GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Souvenir de mim mesmo

Hoje quebrou a escova de cabelo que eu usava desde que eu era bebê. Isso mesmo, eu tinha uma escova pequena verde-bebê que me acompanhava desde que eu cheguei ao mundo. Sei até de quem foi o presente, pelo que minha mãe contou: se não lhe falha a memória, foi de um tio.

Eu devo ser a pessoa mais nostálgica desse mundo e juro que estou chateado. Por mais que a escova estivesse toda ferrada, desgastada, com as cerdas imprestáveis e prestes a não servir para mais nada, ainda era a minha escovinha verde. Por pior que ela estivesse, se um dia eu viesse a desistir dela, eu jamais a jogaria fora.

O fato de a escovinha ter me acompanhado por toda a vida fez desenvolver entre mim e ela uma relação de afeição e companheirismo que eu ainda estou para explicar. Acontece que a partir dela eu conseguia lembrar de vários momentos da minha vida, várias ocasiões especiais em que eu me arrumei. Ela era uma espécie de portal para a minha própria história.

Lembro da minha mãe me penteando quando pequeno para ir para a escola, explicando porque meu cabelo não ficava direito: é que eu tinha um tal de redemoinho. Lembro de eu mesmo me penteando (e mal), achando que já era um homenzinho, e logo vinha minha mãe ajeitar tudo e reclamar (Dona Linda, sempre ela...). Lembro também de quando eu estava fazendo quimioterapia e, um dia, fui pentear o cabelo e ele veio junto com a escova... eu chorava diante do espelho com um tufo numa mão e a outra mão na escova.

Nunca levava essa escova para viagem: se você em viagem me viu despenteado, aí está explicado. Eu tinha vergonha da minha escovinha. Hoje eu levaria ela para viajar, mas já está tão velhinha que preferi deixá-la aqui, no mesmo pote de vidro.

Hoje aconteceu o que eu não queria: após um banho pouco solene, um pouco apressado, arrumando-me para algo nada extraordinário, minha escovinha quebrou. Partiu-se em duas, partindo meu coração junto. Uma parte caiu no chão, estatelando-se e a outra ficou em minha mão. Olhei-me no espelho desolado, como quando meu cabelo também havia caído... Dessa vez não chorei, óbvio, mas não sei se foi pior eu ter vindo aqui escrever,

Sinceramente, espero que o SuperBonder resolva. E se resolver, prometo não mais usar a bendita escova. Vou deixá-la guardada, no mesmo pote em que ela sempre esteve, com as cerdas para fora, como se estivesse a me observar. Ela vai sempre ficar no meu banheiro, acompanhando-me a cada etapa da minha vida, como uma testemunha ocular da minha vida. Quero que ela me veja ir para o trabalho, ir morar sozinho, casar, ter filhos e tudo o mais. Vou guardá-la com carinho, como quem preserva a própria memória, como um souvenir de mim mesmo.

domingo, 4 de setembro de 2011

o digital não envelhece

Há um fenômeno novo com que os nostálgicos de minha geração terão que aprender a conviver: fotos digitais não envelhecem.

Estava esses dias vendo umas fotos de 2004 e tal foi minha surpresa ao cair na real de que - caramba!-  as fotos eram de 2004. Fotos digitais não envelhecem, não ficam amareladas. Sua cor é sempre viva, sua definição é sempre exata. Seu tempo é estático perante o próprio tempo: não bastando a própria foto congelar um momento, o registro ainda fica imune ao passar dos dias.

Uma foto digital é uma burla aos nossos corações para que continuemos nos enganando quanto ao voar dos dias no rastejar de nossos passos, no doloroso descompasso entre o tempo sentido e o tempo passado. Não adianta o EXIF dizer que a foto é de tal ano, nem a própria data estar impressa no canto inferior esquerdo, nem a imagem estar um pouco pixelizada, sugerindo que a câmera usada é das antigas...

