GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

quinta-feira, 12 de abril de 2007

NO CONSULTÓRIO (particular)

Em geral, tudo começa com uma dor. De cabeça, de estômago, na articulação, de cotovelo,... não importa. Detectada a irregularidade, é hora de averiguá-la e tratá-la. Ansiedade pelo diagnóstico, preguiça de ter que fazer algum tratamento, medo de tomar injeção ou de ter que operar, ... especular não adianta, é preciso ir ao médico.

I. A ESCOLHA
Por indicação de conhecidos, unidunitê no livro de credenciados do plano de saúde ou método diferente, escolhe-se o médico com quem será feita a consulta, a ser marcada por telefone.
- Consultório do Dr. Epaminondas Silva, bom dia. - atende a secretária, com voz cansada quase-simpática.
- Bom dia, eu gostaria de marcar uma consulta...
[...]
- Só tem quarta-feira, às 3:00.
- Tudo bem.
- Então está marcado, senhora. O endereço é Rua Bla bla, 123, sala 321.
- Obrigado e confirmado.

II. A PROCURA
Papel à mão com o endereço anotado, busca-se o prédio do consultório. Acompanhante? Sempre, afinal, diante da possibilidade de não ter boas surpresas durante a consulta, é bom levar um ombro amigo para dar apoio moral.
Acha-se o prédio, que é grande, com várias salas. Elevadores? Em geral dois, que andam sempre lotados. Só em um há ascensorista, responsável por ouvir os andares e apertar os botões respectivos, sem esboçar qualquer reação facial.
Chegando-se ao andar, é hora de procurar o consultório. Olha-se de porta em porta, verificando a plaquinha. Médicos, dentistas, advogados, psicoterapeutas, portas sem plaquinhas (aí podemos imaginar mil coisas... serviço de acompanhantes? contrabandistas?), olha ali o Dr. Epaminondas!
Diante da porta, respira-se (suspira-se?) fundo. Após captar coragem, dedo em riste rumo à campainha.

III. PRELIMINARES
A eternidade entre o "dlin-dlon" e o girar da maçaneta pelo outro lado é considerável, tempo capaz de se pensar em mil coisas, na vida e no futuro que pode selar aquele médico em cujo consultório se entra.
A secretária, cuja aparência física fantasiava-se através da voz, dá o ar da graça com um "boa tarde", ou, se estiver ocupada ao telefone, o que não é raro, limita-se a sorrir.
Na sala de espera, outras pessoas: moças com crianças pequenas, senhoras arrumadas e senhores engravatados, com pasta no colo e olhar cansado. Em geral, folheiam alguma revista de amenidades, como Caras ou Veja.
Basta entrar no recinto para que todos se voltem à nova presença,. Em seguida, os olhares retornam ao desencontro típico de sala de espera. Quem está acompanhado, fala aos sussuros. Quem está com criança, divide o tempo entre controlar o pequeno e tentar ler alguma coisa. Quem tem a pasta, pigarreia. Na verdade, todos podem e costumam pigarrear, basta que estejam um pouco nervosos e/ou tenham algum problema de garganta.

Em certa hora, alguém acaba puxando algum assunto, algo como aquelas conversas vãs de elevado que versam sobre o tempo, sobre o último eliminado do Big Brother, sobre o babado da semana, ou sobre a revolta com a situação social do país (discussão regada a muitas frases feitas, é claro).
Mas tudo é interrompido pelo barulho da porta da sala o médico e a saída de um paciente. Logo em seguida, a secretária chama outra pessoa que estava na sala de espera. Essa se levanta em meio ao silêncio recém-instaurado, e dirige-se à famigerada sala. As conversas voltam, as leituras voltam e a paciência começa a se esgotar, o que não acontece completamente, afinal...
Um tempinho depois, a pessoa que entrara sai. Poucos segundos passam e seu nome é chamado pela secretária. Chamada estranha, não assimilada rapidamente, afinal, não é uma chamada de escola para verificar presença, nem uma chamada de ganhador do sorteio. É a chamada para entrar na sala do médico, pô!

III. A HORA H
O traseiro é retirado da cadeira cinematograficamente e, já de pé, o andar é firme e obstinado. Da cadeira à porta da sala do médico, metros transformam-se em milhas. Os ouvidos parecem captar a Marcha Imperial do Star Wars, dando àquele reles trajeto ares de desfile cívico.

