e, não tem jeito, sempre vai ter alguém mais engraçadinho que falará "demente" para semi-ofender um coleguinha ou o professor. Geralmente é aquele mais socialmente saliente, para quem as meninas costumam se derreter. É porque elas ainda não aprenderam a dizer que é genial...
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
A LUTA CONTRA O SONO PELO SONO
É absolutamente desesperador o domingo à noite, quando chega aquela sensação infeliz de que o fim de semana acabou. O que tinha que ser curtido já foi curtido, e o que se deixou adiar, agora só daqui a cinco dias.
A noite vai terminando declarada pelo "boa noite" do Fantástico, e é aí que bate o desespero: "preciso me divertir um pouquinho mais!". Convencer-se de que simplesmente é hora de ir pra cama é algo muito árduo. Por mais que haja algum sono, há aquela esperança de que algo maravilhoso ainda irá acontecer, e essa espera ansiosa mantém a vontade de dormir distanciada da necessidade que se torna mais evidente a cada minuto.
É a hora desesperada em que se lê algo que já deveria ter sido lido durante a semana. Ou em que se entra no orkut para vasculhar a tragédia alheia. É a hora em que se reza: agradecemos e pedimos, ou pedimos e agradecemos (nesse caso a ordem importa), se só depois é que nos dermos conta de que podemos estar sendo um pouco abusados com a divindade.
A idéia de deitar na cama e simplesmente dormir é mera utopia. Você deita na cama para dormir. Não deita na cama e dorme. Ver a cama como meio é colocar-se no abismo de angústia entre o ato e resultado, a angústia de que a cama não é o fim. A angústia que suscita o eco da semana inteira ressonando por completo em apenas alguns minutos, com as lamúrias do passado e os auspícios do futuro. Mas sempre angústia. Há, inclusive, a angústia de não se tolerar angustiado naquele momento: a meta-angústia. E aí a meta-meta-angústia. A meta-meta-meta-angústia. E por aí vai: uma frustração por conta de outra frustração! E essa relação infinita, em que dentro da angústia você vê a própria angústia, o fractal da angústia (!), é o que faz você viajar.
Eis que em algum momento, do qual você não se lembra, mas que certamente acontece, tudo para e você dorme (ou não, né...). Dorme porque se cansou de se perceber cansado. Dorme simplesmente porque se distraiu, angustiado ou não, pensando em dormir ou não, pensando em pensar ou, simplesmente, nada pensando. Dorme e só. E sem se dar conta se isso é bom ou ruim, se é feliz ou triste, se foi o fracasso e a resignação diante do fim do fim-de-semana, ou se foi a vitória de se pôr a descansar para mais uma semana.
A noite vai terminando declarada pelo "boa noite" do Fantástico, e é aí que bate o desespero: "preciso me divertir um pouquinho mais!". Convencer-se de que simplesmente é hora de ir pra cama é algo muito árduo. Por mais que haja algum sono, há aquela esperança de que algo maravilhoso ainda irá acontecer, e essa espera ansiosa mantém a vontade de dormir distanciada da necessidade que se torna mais evidente a cada minuto.
É a hora desesperada em que se lê algo que já deveria ter sido lido durante a semana. Ou em que se entra no orkut para vasculhar a tragédia alheia. É a hora em que se reza: agradecemos e pedimos, ou pedimos e agradecemos (nesse caso a ordem importa), se só depois é que nos dermos conta de que podemos estar sendo um pouco abusados com a divindade.
A idéia de deitar na cama e simplesmente dormir é mera utopia. Você deita na cama para dormir. Não deita na cama e dorme. Ver a cama como meio é colocar-se no abismo de angústia entre o ato e resultado, a angústia de que a cama não é o fim. A angústia que suscita o eco da semana inteira ressonando por completo em apenas alguns minutos, com as lamúrias do passado e os auspícios do futuro. Mas sempre angústia. Há, inclusive, a angústia de não se tolerar angustiado naquele momento: a meta-angústia. E aí a meta-meta-angústia. A meta-meta-meta-angústia. E por aí vai: uma frustração por conta de outra frustração! E essa relação infinita, em que dentro da angústia você vê a própria angústia, o fractal da angústia (!), é o que faz você viajar.
Eis que em algum momento, do qual você não se lembra, mas que certamente acontece, tudo para e você dorme (ou não, né...). Dorme porque se cansou de se perceber cansado. Dorme simplesmente porque se distraiu, angustiado ou não, pensando em dormir ou não, pensando em pensar ou, simplesmente, nada pensando. Dorme e só. E sem se dar conta se isso é bom ou ruim, se é feliz ou triste, se foi o fracasso e a resignação diante do fim do fim-de-semana, ou se foi a vitória de se pôr a descansar para mais uma semana.
domingo, 20 de julho de 2008
O que fazemos quando não somos observados?
(esse texto estava pronto e esquecido desde abril de 2007 entre os rascunhos do SWB, então vai para vocês)
Pode ser no elevador, no computador, no banheiro, no último banco do ônibus e também no meio de multidões, onde você é apenas mais um. Sozinhos ou não, quando não estamos sendo observados, permitimo-nos ter certos comportamentos no mínimo peculiares.
Primeiramente, vêm as necessidades biológicas, que, como manda o figurino, devem ser feitas em particular. Sim, todas aquelas que envolvem o sistema excretor, o digestório, o respiratório (limpar o salão) e o que mais você quiser. Mas isso, todo mundo faz, até mesmo a Gisele Bundchen, e todo mundo sabe que todo mundo faz. Qual a graça?
Realmente nenhuma. Falo, na verdade, daquelas coisas que normalmente ninguém espera que você faça. Serve discurso na frente do espelho para aumentar o carisma (The Sims?), falar sozinho em outras línguas, e dançar alopradamente no meio da sala, ouvindo som em alto volume e fazendo air-guitar, air-drums, air-microphone ou air-coisa-que-o-valha,...
Vale gritar coisas indecifráveis, fazer aeiou para esticar as cordas vocais e esboçar caretas aleatórias, rindo de si próprio. Há quem lembre de fatos passados e ria sozinho. Há quem chore copiosamente. Alguns fingem atuar, inventam papéis e diálogos e põem-se à dramatização. Sem platéia, é claro.
Tem também aqueles hábitos feios, como jogar lixo no chão ou cuspir o chiclete na rua. Serve deixar o cachorro fazer cocô na rua e não limpar, afinal, ninguém vai saber quem foi. Outra coisa não muito legal é fazer gestos obscenos para alguém quando essa pessoa está de costas. Só tome cuidado para não haver um espelho por perto.
Mas o campeão dos campeões é a cantoria de chuveiro, afinal, ninguém está vendo e ignora-se solenemente o fato de que alguém pode estar ouvindo aquilo tudo, e, pior, achando um saco. Particularmente, eu tenho feito no banho um exercício quase que diário de meta-linguagem: canto Desafinado, do Tom Jobim.
Pode ser no elevador, no computador, no banheiro, no último banco do ônibus e também no meio de multidões, onde você é apenas mais um. Sozinhos ou não, quando não estamos sendo observados, permitimo-nos ter certos comportamentos no mínimo peculiares.
Primeiramente, vêm as necessidades biológicas, que, como manda o figurino, devem ser feitas em particular. Sim, todas aquelas que envolvem o sistema excretor, o digestório, o respiratório (limpar o salão) e o que mais você quiser. Mas isso, todo mundo faz, até mesmo a Gisele Bundchen, e todo mundo sabe que todo mundo faz. Qual a graça?
Realmente nenhuma. Falo, na verdade, daquelas coisas que normalmente ninguém espera que você faça. Serve discurso na frente do espelho para aumentar o carisma (The Sims?), falar sozinho em outras línguas, e dançar alopradamente no meio da sala, ouvindo som em alto volume e fazendo air-guitar, air-drums, air-microphone ou air-coisa-que-o-valha,...
Vale gritar coisas indecifráveis, fazer aeiou para esticar as cordas vocais e esboçar caretas aleatórias, rindo de si próprio. Há quem lembre de fatos passados e ria sozinho. Há quem chore copiosamente. Alguns fingem atuar, inventam papéis e diálogos e põem-se à dramatização. Sem platéia, é claro.
Tem também aqueles hábitos feios, como jogar lixo no chão ou cuspir o chiclete na rua. Serve deixar o cachorro fazer cocô na rua e não limpar, afinal, ninguém vai saber quem foi. Outra coisa não muito legal é fazer gestos obscenos para alguém quando essa pessoa está de costas. Só tome cuidado para não haver um espelho por perto.
Mas o campeão dos campeões é a cantoria de chuveiro, afinal, ninguém está vendo e ignora-se solenemente o fato de que alguém pode estar ouvindo aquilo tudo, e, pior, achando um saco. Particularmente, eu tenho feito no banho um exercício quase que diário de meta-linguagem: canto Desafinado, do Tom Jobim.
terça-feira, 15 de julho de 2008
19 anos
Estou prestes a completar 19 anos. É daqui a pouquinho. Dessa vez, nada mudará.
Meus primeiros anos de vida tinham o empenho de ir aumentando o número de dedos na mão que eu levantava quando alguém me fazia a pergunta da idade. Fiz uma mão aos 5, fiz as duas aos 10. Para informar a idade, depois das mãos completas, passei a apenas falar: era ridículo ficar mostrando as mãozinhas.
Depois das mãos completas, vieram as aspirações progressivas de adolescente. A primeira delas é a de chegar aos 12 anos. Idade de virar adolescente e de já poder entrar nos filmes com essa censuras.
Os pulos de aspirações daí em diante passariam a vir de dois em dois. Aos catorze, pude ir desacompanhado a grande parte dos shows e, claro, ver os filmes dessa censura.
Os dezesseis mais marcaram uma contagem regressiva para os dezoito do que outra coisa. Ah, claro, como esquecer? Ganhei o tão esperado direito de votar. Lembro do dia em que tirei o título. Devo ter sido dos poucos de minha geração a me sentir um pouquinho mais importante por poder, em proporção gota/oceano, influir nos destinos políticos do meu país.
Os dezoito anos, caraca, os dezoito anos! Merece um tratado à parte. Boate, carro, abrir conta, assinar os próprios documentos, viajar para o exterior sozinho sem autorização do Juizado, identidade verdadeira para tudo, enfim, é o mundo que abre as portas. Um début total, também cercado de responsabilidades, tradução do juridiquês "fim da inimputabilidade".
E agora, os dezenove. Os dezenove não são os dezenove anos. Os dezenove são os dezoito mais um. Nada muda. Só vou ficar mais velho e nada receberei em compensação. Qual a graça?
Todas as conquistas posteriores aos dezoito, não mais são/serão conquistas por mera mudança da idade. Serão minhas próprias conquistas, advindas unicamente do meu mérito, do meu esforço e dos meus destinos. É também a sensação de que ao mesmo posso tudo e ao mesmo tempo nada posso. Sobra a possibilidade, mas me falta a viabilidade. Faltam-me experiência, dinheiro, até audácia... Procuro-os.
Vêm os dezenove, que venham os vinte, que venham os trinta, que venham os quarenta, que venham os mil... os mil desejos traduzidos em um, que farei na hora de apagar a velinha. Que venham os sonhos, que venham em sonhos, que venham de sonhos e que venha o sono quando eu dele precisar.
Que venham as vontades, que venham de trator, que me derrubem em momento oportuno, mas que me façam crescer.
Que venham os ventos e em todas as direções, o que eu quero é me mexer.
A todas as coisas: que venham vindo, que venham quicando, que venham implacáveis, que venham como quiser.
Da vida eu não quero fugir, mas um dia dela me farão escapar. Que venha tudo, que venham todas e que tudo isso e tudo aquilo me façam viver em curtição infinita cada infinitésimo de segundo.