É como se nossa nostalgia só compreendesse como linguagem o sépia, esse tom marrom um pouco amarelado que enverniza o passado. Nossa ponte visual para com o passado depende desse amarelo indeciso, e tanto já aprendemos isso que não à toa temos aplicado essa tal "cor das saudades" a fotos recentes, de modo a lhes forçar uma estética nostálgica que ainda não cabe. Agindo como grileiros digitais na era do Photoshop, ludibriamo-nos quanto à percepção do tempo, como se tentássemos - em vão - nos vingar do golpe duro que a era digital nos desfere no momento em que as fotos naturalmente não ficam amareladas, nem desbotam, nem se indefinem.

Talvez um dia inventem um amarelamento natural, digital, progressivo e automático para esse amontoado de jpegs, de modo a nos sinalizar, de cara, que se trata de velharia. Mas, com toda honestidade, não sei se eu gostaria disso. Parte da graça nostálgica - e isso pode soar esquizofrênico - está em ver o ontem como fosse o agora, mesmo que por um infinitésimo de segundo, para que logo em seguida se dê conta, como quem cai na real - ou nela despenca - de que aquilo é virtual e inalcançável. A nostalgia tem seu quê de auto-engano e, ao menos nesse aspecto, pode ser que o digital tenha algo a lhe somar...

2004


mês passado

quarta-feira, 22 de junho de 2011

metametalinguagem

Sempre que me falta inspiração digna, escrevo um texto sobre o ato de escrever ou sobre a própria falta de inspiração. Mas hoje eu quero escrever sobre a minha falta de saco para escrever de metalinguagem e aqui escancarar minha raiva desse subterfúgio criativo, ao qual não raramente apelo, mas raramente não execro.

A metalinguagem é oficialmente o fim de feira dos estilos literários: é tudo o que sobrou, o pouco que sobrou, um verdadeiro nada. É o produto que você só leva se estiver no desespero. E se precisar mesmo levar.

Claro que escrevendo sempre posso ficar em silêncio (até me arrependo de ter começado esse texto, mas vamos lá), opção que tenho exercido com frequência recentemente (por que não continuei exercendo então?). Às vezes, porém, a frustração de escrever algo e não achar digno de postar ou de não conseguir escrever me força a essa escrita metalinguística residual, pois somente o sentimento de ódio à improdutividade literária é capaz de me despertar a verve que me faz bater dedos fortemente nesse teclado, sentindo essa energia que preciso sugar como uma prova diária auto-dirigida de que um coração ainda pulsa e se emociona.

A metalinguagem é maneiríssima à primeira vista e parece uma grande sacada do autor, afinal, como alguém que tem uma sensibilidade tão grande que consegue sair do próprio processo e ver a si mesmo como um terceiro? Não dura muito esse sentimento:  tal qual um doce enjoativo, seu sabor logo se degrada superado o ineditismo, ficando suas palavras impalatáveis. A paciência logo se esgota em ouvir o autor falar de sua inspiração, de sua escolha de palavras e da arrebatação em si, em vez do sentimento que o arrebata. 

Metalinguagem é a saída pela tangente da própria frigidez literária. É uma pausa sonora num hiato que deveria ser silencioso. É o esforço de negação, a autodefesa diante da decepção em não se ter nada melhor a dizer. Perdoem-me a incompreensão daqueles que, no entanto, sempre têm algo mais interessante a dizer e escolhem ser metalinguísticos: esses o fazem só para não perder a dimensão da realidade, como alguém que come Batom quando pode ter um Lindt. Não entendo.

Se metalinguagem já é o que sobrou, fico me perguntando o que é a metametalinguagem. Só um esforço de impressionar a mim mesmo? O ponto fora da curva de uma curva fora do plano? A potenciação quadrática do fracasso criativo? O réquiem para um sepultamento extemporâneo do eu-criativo? A certidão de óbito desse blog?

