GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

epílogo epistolar

(setembro / 2010)

engraçado ver como você saiu mesmo da minha vida. hoje vi sua foto e olhei lá no fundo do brilho dos teus olhos: eles não mais me comovem, por mais enigmáticos que ainda possam parecer.

talvez você ainda me inspire este texto, mas sou só alguém que ri de uma desgraça superada. este texto não rende homenagens a você. ele é na verdade uma homenagem a mim mesmo: acho-me bom por ter saído fora do poço que você me significou.

tuas músicas não mais me tocam, nossos lugares não mais me mexem, tuas lembranças são neutras.

convivo com teus fantasmas como se ordinários fossem. também nunca esperei os esquecer de vez. eis que de repente, você está ali me olhando... mas eu só volto a viver. emito uma auto-nota de "i see dead people" sem me alterar em um batimento cardíaco sequer.

meu coração ainda se debate - ainda bem! - por mais que combalido: sinto-o pulsar como um ex-combatente que bem conheceu os horrores da guerra e hoje anda com mais calma.

minha sensação é a de final de filme, e agora me coloco a resenhá-lo, como se o fade out estivesse a se aproximar. fui o protagonista e - acredite! - o antagonista do meu próprio enredo, uma trama de romance que virou superação, exatamente no dia em que percebi que não era você a atriz principal, mas limitava-se a uma mera coadjuvante. a história era toda minha. o roteiro era todo meu. o conflito era todo meu, o conflito era todo eu.

sem mais delongas, esse óscar eu dou a mim mesmo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

desaprendi a curtir uma fossa

Desaprendi a curtir uma fossa e hoje me vejo no dilema: a fossa é melhor curtindo ou não curtindo?

Por muito tempo eu pensei que curtir uma fossa era algo que me tornava mais digno: era a solenidade moral de suportar a própria humanidade. Vítima da própria tragédia, sofrer enobrecia e me tornava altivo, e, como um título de capitalização, acreditava que cada lágrima derramada me contaria créditos para depois, na justiça divina das compensações, trocar por momentos de alegria. Escravo da fantasia, nada era tão alegre quanto imaginar um momento de alegria quando eu estava triste: um sorriso esboçado é como uma gargalhada, as cores são mais vívidas e o mundo é fluido.

Não sei mais o que é curtir uma fossa. Talvez porque a fossa mais fosse problema bioquímico do que os fatos e os acidentes da vida. Estar na fosssa hoje para mim é raro, o que é muito bom. Mas a mesma humanidade que eu suporto - e admiro - é inexorável em não fazer da felicidade uma constante. Do contrário, a própria felicidade não faria sentido ou não teria enlevo, pois que parâmetro haveria para ela se sobressair?

Não sei mais o que é curtir uma fossa. Simplesmente não sei mais escolher aquela música que me deixa reflexivo, complexo e mergulhado nos meus pensamentos. As baladas funestas de outrora hoje me soam artificiais: não consigo mais me enganar. O lirismo da poesia é forçado: o amor romântico é superado pela realidade, como se um filme de drama tivesse virado um documentário em primeira pessoa, nu e cru. As memórias não mais me comovem, os traumas estão bem resolvidos e as esperanças frustradas do passado viraram uma lembrança neutra de uma ingenuidade superada.

Hoje sofro como quem cumpre uma formalidade e enfrenta os ossos do ofício da própria vida, como alguém que encara o tráfego para voltar para casa ou que espera a fila do restaurante para conseguir uma mesa... Sofro de bom-humor, quase zombando de mim mesmo, como quem vive um pesadelo com a certeza de que é só um pesadelo. Como quem assiste agoniado um filme de terror, mas não perde a noção de que está diante de um filme. Sofro pelo suspense da vida, só para ter um pouquinho de emoção. Se antes curtir a fossa significava um momento estranho de alegria dentro de uma tristeza maior, hoje a fossa é a própria imperfeição da boa vida, a contingência triste da própria felicidade.

Sofro sendo feliz.

sábado, 14 de agosto de 2010

A-VENTURA DE NOVEMBRO

(nota: estou abrindo o baú)

(DEZEMBRO/2008)

A ventura de novembro mais foi uma aventura, ou, talvez, um devaneio do ingrato acaso, ao qual hoje rendo minhas homenagens por tamanha engenhosidade.