Meus primeiros anos de vida tinham o empenho de ir aumentando o número de dedos na mão que eu levantava quando alguém me fazia a pergunta da idade. Fiz uma mão aos 5, fiz as duas aos 10. Para informar a idade, depois das mãos completas, passei a apenas falar: era ridículo ficar mostrando as mãozinhas.
Depois das mãos completas, vieram as aspirações progressivas de adolescente. A primeira delas é a de chegar aos 12 anos. Idade de virar adolescente e de já poder entrar nos filmes com essa censuras.
Os pulos de aspirações daí em diante passariam a vir de dois em dois. Aos catorze, pude ir desacompanhado a grande parte dos shows e, claro, ver os filmes dessa censura.
Os dezesseis mais marcaram uma contagem regressiva para os dezoito do que outra coisa. Ah, claro, como esquecer? Ganhei o tão esperado direito de votar. Lembro do dia em que tirei o título. Devo ter sido dos poucos de minha geração a me sentir um pouquinho mais importante por poder, em proporção gota/oceano, influir nos destinos políticos do meu país.
Os dezoito anos, caraca, os dezoito anos! Merece um tratado à parte. Boate, carro, abrir conta, assinar os próprios documentos, viajar para o exterior sozinho sem autorização do Juizado, identidade verdadeira para tudo, enfim, é o mundo que abre as portas. Um début total, também cercado de responsabilidades, tradução do juridiquês "fim da inimputabilidade".
E agora, os dezenove. Os dezenove não são os dezenove anos. Os dezenove são os dezoito mais um. Nada muda. Só vou ficar mais velho e nada receberei em compensação. Qual a graça?
Todas as conquistas posteriores aos dezoito, não mais são/serão conquistas por mera mudança da idade. Serão minhas próprias conquistas, advindas unicamente do meu mérito, do meu esforço e dos meus destinos. É também a sensação de que ao mesmo posso tudo e ao mesmo tempo nada posso. Sobra a possibilidade, mas me falta a viabilidade. Faltam-me experiência, dinheiro, até audácia... Procuro-os.
Vêm os dezenove, que venham os vinte, que venham os trinta, que venham os quarenta, que venham os mil... os mil desejos traduzidos em um, que farei na hora de apagar a velinha. Que venham os sonhos, que venham em sonhos, que venham de sonhos e que venha o sono quando eu dele precisar.
Que venham as vontades, que venham de trator, que me derrubem em momento oportuno, mas que me façam crescer.
Que venham os ventos e em todas as direções, o que eu quero é me mexer.
A todas as coisas: que venham vindo, que venham quicando, que venham implacáveis, que venham como quiser.
Da vida eu não quero fugir, mas um dia dela me farão escapar. Que venha tudo, que venham todas e que tudo isso e tudo aquilo me façam viver em curtição infinita cada infinitésimo de segundo.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
O TRATOR DAS MINHAS VONTADES.
Eu estava quase dormindo, quando pensei na expressão "o trator das minhas vontades". Eu achei que fosse uma frase marcante, uma obra-prima da retórica. Ainda acho isso, mas, a cada vez em que olho para essas 5 palavras, elas perdem esse efeito.
Eu queria fazer um texto em que eu usasse esse título. Na verdade, você pensa em trator, e vem aquele veículo imenso, com aquela coisa de metal na frente, implacável, intransponível, que chega passando em cima e não quer nem saber o que está na frente. É um trator, não é um carrinho de obras.
Imagine o "carrinho de obras das minhas vontades"... é como se eu dissesse que eu vou levando-as aos trancos e barrancos e que, por qualquer trombada, elas podem ir ao chão.
Imagine também "a bicicleta de minhas vontades". Só funciona direito na ciclovia, e eu ainda preciso ficar pedalando. Ou melhor, "a bicicleta ergométrica de minhas vontades". A vontade é tanta e o esforço é imenso, mas eu nunca saio do mesmo ponto.
Talvez nada se comparasse a "o caminhão das minhas vontades". Lembro-me do Caminhão do Baú, com os sonhos de consumo das donas-de-casa. Minhas vontades não incluem geladeiras, máquinas-de-lavar ou fornos microondas.
E se fosse o "patinete de minhas vontades". Até dá ambiguidade, pareço aquelas crianças de cinco anos que querem um patinete de Natal e colocam isso na cartinha para o papai noel. Infantil demais, fora.
A "carreta das minhas vontades". Lembro-me dos digníssimos catadores de lixo da cidade que empilham suas tralhas usando os papelões das caixas de caras TV's e de outros mimos que não podem comprar. Ficam só com a caixa, e carregam com a própria força aquela carreta imensa pelas ruas. Muitas vezes não conseguem e tudo aquilo cai. Triste. Imagina minhas vontades caindo assim pela rua e eu tendo que catá-las só porque juntei mais do que podia? É provável, mas prefiro ser otimista.
Pois é... voltemos ao "trator de minhas vontades", à imagem do trator. Pois é, minhas vontades são fodas, uhul, vem com tudo. Mas, lembremos: o trator precisa de alguém que dirija. Sei dirigir trator? Olha a responsabilidade.
O trator precisa de combustível. Entenda por combustível o que quiser. Dinheiro, pique, pessoas para fornecer o combustível, ...
O trator não é um ônibus. No máximo, tem dois lugares. Vontades fortes, que vem em trator, não podem envolver muita gente. No máximo, pode-se cooptar alguém para ser carona nessa aventura.
O trator é um trator. Imenso. Não passa em vários lugares, não é versátil, exige infra-estrutura megalomaníaca e traz decepções se for transitar em lugares complicados.
A vida é complicada. Não quero ficar entalado. Não quero ficar isolado. Não quero passar em cima de ninguém. Não quero depender de grandes feitos.
É, o trator não me serve.
Eu queria fazer um texto em que eu usasse esse título. Na verdade, você pensa em trator, e vem aquele veículo imenso, com aquela coisa de metal na frente, implacável, intransponível, que chega passando em cima e não quer nem saber o que está na frente. É um trator, não é um carrinho de obras.
Imagine o "carrinho de obras das minhas vontades"... é como se eu dissesse que eu vou levando-as aos trancos e barrancos e que, por qualquer trombada, elas podem ir ao chão.
Imagine também "a bicicleta de minhas vontades". Só funciona direito na ciclovia, e eu ainda preciso ficar pedalando. Ou melhor, "a bicicleta ergométrica de minhas vontades". A vontade é tanta e o esforço é imenso, mas eu nunca saio do mesmo ponto.
Talvez nada se comparasse a "o caminhão das minhas vontades". Lembro-me do Caminhão do Baú, com os sonhos de consumo das donas-de-casa. Minhas vontades não incluem geladeiras, máquinas-de-lavar ou fornos microondas.
E se fosse o "patinete de minhas vontades". Até dá ambiguidade, pareço aquelas crianças de cinco anos que querem um patinete de Natal e colocam isso na cartinha para o papai noel. Infantil demais, fora.
A "carreta das minhas vontades". Lembro-me dos digníssimos catadores de lixo da cidade que empilham suas tralhas usando os papelões das caixas de caras TV's e de outros mimos que não podem comprar. Ficam só com a caixa, e carregam com a própria força aquela carreta imensa pelas ruas. Muitas vezes não conseguem e tudo aquilo cai. Triste. Imagina minhas vontades caindo assim pela rua e eu tendo que catá-las só porque juntei mais do que podia? É provável, mas prefiro ser otimista.
Pois é... voltemos ao "trator de minhas vontades", à imagem do trator. Pois é, minhas vontades são fodas, uhul, vem com tudo. Mas, lembremos: o trator precisa de alguém que dirija. Sei dirigir trator? Olha a responsabilidade.
O trator precisa de combustível. Entenda por combustível o que quiser. Dinheiro, pique, pessoas para fornecer o combustível, ...
O trator não é um ônibus. No máximo, tem dois lugares. Vontades fortes, que vem em trator, não podem envolver muita gente. No máximo, pode-se cooptar alguém para ser carona nessa aventura.
O trator é um trator. Imenso. Não passa em vários lugares, não é versátil, exige infra-estrutura megalomaníaca e traz decepções se for transitar em lugares complicados.
A vida é complicada. Não quero ficar entalado. Não quero ficar isolado. Não quero passar em cima de ninguém. Não quero depender de grandes feitos.
É, o trator não me serve.
domingo, 18 de março de 2007
Aos prantos.
Começamos a vida chorando. Pais e familiares vibram com o nosso primeiro choro, afinal, é a primeira demonstração de saúde que damos. Na vida de recém-nascido, o choro é a nossa única maneira de expressarmos, ainda que de forma imprecisa, as sensações que nos importunam.
Da linguagem do choro até as primeiras palavras, ainda há muito chorinho a ser dado, principalmente naquela hora em que deixamos de ser os rapaizinhos e mocinhas de 3, 4 ou 5 anos que querem que sejamos e pedimos a mamadeira, a chupeta ou o denguinho na hora de dormir. É o choro de birra, por fome ou por sono.
Temos os nossos primeiros contatos sociais logo que entramos para a escolinha e, até que nos adaptemos satisfatoriamente ao novo ambiente, ainda há muito a se chorar. É o choro pelo qual se chama mamãe.
No entanto, tão logo estejamos integrados aos coleguinhas de pré-escola, chorar é um ato que traz humilhação, sendo alvo da primeira manifestação de escárnio possível, quase um embrião do "bullying": Seu bebê chorão!
A partir da adolescência, chorar ganha várias interpretações, por quem chora e por quem presencia o momento. O choro de desabafo caracteriza-se por poder servir como maravilhosa via de catarse, ou seja, uma forma de liberar tensões ou emoções reprimidas, a ser usada em horas escolhidas pelo usuário, tal qual um calmante. No entanto, é para muitos uma demonstração de instabilidade emocional e, em vez de se dizer "que bebê chorão", sugere-se que a pessoa vá ao analista.
O choro de desespero normalmente associa-se a gritos e a situações de estresse que aparecem inesperadamente e de maneira aguda. Uma mãe que vê seu filho sendo levado por seqüestradores (para não falar do caso recente do João Hélio) ou alguém que recebe uma trágica e arrebatadora notícia não se acanhará em gritar e espernear, como se pedisse ajuda, piedade ou coisa que o valha.
Não se esqueça o choro seco, por dentro. Aquele que quer sair, mas não consegue. Na verdade, traduz-se numa ânsia de choro, e acompanha tristeza, poucas palavras e feições serenas, expoentes de um desencanto com algo da vida ou com ela própria. Depressivo e negativamente contagiante.
Há também o choro social. Discreto, controlado e apresentável, mas nem por isso menos verdadeiro. São lágrimas que escorrem com discrição, óculos escuros em dias de chuva, lenços à mão, além da voz baixa e nefasta. Comum em enterros e missas de sétimo dia.
E como não falar, é claro, do choro de alegria? Um choro reconfortante, que alivia e enaltece, em geral conseqüência de uma boa notícia. Às vezes, confunde-se com o choro pós-susto.
No entanto, nem sempre chorar é uma atitude sincera. Para muitos indivíduos, o choro com lágrimas de crocodilo é um dos mais eficazes e apelativos métodos de exercer chantagem e manipulação.
Chorar também pode ser algo profissional. Acredite ou não, há mulheres que trabalham como carpideiras, pessoas contratadas para chorarem em velórios e enterros. Ah, claro, como poderia me esquecer da dramaturgia, cujos praticantes são especialistas em forjar choros dos mais naturais possíveis?
Nem todos sentem-se à vontade para chorar. O sexo masculino, principalmente, é socialmente impedido de tal ação, devido à conotação negativa que essa atitude ganhou, sendo habitualmente relacionada a desvios sexuais e fraquezas de espírito.
Chorar está relacionado de forma intrínseca ao ser humano. Alguns o fazem em maior quantidade, outros menos, outros não fazem. Alguns por motivos banais, outros por motivos razoáveis e outros por razões menores, bem menores.
