GUIA DE LEITURA

Se você me perguntasse quais textos ler, eu diria para CLICAR AQUI e achar uns 20 e poucos que eu classifiquei como os melhores. Mas vão alguns de que eu particularmente gosto (e que fizeram algum sucesso):

Caritas et scientia
(as saudades da minha escola)
A-Ventura de Novembro
(o retrato de um coração partido)
Vigília
(os sonhos nos enganam...)
Sairei para a boate e encontrarei o amor da minha vida
(ou "elucubrações esperançosas")
(a afeição por desconhecidos)
A tentação de Mãe Valéria
(trago a pessoa amada em três dias)
A nostalgia do que não tive
(a nostalgia do que não tive)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

SOBRESSALTO.

O cabelo sorvetão e o excesso de maquiagem tudo revelavam sobre a idade daquela senhora que, com um bando de bolsas de lojas chiques, andava pela rua sobre um salto barulhento, capaz de ser ouvido mesmo com os ruídos da rua.

Andava de nariz erguido e tinha um olhar esnobe. Talvez fosse esposa de empresário ou alta aposentada do serviço público. Tinha cara de viúva, daquelas que descobrem a vida com a morte do marido.

Suas sacolas nada mentiam sobre suas possibilidades. Somente marcas caras, tirara o dia para renovar o guarda-roupa. E o salto talvez tivesse significado simbólico para além do estético. O salto era daquele tipo não-sandália. Hum.... acho que não fui elucidativo. Bem, não entendo de saltos, mas o que aqui descrevo prendia-se que nem um tamanco.

Volto ao que me chamou a atenção. Velhas como essa, embora se achem a última bolacha do pacote, acham-se por todo canto. Mas não é todo dia que o trânsito pára por causa de uma delas.

Tudo começou na incivilidade da senhora, que pôs o pé na rua e caminhou até a intersecção entre a faixa lateral e a central, ou, melhor dizendo, que foi para o meio da rua. Levantou sua mão de forma quase libidinosa, como se fosse colocá-la sensualmente à boca, e ficou agitando os dedos, como se aludisse a outra coisa impudica. Tudo isso para chamar um táxi que se aproximava.

O buzinaço começou. A velha parou o trânsito no meio da rua. O táxi parou todo errado para que ela entrasse no ponto em que estava, afinal, uma madame daquela se movimentar de encontro ao meio-de-transporte feriria o orgulho de um ser tão high-profile. O motorista, que economizou na hora de comprar o carro e não colocou as benditas trancas automáticas, teve que dar um quase 180 digníssimo para abrir a porta traseira do carro. E as buzinas não paravam.

Assim que a porta abriu, a ilustre senhora começou a colocar, em cínica tranquilidade, as sacolas para dentro, empurrando-as para o outro lado do banco. Chegada a hora de finalmente entrar no táxi, ainda lançou um olhar indiferente aos automóveis barulhentos que atrás se amontoavam, manobrando com dificuldades para tentar seguir caminho.

Para sentar, colocou-se de costas e sentou seu traseiro gelatinoso no banco, ainda com os pés para fora do automóvel. Depois, deu uma viradinha e colocou um pé no carro. Depois, a mu... não houve depois para o movimento de embarque. O taxista percebeu que havia um guarda de trânsito por perto, que, felizmente, num raro momento de distração em que conversava com um guardador, não percebeu o circo instalado naquela rua. Temeroso por uma multa, tratou de dar uma arrancada.

Na arrancada, a senhora apressou o movimento, mas, na imprecisão de uma mexida em espasmo, um dos pés de seu salto acabou caindo no chão, solitário e reluzente. Com a porta meio-aberta e com um pé enrugado à mostra, o táxi seguiu adiante apressado, deixando o salto para trás. Jogado no meio da rua, o salto ainda atrapalhava mais o trânsito, pois ninguém conseguia simplesmente passar em cima daquele ostensivo acessório. Os mais irritados até pensaram que o ato de deixar o salto no chão foi premeditado, significando um "big foda-se" da velha, que, ao invés de exibir retratação pelo transtorno que causara, quis tirar mais uma com a cara dos motoristas que há pouco atrapalhara.

O táxi não pôde andar muito, pois logo o sinal fechou. Estava distante uns cinqüenta metros do salto abandonado. Uma eternidade que a equação t=s/v não ousaria descrever e que poucos tentariam enfrentar. Mas teremos a nossa heroína.

Já dizia a filosofia de botequim que ninguém gosta de sair do salto. A porta do táxi se abriu e de lá saiu uma velha. Primeiro pôs os pés pra fora. Um deles estava descalço e era meio enrugado. O outro vinha sobre um salto. Puxou suas compras e saiu do táxi. Simulando ser o Garrincha, pois jamais teria a humildade de descalçar o salto que restara, a senhora caminhou a passos curtos e tortos rumo ao salto que deixara cair. Caminhava no meio da rua, novamente parando o trânsito e suscitando as ensurdecedoras buzinas.

Quando estava quase alcançando o polêmico calçado abandonado, a senhora tropeçou. Foi literalmente um salto rumo ao chão. Pááááá! Sentiu ela a dureza do asfalto, ficando estática. Em instinto vingativo, ninguém queria parar para ajudar a pobre malfeitora, mas todos acabaram parando.

E o trânsito novamente parou. Dessa vez, porém, as buzinas cessaram, afinal, não havendo como executar um réquiem, preferiram fazer um minuto de silêncio.