Talvez - espero - seja só mais uma fase... e que fase!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

facebook

o vazio do facebook é o vazio da própria vida.

uns começam a namorar...
as amigas dizem "ai que fofo", como se a vida fosse um filme da disney.
os amigos lamentam um a menos na guerra... mas daqui a pouco voltará.

outros terminam o namoro...
as amigas dizem "ai que pena", como se o filme da disney agora virasse uma comédia romântica e essa fosse só uma entrecena rumo ao final feliz.
os amigos comemoram, ou bebemoram, se o cara precisar afogar as mágoas: já aconteceu com todo mundo.

uns reclamam de futebol... isso quando UFC não tá na moda.
uns reclamam da vida... conheço um bem reclamão até.
uns reclamam do próprio facebook: sempre tem espaço para ser meta.

outros postam fotos, quantas viagens...
mas tem que ser para europa ou para nova iorque.
se botar foto da disney, é porque tem 15 anos.

facebook virou a alternativa não-paraíba frente à popularização do orkut.
mas por quê? agora tem nojinho virtual?

uns trocam a foto para aderir a movimentos fofos: personagem de desenho animado, êba!
uns curtem causas: tem que parecer engajado até aqui, né!
outros ficam no batepapo... puta que pariu: faltou inventar a função invisível e inventar um som melhor.

a boa do facebook é curtir. você clica e pronto.
ainda fica parecendo reservado ou um dropador de tiradas.
(não sei de onde tiraram que ser lacônico é chique).

tédio e facebook parecem feitos um para o outro.
ainda mais se tiverem inventado o F5.
vira uma compulsão!

Assinado: quem não vive sem.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

epílogo epistolar

(setembro / 2010)

engraçado ver como você saiu mesmo da minha vida. hoje vi sua foto e olhei lá no fundo do brilho dos teus olhos: eles não mais me comovem, por mais enigmáticos que ainda possam parecer.

talvez você ainda me inspire este texto, mas sou só alguém que ri de uma desgraça superada. este texto não rende homenagens a você. ele é na verdade uma homenagem a mim mesmo: acho-me bom por ter saído fora do poço que você me significou.

tuas músicas não mais me tocam, nossos lugares não mais me mexem, tuas lembranças são neutras.

convivo com teus fantasmas como se ordinários fossem. também nunca esperei os esquecer de vez. eis que de repente, você está ali me olhando... mas eu só volto a viver. emito uma auto-nota de "i see dead people" sem me alterar em um batimento cardíaco sequer.

meu coração ainda se debate - ainda bem! - por mais que combalido: sinto-o pulsar como um ex-combatente que bem conheceu os horrores da guerra e hoje anda com mais calma.

minha sensação é a de final de filme, e agora me coloco a resenhá-lo, como se o fade out estivesse a se aproximar. fui o protagonista e - acredite! - o antagonista do meu próprio enredo, uma trama de romance que virou superação, exatamente no dia em que percebi que não era você a atriz principal, mas limitava-se a uma mera coadjuvante. a história era toda minha. o roteiro era todo meu. o conflito era todo meu, o conflito era todo eu.

sem mais delongas, esse óscar eu dou a mim mesmo.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

ué mas eu não sei

certezas e incertezas me assolam...
não preciso da verdade:
eu preciso é da certeza.

outro dia eu fiz uma pergunta e uma proposta...
e me tascaram de resposta:
"ué, mas eu não sei..."

o silêncio se instaurou nas reticências
fui eu quem não soube o que fazer!
e nem o que dizer.
mas na dúvida alheia produzi uma certeza:
tô fora de gente indecisa!

doeu um pouquinho, devo dizer.
o "não sei" na verdade era só para atenuar
a impossibilidade cabal de interação
entre quem tem certeza de querer
e quem tem certeza de não querer,
mas não tem coragem de falar.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

desaprendi a curtir uma fossa

Desaprendi a curtir uma fossa e hoje me vejo no dilema: a fossa é melhor curtindo ou não curtindo?

Por muito tempo eu pensei que curtir uma fossa era algo que me tornava mais digno: era a solenidade moral de suportar a própria humanidade. Vítima da própria tragédia, sofrer enobrecia e me tornava altivo, e, como um título de capitalização, acreditava que cada lágrima derramada me contaria créditos para depois, na justiça divina das compensações, trocar por momentos de alegria. Escravo da fantasia, nada era tão alegre quanto imaginar um momento de alegria quando eu estava triste: um sorriso esboçado é como uma gargalhada, as cores são mais vívidas e o mundo é fluido.

