GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

sábado, 1 de maio de 2010

caritas et scientia

(homenagem ao colégio santo agostinho - leblon)




O azul do céu virou nostalgia desde que eu te deixei - daqui a não muito vai fazer três anos!
Como são tão parecidos, às vezes...

Tua foto colada em meu mural é a melhor máquina do tempo que eu já vi e vivi. Uma máquina do tempo sensorial, algumas vezes sinestésica. Não olho nos teus olhos, porque não tens olhos. Não vejo o teu sorriso, porque não sorris. Mesmo assim te encaro. Contemplar-te é, na verdade, ver a mim mesmo, um eu congelado no passado, mas que dialoga com o que aqui escreve. Tua imagem é como um espelho, estático, e por ser assim me serve de referencial: vejo como mudei... Entretanto, o menino que lá entrou aos 7 anos muito guarda em comum com o rapaz de 20 anos e algum juízo que aqui te escreve: te admira e te ama.

Meu primeiro dia entre seus muros, não me custa tanto lembrar, serviu-me para dimensionar o quão grande e imponente eras - e ainda és. Colossal em espaço para uma criança que só conhecia quintal: aquele pátio era um novo horizonte. Eu que havia sido o mais velho no jardim, virei o mais novo na imensidão daquela floresta de um só coqueiro, que dali a não muito nem mais existiu.

Aqueles onze anos foram da descoberta mais genuína que eu já vivi. Descobri a mim mesmo. Descobri a ti e a teus corredores. Descobri - e daí o meu amor - o quanto de ti existe em mim. Descobri até um pouquinho - se assim me permitir a modéstia - do quanto de mim também existe em ti.

Conheço cada um dos ladrilhos de tuas salas: azuis, verdes e brancos. Conheço tuas carteiras, os chicletes que elas guardam por debaixo, os rabiscos e desenhos daqueles que não conseguiram deixar suas marcas de outras formas, teus atalhos e teu (complicado) modus operandi. Conheço cada um de teus bebedouros e sei até qual tem a melhor água. Ah, a tua água...! Não há água melhor no mundo, confesso.

Conheço tua história, teus ritos, teus maneirismos institucionais e teus problemas - não são poucos, eu sei. Sei que se fosses perfeito, não serias perfeito para mim: não seria eu mesmo se não fossem teus problemas. Com eles aprendi e cresci. Também com meus problemas também cresci: superá-los foi muito mais fácil porque pude contar com as tuas soluções e tua dedicação determinada. A ti serei grato eternamente.

És ao mesmo tempo casa e família. Abrigas sob teu teto os que se amam (e te amam) e serves para sempre de pretexto - e contexto - para que se amem (e te amem) e se conheçam mais. Nos teus corredores quentes e em tuas salas gélidas (o ar-condicionado era sempre um problema...) fiz os melhores e mais fiéis amigos, e fiz a presunção esperançosa de que a amizade durará transcendentalmente pela existência. Quanto aos amigos que não fiz, sei que se esbarrar com eles pelos caminhos da vida teremos um traço comum muito marcante, que significará muito mais do que termos frequentado um mesmo lugar.

Se as amizades ficaram, ficarão e virão, não posso dizer o mesmo quanto às paixões. Ora fulgazes, ora longevas, não sei se pela adolescência ou pela essência do conceito de paixão, marcaram a poesia do meu sentimento. Nenhuma correspondida de verdade, eu lamento, mas vividas na intensidade que lhes é própria: tu eras para ser o cenário de meus romances nunca encenados.

A foto ainda me transporta. Só vejo tuas paredes, teu concreto, teus vidros do último andar e o corte que promoves no céu pela perspectiva que busquei. É... não imaginei quando te enquadrei em minha lente que dali sairia o teu retrato oficial para meu coração. Mas só capturei tuas paredes e teu concreto, opacos à primeira vista. Não é verdade: teu concreto é transparente e através dele eu vejo todos aqueles que eu aí conheci, para além dos colegas: vejo meus mestres, não apenas os de sala-de-aula, vejo os funcionários. Alguns já partiram, mas não tem problema. Tu também já partiste em alguma medida e nem por isso exististe menos para mim. Olho-os por através das paredes e é como se eles estivessem acenando para mim e eu para eles, todos nós emocionados. Consigo imaginar alguns sorrisos e sentir o carinho, embora pareça haver alguma distância (sei que estou imaginando) entre nós. Tenho vontade de dizer "quanto tempo!".