De maneira geral, o choro é mais uma forma de exposição, às vezes liberação, do que sentimos, muitas vezes procurando ajuda no outro. Entretanto, nem sempre esse outro recebe de maneira aberta e solidária o clamor emitido. Não por acaso, há o ditado popular sobre cuja temática já escrevi anteriormente: "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Se pudesse, trocaria a forma verbal "é" por "ocasionalmente pode ser". Afinal, se não fosse a solidariedade, que, embora hoje deturpada, é base e princípio da sociedade, o que seria de nós? Não sei, talvez fôssemos mais chorões do que já somos, apenas por não podermos contar uns com os outros.
Da linguagem do choro até as primeiras palavras, ainda há muito chorinho a ser dado, principalmente naquela hora em que deixamos de ser os rapaizinhos e mocinhas de 3, 4 ou 5 anos que querem que sejamos e pedimos a mamadeira, a chupeta ou o denguinho na hora de dormir. É o choro de birra, por fome ou por sono.
Temos os nossos primeiros contatos sociais logo que entramos para a escolinha e, até que nos adaptemos satisfatoriamente ao novo ambiente, ainda há muito a se chorar. É o choro pelo qual se chama mamãe.
No entanto, tão logo estejamos integrados aos coleguinhas de pré-escola, chorar é um ato que traz humilhação, sendo alvo da primeira manifestação de escárnio possível, quase um embrião do "bullying": Seu bebê chorão!
A partir da adolescência, chorar ganha várias interpretações, por quem chora e por quem presencia o momento. O choro de desabafo caracteriza-se por poder servir como maravilhosa via de catarse, ou seja, uma forma de liberar tensões ou emoções reprimidas, a ser usada em horas escolhidas pelo usuário, tal qual um calmante. No entanto, é para muitos uma demonstração de instabilidade emocional e, em vez de se dizer "que bebê chorão", sugere-se que a pessoa vá ao analista.
O choro de desespero normalmente associa-se a gritos e a situações de estresse que aparecem inesperadamente e de maneira aguda. Uma mãe que vê seu filho sendo levado por seqüestradores (para não falar do caso recente do João Hélio) ou alguém que recebe uma trágica e arrebatadora notícia não se acanhará em gritar e espernear, como se pedisse ajuda, piedade ou coisa que o valha.
Não se esqueça o choro seco, por dentro. Aquele que quer sair, mas não consegue. Na verdade, traduz-se numa ânsia de choro, e acompanha tristeza, poucas palavras e feições serenas, expoentes de um desencanto com algo da vida ou com ela própria. Depressivo e negativamente contagiante.
Há também o choro social. Discreto, controlado e apresentável, mas nem por isso menos verdadeiro. São lágrimas que escorrem com discrição, óculos escuros em dias de chuva, lenços à mão, além da voz baixa e nefasta. Comum em enterros e missas de sétimo dia.
E como não falar, é claro, do choro de alegria? Um choro reconfortante, que alivia e enaltece, em geral conseqüência de uma boa notícia. Às vezes, confunde-se com o choro pós-susto.
No entanto, nem sempre chorar é uma atitude sincera. Para muitos indivíduos, o choro com lágrimas de crocodilo é um dos mais eficazes e apelativos métodos de exercer chantagem e manipulação.
Chorar também pode ser algo profissional. Acredite ou não, há mulheres que trabalham como carpideiras, pessoas contratadas para chorarem em velórios e enterros. Ah, claro, como poderia me esquecer da dramaturgia, cujos praticantes são especialistas em forjar choros dos mais naturais possíveis?
Nem todos sentem-se à vontade para chorar. O sexo masculino, principalmente, é socialmente impedido de tal ação, devido à conotação negativa que essa atitude ganhou, sendo habitualmente relacionada a desvios sexuais e fraquezas de espírito.
Chorar está relacionado de forma intrínseca ao ser humano. Alguns o fazem em maior quantidade, outros menos, outros não fazem. Alguns por motivos banais, outros por motivos razoáveis e outros por razões menores, bem menores.
De maneira geral, o choro é mais uma forma de exposição, às vezes liberação, do que sentimos, muitas vezes procurando ajuda no outro. Entretanto, nem sempre esse outro recebe de maneira aberta e solidária o clamor emitido. Não por acaso, há o ditado popular sobre cuja temática já escrevi anteriormente: "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Se pudesse, trocaria a forma verbal "é" por "ocasionalmente pode ser". Afinal, se não fosse a solidariedade, que, embora hoje deturpada, é base e princípio da sociedade, o que seria de nós? Não sei, talvez fôssemos mais chorões do que já somos, apenas por não podermos contar uns com os outros.
terça-feira, 13 de março de 2007
O QUE VALE É A INTENÇÃO?
Gostaria de trazer à reflexão o seguinte assunto: até que ponto pensar em fazer algo se compara a de fato fazê-lo?
Exemplificando: desejar trair é tão grave quanto trair? Desejar matar é tão grave quanto matar? Desejar ajudar é tão louvável quanto ajudar?
Devolvo as perguntas transformando em interrogação um discurso comum no contexto de aniversariantes que deparam-se com presentes mixos: O que vale é a intenção?
Dar a mesma resposta a cada uma das inúmeras situações em que essa pergunta é cabível seria uma generalização incrivelmente tola, portanto, trarei alguns casos à discussão, a começar pelo primeiro exemplo.
I. O PRESENTE INDESEJADO
Pr-s (pre-scriptum): pergunto-me se com 5 anos, a criança já faria esse questionamento... será?
O aniversário de cinco anos traz consigo o deslumbramento de completar uma mão inteira na contagem das "primaveras", assim como a sensação de grandeza, imponência, afinal, são cinco anos! Festa de aniversário, bolo, guaraná, muitos doces para você. E, claro, como não poderia faltar, presentes. Depois daquela farra toda de correr, pular, brincar, cantar, comer e receber os cumprimentos de todos, chega a hora de abrir os tão esperados presentes, tão sonhados desde o último aniversário. A ordem de abertura é sempre a mesma. Primeiramente, abrem-se os embrulhos grandes, que aparentam ter caixas dentro e que, quando sacudidos, fazem barulhinho de plástico batendo por dentro. Geralmente, esses embrulhos costumam ter brinquedos dos bons. Em seguida, é a vez dos embrulhos menores, mas que ainda aparentam ter caixas e fazem o famigerado barulhinho. Esses tem brinquedos do tipo cacareco, exceto se for Lego. Por último, vêm os embrulhos moles, macios, que geralmente contêm os presentes que nenhuma criança quer receber: roupas. A decepção é instantânea e arrasadora com esse tipo de presente, que geralmente, é dado por pessoas de certa idade, como tias-avós e avós.
Se a criança ainda tem sua sinceridade aflorada, é natural que ela se manifeste claramente sua decepção com o presente que ganhara. Nessa hora, pode vir um pai, uma mãe, ou um irmão mais velho consolar o pequeno decepcionado. Após um breve e ineficaz discurso sobre o valor das roupas, sua utilidade prática e a beleza do presente ganho, é possível que se chame o recurso de dizer que o que vale é a intenção, a fim de que a criança não fique chateada com aquela tia-avó que deu o presente
É razoável? Sim, afinal, a dileta senhora teve o carinho de comprar alguma lembrancinha e, provavelmente, jamais passou por sua cabeça o desejo de desapontar o pequeno. Na verdade, ela apenas foi infeliz em comprar a lembrança , talvez porque na sua época roupas eram presentes que crianças gostavam, evidenciando aí a diferença de gerações, ou porque escolher uma roupinha que fique engraçadinha é mais fácil do que optar por um brinquedo dentre muitos numa loja infantil de grande variedade. Numa próxima vez, ela acerta!
II. DE BOAS INTENÇÕES, O INFERNO ESTÁ CHEIO
Com lugar cativo no hall das frases feitas, essa sentença resume o comportamento de muitas pessoas que, por mais que desejem fazer boas ações, acabam desvirtuando-se da intenção original por várias razões. Há os preguiçosos, para os quais tudo só funciona da boca pra fora e que, quando se vêem diante de pôr em prática tudo o que preconizam, preferem ficar sentados na cadeira, só coordenando. Há também os covardes, que na hora H amarelam, inibidos por n outros motivos. Para esses, meu pesar: de que adianta ter uma boa intenção se ela não é honrada?
Não podemos nos esquecer, porém, dos desajeitados e azarados, que tentam, tentam mas não conseguem chegar aonde precisam e aí fracassam. Seria injusto não levar em conta a perseverança e a atitude da pessoa e, para esse caso, acho que é válido aceitar sua boa intenção e dar-lhe uma outra chance para o acerto.
III. PUNE-SE A TENTATIVA?
Depende. Analisando pela lei, vemos que a tentativa não é punida quando o crime não se consuma por ineficácia absoluta do meio ou impropriedade do objeto, isto é, quando não há maneiras disponíveis no momento de se praticar o crime. É como tentar matar alguém a petelecos. É diferente, portanto, de alguém que atira em outro a fim de matar, mas o tiro pega na perna e a vítima sobrevive.
Considero que a mente criminosa não é ocasional ou aleatória. Às vezes, desejar matar alguém acontece em momentos de raiva, insatisfação e etc, mas controlamo-nos suficientemente para que isso passe sem maiores resquícios. No entanto, isso pode persistir a ponto de gerar agressividade, hostilidade e outros "ades" que perto de armas - brancas ou de fogo - criam um meio de alta eficácia e aí não será punida a tentativa, mas sim o crime consumado. É bom não esquecer que as ações práticas sempre começam em pensamentos.
Ando meio frustrado com a baixa participação de meus queridos leitores, que nas últimas mensagens não me presentearam com seus comentários. O que tem acontecido?
PS: A título de curiosidade, informo que esse texto foi elaborado ao longo de quatro meses. Intenção persistente a minha, não?
(Ouvindo: Deep Purple - Strange Kind Of Woman
Radiohead - Paranoid Android)
Exemplificando: desejar trair é tão grave quanto trair? Desejar matar é tão grave quanto matar? Desejar ajudar é tão louvável quanto ajudar?
Devolvo as perguntas transformando em interrogação um discurso comum no contexto de aniversariantes que deparam-se com presentes mixos: O que vale é a intenção?
Dar a mesma resposta a cada uma das inúmeras situações em que essa pergunta é cabível seria uma generalização incrivelmente tola, portanto, trarei alguns casos à discussão, a começar pelo primeiro exemplo.
I. O PRESENTE INDESEJADO
Pr-s (pre-scriptum): pergunto-me se com 5 anos, a criança já faria esse questionamento... será?
O aniversário de cinco anos traz consigo o deslumbramento de completar uma mão inteira na contagem das "primaveras", assim como a sensação de grandeza, imponência, afinal, são cinco anos! Festa de aniversário, bolo, guaraná, muitos doces para você. E, claro, como não poderia faltar, presentes. Depois daquela farra toda de correr, pular, brincar, cantar, comer e receber os cumprimentos de todos, chega a hora de abrir os tão esperados presentes, tão sonhados desde o último aniversário. A ordem de abertura é sempre a mesma. Primeiramente, abrem-se os embrulhos grandes, que aparentam ter caixas dentro e que, quando sacudidos, fazem barulhinho de plástico batendo por dentro. Geralmente, esses embrulhos costumam ter brinquedos dos bons. Em seguida, é a vez dos embrulhos menores, mas que ainda aparentam ter caixas e fazem o famigerado barulhinho. Esses tem brinquedos do tipo cacareco, exceto se for Lego. Por último, vêm os embrulhos moles, macios, que geralmente contêm os presentes que nenhuma criança quer receber: roupas. A decepção é instantânea e arrasadora com esse tipo de presente, que geralmente, é dado por pessoas de certa idade, como tias-avós e avós.