Não sei mais o que é curtir uma fossa. Talvez porque a fossa mais fosse problema bioquímico do que os fatos e os acidentes da vida. Estar na fosssa hoje para mim é raro, o que é muito bom. Mas a mesma humanidade que eu suporto - e admiro - é inexorável em não fazer da felicidade uma constante. Do contrário, a própria felicidade não faria sentido ou não teria enlevo, pois que parâmetro haveria para ela se sobressair?

Não sei mais o que é curtir uma fossa. Simplesmente não sei mais escolher aquela música que me deixa reflexivo, complexo e mergulhado nos meus pensamentos. As baladas funestas de outrora hoje me soam artificiais: não consigo mais me enganar. O lirismo da poesia é forçado: o amor romântico é superado pela realidade, como se um filme de drama tivesse virado um documentário em primeira pessoa, nu e cru. As memórias não mais me comovem, os traumas estão bem resolvidos e as esperanças frustradas do passado viraram uma lembrança neutra de uma ingenuidade superada.

Hoje sofro como quem cumpre uma formalidade e enfrenta os ossos do ofício da própria vida, como alguém que encara o tráfego para voltar para casa ou que espera a fila do restaurante para conseguir uma mesa... Sofro de bom-humor, quase zombando de mim mesmo, como quem vive um pesadelo com a certeza de que é só um pesadelo. Como quem assiste agoniado um filme de terror, mas não perde a noção de que está diante de um filme. Sofro pelo suspense da vida, só para ter um pouquinho de emoção. Se antes curtir a fossa significava um momento estranho de alegria dentro de uma tristeza maior, hoje a fossa é a própria imperfeição da boa vida, a contingência triste da própria felicidade.

Sofro sendo feliz.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

eu quis escrever um texto. fiquei quinze minutos tentando e nada saiu.

foi por auto-censura? um pouco.
foi por expectativa de hetero-censura? também.
foi por falta de inspiração? de leve.

a frustração é tamanha e dessa vez não pude deixar de compartilhar.

sábado, 14 de agosto de 2010

o futuro é auspicioso

(ou crise de pouca idade)

o futuro é auspicioso
morar bem
casar bem
ter belos filhos
ganhar bem...

viajar para itaipava nos fins de semana
e para a europa nas férias de julho
comer fora com a família aos domingos
ler o jornal numa confortável poltrona

os dias cinzas serão prosaicos. não tem problema!
nos dias quentes darei voltas na lagoa,
tomarei água de coco no mirante,
passearei pelo parque lage.

a noite verei o fantástico, sem neuras.
depois, terei um sono dos anjos, finalmente.
acordarei na segunda-feira com um puta café da manhã,
o qual eu degustarei com a fome de começar uma nova semana.

dirigirei um carro automático grande
e passarei pelo Aterro, de óculos escuros,
do jeito mais "little joy" possível.
(de terno, indo para o trabalho)

trabalharei poucas horas, mas farei muita diferença no mundo.
se voltar cedo para casa e for horário de verão, ainda dá tempo de ir à praia.
ou só tomar um suco.

sem medo da rotina. sem medo da velhice.
ah sim, aposentadoria integral para morrer bem!


não sei se é pedir demais.
mas graças a deus que ainda posso sonhar.

A-VENTURA DE NOVEMBRO

(nota: estou abrindo o baú)

(DEZEMBRO/2008)

A ventura de novembro mais foi uma aventura, ou, talvez, um devaneio do ingrato acaso, ao qual hoje rendo minhas homenagens por tamanha engenhosidade.

Fui flamenguista por um mês. E isso já diz muita coisa, embora nada houvesse de futebol no meio disso.

O prólogo da aventura se desenrolou num armazém em clima de luto pós-eleitoral que de pronto se reverteu tão logo foram despertadas as paixões íntimas, introvertidas, mas controversas. E depois, o encontro casual nos pirineus franceses da praia rubro-negra, lá do décimo andar, em que tudo era branco e macio sob uma bandeira do Brasil, com dores nas costas e olhares que se prolongavam em não quererem se desencontrar, pedindo o que depois, não tão depois, viria.

