GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)
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sábado, 23 de junho de 2012

AMOR NOVINHO

Era dia dos namorados e eu já estava meio cansado das demonstrações publicas de afeto afeitas ao dia. Ora invejáveis, porque solteiro, ora apenas cafonas, porque o amor romântico é por si cafona quando somos terceiros, especialmente quando empatia não nos é o forte. Não me é o caso, para meu próprio desespero...

Eis que parei no sinal e começou a atravessar a rua um casal que devia ter lá seus 15 anos. Ela estava de uniforme escolar e segurava uma flor contra o peito. A outra mão dava ao garoto, que, vestido à paisana (em considerando que Abercrombie ainda não tenha virado um uniforme "laico" para a juventude carioca), destilava amor: tinha cara de que aquele era o primeiro dia dos namorados em que ele passava acompanhado. Quanto a ela, não tive duvidas: seu semblante era tão maravilhado que parecia suspirar.

Mergulhei meu olhar neles, que se entreolhavam com timidez e doçura, com uma cara de descoberta e arrebatamento. Não devem estar entendendo ainda porque aquela coisa tão linda faz tanta gente sofrer, chorar e até morrer. Seria encrenca de gente grande?

Se for o caso de que pensaram isso, não sei se ingênuos são eles ou se sou eu. Se ingênuos eles, aviso que desde logo os perdoo e os admiro por amarem sem as antecipações angustiantes que hajam carregado de desamores passados.

Se ingênuo eu, por estar praticamente babando diante de cena tão linda e pontual, reservo-me a defesa de que, independente das agruras que o amor esconda e reserve para o futuro dos amantes - e estatisticamente amores não dão certo para sempre -, o amor me comove esteticamente, especialmente se forem esses amores açucarados, retratados como polaróides dos melhores momentos, a desconsiderar o marasmo da rotina e as neuroses do passado. O amor é lindo mesmo.

De mãos dadas atravessaram a rua. Estavam tão distraídos e deslumbrados que me pareceram desfilar sobre um tapete vermelho imaginário. Acho que nem no casamento poderiam parecer tão plenos. Subiram a calçada como se subissem ao altar. A flor solitária era segurada como buquê. Os passantes de Ipanema eram os convidados. O uniforme virara branco. A Abercrombie virara paletó. O doze de junho agora era treze de junho. O barulho dos carros e a freada dos ônibus tocavam Elgar. Esperei jogarem arroz do alto das janelas, mas parecia que só eu percebia aquela cena.

O sinal abriu e foi como se eu aterrissasse. Buzinaram atrás de mim, como se o atraso dos outros fosse mais importante que meu devaneio romântico sobre amor alheio. As buzinas devem ter razão, mas peço logo que me perdoem: era dia dos namorados e, só, só estava indo para a faculdade.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A TENTAÇÃO DE MÃE VALÉRIA

Quem já perambulou por Ipanema bem sabe que nos postes de cada esquina, além da luz que ilumina a rua, fatalmente encontram-se cartazes com oferta tentadora de uma mãe-de-santo a iluminar corações aflitos e apaixonados:

MÃE VALÉRIA: TRAGO A PESSOA AMADA EM TRÊS DIAS.

Acho bonito que exista uma mística, um jogo e, às vezes (aham), até um drama no apaixonamento e na sedução. Conquistar o outro e cativá-lo aos próprios braços é um trabalho difícil, embora ocasionalmente ele nos ocorra com tanta facilidade e surpresa que não raro somos levados a acreditar que há alguma explicação inesperada, como energias, cosmos, e outras baboseiras (?), por detrás. E se houver mesmo? Enfim.

Talvez a dificuldade do trabalho de conquista amorosa seja justamente a bilateralidade. E conquistar é verbo que pressupõe resultado: ninguém conquista como tentativa. Diferente de outros "projetos" aos quais nos dedicamos na vida, o projeto da conquista amorosa não funciona se estivermos obcecados, nem se focarmos todas as nossas energias para o resultado almejado. Nesse departamento, as coisas são diferentes: se formos com tudo, assustamos a quem queremos cativar. Se formos "com nada", ou melhor, se não formos, pagamos o preço da nossa omissão, embora alguns insistam em dizer que a rejeição acaba sendo convidativa. Pode até ser, mas não para quem age estrategicamente, isto é, para quem rejeita intentando conquistar. É que os apaixonados não conseguem mentir sobre a paixão: quando mentem é porque se atrapalharam tentando não apressar a verdade.

O que Mãe Valéria promete, com suas ligações transcendentais que nem ouso explorar, derrotar ou confirmar, é resolver essa questão difícil: eliminar a bilateralidade da conquista e simplesmente fazer conquistar o outro, como quem pratica um ato em vez de um contrato.

Meu "eu liberal" fica perguntando se isso é interferir demais na vontade alheia, se é que tal é verdade e não um mero engodo a se aproveitar da fragilidade dos apaixonados. Meu "eu romântico" (que não necessariamente se contrapõe ao liberal) pensa, por sua vez, em tom eufemístico: Mãe Valéria é só um empurrãozinho do universo para um amor consciente e voluntariamente dirigido.

O que quer que seja, Mãe Valéria é tentadora. Promete eliminar domingos chuvosos sofridos, leituras pessimistas de entrelinhas, desertos de espera por mensagens que tardam ou não chegam, palavras truncadas em esbarrões de corredor, discussão sobre se há ambiguidade ou univocidade nos gestos simples e complexos.

Promete debelar o frisson, que em alguns gera verdadeira inquietação epistemológica - tamanho é o amor à verdade -, de encontros tão bem justificados sob o manto da coincidência e da casualidade, bem como de desencontros igualmente bem justificados sob a escusa do azar e da fatalidade.

Alguns vão dizer que Mãe Valéria é como uma trapaça no jogo da conquista. É como usar um cheat. Você se diverte usando cheats? Eu me divirto, em geral.

A diversão é menos verdadeira porque usou cheat? Não sei. Nunca fui dessa galera que gosta de jogar games fazendo as missões e levando a sério o enredo. Talvez por isso jogos nunca foram atraentes em minha vida. Quando podia, colocava um cheat e ficava só zoando. Sentia menos desafio, eu concordo:  mas nunca quis buscar num jogo algo além de mero entretenimento. E adrenalina não me entretém.

De desafiadora, sempre me bastou a vida: talvez ela assim o seja porque justamente consiste da "arte" (é tão brega dizer que algo é "a arte de") de conciliar vontades próprias com vontades alheias dentro das possibilidades fáticas que se põem sobre a mesa. A vida, em muito, é a correspondência entre o que nós queremos, o que os outros querem e o que se pode fazer. Mãe Valéria promete ajustar os dois últimos elementos aos desígnios do primeiro.

Isso pode significar destruir toda a graça da conquista e o próprio percurso amoroso que serve de lastro aos romances. Uma conquista amorosa suada acaba por valorizar o amor. Acho que Mãe Valéria, se é que vale a pena de alguma forma, não o vale como recurso principal, mas é fato que apaixonados sem esperança podem encontrar nessa oferta encantadora o melhor alento - e a última trincheira - para seus corações inquietos.

Falo de Mãe Valéria em tom documental, como se lá já tivesse ido. Nunca fui. Morro de vontade de ir, tanto como cronista curioso e cético desconfiado quanto como apaixonado ocasionalmente frustrado. Eu bem lá sei que Mãe Valéria não faz muito sentido: ela é reprovada em todos os meus testes lógicos e de coerência. Até consigo pensar em problemas à atuação de Mãe Valéria.

Vejam só. Se ela fosse infalível, haveria uma fila gigantesca de meninas à sua porta, ansiando pelo Príncipe Harry em seus braços: mas não existe Princípe Harry para todas e, ainda que houvesse, para ele chegar em três dias teria que passar um dobrado com sua agenda institucional. Do mesmo jeito, quando dois homens desejam a mesma mulher, quem leva a melhor? Quem chegar primeiro? Quem tiver o santo mais forte? Quem pagar mais? Problemas...

Fico me perguntando sobre o que Mãe Valéria fala e faz. Não pode ser possível que alguém se mantenha no mercado de condução-de-pessoas-amadas-em-tempo-recorde há tanto tempo com base em mentiras básicas ou bobas... Tudo bem, ainda que ela esteja mentindo como charlatã profissional, não é possível que coisa alguma aconteça (ou é?). Talvez ela seja apenas uma boa conselheira amorosa, não descarto a possibilidade. Seria uma "Hitch" carioca com leves predicados mediúnicos e epíteto matriarcal?

O que sei é que Mãe Valéria é uma tentação permanente. E não é porque me disseram que ela até é uma senhora bonita...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

epílogo epistolar

(setembro / 2010)

engraçado ver como você saiu mesmo da minha vida. hoje vi sua foto e olhei lá no fundo do brilho dos teus olhos: eles não mais me comovem, por mais enigmáticos que ainda possam parecer.

talvez você ainda me inspire este texto, mas sou só alguém que ri de uma desgraça superada. este texto não rende homenagens a você. ele é na verdade uma homenagem a mim mesmo: acho-me bom por ter saído fora do poço que você me significou.

tuas músicas não mais me tocam, nossos lugares não mais me mexem, tuas lembranças são neutras.

convivo com teus fantasmas como se ordinários fossem. também nunca esperei os esquecer de vez. eis que de repente, você está ali me olhando... mas eu só volto a viver. emito uma auto-nota de "i see dead people" sem me alterar em um batimento cardíaco sequer.

meu coração ainda se debate - ainda bem! - por mais que combalido: sinto-o pulsar como um ex-combatente que bem conheceu os horrores da guerra e hoje anda com mais calma.

minha sensação é a de final de filme, e agora me coloco a resenhá-lo, como se o fade out estivesse a se aproximar. fui o protagonista e - acredite! - o antagonista do meu próprio enredo, uma trama de romance que virou superação, exatamente no dia em que percebi que não era você a atriz principal, mas limitava-se a uma mera coadjuvante. a história era toda minha. o roteiro era todo meu. o conflito era todo meu, o conflito era todo eu.

sem mais delongas, esse óscar eu dou a mim mesmo.

sábado, 14 de agosto de 2010

A-VENTURA DE NOVEMBRO

(nota: estou abrindo o baú)

(DEZEMBRO/2008)

A ventura de novembro mais foi uma aventura, ou, talvez, um devaneio do ingrato acaso, ao qual hoje rendo minhas homenagens por tamanha engenhosidade.

