GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

VIGÍLIA.

Não pode mais ser você a  dignitária de meus sonhos, nem por seu veneno transformá-los de súbito em pesadelos, quando tomo a consciência de ser tudo aquilo quimera mera vivida como realidade sem verdade. Ou não seriam?

Você não é mais você, porque sua pele não mais está encostada à minha, nem minhas mãos acariciam mais sua nuca quente, e nem meus dedos passeiam e se entrelaçam em seus fios de cabelo levemente suados. E não mais estamos levemente distraídos.

Você não é mais você. Você hoje é só o que eu guardei, o que eu lembro. Você não é mais física, é psicológica. Você não é mais objeto, é projeção. Você não é mais sujeito, você hoje é tão somente seus predicados que em mim restaram como um souvenir de desventura.

Porque você não é mais você, tornou-se mera experiência sensorial. Nessa linha tênue que separa o ser do sentir ser, o númeno do fenômeno, é que me deparo com a dúvida e o desespero de se estar sonhando ou se vivendo. Não porque não sonhamos enquanto vivemos, afinal, não somos somente matéria certa, localizada e determinada. Nem porque não vivemos enquanto sonhamos, pois ainda temos sensações, sentimentos e verdades durante o sono.

A questão é se mais vivemos ou mais sonhamos. E o ponto mais crítico é passar de um ao outro. Descobrir que o que achávamos que era vida era sonho, e que o que pensávamos ser devaneio era vida. Passear pelas esferas da realidade e da fantasia, conjugadas à da verdade ou à da mentira. São as quatro nebulosas e indeterminadas. E entre elas nós tão somente oscilamos, errantes, ainda achando que beliscar-nos a qualquer hora vai nos dizer em qual delas estamos: a realidade mentirosa, a realidade verdadeira, a fantasia verdadeira ou a fantasia mentirosa.

Na ignorância de onde estamos, simplesmente escolhemos onde queremos estar. Escolhi que ali estava sonhando com aquilo que em outro momento escolhera ser verdade. Mas porque hoje escolhi que não é mais verdade, o sonho virou pesadelo. Mas saber que se está sonhando ou pesadelando é como estar dentro de um simulador maravilhoso ou aterrorizante com a mão preparada para, a qualquer momento, apertar o botão de emergência. Apertei o meu.

Meus olhos se abriram, mas o coração continuava disparado. A luz entrou por minhas pálpebras cegando-me, mas ainda pairavam as imagens que estava vivendo. O cheiro da manhã buscou meu nariz, mas ainda era seu perfume que monopolizava meu olfato. Eu tentava ser eu, sozinho, na cama, mas ainda era eu, com você, dentro da minha cabeça.

Mas tudo isso foi cessando e eu, que tentava atônito buscar seu perfume nos recônditos da pele macia de teu pescoço contorcido em júbilo, percebi que era eu que estava deitado, contorcido, retorcido e distorcido no meu ser.

Despertei, como quero despertar a cada segundo, e ainda vim glamorizar via palavras essa desgraça, partilhando-a. Quem sabe, com ela fora de mim, talvez seja mais fácil eliminá-la...

9 comentários:

Terra disse...

QUÊ?!

Sr. Despedaça Corações disse...

Se o Amor ainda existe, ela será eterna.
Não depende de você.
Nunca dependeu.

Ótimo texto.

João Manoel Nonato disse...

Felipe,

O texto está maravilhosamente confuso e lírico, num tom ao mesmo tempo nostálgico e esperançoso, impulsivo e pensado; dor e superação andando juntas e se alternando. Uma cura abrindo outra ferida, e assim sucessivamente. É exatamente como um sonho, ou um pesadelo. É como a própria vida e suas surpresas.

Surpresas essas que não escapam aos seus olhos nem à sua pena. Pena que nem todas sejam boas surpresas. Mas sua triste inspiração é meu deleite; sua dor, posta em palavras, torna-se meu prazer; você é como um mártir literário, e eu, um sádico leitor. Por isso egoisticamente satisfaço-me ao me deparar com um poema (em prosa) como este, tão belo, tão triste, tão sincero - ainda que isso seja a consequência direta do seu sofrimento.

A verdade é que situações ruins todos temos, mas apenas uns poucos sabem transformá-las em arte. E, por fazê-lo de um jeito tal que apenas poucos entre esses poucos conseguem, você merece meus parabéns mais fervosoros.

De resto, torço para que possa escrever sobre sonhos melhores num futuro próximo.

Grande abraço do amigo,
João Manoel.

.luísa pollo disse...

às vezes não acho meu botão de emergência. provavelmente porque o que acho ser sonho é realidade.

ah,
pelo título.

Paula Flores disse...

Me emocionei.
Por você, por mim.
Obrigada pela perícia extrema - que só poderia ter vindo da sua pessoa - da qual você se utiliza para sempre escrever exatamente sobre o que você sente, mas esse foi demais. Me atrevo a dizer que foi o melhor texto seu que eu já li, desde que eu te conheço. Pela qualidade enquanto texto, pelo emprego das palavras, pelas descrições e definições que elas trazem mas, não só por isso; por traduzir uma angústia sua e minha, por você e por mim.
Obrigada, de verdade.
Salvei esse aqui nos meus arquivos.
obs. Quanto à parte final, não digo nem "eliminá-la", mas aprender a conviver com ela, como temos feito a cada dia (falo por mim, pelo menos).

samanta fonseca disse...

lindo.

fabiana disse...

adorei. apesar da tristeza, a sinceridade é impressionante. Você traduziu o que muitos sentem, mas não conseguem colocar em palavras (concordo com o João Manoel aí). E também foi bom lembrar que também tenho um botão de emergência, bem colocado...
xx

Isadora Garcia disse...

Adorei o texto! Você escreve maravilhosamente bem!

leticia disse...

Felipe, você é impressionante! Não é surpresa descobrir que você escreve lindamente, sua inteligência é quase tangível.
Que maravilha saber que és um poeta, e ainda por cima, muito romantico.
Combinar as palavras, fazê-las se encontrar e formar um poema é tarefa para poucos.
Você e Carlos não tem só o sobrenome em comum.
Parabéns.
Um beijo da sua vizinha.