Fui flamenguista por um mês. E isso já diz muita coisa, embora nada houvesse de futebol no meio disso.

O prólogo da aventura se desenrolou num armazém em clima de luto pós-eleitoral que de pronto se reverteu tão logo foram despertadas as paixões íntimas, introvertidas, mas controversas. E depois, o encontro casual nos pirineus franceses da praia rubro-negra, lá do décimo andar, em que tudo era branco e macio sob uma bandeira do Brasil, com dores nas costas e olhares que se prolongavam em não quererem se desencontrar, pedindo o que depois, não tão depois, viria.

Um não tão depois que durou pouco menos que uma semana, algum tédio, e muita gastação de francês e cultura de cinema Estação. E tudo começou a acontecer numa sexta em que quase chovia, ainda que ninguém quisesse ir à praia ou à piscina, coisa de quem anda de mal com São Pedro, sempre a lançar suas maldições meteorológicas.

Uma sexta que não teve cinema no Estação, mas a distância das cadeiras azuis nocivas à coluna, ah minha coluna, e os papos alheios que envolviam viuvez, barcos e o tempo. Uma distância que foi se superando quando as mãos se aproximaram, quando a conversa convergiu e quando os olhares novamente se encontraram não mais querendo se desencontrar, exceto por uma vergonha boba, daquelas bem singelas, que encerram os sentimentos mais sutilmente gostosos que o ser humano gosta de viver, o que nos distrai e nos alimenta o inquieto comboio de cordas.

Por fim, e era só o começo, os olhos novamente se encontraram, sintonizaram-se como antenas da alma e fecharam. Fecharam porque se fizeram prescindíveis quando tudo o mais já estava junto, juntinho, e os óculos se encostavam, se tocavam, se estalavam e se embaçavam, como uma metonímia para dois intelectos que convergiam em carne. E dali foram para um céu de diamantes cafeinado.

O domingo estava de um sol maravilhoso, porque ninguém levou roupa de banho. A contradição estava no ar condicionado, na biblioteca e nos livros, que se venceram pelos sucos, pela pizza, pelo calor do outro, pelas obras da lanchonete, e pelo centro preto e seu sofá cultural, muito melhor, embora menos simbólico, que o banquinho de madeira duvidosa dali não muito distante.

Os dias seguintes foram os maravilhosos dias seguintes. Ora chuva, ora sol, algum descontentamento de São Pedro e de outro não tão santo assim. Vivia, sem me dar conta, uma contagem regressiva previamente anunciada, a qual eu ignorei em achando que comigo seria diferente. Uma contagem regressiva rumo a não se sabia quando, que degenerou em não saber como.

As mensagens, as entonações, os olhares, os beijos, os carinhos, os segredos, os "te adoro" e "psius" não ditos, mas sussurrados a um coração efervescente e enfeitiçado... tudo indicava o caminho de uma crescente entorpecedora, capaz de distrair, capaz de, por conta da dedicação exclusiva, fulminar o olhar atento de quem cria, como se a função poética tivesse sido emprestada a mais nobre serventia e em seu lugar entrasse, como mero tapa-buraco, a infrutífera e egoísta função metalingüística.

Os encontros no meio da semana, no corre-corre das semanas de provas, os almoços apressados, a ventania entre os dois grandes prédios anunciando o tempo a mudar... O namoro num dos parques da cidade, num sábado sabático que dormiu pouco para acordar cedo sobre os cacos da sexta que avançou incauta pela madrugada. O namoro nos banquinhos de madeira verdadeira, à sombra de um dia nublado e das árvores que o espírito pueril ousou escalar, sob uma chuva rala e fria que pedia licença poética para cair em tão caloroso momento.

O bolo estava pronto e nele faltava uma cereja. A cereja do pedido em namoro, que eu entendi como ato declaratório quando a todos, e a quem realmente importava, parecia ato constitutivo. A cereja da minha hesitação, que deveria ser posta em cerimônia, em grande momento... no grande momento que não chegou a acontecer. Hesitei porque estava certo demais de que aquilo derradeiramente aconteceria. Inundei-me por essa certeza e acanhei-me pela prudência da muita certeza: estava tão certo que eu duvidei. Foi esse o equívoco? Restará a duvida.