Se a criança ainda tem sua sinceridade aflorada, é natural que ela se manifeste claramente sua decepção com o presente que ganhara. Nessa hora, pode vir um pai, uma mãe, ou um irmão mais velho consolar o pequeno decepcionado. Após um breve e ineficaz discurso sobre o valor das roupas, sua utilidade prática e a beleza do presente ganho, é possível que se chame o recurso de dizer que o que vale é a intenção, a fim de que a criança não fique chateada com aquela tia-avó que deu o presente
É razoável? Sim, afinal, a dileta senhora teve o carinho de comprar alguma lembrancinha e, provavelmente, jamais passou por sua cabeça o desejo de desapontar o pequeno. Na verdade, ela apenas foi infeliz em comprar a lembrança , talvez porque na sua época roupas eram presentes que crianças gostavam, evidenciando aí a diferença de gerações, ou porque escolher uma roupinha que fique engraçadinha é mais fácil do que optar por um brinquedo dentre muitos numa loja infantil de grande variedade. Numa próxima vez, ela acerta!
II. DE BOAS INTENÇÕES, O INFERNO ESTÁ CHEIO
Com lugar cativo no hall das frases feitas, essa sentença resume o comportamento de muitas pessoas que, por mais que desejem fazer boas ações, acabam desvirtuando-se da intenção original por várias razões. Há os preguiçosos, para os quais tudo só funciona da boca pra fora e que, quando se vêem diante de pôr em prática tudo o que preconizam, preferem ficar sentados na cadeira, só coordenando. Há também os covardes, que na hora H amarelam, inibidos por n outros motivos. Para esses, meu pesar: de que adianta ter uma boa intenção se ela não é honrada?
Não podemos nos esquecer, porém, dos desajeitados e azarados, que tentam, tentam mas não conseguem chegar aonde precisam e aí fracassam. Seria injusto não levar em conta a perseverança e a atitude da pessoa e, para esse caso, acho que é válido aceitar sua boa intenção e dar-lhe uma outra chance para o acerto.
III. PUNE-SE A TENTATIVA?
Depende. Analisando pela lei, vemos que a tentativa não é punida quando o crime não se consuma por ineficácia absoluta do meio ou impropriedade do objeto, isto é, quando não há maneiras disponíveis no momento de se praticar o crime. É como tentar matar alguém a petelecos. É diferente, portanto, de alguém que atira em outro a fim de matar, mas o tiro pega na perna e a vítima sobrevive.
Considero que a mente criminosa não é ocasional ou aleatória. Às vezes, desejar matar alguém acontece em momentos de raiva, insatisfação e etc, mas controlamo-nos suficientemente para que isso passe sem maiores resquícios. No entanto, isso pode persistir a ponto de gerar agressividade, hostilidade e outros "ades" que perto de armas - brancas ou de fogo - criam um meio de alta eficácia e aí não será punida a tentativa, mas sim o crime consumado. É bom não esquecer que as ações práticas sempre começam em pensamentos.
Ando meio frustrado com a baixa participação de meus queridos leitores, que nas últimas mensagens não me presentearam com seus comentários. O que tem acontecido?
PS: A título de curiosidade, informo que esse texto foi elaborado ao longo de quatro meses. Intenção persistente a minha, não?
(Ouvindo: Deep Purple - Strange Kind Of Woman
Radiohead - Paranoid Android)
terça-feira, 6 de março de 2007
CHUTANDO A "PEDRA NO MEIO DO CAMINHO".
ANALISANDO O ATO DE BURLAR, EM VÁRIAS SITUAÇÕES
A regra geral válida para todos que passem por aqui é ler esse texto. Pode ser por consideração à minha pessoa ou ao meu texto, por extrema falta do que fazer, por gosto pela leitura, enfim, espera-se que você leia. Mas você pode burlar essa regra e simplesmente ir fazer outra coisa. Que tal? Tome sua decisão.
Obrigado por chegar até aqui. Você não burlou a regra, essa em específico, mas de fato já burlou muitas outras. Algumas delas eram burras, sem razão de ser, regra pela regra, ao passo que outras não. Em algumas vezes você o fez de maneira consciente, em outras não. O fato é que burlar determinações dos mais variados tipos é algo presente constantemente na vida das pessoas. Os brasileiros até rebatizaram o infringimento de "jeitinho brasileiro", o que para muitos, acredite, é motivo de orgulho, algo como poder de superação e sabedoria de vida.
Burlamos diariamente uma série de leis, embora em geral nos esforcemos cada vez mais para não fazê-lo. Atravessamos a rua fora da faixa e ficamos conversando com a porta do elevador aberta, às vezes sem nos darmos conta. Baixamos da internet músicas, filmes e livros sem pagar um direito autoral sequer, e ainda usamos programas de computador burlados, ou, em linguagem específica, crackeados. Subornamos policiais e outros funcionários públicos e os deixamos serem subornados.
Burlamos também os princípios não formalizados da cidadania, aquela que exige muitas vezes desprendimento, solidariedade e sentimentos humanos que se pautam pelo altruísmo. Subimos ou descemos do ônibus quando ele está fora do ponto, fazemos vista grossa para não ceder lugar a idosos e necessitados, furamos filas imensas por conta de nossa pressa, paramos o carro no meio da rua para ir comprar alguma coisa rapidinho, só porque presumimos essa rapidez. Somos vencidos pela preguiça ou pela desatenção, e, na praia, deixamos o lixinho na areia, em vez de coletá-los e depositá-los no lugar apropriado.
Burlamos, com ajuda química ou não, nosso superego. Ou os entorpecentes químicos o burlam para nós? Enfim, não importa. Não raro emergem das entranhas do nosso pensamento para a nossa consciência muitas lembranças, sensações e atitudes das mais inesperadas, e muitas vezes das mais inapropriadas para o momento, também. Libertamo-nos dos grilhões de nossas próprias mentes quando pensamos diferente, isto é, tentamos ver por uma ótica a que não estamos acostumados, o que dá trabalho.
Burlamos por pressão social, quando outros esperam de nós certas posturas ou nos compelem a fazermos algo para que sejamos os "laranjas", os "testas-de-ferro" no caso de o problema eclodir. Outras vezes, fazem-nos vanguardistas em certas atitudes, para que demos pioneiramente nossa cara a tapa e, caso o tapa aconteça, venha na nossa cara, não na deles. Quase cobaias de laboratório.
Burlamos por descaso social em relação à regra. "Já que todos fazem, por que não posso fazer também"? Simplesmente porque a unanimidade não reflete necessariamente a melhor forma de se proceder e, também, porque o travesseiro tem hábitos noturnos e espera os que têm boa índole. Basta que esses se deitem para que em suas cabeças se desenvolva um turbilhão de pensamentos movidos pelo arrependimento e pela infelicidade, pelas dúvidas do "e se...?" Sofrimento que não muitas pessoas conseguem sofrer, justamente aquelas que lutam para que isso não aconteça.
Burlamos ditames sociais burramente estabelecidos e essas tantas e tantas burlas fizeram com que evoluíssemos. O homem cresceu da transgressão, não da acomodação, e muitas vezes violou leis para que isso acontecesse. Em geral, é claro, ignoraram-se as regras ilegítimas, que, afinal, mais cedo ou mais tarde viriam a cair, visto que legislações que burlam a vontade da população não se sustentam por muito tempo.
O que não podemos burlar é normalmente aquilo que nos atordoa. Não sabemos superar a morte e assim tornamo-la misteriosa, cheia de mitos, histórias e subjetividade. Tentamos (ou não) acreditar que ela possa ser superada, e a isso muitas pessoas dedicam seu tempo e sanidade mental.
Também não burlamos conscientemente a nós mesmos e, nesse ponto, volto à história do travesseiro. Conseguir enganar a si próprio com plena noção de estar fazendo isso é impossível, sendo quase como criar uma realidade paralela em que simultaneamente sabemos e não sabemos quem somos e o que fazemos.
Burlar exige coragem e, acima de tudo, bom senso. Não digo que burlar seja sempre aceitável, mas as regras em geral não são perfeitas e cumpri-las por simples obrigação pode ter conseqüências mais danosas do que não cumpri-las. É necessário também atentar para o infringimento à liberdade alheia, o que, se acontecer, pode deslegitimar qualquer transgressão.
Ressalte-se aí que a única solução eficaz para problemas que advêm de leis e regras em geral não é burlar, medida paliativa por excelência, mas sim alterar essas normas de maneira a adequá-las às mais diversas situações. E ainda assim, burlar pode vir a ser necessário.
PS. Piadinha sem graça: por que seria paradoxal se um dos maiores paisagistas brasileiros defendesse o comunismo?
A regra geral válida para todos que passem por aqui é ler esse texto. Pode ser por consideração à minha pessoa ou ao meu texto, por extrema falta do que fazer, por gosto pela leitura, enfim, espera-se que você leia. Mas você pode burlar essa regra e simplesmente ir fazer outra coisa. Que tal? Tome sua decisão.
Obrigado por chegar até aqui. Você não burlou a regra, essa em específico, mas de fato já burlou muitas outras. Algumas delas eram burras, sem razão de ser, regra pela regra, ao passo que outras não. Em algumas vezes você o fez de maneira consciente, em outras não. O fato é que burlar determinações dos mais variados tipos é algo presente constantemente na vida das pessoas. Os brasileiros até rebatizaram o infringimento de "jeitinho brasileiro", o que para muitos, acredite, é motivo de orgulho, algo como poder de superação e sabedoria de vida.
Burlamos diariamente uma série de leis, embora em geral nos esforcemos cada vez mais para não fazê-lo. Atravessamos a rua fora da faixa e ficamos conversando com a porta do elevador aberta, às vezes sem nos darmos conta. Baixamos da internet músicas, filmes e livros sem pagar um direito autoral sequer, e ainda usamos programas de computador burlados, ou, em linguagem específica, crackeados. Subornamos policiais e outros funcionários públicos e os deixamos serem subornados.
Burlamos também os princípios não formalizados da cidadania, aquela que exige muitas vezes desprendimento, solidariedade e sentimentos humanos que se pautam pelo altruísmo. Subimos ou descemos do ônibus quando ele está fora do ponto, fazemos vista grossa para não ceder lugar a idosos e necessitados, furamos filas imensas por conta de nossa pressa, paramos o carro no meio da rua para ir comprar alguma coisa rapidinho, só porque presumimos essa rapidez. Somos vencidos pela preguiça ou pela desatenção, e, na praia, deixamos o lixinho na areia, em vez de coletá-los e depositá-los no lugar apropriado.
Burlamos, com ajuda química ou não, nosso superego. Ou os entorpecentes químicos o burlam para nós? Enfim, não importa. Não raro emergem das entranhas do nosso pensamento para a nossa consciência muitas lembranças, sensações e atitudes das mais inesperadas, e muitas vezes das mais inapropriadas para o momento, também. Libertamo-nos dos grilhões de nossas próprias mentes quando pensamos diferente, isto é, tentamos ver por uma ótica a que não estamos acostumados, o que dá trabalho.
Burlamos por pressão social, quando outros esperam de nós certas posturas ou nos compelem a fazermos algo para que sejamos os "laranjas", os "testas-de-ferro" no caso de o problema eclodir. Outras vezes, fazem-nos vanguardistas em certas atitudes, para que demos pioneiramente nossa cara a tapa e, caso o tapa aconteça, venha na nossa cara, não na deles. Quase cobaias de laboratório.
Burlamos por descaso social em relação à regra. "Já que todos fazem, por que não posso fazer também"? Simplesmente porque a unanimidade não reflete necessariamente a melhor forma de se proceder e, também, porque o travesseiro tem hábitos noturnos e espera os que têm boa índole. Basta que esses se deitem para que em suas cabeças se desenvolva um turbilhão de pensamentos movidos pelo arrependimento e pela infelicidade, pelas dúvidas do "e se...?" Sofrimento que não muitas pessoas conseguem sofrer, justamente aquelas que lutam para que isso não aconteça.