Um não tão depois que durou pouco menos que uma semana, algum tédio, e muita gastação de francês e cultura de cinema Estação. E tudo começou a acontecer numa sexta em que quase chovia, ainda que ninguém quisesse ir à praia ou à piscina, coisa de quem anda de mal com São Pedro, sempre a lançar suas maldições meteorológicas.

Uma sexta que não teve cinema no Estação, mas a distância das cadeiras azuis nocivas à coluna, ah minha coluna, e os papos alheios que envolviam viuvez, barcos e o tempo. Uma distância que foi se superando quando as mãos se aproximaram, quando a conversa convergiu e quando os olhares novamente se encontraram não mais querendo se desencontrar, exceto por uma vergonha boba, daquelas bem singelas, que encerram os sentimentos mais sutilmente gostosos que o ser humano gosta de viver, o que nos distrai e nos alimenta o inquieto comboio de cordas.

Por fim, e era só o começo, os olhos novamente se encontraram, sintonizaram-se como antenas da alma e fecharam. Fecharam porque se fizeram prescindíveis quando tudo o mais já estava junto, juntinho, e os óculos se encostavam, se tocavam, se estalavam e se embaçavam, como uma metonímia para dois intelectos que convergiam em carne. E dali foram para um céu de diamantes cafeinado.

O domingo estava de um sol maravilhoso, porque ninguém levou roupa de banho. A contradição estava no ar condicionado, na biblioteca e nos livros, que se venceram pelos sucos, pela pizza, pelo calor do outro, pelas obras da lanchonete, e pelo centro preto e seu sofá cultural, muito melhor, embora menos simbólico, que o banquinho de madeira duvidosa dali não muito distante.

Os dias seguintes foram os maravilhosos dias seguintes. Ora chuva, ora sol, algum descontentamento de São Pedro e de outro não tão santo assim. Vivia, sem me dar conta, uma contagem regressiva previamente anunciada, a qual eu ignorei em achando que comigo seria diferente. Uma contagem regressiva rumo a não se sabia quando, que degenerou em não saber como.

As mensagens, as entonações, os olhares, os beijos, os carinhos, os segredos, os "te adoro" e "psius" não ditos, mas sussurrados a um coração efervescente e enfeitiçado... tudo indicava o caminho de uma crescente entorpecedora, capaz de distrair, capaz de, por conta da dedicação exclusiva, fulminar o olhar atento de quem cria, como se a função poética tivesse sido emprestada a mais nobre serventia e em seu lugar entrasse, como mero tapa-buraco, a infrutífera e egoísta função metalingüística.

Os encontros no meio da semana, no corre-corre das semanas de provas, os almoços apressados, a ventania entre os dois grandes prédios anunciando o tempo a mudar... O namoro num dos parques da cidade, num sábado sabático que dormiu pouco para acordar cedo sobre os cacos da sexta que avançou incauta pela madrugada. O namoro nos banquinhos de madeira verdadeira, à sombra de um dia nublado e das árvores que o espírito pueril ousou escalar, sob uma chuva rala e fria que pedia licença poética para cair em tão caloroso momento.

O bolo estava pronto e nele faltava uma cereja. A cereja do pedido em namoro, que eu entendi como ato declaratório quando a todos, e a quem realmente importava, parecia ato constitutivo. A cereja da minha hesitação, que deveria ser posta em cerimônia, em grande momento... no grande momento que não chegou a acontecer. Hesitei porque estava certo demais de que aquilo derradeiramente aconteceria. Inundei-me por essa certeza e acanhei-me pela prudência da muita certeza: estava tão certo que eu duvidei. Foi esse o equívoco? Restará a duvida.

Novembro encaminhava-se para seu final e junto levava minha aventura a seu desgaste. O antepenúltimo dia do mês foi estranho. Era sexta, chovia e algo havia se desencontrado. Havia a gripe, o vírus, o RNA, o DNA e minhas palavras se desencontraram entre a suposta graça da piada e a frustração de uma lembrança.

