GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

sábado, 9 de dezembro de 2006

PISANDO EM FEZES.

(está longo, mas vale a pena ;-)

Andar pelas ruas é, sem dúvida, um prato cheio para fazer observações antropológicas de todo tipo. Fazê-lo em Ipanema então, nem se fala. São dondocas, executivos, estudantes, funcionários itinerantes (office boys), camelôs, fazedores de porra nenhuma e até mesmo marginais desfilando sobre as calçadas desse famoso bairro da Zona Sul carioca. Isso sem falar, é claro, nos cachorros, tanto os vadios quanto os de madame, que não raramente empesteiam as ruas com seus dejetos mal-cheirosos e horrivelmente pastosos.

E eles foram os culpados. Caminhava com um amigo no sentido Copacabana quando quase preenchi com substância castanha as reentrâncias da sola de meu tênis. Por sorte, percebi o que havia no chão e desviei a tempo. Ainda assim, me surpreendi, afinal, não é todo dia que se encontra uma senhora quantidade de fezes caninas no meio da calçada da principal rua de Ipanema, a Visconde de Pirajá.

Meu instinto sádico-observador, que em raras vezes se manifesta, aflorou na mesma hora. Com a quantidade de gente que passava, fatalmente "alguéns" iriam pisar naquela caca toda e, quando isso acontecesse, poderia presenciar a reação de cada pessoa e descrevê-la aqui no blog, com direito aos detalhes mais sórdidos. Tratamos de entrar numa galeria que tinha uma sacada da qual podíamos assistir, de camarote, o desfile alheio rumo à bosta. Só faltava pipoca e refrigerante.

Aquela massa castanha clara concentrava-se em duas porções razoavelmente grandes, situadas próximas uma da outra, que reluziam levemente a um sol vespertino de quase-verão carioca. Nossa mãe... quem fora o dono mal-educado e infeliz que deixou seu cachorro defecar ali e, pior, nem teve o cuidado de limpar o feito? Não me importava, no momento.

Estávamos ansiosos e assistíamos àquele espetáculo como quem via uma partida de futebol: emoções e mais emoções.
Primeiro, os chutes para fora: na correria do dia-a-dia, muitos passaram por ali sem dar a mínima para onde pisavam mas, por sorte, não pisaram no cocô. Ahhhh!
Depois, os chutes na trave: havia quem chegasse bem perto mesmo, quase em tangente, mas não o suficiente para fazer estrago. Uhhh!
Por último, defesa brilhante do goleiro: houve um cidadão que conseguiu pisar, precisamente, no limpo espacinho entre as duas porções do material... salvo pelo anjo da guarda!

Passaram dondocas, estudantes, fazedores de porra-nenhuma, pessoas com carrinhos de criança, idosos (gostaríamos de poder poupar esses dois últimos do dissabor de uma bela pisada) e nenhum assumiu a artilharia. O desempate, porém, ainda estava por vir.

Homem, 30 anos, talvez drogado, talvez prostitúido... não sei. Vestia roupas escuras e andava bastante rápido, em largas passadas. Estava em rota de choque e não percebeu, até que deu mau passo (não interpretem mal, por favor). Queria ter uma microcâmera situada próxima ao local do ato para ver o sapato do moço indo de encontro a maciez pastosa do barro e, se possível, também um microfone, a fim de captar aquele barulho que vocês conhecem muito bem e para o qual não encontrei nenhuma onomatopéia aceitável (talvez ploft?).

Goooool!
E ele não saiu para a comemoração. Aliás, quem comemorou fomos nós, sádicos espectadores daquele show escatológico que, àquela altura do campeonato, fazia-nos rir sem parar. A pressa do elemento era tão grande que, mesmo percebendo que pisara onde não devia, não se permitiu parar de andar para olhar a sola de seu calçado, mas, enquanto caminhava, levantou o pé rapidamente e olhou de relance para o material que ali se acomodara. Por uma fração de segundo, fez cara feia, proferiu algum palavrão indecifrável e continuou sua marcha como se nada tivesse acontecido. Deixou para limpar depois, talvez quisesse perfumar algum ambiente com aquele cheiro bastante aprazível. Mas a bola bateria na rede mais uma vez...

O próximo infeliz entrou em palco meio desajeitado, cansado, trajando uniforme de carteiro e portando encomendas à mão. Parou na calçada e olhou em volta como se procurasse o número do prédio. Não conseguindo ler, deu um passo a frente, colocando um de seus pés bem do lado de uma das porções do digníssimo excremento, sem ali encostar, porém. Posicionou-se diante do gol para cobrar um pênalti. Novamente, olhou para o número do prédio e, dessa vez, conseguiu fazê-lo. Aliás, naquele mesmo prédio ele faria sua entrega.