Fui flamenguista por um mês. E isso já diz muita coisa, embora nada houvesse de futebol no meio disso.

O prólogo da aventura se desenrolou num armazém em clima de luto pós-eleitoral que de pronto se reverteu tão logo foram despertadas as paixões íntimas, introvertidas, mas controversas. E depois, o encontro casual nos pirineus franceses da praia rubro-negra, lá do décimo andar, em que tudo era branco e macio sob uma bandeira do Brasil, com dores nas costas e olhares que se prolongavam em não quererem se desencontrar, pedindo o que depois, não tão depois, viria.

Um não tão depois que durou pouco menos que uma semana, algum tédio, e muita gastação de francês e cultura de cinema Estação. E tudo começou a acontecer numa sexta em que quase chovia, ainda que ninguém quisesse ir à praia ou à piscina, coisa de quem anda de mal com São Pedro, sempre a lançar suas maldições meteorológicas.

Uma sexta que não teve cinema no Estação, mas a distância das cadeiras azuis nocivas à coluna, ah minha coluna, e os papos alheios que envolviam viuvez, barcos e o tempo. Uma distância que foi se superando quando as mãos se aproximaram, quando a conversa convergiu e quando os olhares novamente se encontraram não mais querendo se desencontrar, exceto por uma vergonha boba, daquelas bem singelas, que encerram os sentimentos mais sutilmente gostosos que o ser humano gosta de viver, o que nos distrai e nos alimenta o inquieto comboio de cordas.

Por fim, e era só o começo, os olhos novamente se encontraram, sintonizaram-se como antenas da alma e fecharam. Fecharam porque se fizeram prescindíveis quando tudo o mais já estava junto, juntinho, e os óculos se encostavam, se tocavam, se estalavam e se embaçavam, como uma metonímia para dois intelectos que convergiam em carne. E dali foram para um céu de diamantes cafeinado.

O domingo estava de um sol maravilhoso, porque ninguém levou roupa de banho. A contradição estava no ar condicionado, na biblioteca e nos livros, que se venceram pelos sucos, pela pizza, pelo calor do outro, pelas obras da lanchonete, e pelo centro preto e seu sofá cultural, muito melhor, embora menos simbólico, que o banquinho de madeira duvidosa dali não muito distante.

Os dias seguintes foram os maravilhosos dias seguintes. Ora chuva, ora sol, algum descontentamento de São Pedro e de outro não tão santo assim. Vivia, sem me dar conta, uma contagem regressiva previamente anunciada, a qual eu ignorei em achando que comigo seria diferente. Uma contagem regressiva rumo a não se sabia quando, que degenerou em não saber como.

As mensagens, as entonações, os olhares, os beijos, os carinhos, os segredos, os "te adoro" e "psius" não ditos, mas sussurrados a um coração efervescente e enfeitiçado... tudo indicava o caminho de uma crescente entorpecedora, capaz de distrair, capaz de, por conta da dedicação exclusiva, fulminar o olhar atento de quem cria, como se a função poética tivesse sido emprestada a mais nobre serventia e em seu lugar entrasse, como mero tapa-buraco, a infrutífera e egoísta função metalingüística.

Os encontros no meio da semana, no corre-corre das semanas de provas, os almoços apressados, a ventania entre os dois grandes prédios anunciando o tempo a mudar... O namoro num dos parques da cidade, num sábado sabático que dormiu pouco para acordar cedo sobre os cacos da sexta que avançou incauta pela madrugada. O namoro nos banquinhos de madeira verdadeira, à sombra de um dia nublado e das árvores que o espírito pueril ousou escalar, sob uma chuva rala e fria que pedia licença poética para cair em tão caloroso momento.

O bolo estava pronto e nele faltava uma cereja. A cereja do pedido em namoro, que eu entendi como ato declaratório quando a todos, e a quem realmente importava, parecia ato constitutivo. A cereja da minha hesitação, que deveria ser posta em cerimônia, em grande momento... no grande momento que não chegou a acontecer. Hesitei porque estava certo demais de que aquilo derradeiramente aconteceria. Inundei-me por essa certeza e acanhei-me pela prudência da muita certeza: estava tão certo que eu duvidei. Foi esse o equívoco? Restará a duvida.

Novembro encaminhava-se para seu final e junto levava minha aventura a seu desgaste. O antepenúltimo dia do mês foi estranho. Era sexta, chovia e algo havia se desencontrado. Havia a gripe, o vírus, o RNA, o DNA e minhas palavras se desencontraram entre a suposta graça da piada e a frustração de uma lembrança.

O penúltimo dia do mês, que era para ser o sábado tão esperado de ir à praia, da praia a que São Pedro legaria todas as bênçãos, foi o dia da espera pela ligação, pela mensagem... o dia da ansiedade enlouquecedora que pôs na cabeça caraminholas como que em prenúncio ao que não muito depois se seguiria, como se "o deserto da espera tivesse cortado os fios".

O último dia de novembro foi o último em que as coisas estiveram bem, ou assim pareceram estar. É como aquelas melhoras súbitas do quadro clínico logo antes da morte. Um cinema, um passeio, um andar juntos sob um sol gostoso e uma brisa fresca, um passeio no aterro à procura dos banquinhos. Quando finalmente se achou um banquinho, dessa vez de pedra, vieram os beijos e os carinhos, que se deixaram constranger pelos olhares alheios, pelos cachorros passeando a esmo e por um batuque bate-lata de projeto social que perturbava os ouvidos e impedia - impediu - de se ouvir no coração do outro o batimento acelerado tuntz-tuntz, a rave cardiológica extasiada chamada paixão. E aí, quem sabe, surgiu a dúvida de se tudo isso ainda existia... é que no fundo pareceu haver só um silêncio.

Entramos em dezembro juntos, no computador. Um olhando a cara do outro, separados por um abismo chamado internet, sob uma certa estranheza que não se explicava. Um olhar perdido, uma palavra que não encontrava eco, um sorriso que não alcançou lugar, um encanto a esmorecer, como se o que se tinha de melhor estivesse escorrendo implacável por mãos fechadas. Fomos dormir, talvez fosse só uma fase.

Em dezembro não haveria mais ventura nem aventura. A segunda-feira de primeiro de dezembro teve cara de hiato: o dia que antecedeu o fim, que antecedeu a terça e nada mais.

E a terça, enfim... a terça em que a velhinha de que mais gostava no meu prédio morreu, o dia em que se completaram vinte anos da morte do meu tio, o dia em que eu armei pela primeira vez uma árvore de natal na vida, numa ironia do destino, do ingrato não-tão-ingrato acaso ao qual eu novamente rendo minhas homenagens.

A terça-feira encerrou o último capítulo e iniciou o epílogo da aventura não mais venturosa: um dia lindo, um passeio lindo... o sal foi até o açúcar. Fingindo-se gringos e destilando nosso francês mais uma vez, fomos às alturas, e lá do alto, tão distante da cidade, dos carros e das pessoas, foi-se vendo o quão distante também estávamos um do outro. De repente, não mais que de repente, as mãos não mais se achavam, os olhares se encontravam e logo se perdiam e as palavras doces não mais reverberavam. O sal fizera-se amargo, azedo, intragável. Depois, um almoço no lugar dos barcos, da viuvez e do tempo. Comi risoto e ela foi nos salgadinhos mistos, então para quê mais o sal? Fui feito redundante.

E depois bateu um sono e uma preguiça de tudo, até de irmos até o banquinho de madeira duvidosa onde tudo havia começado. E aí fomos para os pirineus franceses, de táxi, um ao lado do outro, íamos para o mesmo endereço, mas já trafegávamos caminhos diferentes. Saltamos e caminhamos paralelos, mas separados por um muro invisível, estranho, que instigou a dúvida e culminou na pergunta: "o que aconteceu?" e na resposta: "não sei." E o silêncio. Havíamos chegado e eu esperava que ela subisse para trazer minha mochila que eu preferi não carregar (talvez já soubesse que o dia seria pesado demais) para então poder ir para casa.

Minha mochila veio junto com um pedido de tempo. Um tempo que eu não entendi. Um tempo que não era grandeza primitiva da física e talvez mais fosse uma sutileza literária, um eufemismo para outra coisa que ali não era evidente. Um tempo para resolver toda uma confusão na qual eu não conseguia acreditar. Conversamos brevemente e nos entreolhamos no que não parecia um término, mas um entreato. Seguimos em direções opostas, às vezes olhando para trás.