O penúltimo dia do mês, que era para ser o sábado tão esperado de ir à praia, da praia a que São Pedro legaria todas as bênçãos, foi o dia da espera pela ligação, pela mensagem... o dia da ansiedade enlouquecedora que pôs na cabeça caraminholas como que em prenúncio ao que não muito depois se seguiria, como se "o deserto da espera tivesse cortado os fios".

O último dia de novembro foi o último em que as coisas estiveram bem, ou assim pareceram estar. É como aquelas melhoras súbitas do quadro clínico logo antes da morte. Um cinema, um passeio, um andar juntos sob um sol gostoso e uma brisa fresca, um passeio no aterro à procura dos banquinhos. Quando finalmente se achou um banquinho, dessa vez de pedra, vieram os beijos e os carinhos, que se deixaram constranger pelos olhares alheios, pelos cachorros passeando a esmo e por um batuque bate-lata de projeto social que perturbava os ouvidos e impedia - impediu - de se ouvir no coração do outro o batimento acelerado tuntz-tuntz, a rave cardiológica extasiada chamada paixão. E aí, quem sabe, surgiu a dúvida de se tudo isso ainda existia... é que no fundo pareceu haver só um silêncio.

Entramos em dezembro juntos, no computador. Um olhando a cara do outro, separados por um abismo chamado internet, sob uma certa estranheza que não se explicava. Um olhar perdido, uma palavra que não encontrava eco, um sorriso que não alcançou lugar, um encanto a esmorecer, como se o que se tinha de melhor estivesse escorrendo implacável por mãos fechadas. Fomos dormir, talvez fosse só uma fase.

Em dezembro não haveria mais ventura nem aventura. A segunda-feira de primeiro de dezembro teve cara de hiato: o dia que antecedeu o fim, que antecedeu a terça e nada mais.

E a terça, enfim... a terça em que a velhinha de que mais gostava no meu prédio morreu, o dia em que se completaram vinte anos da morte do meu tio, o dia em que eu armei pela primeira vez uma árvore de natal na vida, numa ironia do destino, do ingrato não-tão-ingrato acaso ao qual eu novamente rendo minhas homenagens.

A terça-feira encerrou o último capítulo e iniciou o epílogo da aventura não mais venturosa: um dia lindo, um passeio lindo... o sal foi até o açúcar. Fingindo-se gringos e destilando nosso francês mais uma vez, fomos às alturas, e lá do alto, tão distante da cidade, dos carros e das pessoas, foi-se vendo o quão distante também estávamos um do outro. De repente, não mais que de repente, as mãos não mais se achavam, os olhares se encontravam e logo se perdiam e as palavras doces não mais reverberavam. O sal fizera-se amargo, azedo, intragável. Depois, um almoço no lugar dos barcos, da viuvez e do tempo. Comi risoto e ela foi nos salgadinhos mistos, então para quê mais o sal? Fui feito redundante.

E depois bateu um sono e uma preguiça de tudo, até de irmos até o banquinho de madeira duvidosa onde tudo havia começado. E aí fomos para os pirineus franceses, de táxi, um ao lado do outro, íamos para o mesmo endereço, mas já trafegávamos caminhos diferentes. Saltamos e caminhamos paralelos, mas separados por um muro invisível, estranho, que instigou a dúvida e culminou na pergunta: "o que aconteceu?" e na resposta: "não sei." E o silêncio. Havíamos chegado e eu esperava que ela subisse para trazer minha mochila que eu preferi não carregar (talvez já soubesse que o dia seria pesado demais) para então poder ir para casa.

Minha mochila veio junto com um pedido de tempo. Um tempo que eu não entendi. Um tempo que não era grandeza primitiva da física e talvez mais fosse uma sutileza literária, um eufemismo para outra coisa que ali não era evidente. Um tempo para resolver toda uma confusão na qual eu não conseguia acreditar. Conversamos brevemente e nos entreolhamos no que não parecia um término, mas um entreato. Seguimos em direções opostas, às vezes olhando para trás.