Novembro encaminhava-se para seu final e junto levava minha aventura a seu desgaste. O antepenúltimo dia do mês foi estranho. Era sexta, chovia e algo havia se desencontrado. Havia a gripe, o vírus, o RNA, o DNA e minhas palavras se desencontraram entre a suposta graça da piada e a frustração de uma lembrança.

O penúltimo dia do mês, que era para ser o sábado tão esperado de ir à praia, da praia a que São Pedro legaria todas as bênçãos, foi o dia da espera pela ligação, pela mensagem... o dia da ansiedade enlouquecedora que pôs na cabeça caraminholas como que em prenúncio ao que não muito depois se seguiria, como se "o deserto da espera tivesse cortado os fios".

O último dia de novembro foi o último em que as coisas estiveram bem, ou assim pareceram estar. É como aquelas melhoras súbitas do quadro clínico logo antes da morte. Um cinema, um passeio, um andar juntos sob um sol gostoso e uma brisa fresca, um passeio no aterro à procura dos banquinhos. Quando finalmente se achou um banquinho, dessa vez de pedra, vieram os beijos e os carinhos, que se deixaram constranger pelos olhares alheios, pelos cachorros passeando a esmo e por um batuque bate-lata de projeto social que perturbava os ouvidos e impedia - impediu - de se ouvir no coração do outro o batimento acelerado tuntz-tuntz, a rave cardiológica extasiada chamada paixão. E aí, quem sabe, surgiu a dúvida de se tudo isso ainda existia... é que no fundo pareceu haver só um silêncio.

Entramos em dezembro juntos, no computador. Um olhando a cara do outro, separados por um abismo chamado internet, sob uma certa estranheza que não se explicava. Um olhar perdido, uma palavra que não encontrava eco, um sorriso que não alcançou lugar, um encanto a esmorecer, como se o que se tinha de melhor estivesse escorrendo implacável por mãos fechadas. Fomos dormir, talvez fosse só uma fase.

Em dezembro não haveria mais ventura nem aventura. A segunda-feira de primeiro de dezembro teve cara de hiato: o dia que antecedeu o fim, que antecedeu a terça e nada mais.

E a terça, enfim... a terça em que a velhinha de que mais gostava no meu prédio morreu, o dia em que se completaram vinte anos da morte do meu tio, o dia em que eu armei pela primeira vez uma árvore de natal na vida, numa ironia do destino, do ingrato não-tão-ingrato acaso ao qual eu novamente rendo minhas homenagens.

A terça-feira encerrou o último capítulo e iniciou o epílogo da aventura não mais venturosa: um dia lindo, um passeio lindo... o sal foi até o açúcar. Fingindo-se gringos e destilando nosso francês mais uma vez, fomos às alturas, e lá do alto, tão distante da cidade, dos carros e das pessoas, foi-se vendo o quão distante também estávamos um do outro. De repente, não mais que de repente, as mãos não mais se achavam, os olhares se encontravam e logo se perdiam e as palavras doces não mais reverberavam. O sal fizera-se amargo, azedo, intragável. Depois, um almoço no lugar dos barcos, da viuvez e do tempo. Comi risoto e ela foi nos salgadinhos mistos, então para quê mais o sal? Fui feito redundante.

E depois bateu um sono e uma preguiça de tudo, até de irmos até o banquinho de madeira duvidosa onde tudo havia começado. E aí fomos para os pirineus franceses, de táxi, um ao lado do outro, íamos para o mesmo endereço, mas já trafegávamos caminhos diferentes. Saltamos e caminhamos paralelos, mas separados por um muro invisível, estranho, que instigou a dúvida e culminou na pergunta: "o que aconteceu?" e na resposta: "não sei." E o silêncio. Havíamos chegado e eu esperava que ela subisse para trazer minha mochila que eu preferi não carregar (talvez já soubesse que o dia seria pesado demais) para então poder ir para casa.

