GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O TAXISTA QUE NÃO DEU PAPO

Li certa vez, se não me engano foi no blog do Bruno Medina, tecladista do Los Hermanos, que papo de taxista é o último aliado daquele que escreve crônicas. Tudo bem que os tímidos ou reservados dificilmente terão a chance de perceber que uma corrida no táxi significa muito mais do que se deslocar com grande custo de um lugar para outro, mas aqueles que gostam de puxar um papo certamente sabem o quanto os taxistas tem muito a acrescentar. (Vale dizer, tem até o blog de um taxista gaúcho , o Taxitramas. Leitura extremamente recomendada!)

Especialmente no Rio de Janeiro, onde a simpatia, a cordialidade e a "intimidade com estranhos" (aliás, título bem interessante do novo álbum do Frejat) são valores sempre em voga, é quase certo que alguma inserção pequena de assunto descortinará uma longa conversa. E os taxistas, como trabalhadores que passam grande parte do dia num carro celebrando a aleatoriedade da companhia, com várias pessoas "nunca antes vistas" (pareceu discurso do Lula) entrando e saindo de seus carros, sempre acabam tendo algo interessante para repassar do que ouvem ou do que vêem.

Assim que entro num táxi, trato de puxar assunto, principalmente quando estou sozinho. Não entra na minha cabeça a possibilidade de ficar vinte minutos dentro do carro com alguém sem trocar uma palavra que não a informação da rua para onde estou indo. Já chego perguntando há quanto tempo a pessoa trabalha em táxi, se gosta, o que fazia antes, se já foi assaltado, que coisas engraçadas já aconteceram e etc. O taxista geralmente se sente super prestigiado, afinal, tem alguém interessado em saber o que ele tem a dizer, e talvez seja naquela hora que ele entenda porque não preferiu ser maquinista de trem ou motorista de ônibus. No táxi, não tem o aviso ingrato de "SÓ FALE AO MOTORISTA O INDISPENSÁVEL".

Já ouvi muita história interessante de taxista. Teve um que teve o carro roubado três vezes no mesmo ano, teve outro que disse que não fica com mulher com "kit" (depois ele foi explicar que "kit" é filho de outro casamento). Até história dramática já ouvi: separação com traição, demissão do emprego de anos, ...

Mas nada em momento algum me chocou mais do que a história de um taxista que também era policial e contou a seguinte saga: trabalhando no táxi, foi assaltado certa vez, no que o levaram por algumas horas para um cativeiro e lhe fizeram várias ameaças , o que ele chamou de "tremendo esculacho". Obcecado pelo que lhe aconteceu, o taxista policial ficou por cerca de três meses passando diariamente no horário e no local onde tinha sido abordado, procurando pelos criminosos, até que um dia encontrou seus malfeitores. Contou o taxista: "Aí eu peguei eles e resolvi ajudar a família deles". Até eu entender o que aconteceu, minha ingenuidade já havia me custado meia hora.

E todo esse bla-bla-bla foi, na verdade, para contar a história que não houve. Numa das maiores corridas que eu já fiz, aquela que tinha em potencial um loooongo causo a ser desenvolvido, o taxista simplesmente não deu papo. Perguntou para onde eu ia com voz seca e cansada. Respondeu monossilabicamente à primeira pergunta, com uma voz de enfastiado que inibiu qualquer diálogo. Falei do tempo, e ele limitou-se a fazer uhum. Falei do Botafogo, e ele disse que não gostava de futebol. Botava um ponto final em todas as frases... é, mas diálogo se faz de reticências. Nada mais falei. Vim da Barra até a Zona Sul olhando desolado para a janela. Paguei a corrida e dei um boa noite, no que mal fui respondido.

Mas é o que eu falei no início... taxista e crônica combinam enfaticamente. Veja você... até taxista que não dá papo enseja uma crônica!

5 comentários:

Boninha disse...

Hahaha... muito bom! Mas vou confessar que, na minha qualidade de pobre, minhas histórias sempre vêm de ônibus.

Sempre!!

Beijo

rubel brisolla disse...

Há quanto tempo não comento aqui! Muito bom o texto do taxi, me identifiquei bastante. Eu acho sensacional história de taxista, eu até ia te contar agora uma muito boa que eu conheci, mas acabei esquecendo uns detalhes importantes e preferi deixar pra lá!
Abraço!!

Julia Leal disse...

Num entendi bem o que aconteceu no final da historia do taxista quando encontrou os bandidos =/

samanta fonseca disse...

ensejo é tudo.

quase nunca dou papo pra taxista. mas tenho meus motivos ;p

Caronte disse...

Cara... cheguei atrasado nessa do taxista, mas considero um dos meus hobbies bater papo com taxista. E, pra melhorar, essa semana peguei um taxi de Ipanema pra Barra surreal. Depois eu te conto com detalhes, mas, digamos que o taxista era frequentador de festas liberais para casais. Me senti fazendo um curso intensivo na parada... muito trash! =p