Nos dias seguintes... ah, deixa para lá. Os dias seguintes já mostravam um dezembro consumado, uma tragédia em que eu não quis acreditar: episódios almodováricos demais para minha hollywoodiana previsibilidade do inusitado e conversas perdidas em um palácio do governo sobre uma situação já tão desgovernada, com direito a batuque bate-lata perdido e a uma curiosa, simultaneamente literal e figurada, pedra no meio do caminho.

Os dias seguintes foram a esperança se esvaindo a cada dia, à medida que o acaso se revelava mais irreverente, ingrato, confuso, louco... ou talvez o louco não fosse o acaso... ou o acaso nada mais fosse do que loucura. Ou nada era verdade. Não sei.

domingo, 8 de agosto de 2010

"PODERIA TER SIDO VOCÊ"

O pombo morto - atropelado - no meio da rua vai muito além de despertar nojo: é o retrato vivo da morte e retrata como obra de natureza-morta o fatídico da vida.

Sua aparência expõe suas entranhas e não por acaso nos embrulha o estômago. Carne e sangue misturados, deformados. Reduzido a 2D, planificado contra sua vontade e carimbado no preto do asfalto, como uma efígie fúnebre num museu a céu-aberto.

Cerca-se dos mais variados públicos, entre os passantes que caminham apressados. Alguns nem percebem, porque distraídos. Outros percebem e desviam o olhar, enojados. Alguns percebem primeiro pelo tato: infortunados. Outros percebem e seguem admirando com certa curiosidade mórbida. A indiferença exige um esforço: a morte é muito distinta para se assimilar à paisagem.

Velado publicamente com a notoriedade que não tem um animal e muito menos um indigente, o pombo é finalmente recolhido para não se sabe lá onde e some na complexidade da cidade, depois dos seus 15 minutos de fama póstuma. Deixa com o mundo sua mensagem e, por meu intermédio, sai da vida para entrar numa história.

sábado, 1 de maio de 2010

caritas et scientia

(homenagem ao colégio santo agostinho - leblon)




O azul do céu virou nostalgia desde que eu te deixei - daqui a não muito vai fazer três anos!
Como são tão parecidos, às vezes...

Tua foto colada em meu mural é a melhor máquina do tempo que eu já vi e vivi. Uma máquina do tempo sensorial, algumas vezes sinestésica. Não olho nos teus olhos, porque não tens olhos. Não vejo o teu sorriso, porque não sorris. Mesmo assim te encaro. Contemplar-te é, na verdade, ver a mim mesmo, um eu congelado no passado, mas que dialoga com o que aqui escreve. Tua imagem é como um espelho, estático, e por ser assim me serve de referencial: vejo como mudei... Entretanto, o menino que lá entrou aos 7 anos muito guarda em comum com o rapaz de 20 anos e algum juízo que aqui te escreve: te admira e te ama.

Meu primeiro dia entre seus muros, não me custa tanto lembrar, serviu-me para dimensionar o quão grande e imponente eras - e ainda és. Colossal em espaço para uma criança que só conhecia quintal: aquele pátio era um novo horizonte. Eu que havia sido o mais velho no jardim, virei o mais novo na imensidão daquela floresta de um só coqueiro, que dali a não muito nem mais existiu.

Aqueles onze anos foram da descoberta mais genuína que eu já vivi. Descobri a mim mesmo. Descobri a ti e a teus corredores. Descobri - e daí o meu amor - o quanto de ti existe em mim. Descobri até um pouquinho - se assim me permitir a modéstia - do quanto de mim também existe em ti.

Conheço cada um dos ladrilhos de tuas salas: azuis, verdes e brancos. Conheço tuas carteiras, os chicletes que elas guardam por debaixo, os rabiscos e desenhos daqueles que não conseguiram deixar suas marcas de outras formas, teus atalhos e teu (complicado) modus operandi. Conheço cada um de teus bebedouros e sei até qual tem a melhor água. Ah, a tua água...! Não há água melhor no mundo, confesso.

Conheço tua história, teus ritos, teus maneirismos institucionais e teus problemas - não são poucos, eu sei. Sei que se fosses perfeito, não serias perfeito para mim: não seria eu mesmo se não fossem teus problemas. Com eles aprendi e cresci. Também com meus problemas também cresci: superá-los foi muito mais fácil porque pude contar com as tuas soluções e tua dedicação determinada. A ti serei grato eternamente.

És ao mesmo tempo casa e família. Abrigas sob teu teto os que se amam (e te amam) e serves para sempre de pretexto - e contexto - para que se amem (e te amem) e se conheçam mais. Nos teus corredores quentes e em tuas salas gélidas (o ar-condicionado era sempre um problema...) fiz os melhores e mais fiéis amigos, e fiz a presunção esperançosa de que a amizade durará transcendentalmente pela existência. Quanto aos amigos que não fiz, sei que se esbarrar com eles pelos caminhos da vida teremos um traço comum muito marcante, que significará muito mais do que termos frequentado um mesmo lugar.

Se as amizades ficaram, ficarão e virão, não posso dizer o mesmo quanto às paixões. Ora fulgazes, ora longevas, não sei se pela adolescência ou pela essência do conceito de paixão, marcaram a poesia do meu sentimento. Nenhuma correspondida de verdade, eu lamento, mas vividas na intensidade que lhes é própria: tu eras para ser o cenário de meus romances nunca encenados.

A foto ainda me transporta. Só vejo tuas paredes, teu concreto, teus vidros do último andar e o corte que promoves no céu pela perspectiva que busquei. É... não imaginei quando te enquadrei em minha lente que dali sairia o teu retrato oficial para meu coração. Mas só capturei tuas paredes e teu concreto, opacos à primeira vista. Não é verdade: teu concreto é transparente e através dele eu vejo todos aqueles que eu aí conheci, para além dos colegas: vejo meus mestres, não apenas os de sala-de-aula, vejo os funcionários. Alguns já partiram, mas não tem problema. Tu também já partiste em alguma medida e nem por isso exististe menos para mim. Olho-os por através das paredes e é como se eles estivessem acenando para mim e eu para eles, todos nós emocionados. Consigo imaginar alguns sorrisos e sentir o carinho, embora pareça haver alguma distância (sei que estou imaginando) entre nós. Tenho vontade de dizer "quanto tempo!".

Ainda me lembro do último dia em que estive aí na qualidade de aluno. Foi dia 30 de novembro de 2007. Não que eu tenha deixado de ser teu aluno: hoje sou "antigo aluno". Foi um dia de nostalgia antecipada: por tanto que eu te amava, sabia o quanto doeria te deixar. Mas era uma dor gostosa, uma dor de missão cumprida, de sucesso e de plena satisfação. Chegara a hora de me irradiar para fora de teu domínio restrito, de teu ninho quentinho que nunca me deixou em apuros. Sabia - e reitero diariamente esse saber - que mesmo as águias mais altaneiras têm para onde voltar. És minha referência, minha melhor referência, porque és necessária, e não contingente. És essência, e não circunstância.

A foto é espelho e o seria do mesmo jeito ainda que o papel não refletisse a luz do dia ou o brilho dos meus olhos que se avolumam de água. Contemplo-me em ti e vejo meu coração, onde resta gravada indelevelmente a tua nobre divisa: amor e ciência. Os dias passam e ela só faz cada vez mais sentido em minha vida. Entôo teu emocionante hino, emocionado. Amor e ciência. Minha nostalgia é minha identificação: no que te sei, me sei. E por te saber, te amo.




1997

2007

Formatura

Esse cartaz se direcionava aos futuros alunos, mas a mensagem me serviu 110% bem.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A velhinha da xerox

Aqui no Centro do Rio, do lado do prédio onde meu pai trabalha, tem uma lojinha muito pequena onde funciona uma minipapelaria, na qual fazem xerox, vendem canetas, papéis, filmes fotográficos e tiram fotos 3x4 instantâneas.

Nessa minipapelaria, trabalhava uma velhinha, seu marido (eu acho) e seu filho (eu acho). Sempre estava algum dos três trabalhando, e a senhora costumava ficar numa cadeira na porta da papelaria, pois lá dentro não havia ar condicionado e ela parecia sentir calor. Era de pele branca e possuía os cabelos branquinhos. Nem magra, nem gorda. Sempre sorridente. Era fofinha, por mais que dizer isso soe redundante.

Desde os meus 14 anos, quando eu comecei a me aventurar pelo Centro da cidade, exorbitando do eixo Copacabana-Ipanema-Leblon, eu inevitavelmente passava por essa minipapelaria. Sempre fazia questão de olhar para dentro da loja e ver se a velhinha estava lá. Por alguns anos foi assim e sempre estava ela lá, sentada na tal cadeira, entre a rua e a loja, vendo as pessoas passarem e falando com os clientes.

A gente só se falou uma vez na vida e isso já deve ter uns cinco anos. Eu estava com meu pai e ele foi fazer uma foto para tirar o passaporte. Ela acompanhou o outro moço que ali estava a fazer a foto na cabine instantânea. Disse, ao fim, que meu pai era lindo. Ganhou pai e filho.

Eu ficava realmente feliz a cada vez que passava pela loja e constatava a presença tão agradável daquela senhora, ainda que a gente não se falasse, ainda que eu a olhasse sem retorno, ainda que eu não comprasse nada naquela loja humilde, ainda que eu nunca fizesse minhas fotos 3x4 naquela máquina suja onde diariamente dezenas de pessoas deixavam estampadas suas faces pouco (falsas) ou nada sorridentes.