Burlamos ditames sociais burramente estabelecidos e essas tantas e tantas burlas fizeram com que evoluíssemos. O homem cresceu da transgressão, não da acomodação, e muitas vezes violou leis para que isso acontecesse. Em geral, é claro, ignoraram-se as regras ilegítimas, que, afinal, mais cedo ou mais tarde viriam a cair, visto que legislações que burlam a vontade da população não se sustentam por muito tempo.
O que não podemos burlar é normalmente aquilo que nos atordoa. Não sabemos superar a morte e assim tornamo-la misteriosa, cheia de mitos, histórias e subjetividade. Tentamos (ou não) acreditar que ela possa ser superada, e a isso muitas pessoas dedicam seu tempo e sanidade mental.
Também não burlamos conscientemente a nós mesmos e, nesse ponto, volto à história do travesseiro. Conseguir enganar a si próprio com plena noção de estar fazendo isso é impossível, sendo quase como criar uma realidade paralela em que simultaneamente sabemos e não sabemos quem somos e o que fazemos.
Burlar exige coragem e, acima de tudo, bom senso. Não digo que burlar seja sempre aceitável, mas as regras em geral não são perfeitas e cumpri-las por simples obrigação pode ter conseqüências mais danosas do que não cumpri-las. É necessário também atentar para o infringimento à liberdade alheia, o que, se acontecer, pode deslegitimar qualquer transgressão.
Ressalte-se aí que a única solução eficaz para problemas que advêm de leis e regras em geral não é burlar, medida paliativa por excelência, mas sim alterar essas normas de maneira a adequá-las às mais diversas situações. E ainda assim, burlar pode vir a ser necessário.
PS. Piadinha sem graça: por que seria paradoxal se um dos maiores paisagistas brasileiros defendesse o comunismo?
domingo, 28 de janeiro de 2007
A morte (alheia) - sic.
Se me perguntarem o porquê do sic ou dos parênteses na palavra alheia, respondo que é redundante dizer que falar sobre morte é referir-se à alheia, ou, do contrário, ousaria colocar-me no lugar nada verossímil de Brás Cubas, ao relatar suas próprias memórias póstumas no eterno clássico machadiano.
Vejo o quanto pretensioso seria eu falar sobre a morte em si, tanto se fosse para dizer que ela é um fim como se fosse para dizer que ela é um novo começo. Não falar sobre ela talvez trouxesse problema também, afinal, tem gente que encara sua própria morte com total indiferença. Mesmo assim não falarei, pois não quero expôr concepções que são mera questão de fé e fazer desse espaço um blog puramente catequista.
Falarei sobre a morte para quem fica, mas de um jeito leviano. Se querem saber, não tenho propriedade nenhuma para falar sobre esse assunto e escrevo por mero impulso. Ainda não perdi nenhuma pessoa próxima e, portanto, prometo que, se ainda mantiver esse blog quando isso acontecer, dar-me-ei ao trabalho de escrever sobre o mesmo assunto.
Dizem que quem fica é que sofre. Quem fica sofre, de fato, mas... quem garante que quem partiu não está sofrendo também? Essa questão é de jurisdição das religiões, e cada uma prega uma visão diferente sobre o assunto.
Quem fica, sofre. Mesmo. A sensação de perda evoca também outros pensamentos bastante penosos, dentre os quais destaco as saudades e o arrependimento.
Saudades. Por curiosidade, foi eleita recentemente a 7ª palavra mais difícil de se traduzir. Também deve ser difícil verbalizar as saudades em relação a um ente que se foi. São saudades bem duras, porque se sabe que a falta da pessoa tende a crescer com o tempo, porém nunca poderá ser saciada. Novamente, muitas religiões trazem perspectivas reconfortantes e consoladoras no tocante a essa questão, dizendo, por exemplo, que após a morte todos se encontram no paraíso.
Arrependimento. Nesse caso, do que se fez e do que deixou de se fazer. Sinceramente, não sei qual é o pior - nem se são diferentes. Emergem lembranças: palavras atravessadas, transfixantes, lançadas em momentos de raiva; brigas desnecessárias, que desgastaram a relação; mentiras que esperaram - e ainda esperarão, até quando? - esclarecimentos.
Vêm à tona os programas desmarcados por preguiça ou existência de outras prioridades, as vezes em que se preferiu ver TV ou sair de casa a ter a companhia do outro ou os desejos que eram sempre adiados.
Comparecer ao velório, ao enterro e às celebrações póstumas. Desnecessário descrever o quanto esse roteiro é penoso, especialmente nas suas duas primeiras etapas. Aparece a vontade - e a impotência - de devolver a vida à matéria já organizada, como alguém que, apertando o ON, energiza e liga um equipamento elétrico. Reles mortais não podem fazer isso. Por fim, há o último adeus, que, infelizmente, é sem resposta.
Igualmente ruim, deve ser lidar com os pertences do querido falecido. Olhar para a cama onde a pessoa dormia, para a escova de dentes que usava, para o guarda-roupas com muitas peças que marcaram dias especiais, para os manuscritos, documentos e outros cacarecos guardados para algum dia em que fossem precisos. Sentir o exímio poder do olfato de revolver lembranças ao , por exemplo, sentir o perfume que a pessoa usava.
Depois, as questões de herança, às vezes temperadas com desgostosas brigas familiares. Provar a lentidão da justiça com os trâmites do processo de inventário e ter mais esse aborrecimento.
Se o tempo não for o melhor remédio, certamente é um dos melhores. Com o passar dos meses e anos, o trauma do acontecido vai passando. As lágrimas que dele decorrem vão escasseando, embora as lembranças da pessoa e as saudades não se apaguem.
Preferimos nossa própria morte à daqueles que realmente amamos, afinal, sabemos que a segunda é suficientemente dolorosa, mas nada conhecemos em relação à primeira. No fundo, talvez haja alguma curiosidade em ver o que vem depois, se é que esse depois existe. Levando isso em conta, pode até soar egoísta preferir a própria morte à alheia, pois faremos os outros sofrerem.
Paro por aqui com essa vã discussão. Afinal, não importa quando, a morte inevitavelmente vai acontecer, e com direito a toda essa repercussão.
Para isso, Noel Rosa andou se precavendo. Em 1933, declarou não querer, quando morrer, nem choro, nem vela, mas uma fita amarela gravada com o nome de sua amada. Foi ele atendido?
(Ouvindo: Chico Buarque, Cazuza e etc.)
Vejo o quanto pretensioso seria eu falar sobre a morte em si, tanto se fosse para dizer que ela é um fim como se fosse para dizer que ela é um novo começo. Não falar sobre ela talvez trouxesse problema também, afinal, tem gente que encara sua própria morte com total indiferença. Mesmo assim não falarei, pois não quero expôr concepções que são mera questão de fé e fazer desse espaço um blog puramente catequista.
Falarei sobre a morte para quem fica, mas de um jeito leviano. Se querem saber, não tenho propriedade nenhuma para falar sobre esse assunto e escrevo por mero impulso. Ainda não perdi nenhuma pessoa próxima e, portanto, prometo que, se ainda mantiver esse blog quando isso acontecer, dar-me-ei ao trabalho de escrever sobre o mesmo assunto.
Dizem que quem fica é que sofre. Quem fica sofre, de fato, mas... quem garante que quem partiu não está sofrendo também? Essa questão é de jurisdição das religiões, e cada uma prega uma visão diferente sobre o assunto.
Quem fica, sofre. Mesmo. A sensação de perda evoca também outros pensamentos bastante penosos, dentre os quais destaco as saudades e o arrependimento.
Saudades. Por curiosidade, foi eleita recentemente a 7ª palavra mais difícil de se traduzir. Também deve ser difícil verbalizar as saudades em relação a um ente que se foi. São saudades bem duras, porque se sabe que a falta da pessoa tende a crescer com o tempo, porém nunca poderá ser saciada. Novamente, muitas religiões trazem perspectivas reconfortantes e consoladoras no tocante a essa questão, dizendo, por exemplo, que após a morte todos se encontram no paraíso.
Arrependimento. Nesse caso, do que se fez e do que deixou de se fazer. Sinceramente, não sei qual é o pior - nem se são diferentes. Emergem lembranças: palavras atravessadas, transfixantes, lançadas em momentos de raiva; brigas desnecessárias, que desgastaram a relação; mentiras que esperaram - e ainda esperarão, até quando? - esclarecimentos.
Vêm à tona os programas desmarcados por preguiça ou existência de outras prioridades, as vezes em que se preferiu ver TV ou sair de casa a ter a companhia do outro ou os desejos que eram sempre adiados.
Comparecer ao velório, ao enterro e às celebrações póstumas. Desnecessário descrever o quanto esse roteiro é penoso, especialmente nas suas duas primeiras etapas. Aparece a vontade - e a impotência - de devolver a vida à matéria já organizada, como alguém que, apertando o ON, energiza e liga um equipamento elétrico. Reles mortais não podem fazer isso. Por fim, há o último adeus, que, infelizmente, é sem resposta.
Igualmente ruim, deve ser lidar com os pertences do querido falecido. Olhar para a cama onde a pessoa dormia, para a escova de dentes que usava, para o guarda-roupas com muitas peças que marcaram dias especiais, para os manuscritos, documentos e outros cacarecos guardados para algum dia em que fossem precisos. Sentir o exímio poder do olfato de revolver lembranças ao , por exemplo, sentir o perfume que a pessoa usava.
Depois, as questões de herança, às vezes temperadas com desgostosas brigas familiares. Provar a lentidão da justiça com os trâmites do processo de inventário e ter mais esse aborrecimento.
Se o tempo não for o melhor remédio, certamente é um dos melhores. Com o passar dos meses e anos, o trauma do acontecido vai passando. As lágrimas que dele decorrem vão escasseando, embora as lembranças da pessoa e as saudades não se apaguem.
Preferimos nossa própria morte à daqueles que realmente amamos, afinal, sabemos que a segunda é suficientemente dolorosa, mas nada conhecemos em relação à primeira. No fundo, talvez haja alguma curiosidade em ver o que vem depois, se é que esse depois existe. Levando isso em conta, pode até soar egoísta preferir a própria morte à alheia, pois faremos os outros sofrerem.
Paro por aqui com essa vã discussão. Afinal, não importa quando, a morte inevitavelmente vai acontecer, e com direito a toda essa repercussão.
Para isso, Noel Rosa andou se precavendo. Em 1933, declarou não querer, quando morrer, nem choro, nem vela, mas uma fita amarela gravada com o nome de sua amada. Foi ele atendido?
(Ouvindo: Chico Buarque, Cazuza e etc.)
quarta-feira, 15 de novembro de 2006
Frases feitas
Não tem jeito. Elas estão em ímãs de geladeiras, em peças publicitárias, em agendinhas femininas, na última edição da Revista Capricho ou até mesmo em discussões inteligentes das quais se espera uma mínima argumentação lógica e coerente. Afinal, nem tudo é perfeito. (há!!!)
Começo por aí a falar das frases feitas, redondas, embaladas, portadas em embalagem prática onde só falta o "abra aqui" ou o "serve fácil". Frases feitas rapidamente tornam-se máximas, como se fossem frutos de um conhecimento universal e irrefutável que a qualquer hora pode ser utilizado para, com um breve dizer, destruir qualquer outro pensamento que vinha sendo construído.
Não há nada mais decepcionante do que, em uma discussão qualquer, ser interrompido por máximas isoladas e apresentadas de maneira simples, como "tudo é relativo", "toda unanimidade é burra", "nem tudo é perfeito", entre outras.
Tão irritantes quanto são os clichês que as feministas-de-butique usam. (O feminismo-de-butique é um assunto que eu quero tratar em breve, portanto, pouparei-os da falação.) Quem nunca ouviu "todo homem é canalha", "homem é tudo igual", "os homens são a cabeça, mas as mulheres o pescoço" para fazer a defesa de piadinhas machistas muitas vezes lançadas por puríssima brincadeira?
