GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

PET SHOP BOY

- Olha, mãe, que bonitinho.
- É minha filha, veja que fofinho.

O menino estava sentado na calçada, à penumbra das luzes das ruas e das vitrines. Seu olhar era distante e sua fisionomia era abatida.

- Mãe, porque ele está sozinho?
- Porque ele vai ser vendido, oras.

O menino não tinha pais. Não os conhecera. Vivia sozinho. Não estava acostumado a carinho, nem a atenção. Era só mais um infeliz, como muitos, tentando ser indiferente à própria vida e à própria realidade, pouco lhe importando se o destino lhe seria favorável ou excludente.

- Mas ele não sente saudades dos pais?
- Mas ele é bicho, Carolina!

O menino também não sentia saudades dos pais. Como poderia tê-las, se nem os conhecera?
Se ele era bicho, talvez Manuel Bandeira dissesse que sim.

- Porque ele está tremendo de frio?
- Porque deve estar frio lá dentro.

No frio da rua, o menino também tremia. Não só de frio, mas de fome e de desespero. Não tinha agasalho, não tinha atenção, não tinha escola, não tinha dignidade, não tinha alguém que com ele se preocupasse, não tinha teto, não tinha aquele edredom para noites geladas, nem a sopa quente e nutritiva que vovó faz.

- Vamos comprar, mãe?
- Tá maluca, Carol? Não tem como levar não, deixa que outra pessoa compra e cuida.
- Ahhhhhhh... por favor, por favor!
- Não. Agora vamos embora.

E foram-se embora sem notar que ao lado da vitrine do pet-shop, onde ali estava um exemplar de fofura vendido por não menos que um salário mínimo, havia um menino. Um menino sem fofura, um menino que nem salário mínimo valia, mas que também estava sozinho, não tinha pais e tremia de frio.

Por ser menino, por estar no escuro ou por ser só mais um entre muitos meninos desse Brasil, passou despercebido.
Talvez se fosse cachorro, numa vitrine, iluminado e em destaque, alguém lhe desse atenção.

Invejando uma vida de cão, o menino deitou-se no chão, encolheu-se de frio e fechou os olhos, desejoso de que na próxima encarnação nascesse cachorro.

3 comentários:

Paula Flores disse...

Nossa, Drummond. Espetacular. Um dos que eu mais gostei, sério. Realmente um assunto muito delicado. Beijos.

Julia disse...

Bem interessante

claudia disse...

felipeenho, muito legal e verdadeiro. deve ter ate mais gente adotando animal abandonado do que criança...bjs