A cada vez que eu passava pela loja e via a velhinha com suas bochechas levemente coradas rindo e interagindo com os que ali estavam era como se eu marcasse um item positivo dentre os vários que constam do check-list de estabilidade de vida. Era como uma confirmação de que as coisas continuavam no seu lugar, do mesmo jeito que se entra no seu colégio antigo e as pessoas ainda usam o mesmo uniforme e reclamam dos mesmos professores, ou que depois de longos e tenebrosos invernos o telefone da sua ex-namorada ainda é o mesmo ou que no Natal ainda farão aquela sobremesa com receita especial que há tantas ceias aguça os apetites. Posso fazer uma lista de coisas mais óbvias, ou nem tanto, que dão essa sensação de que o mundo ainda é mundo e de que você ainda está no seu tempo. Um dos meus marcos era passar pelo Centro e olhar a velhinha na sua cadeira.

Se eu era um estranho para ela, só mais um dos trocentos que transitavam diariamente pela Cinelândia, ela não era uma estranha para mim. Era a velhinha fofinha da xerox. A presença dela, silenciosa, ali bastava. Se ela estivesse ali, como sempre, estava bom para mim. Ela não precisava saber que eu existia, que eu me importava com ela, que ela fazia alguma diferença no meu dia.

Desde que comecei a estagiar no Centro, meu trânsito pela lojinha da velhinha passou a ser diário. Comecei a sentir sua falta depois que por muitos dias eu passava por lá e ela não estava. Andando rápido, como sempre, eu passava pela loja e procurava a velhinha. Demorava mais no passo para conseguir olhar lá dentro, pois na porta ela não estava. Em vão. Pensei se ela estaria meio doente, se estaria cansada de ir para o centro todo dia, ... Por alguns dias eu quis entrar na loja e perguntar para o senhor que ali continuava trabalhando diariamente o que havia acontecido com a velhinha. Achei, porém, que seria freak demais. E eu talvez não suportasse muito bem ouvir da boca dele, tendo que lhe dar alguma resposta, que algo de muito ruim havia acontecido, se esse fosse o caso.

Deixei para perguntar para o meu pai, afinal, ele está sempre por ali e deveria estar melhor informado. Segunda-feira agora, perguntei para ele, enquanto tomávamos café-da-manhã na lanchonete que fica ao lado da lojinha. Ele falou que estava tudo bem com a velhinha e que ela sempre estava por lá. Aliviei-me por um segundo, confiando na inconfiável noção de tempo do meu pai. A garçonete, porém, interrompeu nossa conversa e falou, um tanto desolada, que aquela senhora falecera já havia três meses.

Até hoje não sei seu nome, não sei sua origem, não sei sua idade e nem especulo sobre a sua causa mortis. Não preciso saber e sabê-lo talvez tornasse as coisas mais corriqueiras, mais desimportantes e menos simbólicas. Se ainda puder me redimir desse não-saber, que no fundo só serviu a tornar a senhora ou a história mais interessantes, resta aqui uma homenagem...
Post mortem, ainda que seja, infelizmente.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

SAUDADES

(ou "evadir-se")

porque não ficaremos o dia inteiro sentados olhando a vida passar,
enchendo o copo, conversando e ruminando o assunto.
bebendo o líquido da fonte inesgotável,
que o bom futuro não há de secar.

mas nossa saliva antes secará,
deixando com sede os que nos amam.
e nossas pálpebras fecharão nossos olhos especulares,
(ou antes terão a clemência de fechar nossas pálpebras...)
e não mais seremos reflexos perambulantes,
escancarando verdades a quem quer que nos veja,
mas incapazes de vermos nossas próprias verdades.
porque, agora, ainda estamos por detrás dos olhos,
vitrais brilhosos de círculos concêntricos e cores personalíssimas,
e porque lá fora é mais claro: ainda é dia.

mas o dia em crepúsculo anunciará o breu,
em conclamação tácita a que acendamos nossas luzes.
porém, um dia, apagaremos...
e aí tentarão nos ver, mas nem sombra seremos,
e tentarão nos escutar, mas só ouvirão o eco minguante que restou ao ouvido,
e tentarão nos tocar, mas as mãos modelarão o ar em curvas corpóreas,
e tentarão nos cheirar, mas enganar-se-ão com o perfume enfrascado,
e tentarão nos provar, mas as bocas restarão aguando.

gritarão
chorarão
vão se comover...
vão se lembrar?
ou vão se esquecer?

e imaginarão, só imaginarão... sem perceber.
e isso, por ora, lhes bastará.
pois seremos sem estar-aqui ou sem estar-aí.
seremos estando-ali ou acolá, não importa onde será.
e inundar-se-ão de um "nós" impalpável, mas inebriante.
pensarão que estarão conosco, quando na verdade estarão sozinhos.

mas, certa hora, findará esse doce engano,
que traveste em infinita a duração de infinitésimo do homem.
e aí nada mais seremos que saudades.
(e assim ficamos para a semente.)

terça-feira, 9 de junho de 2009

DEVE HAVER ALGO DE ESPECIAL ME ESPERANDO LÁ FORA.

Deve haver algo de especial me esperando lá fora. Sei lá o que pode ser, talvez algo que vá mudar minha vida, meu dia ou meu minuto. O importante é que mude e que, de alguma forma, me faça sentir prestigiado por aquilo que eu não controlo: as oportunidades. Criar oportunidades não é possível exatamente. Na verdade, o que se faz é deixar a cisterna aberta e esperar que chova, ou tirar as roupas do varal por conta da mesma chuva. Sempre dependemos da chuva, mas nem sempre ela nos alcança. Pior é que, às vezes, ela até nos alcança, mas não estamos preparados para ela naquele momento, ou, se estivermos, ela pode vir numa dose que de remédio vira veneno.
Alcançar a medida certa e sinérgica é um esforço colossal. Primeiro, tem-se o desespero de ficar olhando a todo minuto a previsão do tempo, achando que ela, como um oráculo, nos permitirá optar com antecedência pelo melhor caminho. Depois, é o peso de ter que carregar todo o dia o guarda chuva na mochila, pois aquele dia poderá ser o dia, ou de se ter que ter um protetor solar a mão, sempre, pois a possível trégua da chuva ao sol é convite tácito e irresistível à praia.
Deve haver algo de especial me esperando lá fora... ah, deve! Banho de sol ou banho de chuva. Ah, deve!

domingo, 31 de maio de 2009

POEMA PARA O AMIGO PARTIDO

(para o querido amigo Edson Boia do Nascimento)
Que ora encontres teu descanso merecido,
e mergulhes na derradeira paz de espírito.
Sê vivo em nossos dias, jamais esquecido,
e por nossas mentes, aparece à noite, onírico.

Partiste, amigo, e repartiste nossos corações,
esfacelados em luto por ti, que só foste luta,
destruídos em sentimento ao revolver tantas emoções,
e desconfortados em nossos âmagos com angústia bruta.

Afundados estamos, porque perdemos nosso porto seguro.
Não mais temos a ti para nos ancorarmos na tormenta diária.
E, agora sós, vagamos, navegamos e navagamos pelas tempestades.

Zarpaste dessa vida, mas não naufragaste: ainda és futuro!
Sabe que bóias, Boia, acenando sobre uma jangada solitária,
que se afasta, paulatina e serena, em nosso mar de saudades.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

VIGÍLIA.

Não pode mais ser você a  dignitária de meus sonhos, nem por seu veneno transformá-los de súbito em pesadelos, quando tomo a consciência de ser tudo aquilo quimera mera vivida como realidade sem verdade. Ou não seriam?

Você não é mais você, porque sua pele não mais está encostada à minha, nem minhas mãos acariciam mais sua nuca quente, e nem meus dedos passeiam e se entrelaçam em seus fios de cabelo levemente suados. E não mais estamos levemente distraídos.

Você não é mais você. Você hoje é só o que eu guardei, o que eu lembro. Você não é mais física, é psicológica. Você não é mais objeto, é projeção. Você não é mais sujeito, você hoje é tão somente seus predicados que em mim restaram como um souvenir de desventura.

Porque você não é mais você, tornou-se mera experiência sensorial. Nessa linha tênue que separa o ser do sentir ser, o númeno do fenômeno, é que me deparo com a dúvida e o desespero de se estar sonhando ou se vivendo. Não porque não sonhamos enquanto vivemos, afinal, não somos somente matéria certa, localizada e determinada. Nem porque não vivemos enquanto sonhamos, pois ainda temos sensações, sentimentos e verdades durante o sono.

A questão é se mais vivemos ou mais sonhamos. E o ponto mais crítico é passar de um ao outro. Descobrir que o que achávamos que era vida era sonho, e que o que pensávamos ser devaneio era vida. Passear pelas esferas da realidade e da fantasia, conjugadas à da verdade ou à da mentira. São as quatro nebulosas e indeterminadas. E entre elas nós tão somente oscilamos, errantes, ainda achando que beliscar-nos a qualquer hora vai nos dizer em qual delas estamos: a realidade mentirosa, a realidade verdadeira, a fantasia verdadeira ou a fantasia mentirosa.

Na ignorância de onde estamos, simplesmente escolhemos onde queremos estar. Escolhi que ali estava sonhando com aquilo que em outro momento escolhera ser verdade. Mas porque hoje escolhi que não é mais verdade, o sonho virou pesadelo. Mas saber que se está sonhando ou pesadelando é como estar dentro de um simulador maravilhoso ou aterrorizante com a mão preparada para, a qualquer momento, apertar o botão de emergência. Apertei o meu.

Meus olhos se abriram, mas o coração continuava disparado. A luz entrou por minhas pálpebras cegando-me, mas ainda pairavam as imagens que estava vivendo. O cheiro da manhã buscou meu nariz, mas ainda era seu perfume que monopolizava meu olfato. Eu tentava ser eu, sozinho, na cama, mas ainda era eu, com você, dentro da minha cabeça.