Os clichês de política também são recorrentes e geralmente começam com "A culpa é de...". Ah sim, a culpa geralmente é do governo ou então da mídia. A culpa nunca é da massa ignorante que não sabe eleger políticos ou de acasos do destino que prejudicam o sucesso do país.
Uma das frases feitas mais manjadas é geralmente usada quando se fazem generalizações quaisquer. Dou uma bala para quem acertar a frase, que é contraditória em si. Ganhou a bala quem disse que "para toda regra há uma exceção". E qual é a exceção dessa regra? Ganha uma Coca-cola quem me convencer de algo.
Prefiro uma macarronada italiana servida numa cantina a um Cup Noodles esquentado no microondas e comido às pressas no caminho para o trabalho. Sim, às vezes ele cai bem, mas o prato da nonna é indubitavelmente melhor. Ele dá mais trabalho? Dá. É menos prático que o macarrão instantâneo? É. Entretanto, todo o trabalho, a elaboração e o requinte compensam, no final.
O mesmo acontece com as frases feitas, que de feitas, elaboradas nada têm. Apesar de serem práticas, pouquíssimo trabalhosas, servirem fácilnão chegam aos pés de idéias bem desenvolvidas, fundamentadas e elaboradas com cuidado.
E aí... qual delas lhe apetece mais?
(Ouvindo:
Masterplan- Enlighten me
Franz Ferdinand - Darts Of Pleasure
Linkin Park - Crawling)
Começo por aí a falar das frases feitas, redondas, embaladas, portadas em embalagem prática onde só falta o "abra aqui" ou o "serve fácil". Frases feitas rapidamente tornam-se máximas, como se fossem frutos de um conhecimento universal e irrefutável que a qualquer hora pode ser utilizado para, com um breve dizer, destruir qualquer outro pensamento que vinha sendo construído.
Não há nada mais decepcionante do que, em uma discussão qualquer, ser interrompido por máximas isoladas e apresentadas de maneira simples, como "tudo é relativo", "toda unanimidade é burra", "nem tudo é perfeito", entre outras.
Tão irritantes quanto são os clichês que as feministas-de-butique usam. (O feminismo-de-butique é um assunto que eu quero tratar em breve, portanto, pouparei-os da falação.) Quem nunca ouviu "todo homem é canalha", "homem é tudo igual", "os homens são a cabeça, mas as mulheres o pescoço" para fazer a defesa de piadinhas machistas muitas vezes lançadas por puríssima brincadeira?
Os clichês de política também são recorrentes e geralmente começam com "A culpa é de...". Ah sim, a culpa geralmente é do governo ou então da mídia. A culpa nunca é da massa ignorante que não sabe eleger políticos ou de acasos do destino que prejudicam o sucesso do país.
Uma das frases feitas mais manjadas é geralmente usada quando se fazem generalizações quaisquer. Dou uma bala para quem acertar a frase, que é contraditória em si. Ganhou a bala quem disse que "para toda regra há uma exceção". E qual é a exceção dessa regra? Ganha uma Coca-cola quem me convencer de algo.
Prefiro uma macarronada italiana servida numa cantina a um Cup Noodles esquentado no microondas e comido às pressas no caminho para o trabalho. Sim, às vezes ele cai bem, mas o prato da nonna é indubitavelmente melhor. Ele dá mais trabalho? Dá. É menos prático que o macarrão instantâneo? É. Entretanto, todo o trabalho, a elaboração e o requinte compensam, no final.
O mesmo acontece com as frases feitas, que de feitas, elaboradas nada têm. Apesar de serem práticas, pouquíssimo trabalhosas, servirem fácilnão chegam aos pés de idéias bem desenvolvidas, fundamentadas e elaboradas com cuidado.
E aí... qual delas lhe apetece mais?
(Ouvindo:
Masterplan- Enlighten me
Franz Ferdinand - Darts Of Pleasure
Linkin Park - Crawling)
terça-feira, 5 de setembro de 2006
Pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Era sábado, acabara de sair da aula, e vinha caminhando com meu amigo desde o colégio em direção a minha casa. Depois de passarmos em um comitê eleitoral de um candidato a senador e interpelarmos fortemente o seu representante, que também nos deu material promocional de um tucano que realmente parece um tucano e quer ser presidente, cruzávamos a Praça Nossa Senhora da Paz quando me deparei com uma cena tanto esquisita quanto natural.
No chão, ao sol, havia um pombo dentro de uma gaiola que mal comportava o bicho, que batia asas, piava, se mexia, enfim, parecia desesperado. Ao seu lado, um senhor de uns 60 anos fumava e observava a praça. Em sua volta, mais de 30 pombos, alguns em posição de chocar, outros indo de um lado pra outro. O que mais intrigava, porém, é que a esmagadora maioria daquela pombarada toda voltava seus olhos para o pobre engaiolado. Aliás, muitos deles estavam tão concentrados que mais pareciam assistir a um espetáculo.
Juro que fiquei espantado com a cena. Não que eu tenha me comovido ou me enternecido, mas num ímpeto decidi ir falar com o senhor que trouxera o pombo para a humilhação em praça pública. Mas a reflexão inerente à situação veio antes.
Pergunto: estariam os pombos num pífio sentimento de impotência, parados, vidrados, diante da impossiblidade de algo fazer para ajudar o seu semelhante? Estariam os pombos apenas satisfazendo-se com o sofrimento alheio? Estariam os pombos no auge de uma curiosidade columbídea (sou sacana: do mesmo jeito que fiz com o murídeo de outro post, vão ao dicionário!) quase-mórbida?
Não sei. Por um instante, eles me pareceram humanos. Aliás, quero dizer que esse por um instante foi meramente estilístico, eles de fato pareceram e continuam me parecendo humanos nesse aspecto.
Creio que muitos de imediato vão levantar o braço e dizer que tudo que eu estou escrevendo aqui é bobagem. Não tem problema, eu respeito. No entanto, continuo a achar que o ser humano muitas vezes fica saciado com o penar do outro. Muitas vezes, ou seja, nem sempre. Esse sentimento tem seus quês de sadismo (numa extensão de sentido), de "ainda bem que não é comigo" e de "vamos ver até onde isso vai". Exemplifico cada um.
I.
Certa vez ouvi de um amigo o chamado Princípio de Conservação da Auto-estima. Explico: a auto-estima em um ambiente se conserva. Portanto, se alguém está ganhando auto-estima, com certeza tem alguém que a está perdendo. Dessa maneira, se tem alguém se danando, há outrem que se enaltece.
II
Muitas vezes é inconsciente e passa despercebido o pensamento de "ainda bem que não é comigo". Aconteceu com algum conhecido uma tragédia, daquelas que ocorrem de 1 em 1 milhão e, às vezes, são tão improváveis quanto ganhar a loteria chutando em todas as casas o mesmo número. Pois é... o que pensar? Ó, coitado de Fulano!!! Pergunto se não passou pela cabeça: Nossa, sou um cara de sorte! (ou de falta de azar, como quiserem)
III.
Acontece simplesmente quando se quer ver o circo pegar fogo. Para quê? Para saber como um circo pega fogo, para ter o espetáculo de fogo, chamas e cheiro de lona queimada. Sensações raramente vivenciadas. Usam-se os outros e as experiências alheias para construir-se experiência própria, como usam-se cobaias em testes científicos.
E o que vocês pensam?
E com vocês, o final da história.
Entramos eu e meu amigo na praça e fomos perguntar ao senhor que trouxe a gaiola com o pombo por que ele o fizera. Ele, muito educado, logo tratou de apagar o cigarro e de conversar simpaticamente conosco. Contou que aquele pombo aparecera em sua janela, doente, com o bico machucado, e que desde então ele pegou o bichinho, levou-o ao veterinário, alimentou-o direito, e estava preparando a ressocialização do animal, que em breve aconteceria, daí ele ter levado o pombo à praça.
(Isso inclusive dará margem em breve a outro assunto nesse blog, as conclusões precipitadas, visto que eu achava que o senhor tinha más intenções com sua ação e, no final, percebi que não era nada disso.)
Até a próxima.
Felipe
(Ouvindo: Beatles - A day in the life)
No chão, ao sol, havia um pombo dentro de uma gaiola que mal comportava o bicho, que batia asas, piava, se mexia, enfim, parecia desesperado. Ao seu lado, um senhor de uns 60 anos fumava e observava a praça. Em sua volta, mais de 30 pombos, alguns em posição de chocar, outros indo de um lado pra outro. O que mais intrigava, porém, é que a esmagadora maioria daquela pombarada toda voltava seus olhos para o pobre engaiolado. Aliás, muitos deles estavam tão concentrados que mais pareciam assistir a um espetáculo.
Juro que fiquei espantado com a cena. Não que eu tenha me comovido ou me enternecido, mas num ímpeto decidi ir falar com o senhor que trouxera o pombo para a humilhação em praça pública. Mas a reflexão inerente à situação veio antes.
Pergunto: estariam os pombos num pífio sentimento de impotência, parados, vidrados, diante da impossiblidade de algo fazer para ajudar o seu semelhante? Estariam os pombos apenas satisfazendo-se com o sofrimento alheio? Estariam os pombos no auge de uma curiosidade columbídea (sou sacana: do mesmo jeito que fiz com o murídeo de outro post, vão ao dicionário!) quase-mórbida?
Não sei. Por um instante, eles me pareceram humanos. Aliás, quero dizer que esse por um instante foi meramente estilístico, eles de fato pareceram e continuam me parecendo humanos nesse aspecto.
Creio que muitos de imediato vão levantar o braço e dizer que tudo que eu estou escrevendo aqui é bobagem. Não tem problema, eu respeito. No entanto, continuo a achar que o ser humano muitas vezes fica saciado com o penar do outro. Muitas vezes, ou seja, nem sempre. Esse sentimento tem seus quês de sadismo (numa extensão de sentido), de "ainda bem que não é comigo" e de "vamos ver até onde isso vai". Exemplifico cada um.
I.
Certa vez ouvi de um amigo o chamado Princípio de Conservação da Auto-estima. Explico: a auto-estima em um ambiente se conserva. Portanto, se alguém está ganhando auto-estima, com certeza tem alguém que a está perdendo. Dessa maneira, se tem alguém se danando, há outrem que se enaltece.
II
Muitas vezes é inconsciente e passa despercebido o pensamento de "ainda bem que não é comigo". Aconteceu com algum conhecido uma tragédia, daquelas que ocorrem de 1 em 1 milhão e, às vezes, são tão improváveis quanto ganhar a loteria chutando em todas as casas o mesmo número. Pois é... o que pensar? Ó, coitado de Fulano!!! Pergunto se não passou pela cabeça: Nossa, sou um cara de sorte! (ou de falta de azar, como quiserem)
III.
Acontece simplesmente quando se quer ver o circo pegar fogo. Para quê? Para saber como um circo pega fogo, para ter o espetáculo de fogo, chamas e cheiro de lona queimada. Sensações raramente vivenciadas. Usam-se os outros e as experiências alheias para construir-se experiência própria, como usam-se cobaias em testes científicos.
E o que vocês pensam?
E com vocês, o final da história.
Entramos eu e meu amigo na praça e fomos perguntar ao senhor que trouxe a gaiola com o pombo por que ele o fizera. Ele, muito educado, logo tratou de apagar o cigarro e de conversar simpaticamente conosco. Contou que aquele pombo aparecera em sua janela, doente, com o bico machucado, e que desde então ele pegou o bichinho, levou-o ao veterinário, alimentou-o direito, e estava preparando a ressocialização do animal, que em breve aconteceria, daí ele ter levado o pombo à praça.
(Isso inclusive dará margem em breve a outro assunto nesse blog, as conclusões precipitadas, visto que eu achava que o senhor tinha más intenções com sua ação e, no final, percebi que não era nada disso.)