Decidira para que canto do gol iria cobrar a penalidade máxima. para dali provavelmente partir para a comemoração. De rumo tomado, só faltava dar o primeiro passo. O carteiro ajeitou o pé, levantou-o lentamente para, em seguida, confirmar o placar de 2x0 após uma belíssima pisada, da qual não se deu conta.

Nosso carteiro atacante seguiu em direção ao prédio sem olhar para o sapato ou sentir o fétido odor do produto final do metabolismo digestório canino (bela perífrase para cheiro de m**da). O gol fora marcado por acaso e continuava despercebido.

A torcida, confortável e cheirosa em seu camarote, continuava a rir sem parar, mas o espetáculo ia terminando por ali. Depois de duas pisadas homéricas, registradas de maneira científica na memória e, agora, nesse blog, era hora de ir embora e seguir nosso rumo anterior, não sem, antes, tirar com o celular uma foto daquela caca toda. (não postei a foto por preguiça de pegar o cabo do celular e etc, perdoem-me!)


O texto poderia acabar aqui, como mais uma descrição de fatos cotidianos, a exemplo do que vinha fazendo nas últimas mensagens. No entanto, vou acrescentar alguma coisa.

II. BREVES ACRÉSCIMOS

Comparar o caso de pisar em fezes com as adversidades que a vida nos traz (ou presenteia, como diriam alguns) pode soar muito forçado, aliás, eu mesmo acho isso de leve. No entanto, foi uma metáfora que encaixou minimamente naquilo que lhes trago hoje.

No curso da vida, cada vez mais rápida, somos eventualmente atrapalhados por obstáculos. Alguns deles nos param de verdade. Alguns lerdam nossa caminhada. Outros não atrapalham de cara, mas "grudam" e continuam ali, latentes, para, a qualquer hora, virem à tona e "federem".

Esses que grudam e ficam latentes são os que, em geral, nos pedem decisão, situação essa que não é das mais fáceis.

Tem gente que prefere seguir adiante com o problema, fingindo que ele não existe. Por preguiça, medo ou domínio da situação (ou a impressão de), arrisca-se a deixar que o problema se potencialize, cresça, e depois vire uma grande questão a ser resolvida.

Tem gente que adota medidas paliativas, tirando o excesso do problema (em linguagem metafórica, tira-se o excesso dos lados, mas deixa "algo" na reentrância da sola do tênis), mas deixando parte significativa lá, que continua na ameaça de eclodir e deflagrar uma crise. Talvez, seja a medida mais sensata, desde que, depois, na hora apropriada, resolva-se a questão por inteiro.

Há, ainda, os prevenidos (talvez perfeccionistas), que, mesmo sem estarem se incomodando diretamente com o problema latente, param tudo na hora e se dedicam a resolvê-lo totalmente, a extingui-lo por completo e eliminar qualquer chance futura de complicação. Cortam o mal pela raiz, mas muitas vezes o fazem em horas inoportunas e dão ao caso prioridade desnecessária, o que não raramente atrapalha outros passos da caminhada.

Cada problema, porém, pede uma conduta individual, e decidi-la requer bom senso, experiência e conhecimento da questão, o que muitas vezes acaba constituindo-se num novo problema. Vale, portanto, o conselho Hipoglós: "é melhor prevenir do que remediar".

Em outras palavras, meus caros leitores, olhem para o chão e desviem da m****.

_________________

PS: Desculpem-me o atraso para novas postagens, mas atualmente estou lento para escrever, mas acredito que tem coisa boa vindo por aí.


(Ouvindo: muita, muita coisa)

18 comentários:

livya caldas disse...

ta aí,
nunca parei pra assitir as pessoas passarem por um ''metabolismo digestório canino'' ahahahaha! muito bom! =)

mari mari disse...

uma descriçao quase obsessiva mas muito boa e bem feita xD

gostei das consideraçoes finais mas tenho que dizer que os prevenidos me incomodam em alguns casos =P

muito bom, felipe xD
beijo

Anônimo disse...

olha.
amei.
gargalhei mesmo.
mas a "lição de vida" à moda de stan, do south park foi a melhor coisa.
antes mesmo de chegar a essa parte eu já tinha pensado na minha solução particular: lavaria meu sapato no mar, que não é muito longe dali.

agora.

você que é sádico: arruma um saquinho e limpa, pô!