Mas tudo isso foi cessando e eu, que tentava atônito buscar seu perfume nos recônditos da pele macia de teu pescoço contorcido em júbilo, percebi que era eu que estava deitado, contorcido, retorcido e distorcido no meu ser.

Despertei, como quero despertar a cada segundo, e ainda vim glamorizar via palavras essa desgraça, partilhando-a. Quem sabe, com ela fora de mim, talvez seja mais fácil eliminá-la...

segunda-feira, 9 de março de 2009

CÂMERAS NO ELEVADOR.

Não mais serei o mesmo diante do espelho: não farei caretas com língua para fora, olhos envesgados ou cara retorcida. Não espremerei espinhas, não farei pose para me sentir bonito, não expirarei ar quente perto do vidro para embaçá-lo e depois escrever ou desenhar alguma coisa com o dedo. Não ensaiarei mais discurso, e nisso se vai minha oratória.

Não mais apertarei todos os botões para ficar ali só mais um pouquinho, curtindo o momento de transgressor.

Não mais pularei com os amigos e nem balançarei os quadris para que o elevador trema.

Não mais colocarei a mão entre as aberturas da porta pantográfica, como se brincasse com a sorte diante do aviso em contrário "mantenha-se afastado".

Não mais apagarei as luzes sorrateiramente, para fingir-me num filme de terror ou para assustar minha mãe. Nem apertarei o botão de emergência para simular que o elevador parou.

Não mais beijarei no elevador, aproveitando a privacidade e curtindo a adrenalina de o elevador poder parar e sermos surpreendidos.

Não mais me debulharei como um maníaco sobre a tal lei municipal de 1996 e as não sei lá quantas UFIRs cominadas aos infratores, o que talvez tenha sido meu primeiro contato com algum texto legal, daí alguma obsessão.

Não mais começarei a me despir antes de chegar em casa, quando o calor for muito, quando o desconforto da roupa for demais ou quando for preciso agilizar o processo para satisfazer o quanto antes imperativos fisiológicos invencíveis.

Não mais encostarei a cabeça na parede do elevador olhando para baixo nos dias tristes, ou olhando para cima nos dias cansados, nos quais o trajeto do térreo até o nono andar é um precioso momento de descanso.

Não mais viverei genuinamente a solidão do elevador, nem sua introspecção típica ao olhar para o nada daquelas paredes cubiculares, porque o nada estará me fazendo companhia e se fazendo perceber, apesar de ser nada. É que nessas horas o nada se faz tudo, e me olha, e me observa, e me constrange.

Tentarei encará-lo. E, quando olhar para o nada materializado em câmera, verei ainda meu próprio reflexo, como uma tácita chamada de consciência: "se toca!!!".
E depois disso tudo ainda querem que eu sorria...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

SAIREI PARA A BOATE E ENCONTRAREI O AMOR DA MINHA VIDA.

(ou "elucubrações esperançosas")

Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida.

Entrarei na fila e lá mesmo ela me olhará, assim meio desconcertada, como se tivesse sido surpreendida por algo, e como se quisesse dizer alguma coisa diante de grata surpresa, mas não tivesse muita coragem.

Olharei pra ela, meio de rabo de olho, meio com vergonha, como se também quisesse dizer alguma coisa, mas também não tivesse lá muita coragem. E assim, sem palavras, a gente dirá muita coisa ao outro.

Entraremos e ela me olhará do alto da escada. Retribuirei o olhar, fazendo-a constrangida. Sem jeito, ela andará para algum lugar. Subirei a escada como se estivesse procurando alguma coisa, quando na verdade estarei procurando alguém. Entrarei na sala e irei até a janela fingir estar pegando um ar para ver se ela aparece. Se eu fumasse, acenderia um cigarro para conter a ansiedade. Não é o caso. Mas mesmo depois de alguma espera, ela não virá ao meu encontro. E, já cansado, eu sairei da sala e irei ao banheiro. Quando pegar na maçaneta do banheiro, ela se abrirá mais forte em minha direção e de lá sairá uma mulher, a mulher. Não porque eu estava indo no banheiro de mulheres ou ela na verdade fosse um homem, mas porque alguma coisa de engraçado deve haver para a gente se cruzar fisicamente, depois que nossos olhares já o fizerem como tácita função fática. Não poderá ser simplesmente eu chegar nela no sofá e dizer: oi, qual seu nome, quer tc? Simplesmente não funcionará. O encontro com o amor da sua vida tem que ser algo meio bizarro, esdrúxulo e quase irônico: ela entrou no banheiro dos homens sem querer.

Quando a gente se cruzar nessa cena louca, riremos um da cara do outro, pois ninguém terá entendido direito o que se passou. Ela olhará a plaquinha na porta e verá que se confundiu. Gargalharemos juntos e nessa hora minha vontade de ir ao banheiro passará, convencendo-me de que a fisiologia às vezes não mais é que mero pretexto para os chamados da psiquê. Psi... o que mesmo?

Tentando contornar seu constrangimento duplo, pelo banheiro e por ser logo eu quem abriu a porta, serei caloroso em minhas palavras e puxarei uma conversa.

E conversaremos longamente: descobriremos que ela, como eu, faz Direito, que estudamos em escolas próximas, que moramos não muito longe um do outro, que ela também gosta de jogar tênis, que ela também é muito fã de cinema nacional, que ela adora ir à boate às 5as feiras e que ela adoraria fazer uma tatuagem na nuca. Ai, eu não gosto de tatuagens, mas tudo bem. E depois de saber tudo, ou quase tudo, não teremos coragem de perguntar o nome um do outro. Será como se já o soubéssemos.

E então, depois de algum bla bla bla, sentaremos ao sofá vendo as pessoas jogando um fliperama nojento e, num misto de tédio e oportunidade, iremos nos entreolhar procurando respostas para um silêncio eloqüente que formulou a pergunta: e aí? E aí nos beijaremos tempo bastante para percebermos que foi certa a resposta.

Conversaremos mais, mais e mais. Pegarei seu telefone e ligarei no dia seguinte. Ficaremos mais e mais vezes e em breve nos descobriremos apaixonados. Iremos a vários shows legais, e outros nem tanto. Pediremos um ao outro em namoro. Trocaremos uma aliança de compromisso. Compraremos um apartamento juntos e para lá nos mudaremos. Daremos uma festa de casamento muito bonita. Trocaremos alianças de verdade bebendo champanhe. Viajaremos em lua-de-mel pela Europa, na primavera. Tomaremos chocolate quente conversando sobre o quanto a natureza é bela. Olharemos um para a cara do outro como dois bobos. Se estivermos sérios, riremos. Se já estivermos rindo, riremos de novo por já estarmos rindo.

Teremos filhos lindos e por eles, para eles e com eles. teremos trabalho. E também teremos cumplicidade. Teremos brigas, só para que de vez em quando sintamos a medida da realidade e lembremos que ainda seremos um casal. E teremos reconciliação, para nos convencermos de que somos mais fortes.

Envelheceremos juntos e cataremos os primeiros fios de prata na cabeça um do outro, quando o primeiro se sobressair na alvura do travesseiro e despertar-nos da quimera chamada juventude.

E já na tenra idade, tomaremos chá e veremos televisão. Viajaremos para uma casa de campo e ficaremos lendo amenidades enquanto chove lá fora, tornando o dia cinza. Prepararemos juntos o jantar e dormiremos sob o cobertor, abraçados, ainda que a noite esteja quente, porque bastará ligar o ar condicionado como escusa para estarmos mais próximos.

E, no dia seguinte, eu acordarei primeiro e ficarei contemplando sua beleza e acariciando sua nuca macia, de pele lisa e intocada: terei conseguido dissuadi-la de fazer a tatuagem.

E na hora de morrer, fato que inexoravelmente virá, verei que ela foi o amor de cada um dos dias, do primeiro em que a conheci até o último em que com ela estive. E então, somente a posteriori, como de fato parece ser o conceito de "amor da sua vida", descobrirei que foi ela o meu.

Só lhe falta um nome, ainda.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

eu, a chave, a velhinha, o medo e, quase, a generosidade.

Aconteceu há mais de seis meses, mas só hoje resolvi contar.

Estava caminhando na capital francesa como aqueles turistas que não querem nada. O dia estava um pouco nublado e eu já estava voltando para o hotel depois de bater pernas por muitas horas.

Entrei numa transversal de uma importante avenida e rumava em direção a uma das estações de metrô. Várias pessoas passeavam também, inclusive um casal de turistas brasileiros que não sei lá como me reconheceu enquanto conterrâneo e pediu em português para eu bater uma foto deles diante de uma casa que nada tinha de demais. Bati a foto e segui.

Dei alguns passos a frente e uma velhinha me abordou. Uma velhinha lá nos seus 70 anos, que falava um francês meio estranho, muito apressado, atropelando palavra. Parecia não ser francesa. Não estava muito bem vestida, tinha alguns dentes pretos, o nariz estranho, o cabelo mal-cuidado, algumas rugas e trajava um vestido preto nada elegante. Muitas rugas e a expressão desesperada. E por mais assustadora, até repugnante, que possa parecer essa velhinha, ainda era uma velhinha daquelas que inspira uma atenção especial. Não sei direito porque, mas tenho uma adoração especial por pessoas idosas, sendo os seres com os quais eu mais me sensibilizo.