Até a próxima.
Felipe
(Ouvindo: Beatles - A day in the life)
quarta-feira, 23 de agosto de 2006
Como uma pessoa se sente depois de matar alguém?
Fico imaginando o que se passa pela cabeça de alguém que mata outrém, da maneira que o for.
I.
Imagino um motorista que atropela e mata um pedestre sem intenção de fazê-lo. Ele sai do carro, vê a pessoa estatelada no chão, com um red glow circundante (para não dizer que havia sangue para tudo que é lado), sem movimentar-se, sem respirar, enfim, sem vida.
O que pensa a pessoa que não freou na hora certa,ou distraiu-se ouvindo o rádio e não notou que alguém cruzava a pista? O que ela pensa a respeito do outro cidadão que na correria do dia-a-dia viu sua vida literalmente atropelada? E se o rádio estivesse desligado e as atenções estivessem direcionadas ao volante? E se o acidentado tem filhos que o esperam e que dele dependem, esposa que o ama, pais que dele se orgulham, sonhos que o esperam... por quanto mais eles serão adiados? E se... tudo aquilo não tivesse acontecido?
E logo depois vêm os curiosos, todos naquele olhar mórbido, para ver o que aconteceu, para ter uma aula de anatomia cujo professor é a própria vida, para satisfazerem-se perversa e inconscientemente de que o morto não foi um deles, ... E logo depois vem a polícia, que burocraticamente encara o drama das pessoas e registra o caso como se fosse mais um - e não deixa de ser, para eles. E vem o Corpo de Bombeiro, ao som das sirenes ensurdecedoras, que alucinam e inserem combustível na cadeia de pensamento dos "e se..." e dos "e agora".
Pois é... e agora, José? Você matou um cara e está aí, ao lado do infeliz, ambos sem ação, um pela própria morte, outro pela morte alheia, pensando não apenas nos trâmites legais que você vai encarar, como também naquelas cenas horríveis que, infelizmente, tornar-se-ão inesquecíveis. Por que aquilo foi acontecer justo com a sua pessoa? E, pior, você não teve a intenção!
II.
Em seguida, imagino alguém que, só para aparecer, costuma andar armado pra sair na rua. Não é mau, não é perverso, tem boas intenções, mas não resiste a fazer uma pose de machão briguento. Certo dia, está no bar tomando umas cervejinhas com uns amigos e respectivas esposas, curtindo um futebol na televisão e rindo dos causos cotidianos que contam uns aos outros. Por azar, na outra mesa há um engraçadinho um tanto piadista que não para de fazer gracinhas à esposa do indivíduo machão e, certa hora, esse se irrita e começa uma clássica briga de bar, que em situações comuns terminaria numa pequena pancadaria, quebra de cadeiras e ânimos exaltados, se não fosse pela arma que o cara portava. Esqueci de dizer que ele era esquentadinho. Aliás, sangue quente e poder são componentes de uma mistura letal. Nunca dão certo. Xingamento vai, xingamento vem. A arma é sacada e, em poucos segundos, todos em volta se espantam, arregalam os olhos e assistem ao espetáculo de quando o dedo indicador faz o trágico movimento para trás e sela ali o destino de um abusadinho. Apenas um abusadinho.
A ficha logo cai para o "machão" que, ali, vê cair sua macheza quando o seu "e agora?" remete ao xadrez para o qual logo será enviado e onde terá de realizar algumas brincadeiras com seus companheiros de cela. Esse cidadão acaba de tirar a vida de outrém, por um motivo fútil. Não soube ouvir quieto, não soube ignorar, não soube dar a outra face. Danou-se por não levar desaforo para casa, danou-se por querer posar de "eu tenho a força", danou-se porque achou que valia a pena lutar pelo que chamam de honra e dizem ser importante, danou-se!
E, da mesma forma como aconteceu com o pobre do motorista, todos fazem uma roda em volta do agonizante abusadinho, e presenciam esse a titubear suas últimas palavras, não compreendendo, porém, se essas são xingamentos (jamais chegarão ao destino), lamúrias (jamais sensibilizarão quem as ouve) ou últimos pedidos de vida (jamais serão atendidos). Há o último suspiro. Novamente pergunto... e agora, José? Não tarda, a polícia vem, junto com sua sirene insuportável. Lá está você, olhando também para o morto, com um arrependimento que nem cabe na sua razão, com um desejo inexplicável de poder voltar ao tempo e remendar uma parte do recente passado infeliz, que sufoca seu presente e condena seu futuro. Você é algemado e tiram, assim, a sua liberdade, já que você tirou a vida de outrém e portanto oferece risco à sociedade. Mas você? Um cara cheio de boas intenções que só curtia posar de machão? Pois é, meu amigo. Você. A sorte o escolheu. Sua mulher o olha com nojo e se afasta. Seus amigos também afastam-se, com medo de não serem tomados como cúmplices no crime. Sozinho no mundo, a viatura o espera, com destino ao inferno. Sua vida ali acaba. Naquele dia, você matou alguém e cometeu suicídio com apenas uma bala.
III.
Logo depois imagino um matador de aluguel. Ele procura seu alvo, localiza, mira, puxa o gatilho, confere se a vítima já bateu as botas e, em seguida, vai embora friamente, como alguém que bate o ponto depois do expediente e segue para a casa.
E depois daí não consigo mais imaginar nada. Isso para mim não faz sentido algum. Não consigo abstrair a esse ponto. Perdoem-me, caros leitores.
(Ouvindo: Silêncio.)
I.
Imagino um motorista que atropela e mata um pedestre sem intenção de fazê-lo. Ele sai do carro, vê a pessoa estatelada no chão, com um red glow circundante (para não dizer que havia sangue para tudo que é lado), sem movimentar-se, sem respirar, enfim, sem vida.
O que pensa a pessoa que não freou na hora certa,ou distraiu-se ouvindo o rádio e não notou que alguém cruzava a pista? O que ela pensa a respeito do outro cidadão que na correria do dia-a-dia viu sua vida literalmente atropelada? E se o rádio estivesse desligado e as atenções estivessem direcionadas ao volante? E se o acidentado tem filhos que o esperam e que dele dependem, esposa que o ama, pais que dele se orgulham, sonhos que o esperam... por quanto mais eles serão adiados? E se... tudo aquilo não tivesse acontecido?
E logo depois vêm os curiosos, todos naquele olhar mórbido, para ver o que aconteceu, para ter uma aula de anatomia cujo professor é a própria vida, para satisfazerem-se perversa e inconscientemente de que o morto não foi um deles, ... E logo depois vem a polícia, que burocraticamente encara o drama das pessoas e registra o caso como se fosse mais um - e não deixa de ser, para eles. E vem o Corpo de Bombeiro, ao som das sirenes ensurdecedoras, que alucinam e inserem combustível na cadeia de pensamento dos "e se..." e dos "e agora".
Pois é... e agora, José? Você matou um cara e está aí, ao lado do infeliz, ambos sem ação, um pela própria morte, outro pela morte alheia, pensando não apenas nos trâmites legais que você vai encarar, como também naquelas cenas horríveis que, infelizmente, tornar-se-ão inesquecíveis. Por que aquilo foi acontecer justo com a sua pessoa? E, pior, você não teve a intenção!
II.
Em seguida, imagino alguém que, só para aparecer, costuma andar armado pra sair na rua. Não é mau, não é perverso, tem boas intenções, mas não resiste a fazer uma pose de machão briguento. Certo dia, está no bar tomando umas cervejinhas com uns amigos e respectivas esposas, curtindo um futebol na televisão e rindo dos causos cotidianos que contam uns aos outros. Por azar, na outra mesa há um engraçadinho um tanto piadista que não para de fazer gracinhas à esposa do indivíduo machão e, certa hora, esse se irrita e começa uma clássica briga de bar, que em situações comuns terminaria numa pequena pancadaria, quebra de cadeiras e ânimos exaltados, se não fosse pela arma que o cara portava. Esqueci de dizer que ele era esquentadinho. Aliás, sangue quente e poder são componentes de uma mistura letal. Nunca dão certo. Xingamento vai, xingamento vem. A arma é sacada e, em poucos segundos, todos em volta se espantam, arregalam os olhos e assistem ao espetáculo de quando o dedo indicador faz o trágico movimento para trás e sela ali o destino de um abusadinho. Apenas um abusadinho.
A ficha logo cai para o "machão" que, ali, vê cair sua macheza quando o seu "e agora?" remete ao xadrez para o qual logo será enviado e onde terá de realizar algumas brincadeiras com seus companheiros de cela. Esse cidadão acaba de tirar a vida de outrém, por um motivo fútil. Não soube ouvir quieto, não soube ignorar, não soube dar a outra face. Danou-se por não levar desaforo para casa, danou-se por querer posar de "eu tenho a força", danou-se porque achou que valia a pena lutar pelo que chamam de honra e dizem ser importante, danou-se!
E, da mesma forma como aconteceu com o pobre do motorista, todos fazem uma roda em volta do agonizante abusadinho, e presenciam esse a titubear suas últimas palavras, não compreendendo, porém, se essas são xingamentos (jamais chegarão ao destino), lamúrias (jamais sensibilizarão quem as ouve) ou últimos pedidos de vida (jamais serão atendidos). Há o último suspiro. Novamente pergunto... e agora, José? Não tarda, a polícia vem, junto com sua sirene insuportável. Lá está você, olhando também para o morto, com um arrependimento que nem cabe na sua razão, com um desejo inexplicável de poder voltar ao tempo e remendar uma parte do recente passado infeliz, que sufoca seu presente e condena seu futuro. Você é algemado e tiram, assim, a sua liberdade, já que você tirou a vida de outrém e portanto oferece risco à sociedade. Mas você? Um cara cheio de boas intenções que só curtia posar de machão? Pois é, meu amigo. Você. A sorte o escolheu. Sua mulher o olha com nojo e se afasta. Seus amigos também afastam-se, com medo de não serem tomados como cúmplices no crime. Sozinho no mundo, a viatura o espera, com destino ao inferno. Sua vida ali acaba. Naquele dia, você matou alguém e cometeu suicídio com apenas uma bala.
III.
Logo depois imagino um matador de aluguel. Ele procura seu alvo, localiza, mira, puxa o gatilho, confere se a vítima já bateu as botas e, em seguida, vai embora friamente, como alguém que bate o ponto depois do expediente e segue para a casa.
E depois daí não consigo mais imaginar nada. Isso para mim não faz sentido algum. Não consigo abstrair a esse ponto. Perdoem-me, caros leitores.
(Ouvindo: Silêncio.)
quarta-feira, 9 de agosto de 2006
Sofrer por antecedência
Quando o limite entre o poder ser e o de fato ser é inconscientemente desprezado.
Começarei exagerando:
Quem nunca se desesperou com a simples expectativa de vir a morrer?
Não é preciso ir tão longe (ou tão perto, como diriam os mais pessimistas ou, mesmo paradoxalmente, os que estão de bem com a vida e com a morte), basta imaginar-se estar diante de uma situação de difícil de resolução que o espírito murídeo (sim, eu estou de sacanagem, vão procurar no dicionário o que é isso) rapidamente baixa e lá se vão as unhas.
As más expectativas nos desesperam, nos enervam e fazem com que pensemos na sucessão de más fatos que decorrerão do primeiro azar. E, pior, acabamos sentindo de fato as sensações que antes apenas imaginávamos. É pensar em estar triste e aí ficar triste.
Sofrer por antecedência muitas vezes nos consome as forças para lutar contra a realidade que está por vir. É gastar tinta demais pra pintar o diabo maior do que ele é.
Por outro lado, há quem sabe lidar com esse sofrimento antecipado e o usa para obter alívio, nos moldes do que eu descrevi no post Ufa!, escrito anteriormente para esse blog. Eu explico: fulaninho sofre, descabela-se, imagina-se na pior das situações, mas nem por isso se deixa abater e, no final, contorna triunfantemente o problema apenas para poder sentir-se aliviado e vencedor da grandiosa batalha. Um tanto wannabe vítima-coitado e também masoquista, não?