Ainda me lembro do último dia em que estive aí na qualidade de aluno. Foi dia 30 de novembro de 2007. Não que eu tenha deixado de ser teu aluno: hoje sou "antigo aluno". Foi um dia de nostalgia antecipada: por tanto que eu te amava, sabia o quanto doeria te deixar. Mas era uma dor gostosa, uma dor de missão cumprida, de sucesso e de plena satisfação. Chegara a hora de me irradiar para fora de teu domínio restrito, de teu ninho quentinho que nunca me deixou em apuros. Sabia - e reitero diariamente esse saber - que mesmo as águias mais altaneiras têm para onde voltar. És minha referência, minha melhor referência, porque és necessária, e não contingente. És essência, e não circunstância.

A foto é espelho e o seria do mesmo jeito ainda que o papel não refletisse a luz do dia ou o brilho dos meus olhos que se avolumam de água. Contemplo-me em ti e vejo meu coração, onde resta gravada indelevelmente a tua nobre divisa: amor e ciência. Os dias passam e ela só faz cada vez mais sentido em minha vida. Entôo teu emocionante hino, emocionado. Amor e ciência. Minha nostalgia é minha identificação: no que te sei, me sei. E por te saber, te amo.




1997

2007

Formatura

Esse cartaz se direcionava aos futuros alunos, mas a mensagem me serviu 110% bem.

11 comentários:

Paula Flores disse...

Precisava ser a primeira a comentar aqui. Drummond, às vezes você me espanta, se superando a cada texto. Estou inchada até a alma aqui, de tanto chorar. Lindo. Faço das suas palavras as minhas, quanto a você e à nossa segunda casa. Por te saber, te amo.

Fernanda Lucia disse...

Seu olhar sensível percebe nuances e observa detalhes que tocam indelevelmente .
A emoção é grande....Paulinha tem razão !
Você engrandece as palavras e faz uma homenagem às lembranças de todos nós ! Amo você !

Alvaro disse...

"És essência, e não circunstância." - pra mim essa é uma das frases mais inspiradas do texto: traduz em poucas palavras sua idéia central. Parabéns pela coragem. *Isso* é um texto "com alma". Coisa rara hoje em dia.

Anônimo disse...

Muito lindo e emocionante. Um colégio que forma,prepara e acima de tudo nos transforma.
Faço também de suas palavras as minhas,parabéns pelo texto.

Marina Simão disse...

Lindo, Felipe. Um dos seus melhores textos. Fiquei emocionada de verdade.
O CSA é ainda uma grande parte de mim. Embora não tenha estudado lá durante toda a minha vida escolar, sinto como se ELE é que fosse meu chão, minha referência de ensino, meu professor de vida.
Parabéns.

José Vitor disse...

Faz muito tempo que não nos vemos, ou sequer nos falamos.
Mesmo assim, ainda mais depois de um texto excepcional como esse, eu tenho certeza que nossa amizade, construída e fundamentada nessa nossa segunda casa, é verdadeira.
São laços para sempre que nem o tempo apagará.
Belíssimo texto, Drummond!
Parabéns
do eterno amigo

Pilar disse...

Muito bom o texto Felipe! Acho que traduz muito bem a sensacao que temos em relacao ao colegio. Amo o CSA, um lugar no qual eu me sinto em casa, e ao qual sinto falta de ir todos os dias.

Gabriel de Jong disse...

Sensacional! Me senti na sua pele em alguns trechos e fiz flash-backs do tempo em que passei por lá, a minha ex-2ªcasa, que deixa com cada um de nós, não só o aprendizado, mas esse sentimento tão gostoso de se reviver... são tantas lembranças. Pura emoção. Muito bom primão.

Gustavo Cury disse...

Muito Bom o texto, gostei bastante.

Tati Martins disse...

Ainda estou com os olhos embaçados. Sua emoção transpassa as linhas, seu texto está vivo, assim como seu amor pelo CSA.
Foi muito bom lê-lo. Você sabe que já não estou mais lá, mas sinto um grande amor por aquele colégio, apesar de todos os seus defeitos e barreiras.
Um beijinho!

claudio araujo disse...

É um texto maravilhoso. Parabéns.