Fato é que a velhinha estava com umas chaves na mão e em seu linguajar meio ininteligível, ou no mal-entendimento de meu parco francês, me disse que a chave ou a fechadura estava com problemas e me pediu ajuda para abrir a porta de onde morava. Não compreendi exatamente do que se tratava. Concordei com a cabeça e fui seguindo a mulher.

Entramos no quarteirão, pois seu prédio era daqueles cuja portaria não fica na rua, mas no interior do quarteirão, como alguns prédios do centro do Rio. O lugar estava vazio e não falamos nada até chegarmos ao portão principal. Já fui meio receoso sobre o que se seguiria, mas não quis pensar muito.

Chegando ao portão, pedi a chave para tentar abri-lo. Ela olhou educadamente e disse que a fechadura da portaria estava abrindo, mas que era para eu subir e tentar abrir a do apartamento dela. Pegou a chave e abriu o portão da portaria, dando um passo a frente e sinalizou para que eu também entrasse.

Não entrei. Travei no capacho e fiquei olhando para a cara dela, sem saber o que falar. Não iria subir aquele prédio vazio, num lugar em que eu não conhecia, com uma senhora que não havia me passado a melhor das impressões e estando eu sozinho na cidade . Fiquei com medo de que tudo aquilo fosse um golpe e ali minha viagem fosse para o beleléu. Imagina...

Falei a ela que não poderia subir, mas não quis explicar. Ela ficou desolada e perguntou o porquê de minha recusa, esboçando uma cara ainda mais desesperada. Comecei a suar frio tamanho era o conflito na minha cabeça: e se eu estivesse tratando como suspeita ou farsária uma velhinha necessitada e tão motivadora de compaixão? Ia deixá-la ali na rua implorando pela ajuda alheia para que ela conseguisse entrar em casa?

Ela me sensibilizou, mas meu lado racional e cunamãocional falaram mais alto. A história da chave não era lá muito plausível e o pedido de ajuda logo a mim, que não tenho cara nem know-how de chaveiro, não era muito razoável. E ainda lembrei de minha mãe, na minha distante infância, dizendo para eu não dar papo a estranhos. Por fim, preferi achar que era tudo um golpe e que o risco não compensaria a generosidade. 

Reiterei meu não e virei as costas dizendo a frase mais mãos-vazias da língua dos biquinhos e mil acentos: "desolé". Andei de volta para a rua. A velhinha ficou implorando para eu voltar, pedindo ajuda. Eu relutava em não olhar para trás, pois sabia que sua carinha enternecedora poderia me fazer voltar atrás na decisão de ignorar. Ela continuou a falar e eu seguia com o passo, embargado, tanto quanto sua voz, que ia sumindo como se ela tivesse resignado e fosse sentar e chorar.

Se sua voz sumiu em meus ouvidos, ainda continuou por um tempo a ecoar em minha cabeça. Até hoje, não sei direito se acertei ou errei em minha precaução ou em meu preconceito. Não quis pagar para ver, mas também esqueci que a dúvida impõe um preço um tanto salgado, parcelável em tantas vezes quanto for lembrada história. Compartilho a fatura.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A ÚLTIMA SEGUNDA DA QUINTA.

Na segunda, ela foi a quinta no ano.
Não era um pássaro, não era na construção.
Nem na Construção de Chico.
Não era de mentira, nem era abstração.

Na segunda, ela subiu do térreo. Até o quinto?
Desceu. Mas não foi até o quinto dos infernos.
Que a Quinta lá fosse próxima...
Mas ela pousou sobre um jardim qualquer.

Na segunda, em um segundo, a notícia se espalhou.
E logo os terceiros vieram ver o que acontera.
E assim ela foi a primeira às atenções,
o que nem pôde perceber, pois já passara das últimas.

Na segunda, todos foram às rampas e passarelas.
Viram o manto branco que sobre ela se fez sudário.
Viveram o baixo astral que sepultou o frenesi universitário.
Ouviram mil coisas a respeito, supuseram outras mil tão sem respeito.

Naquela segunda, os sinos não badalaram.
Mais alto gritaram as sirenes.
E mais forte giraram suas luzes,
em vermelho hemorrágico e aterrorizante.

Na segunda, uma cama dormiu vazia,
pois alguém escolheu dormir para sempre,
e escorregou, escorregou?, para a vida eterna.
Deslizando suave para não se sabe lá onde.

Foi sua última segunda.
Venceu a barreira que separa o aqui do acolá,
mas isolou-se pelo cordão de isolamento amarelo e preto,
que só os olhos ousaram atravessar.

Ninguém queria acreditar que, quando a tarde estava para cair, alguém preferiu se jogar.

Ninguém queria acreditar.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

CEDENDO LUGAR A UMA GRÁVIDA.

É... o assunto de ceder o lugar permanece rondando minha cabeça. Não levem a mal a ruminância.

Não é novidade dizer que no metrô, no ônibus, no trem e em muitos outros lugares da coletividade urbana há assentos especiais preferenciais para idosos, deficientes físicos, pessoas com crianças de colo e, é claro, para as gestantes.

Não é difícil identificar um idoso: cabelos brancos, rugas, dificuldade pra andar,... são muitos os índices, por mais que seja extremamente difícil precisar se alguns tem mais ou menos que 65 anos. Mas isso é irrelevante, afinal, se a pessoa está com certa dificuldade na locomoção, ninguém vai pedir o documento para comprovar a condição de idoso e assim ceder o lugar.

As pessoas com crianças de colo são o que? Pessoas com crianças de colo. Simples e objetivo.

Os deficientes físicos também se fazem visíveis, seja pelo visível ou pelo invisível: muletas ou membros amputados. Não vale falar cadeira de rodas, pois se o cara preferir sair da cadeira para ir para o assento, já começam a desconfiar, não é?

E uma gestante? Tudo bem... uma gestante com 8 meses fica bem fácil de identificar. Mas e uma gestante com seus 2,3 meses? Com 5,6 meses? Sempre que vejo alguém que tem pinta de gestante, fico muito receoso de levantar e ceder o lugar. Vai que ela é toda encucada com aquela coisa de que "gravidez não é doença"? Vai que ela vai descer na próxima estação e nega a gentileza, me fazendo ficar em pé que nem um idiota?

Mas não é esse meu medo. Eu realmente temo estar diante de alguém que nada está esperando, além do ponto ou da estação em que vai descer. Vai que a suposta grávida nada mais é do que uma gordinha? Não aquelas gordonas, mas uma gordinha, com aquela gordurinha localizada em formato próprio. Como é que eu vou saber? Vou olhar para os seios da mulher, para ver se eles estão inchados? Ai meu Deus, vão achar que eu sou tarado. Vou perguntar se ela é grávida? E se ela encarar isso como uma provação, uma ironia constrangedora?

Levanto ou não me levanto? Pergunto ou não pergunto? Na dúvida... Na dúvida, permaneço na dúvida. Fico a viagem inteira olhando para saber. Se é mesmo uma grávida, estou sendo um babaca. Ela ali precisando sentar, e eu em um conforto do qual sou menos merecedor. Se é só uma gordinha,... como saber?

Avalio mais a tal barriguinha. Não sou conhecedor nem médico, ora bolas. Fico torcendo para ela vomitar, para ela fazer um desejo ultra-especial para a pessoa ao lado, para ela acariciar a barriga com olhar sonhador, para ela atender o telefone e dizer que os dois estão bem, para alguma outra pessoa cumprimentá-la pelo ser vindouro, ... Fico torcendo para ela vir até mim em tom mal-educado - e que seja assim, então! - e falar: sou grávida, pode ceder o lugar para mim?

Nunca teria tanto alívio em ser mal-tratado. E ainda lhe daria os parabéns, do fundo do coração.


"CAUSO" DO AUTOR
No auge de seus 14 anos, Felipe Drummond perguntou à moça da ótica de quantos meses era o filho que ela esperava. Ele jurava que ela estava grávida, mas tinha tanta, tanta certeza, que nem cogitou a hipótese de ela não estar grávida. A resposta foi o "hein?" mais sem jeito e revoltado do mundo. Trauma contado. Próximo!

quarta-feira, 2 de abril de 2008

"JÁ ROUBEI NAS LOJAS AMERICANAS"

Não. Eu nunca roubei nas Lojas Americanas. Nem passou perto.

Como uma professora bem disse certa vez, o momento que separa o não-roubo do roubo é o da hora em que a torcida do Flamengo vem toda em cima de você olhar o que você está fazendo.
Eu realmente tenho medo da torcida do Flamengo, mas, mais do que isso, hoje incorporei o valor de não roubar como algo que independe do fato de alguém poder observar meu ato ou das possíveis sanções externas que venham a decorrer dessa incivilidade.

Muito me surpreendeu a existência no orkut de uma comunidade de nome "LOJAS AMERICANAS. VOCÊ JÁ FURTOU?", que reúne mais de 1100 membros numa celebração cinicamente ingênua ao ato ali glorificado de "subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel".

Não consigo ver orgulho nisso, mas tem gente ali com uma tremenda pose de malandro. Se a comunidade servisse apenas para as pessoas contarem peripécias de infância, como muitas realmente fazem, em que tal atitude não pode ser vista como mau-caratismo, mas como inconseqüência e imaturidade, até iria. Mas não. As pessoas, que certamente já não são mais crianças, ali contam o que fizeram na semana passada e o que ainda pretendem fazer.

Certas coisas me chamaram a atenção:

"O meu foi um cavaleiros do zodiaco isso foi a muito tempo, e quando muleque ja tinha as manhas todas, comprar besteiras para pegar a sacola e botar tudo dentro e sair na maior .. esse foi o meu maior furto e o seu ?" Anônimo.
Roubar brinquedo dos grandes já é sacanagem.