Aliás, em relação a tudo isso cabe um belo provérbio que certa vez li em um fórum de jogos e nunca mais me saiu da cabeça:
"Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez"
Grande abraço,
Felipe Drummond
PS: Perdoem-me pelo atraso em postar novas mensagens. Aconteceu que as aulas recomeçaram, a preguiça voltou, certas coisas boas me aconteceram e, de certa maneira, elas me impedem de pensar nas questões bastante profundas. Como disse Clarisse Lispector, é a "leve embriaguez do amor".
(Ouvindo: Franz Ferdinand- Walk Away)
Começarei exagerando:
Quem nunca se desesperou com a simples expectativa de vir a morrer?
Não é preciso ir tão longe (ou tão perto, como diriam os mais pessimistas ou, mesmo paradoxalmente, os que estão de bem com a vida e com a morte), basta imaginar-se estar diante de uma situação de difícil de resolução que o espírito murídeo (sim, eu estou de sacanagem, vão procurar no dicionário o que é isso) rapidamente baixa e lá se vão as unhas.
As más expectativas nos desesperam, nos enervam e fazem com que pensemos na sucessão de más fatos que decorrerão do primeiro azar. E, pior, acabamos sentindo de fato as sensações que antes apenas imaginávamos. É pensar em estar triste e aí ficar triste.
Sofrer por antecedência muitas vezes nos consome as forças para lutar contra a realidade que está por vir. É gastar tinta demais pra pintar o diabo maior do que ele é.
Por outro lado, há quem sabe lidar com esse sofrimento antecipado e o usa para obter alívio, nos moldes do que eu descrevi no post Ufa!, escrito anteriormente para esse blog. Eu explico: fulaninho sofre, descabela-se, imagina-se na pior das situações, mas nem por isso se deixa abater e, no final, contorna triunfantemente o problema apenas para poder sentir-se aliviado e vencedor da grandiosa batalha. Um tanto wannabe vítima-coitado e também masoquista, não?
Aliás, em relação a tudo isso cabe um belo provérbio que certa vez li em um fórum de jogos e nunca mais me saiu da cabeça:
"Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez"
Grande abraço,
Felipe Drummond
PS: Perdoem-me pelo atraso em postar novas mensagens. Aconteceu que as aulas recomeçaram, a preguiça voltou, certas coisas boas me aconteceram e, de certa maneira, elas me impedem de pensar nas questões bastante profundas. Como disse Clarisse Lispector, é a "leve embriaguez do amor".
(Ouvindo: Franz Ferdinand- Walk Away)
quarta-feira, 28 de junho de 2006
3,5 requisitos para o sucesso
Se tudo na vida é dado por uma conjunção de fatores, creio que os fatores para o êxito em alguma coisa são três e meio: o dom (a capacidade inata), a vontade, a dedicação e meia-sorte.
O DOM (A CAPACIDADE/FACILIDADE INATA )
Se colocássemos várias crianças para jogarem futebol pela primeira vez em suas vidas, todas com o mesmo ânimo inicial, veríamos naturalmente que algumas delas se saíriam melhor do que outras. Cada pessoa tem, naturalmente, predisposição para realizar certa atividade com aptidão.
A VONTADE
Com certeza você já deve ter ouvido falar na expressão "Querer é poder". Em parte, faz certo sentido. A vontade para se realizar algo é indispensável. Dificilmente você terá êxito em algo fazendo-o sem vontade ou de má-vontade. Os resultados daquilo que não fazemos por desejo próprio nunca são satisfatórios, nunca são o nosso melhor.
Se você me disser que você consegue ir bem na escola sem de fato querê-lo ou é capaz de trabalhar bem contra sua vontade, lamento informar, mas você não tem noção de até onde você é capaz de chegar.
A DEDICAÇÃO
Até certo ponto ligada ao fator vontade, a dedicação nos mostra o quanto é importante suar, batalhar e conquistar aquilo que queremos. Ela acontece quando a vontade se concretiza, ou seja, deixa de ser um mero "eu quero" e passa a ser "eu vou fazer por onde". Ninguem alcança de verdade alguma coisa sem por ela se esforçar. Por isso, não adianta enrolar, abafar ou empurrar com a barriga: é questão de tempo para a casa cair.
A MEIA-SORTE
Meia-sorte? Como assim? Um meio fator?
Pois é. Sinceramente, não acredito que a sorte seja um fator decisivo em algum processo. Tudo bem que às vezes o acaso ajuda ou atrapalha, mas ele geralmente não determina o sucesso ou não de um homem. Aliás, quanto mais você tiver dos três outros fatores acima, menos a sorte terá influência na sua caminhada. Estar totalmente sujeita a ela, é que nem uma loteria. Você pode se dar muito bem, mas é mais provável que você se ferre.
(aliás, usando o contexto educacional, não gosto de quando me desejam BOA SORTE em uma prova, me soa como se estivessem duvidando da minha competência, embora não seja essa a intenção)
Estejam livres para contestar o quanto quiser, eu gosto.
Felipe
(Ouvindo:
Angra - Petrified Eyes
Tribuzy - Divine Disgrace )
Foto do dia:
(espero que aprovem a idéia)

O DOM (A CAPACIDADE/FACILIDADE INATA )
Se colocássemos várias crianças para jogarem futebol pela primeira vez em suas vidas, todas com o mesmo ânimo inicial, veríamos naturalmente que algumas delas se saíriam melhor do que outras. Cada pessoa tem, naturalmente, predisposição para realizar certa atividade com aptidão.
A VONTADE
Com certeza você já deve ter ouvido falar na expressão "Querer é poder". Em parte, faz certo sentido. A vontade para se realizar algo é indispensável. Dificilmente você terá êxito em algo fazendo-o sem vontade ou de má-vontade. Os resultados daquilo que não fazemos por desejo próprio nunca são satisfatórios, nunca são o nosso melhor.
Se você me disser que você consegue ir bem na escola sem de fato querê-lo ou é capaz de trabalhar bem contra sua vontade, lamento informar, mas você não tem noção de até onde você é capaz de chegar.
A DEDICAÇÃO
Até certo ponto ligada ao fator vontade, a dedicação nos mostra o quanto é importante suar, batalhar e conquistar aquilo que queremos. Ela acontece quando a vontade se concretiza, ou seja, deixa de ser um mero "eu quero" e passa a ser "eu vou fazer por onde". Ninguem alcança de verdade alguma coisa sem por ela se esforçar. Por isso, não adianta enrolar, abafar ou empurrar com a barriga: é questão de tempo para a casa cair.
A MEIA-SORTE
Meia-sorte? Como assim? Um meio fator?
Pois é. Sinceramente, não acredito que a sorte seja um fator decisivo em algum processo. Tudo bem que às vezes o acaso ajuda ou atrapalha, mas ele geralmente não determina o sucesso ou não de um homem. Aliás, quanto mais você tiver dos três outros fatores acima, menos a sorte terá influência na sua caminhada. Estar totalmente sujeita a ela, é que nem uma loteria. Você pode se dar muito bem, mas é mais provável que você se ferre.
(aliás, usando o contexto educacional, não gosto de quando me desejam BOA SORTE em uma prova, me soa como se estivessem duvidando da minha competência, embora não seja essa a intenção)
Estejam livres para contestar o quanto quiser, eu gosto.
Felipe
(Ouvindo:
Angra - Petrified Eyes
Tribuzy - Divine Disgrace )
Foto do dia:
(espero que aprovem a idéia)

quarta-feira, 21 de junho de 2006
Ufa!
Desde pequeno, a sensação de que mais gosto é a do alívio, qualquer alívio.
Há o alívio da possibilidade do fracasso que não se concretiza, há o alívio de saber que alguém que estava em má situação ficou bem, há o alívio de se encontrar uma coisa perdida, há o alívio de não chegar atrasado por questão de minutos, há o alívio de quando se encerra uma situação desgastante, há o alívio de quando você está à beira da morte mas sobrevive e muitas outras situações. Há até mesmo o alívio (e esse ninguém pode negar), geralmente conseguido no banheiro, de quando se concretiza algo que há muito se desejava fazer. (escatológico, porém humano!)
Enfim, a vida é também feita de tirar das costas pesos que ela própria nos coloca. Muitas vezes, porém, nós mesmos nos colocamos esses pesos, ou seja, criamos fardos para carregarmos e depois os tirarmos. (Um tanto masoquista, não?)
Não é preciso ir longe para atestar isso.
Correr riscos é uma forma de colocar-se em xeque, testando os próprios limites e esperando o momento em que se terá (ou não) o alívio de dizer "eu consegui".
Trago um exemplo mais tosco ainda, do alívio "artificialmente criado". Se algum dia você vai jantar no seu restaurante preferido, no qual você saboreia cada pedaço da comida, você faria um lanche à tarde? Sim, poderia até fazer, mas resistiria ao máximo para que, de noite, você chegasse com fome e pudesse degustar o prato pelo qual ficou aguando durante o dia, para depois sentir o alívio da saciedade.
Libertar-se daquilo que aflige é sentir a adrenalina esvaindo-se, os batimentos cardíacos acalmando, e o frio na barriga sumindo. Aliás, depois de tudo isso, nada melhor do que mandar um sonoro, reconfortante e aliviante UFA!.
Acabo de aliviar vocês de ler esse post, que para alguns pode ser maçante.
Até a próxima, meus caros.
Felipe
PS: Peço que deixem seus comentários expondo ou suas concordâncias e discordâncias com o que eu escrevo. Quero um blog interativo e, na medida do possível, dialético. Vamos melhorar nossas idéias.
(Ouvindo: Gabriel O Pensador - Rap Do Feio)
Há o alívio da possibilidade do fracasso que não se concretiza, há o alívio de saber que alguém que estava em má situação ficou bem, há o alívio de se encontrar uma coisa perdida, há o alívio de não chegar atrasado por questão de minutos, há o alívio de quando se encerra uma situação desgastante, há o alívio de quando você está à beira da morte mas sobrevive e muitas outras situações. Há até mesmo o alívio (e esse ninguém pode negar), geralmente conseguido no banheiro, de quando se concretiza algo que há muito se desejava fazer. (escatológico, porém humano!)
Enfim, a vida é também feita de tirar das costas pesos que ela própria nos coloca. Muitas vezes, porém, nós mesmos nos colocamos esses pesos, ou seja, criamos fardos para carregarmos e depois os tirarmos. (Um tanto masoquista, não?)
Não é preciso ir longe para atestar isso.
Correr riscos é uma forma de colocar-se em xeque, testando os próprios limites e esperando o momento em que se terá (ou não) o alívio de dizer "eu consegui".
Trago um exemplo mais tosco ainda, do alívio "artificialmente criado". Se algum dia você vai jantar no seu restaurante preferido, no qual você saboreia cada pedaço da comida, você faria um lanche à tarde? Sim, poderia até fazer, mas resistiria ao máximo para que, de noite, você chegasse com fome e pudesse degustar o prato pelo qual ficou aguando durante o dia, para depois sentir o alívio da saciedade.
Libertar-se daquilo que aflige é sentir a adrenalina esvaindo-se, os batimentos cardíacos acalmando, e o frio na barriga sumindo. Aliás, depois de tudo isso, nada melhor do que mandar um sonoro, reconfortante e aliviante UFA!.
Acabo de aliviar vocês de ler esse post, que para alguns pode ser maçante.
Até a próxima, meus caros.
Felipe
PS: Peço que deixem seus comentários expondo ou suas concordâncias e discordâncias com o que eu escrevo. Quero um blog interativo e, na medida do possível, dialético. Vamos melhorar nossas idéias.
(Ouvindo: Gabriel O Pensador - Rap Do Feio)
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