Sweet disse...

interessante demais, as usual :]

apesar de jah ter conjeturado o texto mesmo antes de vc confeccionah-lo ateh o último paragrafo da narrativa :D


adorei a metáfora, encaixou perfeitamente :D
mas talvez vc tenha se eskecido dos de fato prevenidos, aqueles que naon deixam a oportunidade de um anúncio sonoro de um blosh embaixo de seus pés acontecer, vivendo quase que numa paranóia. aqueles que adotam a perfeição como estilo de vida, o que acaba se tornando no final (ou em qualquer espaço de tempo) uma imperfeição nata. aqueles que se sepultam do mundo para ter talvez uma vida perfeita, longe toda possível bosta na calçada, que almeja ser desunida e levada com qualquer indivíduo que procure esse obstáculo para chorar ou rir no final de tudo e todos. :]

Mitidieri disse...

Enfim

Olhem sempre pra m***a, ele é importante
E não falem muita m****, só o suficiente pra adubar sua mente XD

Levy disse...

Haha, você é mau, hein? Coitado do carteiro, trabalhando... Mas pior mesmo é o prédio em que ele fez a entrega, hehe. :P

Ah, coloque a foto do cocô, aposto que todos aqui estão curiosos, haha.

Lex disse...

HEAUheuheUheauae Show de Bola!!!! =D

marcella =) disse...

A M E I .


ah . e podia ser diferente?

Marcello disse...

Cara, voce escreve muito bem sabia? heauheuaheauea muito engraçado o texto, e tambem a ultima frase concluindo os breves acrescimos hahahah

ligia disse...

a onomatopéia ideal seria SBLOSH. =)

tiz . disse...

... e temos aí mais um texto do drummond com grande estilo!

Interessante,cômico e ESCATOLÓGICO!

hahahaha parece até comentário do 'The New York Times' ...

mt bom mesmo dru! e quanto aos seus BREVES ACRÉSCIMOS... não, não foi uma metáfora forçada!


beijão, e como sempre digo, te admiro muito!


tiz .

tiz . disse...

AH! só mais uma coisa...

vc e seu amigo devem fazer parte dos 'fazedores de droga nenhuma',(hauahauahaha) pq parar numa galeria e assistir td aquilo...

hauahauhauaha mas VALEU A PENA!

foi só uma brincadeira, bjs.

Marcelo Cosentino disse...

Não pense que só Ipanema detém esse problema de m... (com todos os sentidos possíveis, por favor) pelo chão.
Eu, como um "pisador" profissional de merdas alheias, digo que esse é um problema nacional, quissá mundial!
Semana passada, indo para um PUB arrumadinho em Copacabana... merda no sapato! No centro da cidade, onde a merda não tem como durar mais de 5 minutos em vista da quntidade de pessoas que a pisam... eu sou o felizardo a "abrir o score", como diriam os mais velhos.
Ipanema, Leblon, Copacabana, Juiz de Fora, Curitiba ou Brasília, não existem limites para a falta de educação das pessoas, não limpando as fezes de seus cães. Mas de 5 anos pra cá a situação parece ter melhorado; as pessoas tomaram uma consciência e a maioria das vezes retiram SIM os cocôs artilheiros do meio dos campos. Claro que nem todo mundo o faz e é por isso que eu, o carteiro e o prostituído ainda somos vítimas dessas situações cotidianas deprimentes. Bem, azar? distração? iditice? É, talvez... mas eu nunca fui atingido por um cocô de passarinho! (pelo menos isso)

abraço, e não suma.

Julia disse...

Nossa...to imaginando vc assistindo a isso da galeria...
Vou adicionar os que se ferram..como eu uma vez...por um garoto q tinha pisado no ahn coco..e dps pisou no meu pé ¬¬ no meu tenis all star q eu tive q finalmente lavar dps dessa =P
Te amo menino ;***

Anônimo disse...

adorei o texto e o comentário do marcelo consentino e concordo que mesmo em bairros "nobres" há m*** espealhada para tudo quanto é lado... hehehe ...
texto novo lá, dá uma passadinha.:)

Luninha disse...

Amei esse texto cara *_* ai nao to mt criativa hoje nao sadfsadf brigada pelo nome do blog <3 love ya *:

Alvaro disse...

Hm... ir olhando por onde se anda é uma ótima maneira de se perder de vista onde se quer chegar. Os que voam não o fazem olhando pro chão, mas pro horizonte. Sacou?

P.S.: Como em geral eu respondo um texto sério com um comentário engraçado, resolvi responder um texto metido a engraçado com um comentário metido a sério. =P

Rina disse...

m**da eh limpar a m**da mas m**da mesmo eh deixar u_u
bem, eu ja pisei num vomito serve?
Será que os bebados de plantao deveriam ter mais educaçao? assim como as madames? @_@

otimo texto felipe /o/