"La tinha bala a peso, eu pegava uns 50 gramas de balas pesava e pagava, depois com a sacola aberta eu topava de confeito e chocolates, qualquer coisa ja tava pago mermo. hehehe" Não-anônimo.
Juro que esse "hehehe" foi a pior coisa.

"Foi só uma vez qd tinha uns 12 anos, mas peguei sonho de valsa, batom, creme de cabelo e lápis de olho. Fui uma 2ª vez, mas fui pega! Nunca mais voltei..." Anônimo
A didática da sanção, vulgo aprender na porrada.

"Caraca, amei essa comunidade, pq eu e minha prima qndo eramos pequenas, tinhamos mania de comer tudo qnto era tipo de bala de lá, minha tia qndo nos via fazendo isso ficava pocessa da vida. Até q um belo dia fomos eu, minha prima e meu irmão, (mas nós exageramos na dose), cada um encheu q camisa q estava vestido (sem tirar a blusa) de balas, doces, chocolates e etc e saimos na maior cara de pau. Já na rua, qndo minha tia viu nossas blusas na mesma hora mandou-nos voltar. E o mico de devolver aquilo tudo, ai q horror, foi terrível, nunca mais me esqueço desse dia. Até hoje qndo lembramos disso ficamos rindo muito, mas na hora foi desesperador, mas passou e conseguimos entregar tudo (rsrsrs). Mas tb acho q a criança q nunca roubou uma juquinha se quer das lojas americanas, é pq não teve infância. Sem querer incentivar ninguém." Anônimo
Com essa tia, até o juiz Lalau devolve o que roubou sem pestanejar.

"tipo eh serio... fora um monte de balas e chocolates qnd vou pro cinema faço a feira o meu maior foi sei lah lembro mais naum" Não-anônimo
Repare no tempo verbal do verbo ir.

"peguei um mentos que já estava aberto e comi. dah um pso na consciencia, mas da proxima vez vou ver se dah pra pegar um inteiro, se tiver coragem eh claro! u,u" Não-anônimo
Não ficou satisfeito.

" ja roubei uam bola lah, eu lembro q a bola custava uns 20 conto!!auHAuahUAHuahUAHUa!!foi meu maior furto!!!" Não-anônimo
Legal hein cara!


"Gente naum é por nada mais acho que barrei vcs!!Começo com as guloseimas,parto p/ folhas de ficharios.canetas,lapiseiras(material escolar),produtos de beleza,bonequinho furby(custava na época R$150,00),cartoes de aniversarios.....que vergoinha,paro por aki!!" Não-anônimo
Bonequinho Furby já foi demais, convenhamos. Esses olhos vivos dele tem mais impacto do que "sorria, você está sendo filmado"

"Já roubeu bonecas, coisas da barbie, coisas para cabelo, mas hoje em dia não tenho mais essa cara de pau não." Não-anônimo
É realmente uma questão de cara de pau?

"mas um amigo meu já roubou 7 dvds em um dia só, e o amigo dele já colocou um dvd player que tava em cima das caixas dentro do bag do violao..." Não-anônimo
Diga-me com quem andas, ...

"porra ces são fracos... já roubei um dvd e um cd...é facil só raspar a paradinha do dvd(mas tem q ser vagabundo) com um cartão(tipo riocard q nem o meu) e pegar o cd pu dvd enfiar na mochila e sartar fora!!!!" Não-anônimo
Orkut, a escola do crime.

"um celular com um cartão de crédito fake ;X" Anônimo
Esse roubou as Lojas Americanas e mais alguém, né...

"Eu já catei um DVD lá mas não brigaram comigo pq sou filho do gerente" Anônimo
Santo de casa não faz milagre.

"Eu trabalhava lá e digamos q eu num gastava dinheiro com lanche... :D" Não-anônimo.
Esse merecia ir pro quadro "Funcionário do mês."

"para mim foi um cd do linkin park foi massa bote dentro da minha camisa de manga comprida o alame estava com defeito ai eu comprei um cd para a minha mãe ainda possima robei um cd do linkin park" Não-anônimo
Essa certamente me lembrou "meu guri" do Chico Buarque. "Chega suado e veloz do batente e traz sempre um presente pra me encabular."

"Ja tentei Sair Com um PS-2 mas o Seguranca Disse q eu so sairia se Pegasse Um pra ele xD Ai eh Fodz" Não-anônimo
É aquele papo: você tem que me ajudar para eu te ajudar.

"To pegando todo dia um boneco dos cavaleiros dos zodiaco, original. Que custam 110 reais. Furta e uma palavra muuito forte, vamos dz q eu to pegando oq a sociedade me deve ;D." Não-anônimo
Essa realmente me chocou. Como se não bastasse o ato de furtar ser praticado diariamente, como quem monta uma coleção, o rapaz ainda argumenta mal e porcamente de forma a tentar justificar seus furtos.
Aliás, começa dizendo que ele não pratica furtos, pois esse é um termo muito forte. Pô... vai dizer que é expropriação revolucionária? São outros tempos, meu camarada.
Vem o absurdo: ele só está pegando o que a sociedade lhe deve. Pergunto-me em que o rapaz foi lesado para merecer reparação? De que lógica ele parte... a lógica do pobre coitado? A lógica da compensação? Bem, acredito que lógica da compensação não parece ser válida se praticada de forma não-institucionalizada.
Mas então... desde quando a sociedade deve um boneco do Cavaleiro do Zodíaco a alguém? Daqui a pouco vem gente dizer que a sociedade deve um Rolex a todo mundo. Volto à pergunta: de que lógica ele parte? Não parte de lógica nenhuma, de ideologia nenhuma. Faz o furto e tenta justificar com qualquer porcaria de argumento. Totalmente ilegítimo. Meu Deus... quando eu leio esse ";D" minha raiva aumenta ainda mais.

Alarme PIPIPIPIPIPI de porta para todos esses aí. Tenha dó.
Que venha a torcida do Flamengo.


A SE PENSAR...
Porque o crime de pirataria, hoje tão comum e praticado, não é tão estigmatizado? De maneira essencial, ele é um roubo. No entanto, creio que ele vem se tornando legítimo, por significar fator de não-alienação cultural/informacional a muitas(quase todas) pessoas. Nesse sentido, para amenizar o problema, vale levantar também as iniciativas não apenas do Radiohead, com o inovador sistema de lançamento do último disco, como também das várias empresas que desenvolvem software livre e nem por isso logram insucesso financeiro.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

2BÁ

(COM O PERDÃO PELO ESTEREÓTIPO)

Clube de "elite" do Rio de Janeiro.
Aquele domingo ensolarado.
O parquinho é multicolorido.
As crianças refletem a luz.
As babás absorvem-na.
Hierarquia que se faz de acordo com absorção de luz?
Brasil!

As babás no clube de elite estão todas vestidas de branco.
Uniforme: proletárias. Alienadas?
As crianças brincam, se divertem, pulam e gritam que querem picolé e títulos de nobreza.
As babás os olham. Não olham seus filhos.
Seus filhos? Onde fica filho de babá?
Em clube de elite, certamente não.
Num confronto da "tropa de elite"? Seria azar.
No conforto do "videosurveillance for babies"? Babá eletrônica,não é mais fácil?
Sob a proteção do Estado? Em Estado/estado deplorável?
Na foto 3x4 dentro da carteira da mãe?

Babá olha filho dos outros.
Olha filho de/da mãe que tem que trabalhar.
Ela também é mãe que tem trabalhar.
E daí? E daí nada, ué.

Filho de babá não grita que quer picolé.
Nem nobreza togada ele pode ser.
Filho de babá, é filho de babá.
Recebe presente de segunda mão.
Já deve ter brincado de pião.
Já deve ter soltado pipa.
E talvez nunca tenha usado camisa pólo.

O parquinho tem dois bancos: um bom e um ruim.
É quase como comparar o Itaú Personnalité com o espaço debaixo do colchão.
No banco bom, ficam as mãedames, digo, madames.
No banco ruim, quem se senta? Babás, daqueles nomes estranhos, bem nome de babá, geralmente terminado em -ina.
Como não pode ser a fulana, vira a Fulina.

Ser madame não é muito difícil.
O reconhecimento se dá pelo flanelinha que fica em frente àquele restaurante que - um absurdo, amiga - ainda não descobriu o cômodo serviço de valet.
"Estaciona aqui, madame!"
(O trem superlotado mandou lembranças.)

Mas a madame gosta de estar bela.
Quem sabe um dia ela aparece na Caras, sendo lida por alguém no cabelereiro ou na privada?
As madames curtem bolsas de marca.
Usam óculos escuros para parecerem reservadas.
E às vezes tentam vestir umas roupas meio moderninhas para disfarçar a idade.
São as craques da jogatina suja que é o jogo de aparências.
São mães que muitas vezes não sabem botar a mão na massa.
Tem nojo de cocô de criança.
E não tem paciência para dar papinha, embora conheçam o tapinha.
É para fingir que educam.

Aquela colônia de madames conversa.
Uma comenta a última proeza do filhinho, que já sabe falar inglês e está com viagem marcada para a Disney.
Do outro lado há uma colônia de babás, que também conversam.
Uma comenta a última proeza do filhinho, que só verá na próxima folga, mas que já sabe falar planta ao invés de pranta, e que, de marcada, só a consulta no posto de saúde para o próximo mês.