Minha mochila veio junto com um pedido de tempo. Um tempo que eu não entendi. Um tempo que não era grandeza primitiva da física e talvez mais fosse uma sutileza literária, um eufemismo para outra coisa que ali não era evidente. Um tempo para resolver toda uma confusão na qual eu não conseguia acreditar. Conversamos brevemente e nos entreolhamos no que não parecia um término, mas um entreato. Seguimos em direções opostas, às vezes olhando para trás.

Nos dias seguintes... ah, deixa para lá. Os dias seguintes já mostravam um dezembro consumado, uma tragédia em que eu não quis acreditar: episódios almodováricos demais para minha hollywoodiana previsibilidade do inusitado e conversas perdidas em um palácio do governo sobre uma situação já tão desgovernada, com direito a batuque bate-lata perdido e a uma curiosa, simultaneamente literal e figurada, pedra no meio do caminho.

Os dias seguintes foram a esperança se esvaindo a cada dia, à medida que o acaso se revelava mais irreverente, ingrato, confuso, louco... ou talvez o louco não fosse o acaso... ou o acaso nada mais fosse do que loucura. Ou nada era verdade. Não sei.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

VACILO

abati-me porque sou humano. e nem o ano novo me fará mudar. e nem uma roupa nova me fará mudar. e nem um carro novo. e nem uma viagem maravilhosa. e nem uma menção honrosa. e nem a mega-sena acumulada (há quem duvide...). e nem um texto libertador. e nem um filme esclarecedor. e nem uma nova profissão de fé. e nem um novo deus.

abati-me porque sou humano: pleno na consciência de um vazio... que às vezes parece cheio por já conformado ou por inconsciente, distraído.

abati-me. e nem as drogas me farão mudar. e nem as farras me farão mudar. e nem as gatas me farão mudar. e nem os amores antigos, mesmo que ressuscitados ao auge.
já os amores novos, quem sabe...
e o tempo, talvez...

que até lá eu não tenha perecido, pelo menos.

sábado, 10 de outubro de 2009

A ESPERANÇA E A CERTEZA

A esperança deve ser algo como uma versão mais modesta da certeza. Quase um artifício retórico para não soarmos tão pretensiosos. Digo isso porque a esperança também convence nosso querer e nosso pensar... é a grande fomentadora de ilusões. E porque a certeza é uma grande desilusão, embora, sem se perceber, seja também um pouco iludida: pensa-se não haver mais dúvidas em relação a um futuro ou a um quase-presente... mas o futuro é o reino do incerto, nele o que fazemos é passear nas nebulosas aléias da alea.

A esperança e a certeza, ambas trazem um certo frisson: uma é a expectativa da confirmação e a outra é o medo de dar errado. Mudando o que se deve mudar, é um pouco como aquela história de copo meio cheio e meio vazio. Tudo depende do ponto de vista, que por sua vez depende de como acordamos no dia, o que pode inclusive estar relacionado a como o dia está: a quantidade e a posição das nuvens são variáveis desse resultado.

E a vida às vezes me parece um pouco como a previsão do tempo, na verdade. Nenhuma relação entre o presente-vivido e o amanhã-esperado é conclusiva. Sempre há alguma esperança ou alguma certeza de que amanhã vai fazer um sol maravilhoso, quer se anuncie o dilúvio, quer se anuncie a calmaria. Fato é que a nossa vontade e o nosso agir também contam um pouquinho para mudar o rumo das coisas. O quanto, eu não sei. Eu ainda não acho que sou São Pedro, mas já venho lá reduzindo minha emissão de CO2 para o tempo não ficar tão catastrófico. E diante da tempestade, sempre tem a possibilidade de se ir para uma cidade onde está fazendo muito sol. As vezes ela nem é tão distante...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

SAUDADES

(ou "evadir-se")

porque não ficaremos o dia inteiro sentados olhando a vida passar,
enchendo o copo, conversando e ruminando o assunto.
bebendo o líquido da fonte inesgotável,
que o bom futuro não há de secar.

mas nossa saliva antes secará,
deixando com sede os que nos amam.
e nossas pálpebras fecharão nossos olhos especulares,
(ou antes terão a clemência de fechar nossas pálpebras...)
e não mais seremos reflexos perambulantes,
escancarando verdades a quem quer que nos veja,
mas incapazes de vermos nossas próprias verdades.
porque, agora, ainda estamos por detrás dos olhos,
vitrais brilhosos de círculos concêntricos e cores personalíssimas,
e porque lá fora é mais claro: ainda é dia.