Pensando com seus botões, talvez nem valha a pena fazer todo esse drama só porque a doença pode estar perto, sendo um fino couvert para a morte.Vai que o médico fala que está tudo bem e que a dor é só impressão? Mas... e se o médico for incompetente e não souber diagnosticar direito o problema? E se a doença for desconhecida no mundo médico? E se os remédios forem caros demais? Pois é... tudo isso pode acontecer, como pode não acontecer. A ansiedade é grande, mas você está ali, pertinho de saber o que aparentemente virá.

Finalmente, entra-se no consultório. A varredura visual é instantânea e tão cedo se acha, em meio a porta-retratos, livros, plantas, móveis e bugigangas diversas (em geral, presentes de pacientes como vidros, cinzeiros, portas-lápis e etc) um ser trajando jaleco de um branco impecável abotoado sobre camisa social, de humor minimamente simpático, de feições esperançosas, de grafia cursiva incompreensível (que se projeta invariavelmente sobre canetas de mais de 20 reais - eles não usam BIC) e, claro, de uma praticidade à toda prova.
O resto, sinceramente, é plenamente variável. Como eles mesmos gostam de dizer, cada caso é um caso. E o seu caso, não vem ao caso agora. Mas para o texto não ficar perdido, ao acaso, vamos supor que você só precisa tomar um remedinho que se compra na farmácia ao lado, e tudo se resolverá. E, claro, tem que voltar no mês seguinte.

IV. RELAX! (nem sempre)
Despedidas cordiais, votos de boa-sorte. A sala do médico é deixada pra trás e mais alguém da espera é chamado. A secretária gentil se volta para você e lhe pede a carteirinha do plano de saúde. Não tem plano? Pagamento à vista ou no cartão, sem problemas.
Efetuado o pagamento, volta-se à porta. E da porta, vai-se ao elevador. Do elevador ao térreo. Do térreo a farmácia. Da farmácia para casa.
Felizmente, o diagnóstico foi reconfortante: nada de grave.
Poderia não ter sido assim. Quem sabe aquela saída o guiasse ao hospital mais próximo com uma cirurgia de emergência? Quem sabe aquela saída o levasse à Igreja para pedir pela saúde? Quem sabe aquela saída o levasse ao show do My Chemical Romance, patrocinado pela Softy Kid's, fabricante de lenços de papel?
Cruzes! Deus me livre e guarde! Daqui a pouco isso vira caso de psiquiatria...


(espero, um dia, fazer a intratextualidade de escrever a mesma crônica sob a ótica de um usuário do SUS, mas infelizmente não tenho - e não pretendo ter na pele - essa vivência)

4 comentários:

Tati Martins disse...

Amei sua crônica, aliás, suaS crônicaS. Você tem realmente o dom de escrever. Essa capacidade de enxergar o cômico nas situações mais trágicas é fantástico. Parabéns!!!

Ah! Você é um dos maiores culpados dessa minha atual "nóia". Foi você quem me introduziu nos prazeres do orkut, agora venho descobrindo a arte, também extremamente prazerosa, dos blogs.

'Devo agradecer ou não? hehehehe Isso é um vício!

Daniel disse...

Viu... até nas crônicas as pessoas preferem os médicos. :p

O que você descreveu, em alguns pontos, é o típico médico de convênio ou o médico desorganizado/mercenário. Não que estejam errados, mas, não sei se você já teve a sorte de ir a um profissional que seja bom, te atenda na hora e não tenha problema de conversar com você, por uma hora inteira, seja pelos sintomas e problemas que você tem, ou sobre vinho, teatro, etc. (Meu clínico geral é assim! :p).

Abraços.

Paula disse...

Cara, adorei esse, Drummonzinho. Brilhante. "O traseiro é retirado da cadeira cinematograficamente", achei isso muito bom! hauahha
beijos querido, passei aqui para ler um pouquinho e te elogiar, como o de costume (acho que vou criar raízes aqui, esperando um texto que um dia eu vire e fale "ah, desse eu não gostei". raízes bem BEM grossas. ;]).

Natália disse...

Hehehehe... O pior é que a pura verdade!


Posso te confessar que eu tenho um certo receio de médico.