Nos dias seguintes... ah, deixa para lá. Os dias seguintes já mostravam um dezembro consumado, uma tragédia em que eu não quis acreditar: episódios almodováricos demais para minha hollywoodiana previsibilidade do inusitado e conversas perdidas em um palácio do governo sobre uma situação já tão desgovernada, com direito a batuque bate-lata perdido e a uma curiosa, simultaneamente literal e figurada, pedra no meio do caminho.

Os dias seguintes foram a esperança se esvaindo a cada dia, à medida que o acaso se revelava mais irreverente, ingrato, confuso, louco... ou talvez o louco não fosse o acaso... ou o acaso nada mais fosse do que loucura. Ou nada era verdade. Não sei.

domingo, 8 de agosto de 2010

"PODERIA TER SIDO VOCÊ"

O pombo morto - atropelado - no meio da rua vai muito além de despertar nojo: é o retrato vivo da morte e retrata como obra de natureza-morta o fatídico da vida.

Sua aparência expõe suas entranhas e não por acaso nos embrulha o estômago. Carne e sangue misturados, deformados. Reduzido a 2D, planificado contra sua vontade e carimbado no preto do asfalto, como uma efígie fúnebre num museu a céu-aberto.

Cerca-se dos mais variados públicos, entre os passantes que caminham apressados. Alguns nem percebem, porque distraídos. Outros percebem e desviam o olhar, enojados. Alguns percebem primeiro pelo tato: infortunados. Outros percebem e seguem admirando com certa curiosidade mórbida. A indiferença exige um esforço: a morte é muito distinta para se assimilar à paisagem.

Velado publicamente com a notoriedade que não tem um animal e muito menos um indigente, o pombo é finalmente recolhido para não se sabe lá onde e some na complexidade da cidade, depois dos seus 15 minutos de fama póstuma. Deixa com o mundo sua mensagem e, por meu intermédio, sai da vida para entrar numa história.

O QUE ESTÁ POR TRÁS DESSES OLHINHOS?



A foto é de "Bruninho", filho de Eliza Samudio com, supostamente, o goleiro Bruno do Flamengo.

Não consegui desgrudar, ainda que somente em pensamento, meus olhos dos olhinhos desse bebê. Seu olhar curioso, como o de todo bebê, ainda um pouco assustado com o mundo novo que se revela, ainda meio sem entender a si próprio e ao que lhe cerca.

Descobrir o mundo talvez seja uma das melhores experiências, em qualquer momento da vida. Um bebê que vê as coisas pela primeira vez, absolutamente inéditas, um adolescente que passa a ver o mundo potencialmente sob suas rédeas, um adulto já desbravador de suas próprias descobertas, ou um idoso, na serenidade da releitura da vida.

Temo o que será a descoberta do mundo para esse menino. Saber que é filho de um acidente, nascido na contingência de uma orgia, rebento de um arrebentamento: desejado pela mãe, indesejado pelo pai, que comandou inclusive sua tentativa frustrada de aborto.

Saber - e o quanto dói escrever essas linhas - que sua mãe nunca mais poderá lhe dar um carinho, um cheirinho, um abraço gostoso ou falar-lhe naquele tom carinhoso-fofo-brincalhão, tipíco de quem conversa com bebês... aquele tom que, se de certa forma nos remete ao ridículo não-ridículo de ser criança, é também uma lembrança inefável da infância, das mais gostosas.

Saber que a ausência da mãe não é por acaso, embora inelutável. Nem a do pai, embora não inexorável. Saber que se hoje está vivo também não é por acaso, como pode parecer, e nem por sorte. Sobreviveu por um ato de clemência do pai, que não lhe permitiu o mesmo destino da mãe. Agradece seu existir ao gesto humanitário de um monstro, que lhe deu vida duas vezes: ao conceber e ao conceder.

Bruninho não por acaso tem esse nome. O que se pretendia uma homenagem de sua mãe, agora é um estigma, um monumento macabro que ele carrega compulsoriamente.

O mundo lhe é pesado desde cedo e seus olhinhos assustados parecem viver um pesadelo. Se eles não choram porque ainda não se deram conta, eis aqui as minhas lágrimas.