mas o dia em crepúsculo anunciará o breu,
em conclamação tácita a que acendamos nossas luzes.
porém, um dia, apagaremos...
e aí tentarão nos ver, mas nem sombra seremos,
e tentarão nos escutar, mas só ouvirão o eco minguante que restou ao ouvido,
e tentarão nos tocar, mas as mãos modelarão o ar em curvas corpóreas,
e tentarão nos cheirar, mas enganar-se-ão com o perfume enfrascado,
e tentarão nos provar, mas as bocas restarão aguando.

gritarão
chorarão
vão se comover...
vão se lembrar?
ou vão se esquecer?

e imaginarão, só imaginarão... sem perceber.
e isso, por ora, lhes bastará.
pois seremos sem estar-aqui ou sem estar-aí.
seremos estando-ali ou acolá, não importa onde será.
e inundar-se-ão de um "nós" impalpável, mas inebriante.
pensarão que estarão conosco, quando na verdade estarão sozinhos.

mas, certa hora, findará esse doce engano,
que traveste em infinita a duração de infinitésimo do homem.
e aí nada mais seremos que saudades.
(e assim ficamos para a semente.)

terça-feira, 9 de junho de 2009

DEVE HAVER ALGO DE ESPECIAL ME ESPERANDO LÁ FORA.

Deve haver algo de especial me esperando lá fora. Sei lá o que pode ser, talvez algo que vá mudar minha vida, meu dia ou meu minuto. O importante é que mude e que, de alguma forma, me faça sentir prestigiado por aquilo que eu não controlo: as oportunidades. Criar oportunidades não é possível exatamente. Na verdade, o que se faz é deixar a cisterna aberta e esperar que chova, ou tirar as roupas do varal por conta da mesma chuva. Sempre dependemos da chuva, mas nem sempre ela nos alcança. Pior é que, às vezes, ela até nos alcança, mas não estamos preparados para ela naquele momento, ou, se estivermos, ela pode vir numa dose que de remédio vira veneno.
Alcançar a medida certa e sinérgica é um esforço colossal. Primeiro, tem-se o desespero de ficar olhando a todo minuto a previsão do tempo, achando que ela, como um oráculo, nos permitirá optar com antecedência pelo melhor caminho. Depois, é o peso de ter que carregar todo o dia o guarda chuva na mochila, pois aquele dia poderá ser o dia, ou de se ter que ter um protetor solar a mão, sempre, pois a possível trégua da chuva ao sol é convite tácito e irresistível à praia.
Deve haver algo de especial me esperando lá fora... ah, deve! Banho de sol ou banho de chuva. Ah, deve!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

VIGÍLIA.

Não pode mais ser você a  dignitária de meus sonhos, nem por seu veneno transformá-los de súbito em pesadelos, quando tomo a consciência de ser tudo aquilo quimera mera vivida como realidade sem verdade. Ou não seriam?

Você não é mais você, porque sua pele não mais está encostada à minha, nem minhas mãos acariciam mais sua nuca quente, e nem meus dedos passeiam e se entrelaçam em seus fios de cabelo levemente suados. E não mais estamos levemente distraídos.

Você não é mais você. Você hoje é só o que eu guardei, o que eu lembro. Você não é mais física, é psicológica. Você não é mais objeto, é projeção. Você não é mais sujeito, você hoje é tão somente seus predicados que em mim restaram como um souvenir de desventura.

Porque você não é mais você, tornou-se mera experiência sensorial. Nessa linha tênue que separa o ser do sentir ser, o númeno do fenômeno, é que me deparo com a dúvida e o desespero de se estar sonhando ou se vivendo. Não porque não sonhamos enquanto vivemos, afinal, não somos somente matéria certa, localizada e determinada. Nem porque não vivemos enquanto sonhamos, pois ainda temos sensações, sentimentos e verdades durante o sono.

