GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

IDADES, SUPLÍCIOS E ELEVADORES.

Joãozinho tinha se atrasado para sair de casa e estava afobado para chegar logo à escola e não perder a prova do dia. Fechou a porta e esperou impaciente o elevador ir ao seu andar.
Bastou o elevador chegar para que tivesse a ingrata surpresa de ali encontrar aquele vizinho cinquentão e seus assuntos sem assunto. Pois é, papo de elevador é pura função fática fadada ao insucesso. Quando não se fala sobre o tempo, sobre corrupção na política ou sobre o cansaço da vida moderna, repousa sobre o ambiente um silêncio irritante.

Joãozinho morava no prédio desde que nasceu e todos o viram crescer. De uma criancinha que vivia com a fraldinha cheia, virou um rapaz não muito alto. Fato é que os vizinhos costumavam associá-lo, sempre, à primeira impressão ("a primeira impressão é a que fica") que tiveram: a criancinha de fraldinha. E dali vinha não só o apelido no diminutivo, como também o discurso batido, tanto dentro do elevador, como dentro do prédio, na rua ou no supermercado, ...:
- Mas como você está grande! - Tá crescendo, hein? - Vai chegar ao teto! - Já tá um homem!

Joãozinho já estava acostumado. Não havia uma pessoa que falasse coisa diferente, fosse adulta, fosse idosa, fosse homem, fosse mulher. E todos o viam com certa freqüência, de forma que não havia como haver tanto espanto com seu crescimento, que, aliás, já havia dado uma séria desacelerada havia algum tempo, estando quase imperceptível. Ele reconhecia o carinho das pessoas e a falta de assunto melhor, mas, como não tinha palavras insossas à altura para responder tais comentários, limitava-se ao sorriso amarelo sem-graça, quase envergonhado.

Na pressa daquele dia, a lei de Murphy fez-se presente. Mal entrara no elevador, mal cumprimentara o tal do cinquentão, mal apertara o botão para a portaria, quando o elevador deu defeito, parou e os dois vizinhos ali ficaram presos. Joãozinho viu que iria, de qualquer jeito,, perder a prova e tratou de se acalmar, afinal, era só fazer uma segunda chamada, daria até para estudar mais.

E ali estava Joãozinho, com o vizinho cinquentão no elevador, na tal situação do silêncio fastidioso. (Antes que vocês pensem que vai rolar alguma pederastia na situação... não, não vai.) Eis, porém, que o cinquentão decide quebrar o silêncio, mostrando sua linguagem de cinquentão pseudo-antenado em tendências jovens.

- E aí parceiro, agora vamos ter que esperar.
- Pois é... - falou Joãozinho sem jeito.

Ficaram dois segundos ouvindo o eco de palavras jogadas ao ar, esperando que alguém retomasse o verbo. Pensaram, pensaram, e não veio assunto à cabeça. Falar do tempo? Ah, hoje está sol, mas é dia de semana, que diferença faz? Falar da corrupção na política? Bah, coisa de revoltado ou de nerd. Falar do cansaço da vida moderna? Isso é coisa de velho, o que Joãozinho de fato não era, e que o cinquentão tentava a duras penas abafar. E, depois de alguma reflexão, surgiu o tal assunto.

- Mas como você cresceu, hein rapaz?
- Pois é...
- Tomou fermento?
- Não, que isso.
- Tá fazendo alongamento?
- Faço não.
- Tá tomando hormônio?
- Preciso não. - respondeu Joãozinho. Caraca, que saco. Precisava ele explicar que há uma coisa hipófise, que produz uma coisa chamada somatotropina que promove uma coisa chamada crescimento?
- Quando eu era moleque, a gente não era grande assim não. É que a alimentação da geração de vocês é muito diferente. Tem tanta gente com mais de dois metros. Aliás, você já pensou em jogar basquete ou vôlei?
- Nada... fico só na pelada, mesmo.
- Ahn, sei, só na pelada. Revista de mulher pelada, você quer dizer?

Joãozinho riu desconcertado. Que ele lá tivesse suas Playboys ou suas fotos e vídeos "impróprios" no computador, mas o que haveria de ser falado naquela hora? Que ele realmente adorava deleitar-se com tal tipo de material? Perguntar se o tiozão queria emprestado? Respondeu quase constrangido:

- Ah, também, né!
- Ahnn... sei. Mas você está com que altura? - perguntou o tiozão, mostrando ser ruminante no aspecto assuntos e conversas.
- Quase um metro e oitenta.
- Nossa, até ontem você era um bebê, andava no carrinho! E por falar em outro carrinho, já tirou carteira?
- Ainda não, só faço dezoito no final do ano.
- Dezoito anos, já vai poder comprar Playboy legalmente! Haha, que barato! - o cinquentão comprovadamente ruminava assuntos.

Joãozinho já estava de saco cheio daquela conversa, quando lembrou que o elevador possuía alarme. Apertou-a imediatamente, desviando-se de qualquer assunto que o vizinho levantasse. Pouco lhe importava ficar preso naquele elevador, mas estava desesperado para fugir daquela conversa circunstancialmente impreterível. PIII PIII pra cá, PIII PIII pra lá e o elevador por aparente milagre voltou a funcionar.

Chegaram ao térreo e, quando iam se despedir, Joãozinho foi importunado por mais três moradoras, três velhinhas, que esperavam o elevador parado com sacolas de compras do supermercado.

- Mas era o menino que estava aí preso, coitado! - ressaltou uma delas, logo em seguida vertendo sua fisionomia para o espanto de quem vê tudo mudado - Meu Deus, como você está crescido!
- É mesmo, Bete! Lembro de quando lhe comprei um chocalho para o chá de fraldas, e olha como ele está agora! - endossou a outra.
- Mas está uma gracinha, deve estar fazendo um sucesso entre as meninas da classe! - apostou entusiasmada a terceira idosa.

Já era muito para Joãozinho. Não bastasse o cinquentão, que àquela hora já sumira de seu campo de visão, agora vinham aquelas doces senhoras com suas amáveis palavras. Pobrezinho... ele não era tão grande, ele não lembrava do chocalho e muito menos era tão popular assim entre as meninas.

- Meu filho, você pode nos ajudar a subir com as compras?
Joãozinho respondeu positivamente, afinal, já não ia mesmo para a escola e de nada custava ajudar aquelas velhinhas. Cumprido o favor com carinho, voltou para casa, no que a mãe o atendeu com feição aborrecida e desatinou a falar após reputar como lorota a tentativa de explicação que lhe foi dirigida pelo filho:

- Mas você já é quase um homem, tem que se programar para imprevistos. Veja, você não é mais aquela criancinha que precisa ficar sendo acordada, lembrada, conduzida. Quase um homem!

Depois de tanta aporrinhação, Joãozinho trancou-se no quarto impaciente. Revoltado como adolescente, ranzinza como um velho. Não mais sabia o que era. Quase um homem, talvez.

3 comentários:

Mitidieri disse...

é papo de elevador é foda.
ahuehauheuaheuaheuaheua

Paula disse...

"Antes que vocês pensem que vai rolar alguma pederastia na situação... não, não vai"
hauhauha
Gostei, querido. Principalmente do desfecho. A conclusão do garoto sobre as questões existenciais que surgiram na cabeça dele. Os mais velhos, às vezes, são muito ambíguos e essa ambigüidade pode nos confundir. Até descobrirmos o que somos por nós mesmos. Beijos

João Manoel disse...

"papo de elevador é pura função fática fadada ao insucesso"

hahahaha.
o melhor é mesmo ficar calado. pode parecer falta de educação, mas pelo menos seus nervos não são postos à prova.