Mães do mesmo jeito, embora uma delas não passe de uma mera progenitora.
Diametralmente opostas.
Separadas por um grosseiro abismo hierarquizante.
Empregadora e empregada.
Dominante e dominada.
Zara e Renner.
Débito e crédito.
À vista e promissória.
Medicamento de referência e medicamento genérico.

Uma é a high society. Ai, que chique!

A outra é só uma babá. Serviçal.
Pajeia o filho da high society quando o pequeno desfruta do mais alto grau de nobreza, no caso, de realeza: é quando ele está ao trono e desfere o verbo, em modo imperativo.
"Fuliiiiiiiina, vem limpar. Acabei!"

quarta-feira, 11 de julho de 2007

APARELHO DE FONDUE.

Maldito hábito de guardar as coisas e nunca usar. Acho que foi comportamento herdado dos egípcios, que levavam vários pertences para a tumba na esperança de usá-los em outra vida.

Fato é que o aparelho de fondue estava guardado desde 1984. Intacto, no armário lá de cima, aqueeeeele que ninguém nunca mexe, junto com vários outros presentes.

Presentes de casamento. O casamento aconteceu há 23 anos atrás. Amigos, parentes e etc. presentearam os jovens noivos com várias coisas para a casa. Jarras, talheres, cristais, pratos e também um aparelho de fondue importado. Ficou lá ele encostado.

Nesses 23 anos, muita coisa aconteceu. Viagens, brigas, encontros, desencontros. Filhos, claro, filhos, cá estou eu! Separação... nem tudo é pra sempre. Mudança de casa. Cada um para um canto. Os presentes foram parar com a noiva.

O aparelho de fondue, vocês sabem, ficou na casa da noiva, no tal armário. Armário quase intocado, como se guardasse um resquício de um passado talvez não muito bem assimilado. Estava lá, tudo embaladinho. A panela do fondue brilhante, sem uma ferrugem sequer, com seu cabo de madeira ainda lustrado. Quatro garfinhos, com pontas bem afiadas e cabo de madeira, também, cada um com uma bolinha de plástico de cor diferente em sua ponta. Bonitinho o detalhe. Estavam todos eles embaladinhos em papelão, bonitinhos, esperando quase que sentados para serem usados. Junto do conjunto, uns cinco potinhos tipo cinzeiro, pretos. Envoltos em plástico-bolha, o qual não tive coragem de estourar, lá estavam os potinhos coladinhos, também embalados em papelão. Esperavam a carne, o pão cortado ou as frutas a serem banhadas em chocolate.

A caixa do aparelho de fondue mostrava uma foto ilustrativa do que seria jantar fondue a dois. Duas taças de vinho, o fondue e a fumacinha saindo da panela. Colada na caixa, um adesivo da Roberto Simões (Presentes de qualidade, presente em Copacabana, Leblon, Ipanema, Centro, bla bla bla). Não achei a carta de votos de feliz matrimônio para identificar quem comprou o presente e acabei ficando na curiosidade.

Acabou que hoje eu precisei de um aparelho de fondue. Bem, eu sabia que havia um guardado lá no armário. Não hesitei em pedir, mas hesitaram em me atender. Depois de alguma conversa, consegui. Tão logo estive com ele em minhas mãos, bateu uma peninha de usá-lo. Bem... após esperar mais de vinte anos para ter sua serventia, ele já devia ter desistido de ser usado. Embaladinho, parecia estar em um sono profundo de decepção, de inutilidade.

Mas eis que eu o acordo. Tiro-o da caixa, desembalo tudo, lavo cada peça e o monto. Jogo álcool na parte de fazer fogo, acendo um fósforo, e ele começa a produzir calor e uma luz azul. A panela vai ao fogo e recebe aquele queijo meio estranho de fondue, que logo é derretido. Com os garfinhos, espetam-se pães que se lambuzam no tal queijo e vão à boca em deleite gastronômico. Os potinhos não foram usados, ficando para a próxima.

Acabada a comilança, vai tudo à pia . Detergente, esponja, muita esfregação, água e etc. E então estava tudo limpinho, pingando e escorrendo. O aparelho de fondue teve sua primeira vez, e agora estava ali, como qualquer outro estaria, esperando para ser guardado e utilizado em ocasiões futuras.

Será que ele ficou feliz? Ou preferiria o dito cujo ter ficado ali, guardado, embalado, conforme saiu da fábrica no início da década de 80? Época essa quando não havia internet, quando não havia celular, quando eu não era nascido... quando entre dois noivos ainda havia a magia de um casamento, de que hoje sobrou alguma amizade e vários presentes que, por razões adversas, não tiveram a oportunidade de serem usados. A amizade está guardada no coração (ó que piegas!). Os presentes, no armário lá de cima. Aquele tal armário, sabe?
Até quando, não se sabe.



Curiosidade: Minha avó, casada em 1956, ainda guarda presentes de casamento nunca usados. Suponho que isso seja uma forma de fazê-los ganhar valor de mercado para serem vendidos a um antiquário. Vai entender.

domingo, 28 de janeiro de 2007

A morte (alheia) - sic.

Se me perguntarem o porquê do sic ou dos parênteses na palavra alheia, respondo que é redundante dizer que falar sobre morte é referir-se à alheia, ou, do contrário, ousaria colocar-me no lugar nada verossímil de Brás Cubas, ao relatar suas próprias memórias póstumas no eterno clássico machadiano.

Vejo o quanto pretensioso seria eu falar sobre a morte em si, tanto se fosse para dizer que ela é um fim como se fosse para dizer que ela é um novo começo. Não falar sobre ela talvez trouxesse problema também, afinal, tem gente que encara sua própria morte com total indiferença. Mesmo assim não falarei, pois não quero expôr concepções que são mera questão de fé e fazer desse espaço um blog puramente catequista.

Falarei sobre a morte para quem fica, mas de um jeito leviano. Se querem saber, não tenho propriedade nenhuma para falar sobre esse assunto e escrevo por mero impulso. Ainda não perdi nenhuma pessoa próxima e, portanto, prometo que, se ainda mantiver esse blog quando isso acontecer, dar-me-ei ao trabalho de escrever sobre o mesmo assunto.

Dizem que quem fica é que sofre. Quem fica sofre, de fato, mas... quem garante que quem partiu não está sofrendo também? Essa questão é de jurisdição das religiões, e cada uma prega uma visão diferente sobre o assunto.

Quem fica, sofre. Mesmo. A sensação de perda evoca também outros pensamentos bastante penosos, dentre os quais destaco as saudades e o arrependimento.

Saudades. Por curiosidade, foi eleita recentemente a 7ª palavra mais difícil de se traduzir. Também deve ser difícil verbalizar as saudades em relação a um ente que se foi. São saudades bem duras, porque se sabe que a falta da pessoa tende a crescer com o tempo, porém nunca poderá ser saciada. Novamente, muitas religiões trazem perspectivas reconfortantes e consoladoras no tocante a essa questão, dizendo, por exemplo, que após a morte todos se encontram no paraíso.

Arrependimento. Nesse caso, do que se fez e do que deixou de se fazer. Sinceramente, não sei qual é o pior - nem se são diferentes. Emergem lembranças: palavras atravessadas, transfixantes, lançadas em momentos de raiva; brigas desnecessárias, que desgastaram a relação; mentiras que esperaram - e ainda esperarão, até quando? - esclarecimentos.
Vêm à tona os programas desmarcados por preguiça ou existência de outras prioridades, as vezes em que se preferiu ver TV ou sair de casa a ter a companhia do outro ou os desejos que eram sempre adiados.

Comparecer ao velório, ao enterro e às celebrações póstumas. Desnecessário descrever o quanto esse roteiro é penoso, especialmente nas suas duas primeiras etapas. Aparece a vontade - e a impotência - de devolver a vida à matéria já organizada, como alguém que, apertando o ON, energiza e liga um equipamento elétrico. Reles mortais não podem fazer isso. Por fim, há o último adeus, que, infelizmente, é sem resposta.

Igualmente ruim, deve ser lidar com os pertences do querido falecido. Olhar para a cama onde a pessoa dormia, para a escova de dentes que usava, para o guarda-roupas com muitas peças que marcaram dias especiais, para os manuscritos, documentos e outros cacarecos guardados para algum dia em que fossem precisos. Sentir o exímio poder do olfato de revolver lembranças ao , por exemplo, sentir o perfume que a pessoa usava.

Depois, as questões de herança, às vezes temperadas com desgostosas brigas familiares. Provar a lentidão da justiça com os trâmites do processo de inventário e ter mais esse aborrecimento.

Se o tempo não for o melhor remédio, certamente é um dos melhores. Com o passar dos meses e anos, o trauma do acontecido vai passando. As lágrimas que dele decorrem vão escasseando, embora as lembranças da pessoa e as saudades não se apaguem.

Preferimos nossa própria morte à daqueles que realmente amamos, afinal, sabemos que a segunda é suficientemente dolorosa, mas nada conhecemos em relação à primeira. No fundo, talvez haja alguma curiosidade em ver o que vem depois, se é que esse depois existe. Levando isso em conta, pode até soar egoísta preferir a própria morte à alheia, pois faremos os outros sofrerem.

Paro por aqui com essa vã discussão. Afinal, não importa quando, a morte inevitavelmente vai acontecer, e com direito a toda essa repercussão.

Para isso, Noel Rosa andou se precavendo. Em 1933, declarou não querer, quando morrer, nem choro, nem vela, mas uma fita amarela gravada com o nome de sua amada. Foi ele atendido?

(Ouvindo: Chico Buarque, Cazuza e etc.)