A questão é se mais vivemos ou mais sonhamos. E o ponto mais crítico é passar de um ao outro. Descobrir que o que achávamos que era vida era sonho, e que o que pensávamos ser devaneio era vida. Passear pelas esferas da realidade e da fantasia, conjugadas à da verdade ou à da mentira. São as quatro nebulosas e indeterminadas. E entre elas nós tão somente oscilamos, errantes, ainda achando que beliscar-nos a qualquer hora vai nos dizer em qual delas estamos: a realidade mentirosa, a realidade verdadeira, a fantasia verdadeira ou a fantasia mentirosa.

Na ignorância de onde estamos, simplesmente escolhemos onde queremos estar. Escolhi que ali estava sonhando com aquilo que em outro momento escolhera ser verdade. Mas porque hoje escolhi que não é mais verdade, o sonho virou pesadelo. Mas saber que se está sonhando ou pesadelando é como estar dentro de um simulador maravilhoso ou aterrorizante com a mão preparada para, a qualquer momento, apertar o botão de emergência. Apertei o meu.

Meus olhos se abriram, mas o coração continuava disparado. A luz entrou por minhas pálpebras cegando-me, mas ainda pairavam as imagens que estava vivendo. O cheiro da manhã buscou meu nariz, mas ainda era seu perfume que monopolizava meu olfato. Eu tentava ser eu, sozinho, na cama, mas ainda era eu, com você, dentro da minha cabeça.

Mas tudo isso foi cessando e eu, que tentava atônito buscar seu perfume nos recônditos da pele macia de teu pescoço contorcido em júbilo, percebi que era eu que estava deitado, contorcido, retorcido e distorcido no meu ser.

Despertei, como quero despertar a cada segundo, e ainda vim glamorizar via palavras essa desgraça, partilhando-a. Quem sabe, com ela fora de mim, talvez seja mais fácil eliminá-la...

domingo, 21 de dezembro de 2008

VOLTEI.

Há quase dois meses não publico, à exceção de uma passagem justificando a ausência de um mês, que melhor e de forma mais bela se explica pela seguinte passagem, do texto que me consumiu as últimas duas semanas e que definitivamente não se encaixa no propósito desse blog (ou pelo menos se insere no que eu não quero para o blog) e portanto não será publicado (publicado em agosto de 2010):
"... tudo indicava o caminho de uma crescente entorpecedora, capaz de distrair, capaz de, por conta da dedicação exclusiva, fulminar o olhar atento de quem cria, como se a função poética tivesse sido emprestada a mais nobre serventia e em seu lugar entrasse, como mero tapa-buraco, a infrutífera e egoísta função metalinguística."
Entenda o tudo como o que hoje é nada.
Mas não importa: estou de volta.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

fossa dominical

domingo é um dia perigoso.
não é à toa que no calendário ele vem marcado em vermelho.
é quase como se a folhinha dissesse: perigo!

domingo é aquele dia que você acorda tarde e cansado.
é o dia para pagar a conta do sábado.

no domingo, você já acorda para o almoço.
se fizer sol, pode até rolar uma praia.
mas se fizer chuva... é aquela preguiça.

ficar em casa no domingo é realmente complicado.
talvez seja gostoso pegar um livro e observar a chuva caindo em preto-e-branco.

computador e domingo são mistura letal: não só o domingo é perigoso.
MSN, orkut, joguinhos quaisquer... ultra-tedioso.

televisão e domingo parecem tanto combinar...
faustão, gugu, sílvio santos, fantástico....
e agora nem tem mais o topa tudo por dinheiro.

domingo para muitos é o dia do futebol.
de se preparar para zoar ou ser zoado pela semana em razão do seu time.

domingo é o dia daquela fina melancolia que pode se avolumar em depressão.
e domingo é a véspera da segunda, que já fica decretada desde a hora em que termina o fantástico.

domingo é o dia do descanso. domingo dormindo.
mas domingo também é o dia certo da insônia.

domingo é o dia de ir a missa.
a quem se importar.

domingo é o dia que começa tarde e acaba cedo.
é de forma alguma dia útil.

domingo é a fossa. quase séptica.
você fica pra baixo e se encontra na merda.

os domingos deveriam estar mais bem sinalizados.
estar em vermelho não basta. precisam estar em baixo-relevo.
e quase furando o papel.