- Mas vaso ruim não quebra mesmo! - gritou um motorista para fora de seu carro, quando viu a velha voltar a se mexer, ainda no chão, logo exclamando em voz sinuosa: "mas não chame o 193, quero a ambulância do meu plano!"

sábado, 23 de fevereiro de 2008

pós-epílogo.

Foi-se.

Para o enfermeiro, foi o último acontecimento do seu plantão.
Para a família, foi dor.

Para o cara da funerária, foi o ganha-pão.
Para a família, foi sofrimento.

Para o escriturário do cartório, foi o terceiro atestado de óbito do dia.
Para a família, foi tristeza.

Para o jornal, foi um nome no obituário.
Para a família, foi pesar.

Para o coveiro, a segunda vez que pegava na pá.
Para a família, foi adeus.

Para o padre, foi mais uma missa.
Para a família, foi penar.

Para o INSS, foi menos um aposentado.
Para a família, foi comoção.

Para a Justiça, foi o inventariado.
Para a família, foi a herança.

Para o IBGE, foi a estatística.
Para a família, foi duro.

Para a vida, foi o fim.
Pára a vida: é o fim!

Para a família, virou lembranças e saudades,
enclausuradas na moldura de um porta-retrato,
ou guardadas numa das redomas acrônicas do coração.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

a moda engajada do próximo reveillon

lançarei moda:
ano que vem, passem o ano novo de laranja.
façam uma homenagem a quem desfaz o que fazem no ano novo.
façam uma homenagem a quem cata as garrafas caídas e as garrafas arremessadas.
façam uma homenagem a quem limpa os caroços das uvas e os bagaços de um ano velho.
façam uma homenagem a quem recolhe todos os cigarros e as cervejas da ebriedade alheia.
façam uma homenagem a quem não estoura o champanha, mas cata a rolha.

ano que vem, passem o ano novo de laranja.
pode não ser a cor da paz, mas é a cor da limpeza, mais do que o branco.
e sem superstições.

sábado, 19 de janeiro de 2008

PAUSA.

Atravesso um momento infeliz para esse blog. Não consigo sentar e escrever, não consigo ter fluidez em minhas palavras. Falta-me inspiração. Sobra-me vontade.

Penso em tantas coisas na rua que dariam bons textos, mas a efemeridade de um pensamento é tão implacável quanto frustrante. As coisas se perdem. Minha cabeça não está boa.

Ficarei um tempo sem escrever.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

SOERGUIMENTO.

Meu prazer em revirar quinquilharias me fez esses dias descobrir algo inusitado na sacola de supermercado onde guardamos as fotos de família muito, muito antigas. Em meio ao preto e branco nostálgico da distante mocidade de minha avó, encontrei perdida a fotografia de uma senhora que ninguém em casa soube dizer quem era.

Fiquei intrigado - seria forçação dizer encantado - com a pessoa que não quis posar para a câmera e seus olhos fechou. Num misto de proeminência e de anonimato, a musa que hoje inspira o verbo tem o ar de uma vovó moradora de rua, embora não me pareça uma qualquer, ou, do contrário, não teria sido motivo para uma foto.

Seu vestuário esquisito talvez fosse seu charme. Um vestido preto, sem brilho. No pescoço, algo como um pano de chão desfiado que simula um echarpe. Em suas mãos, como se fosse a "miss rugas 1940 e porradas", um cetro ornamentado. O chapéu que compunha o look era a última moda em... não sei onde a foto foi tirada.

Minha velhinha da foto permanece uma incógnita. Seria ela uma pedinte? Uma louca que a família não quis manter em seu seio? Uma exótica? Uma assídua por brechós? Uma "nada" abandonada que alguém achou engraçado e quis registrar para a posteridade?

Resgato hoje esse registro e mergulho na imaginação, como num passeio a uma feira de antiguidades. Meu Deus, o que essa foto fazia no meio de várias outras fotos que nada tem a ver com ela? A idosa desconhecida é uma viagem, uma abstração. Hoje está morta, eu tenho certeza, e agora se faz viva, eu também tenho certeza. Hoje está eternizada na internet. Daqui a pouco vão digitar no Google alguma coisa qualquer e ela vai aparecer. Estilistas descolados buscarão nela inspiração para seus próximos desfiles. Gurus tentarão adivinhar a cor de seus olhos. Psicólogos decifrarão seu pensamento. Sua bizarrice vai comover multidões. Reconhecimento post-mortem.

sábado, 5 de janeiro de 2008

O COPO

O copo é objeto fundamental das às vezes etílicas confraternizações sociais, nas quais bater os copos um nos outros é a apoteose do momento.

O copo é um objeto democrático. Todos usam, mesmo que diferentes copos reproduzam as estruturas sociais vigentes, indo desde o copo de requeijão ao cálice da mais nobre vidraria.

O copo é curioso. Em sua lascívia fálica, materializa a promiscuidade. Uma cópola plural. Passa de boca em boca deliberadamente. Experimenta de tudo, em todos. O copo é a via da dispersão: dispersa micróbios, dispersa angústias.

E depois de tudo, quando há copos vazios, de tanto que a cara encheram, o copo vai para a purificação hídrica remir-se de seus pecados.

"Em mão de bêbado, copo fora do escopo é certeza de ex-copo."

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O TRATOR DAS MINHAS VONTADES.

Eu estava quase dormindo, quando pensei na expressão "o trator das minhas vontades". Eu achei que fosse uma frase marcante, uma obra-prima da retórica. Ainda acho isso, mas, a cada vez em que olho para essas 5 palavras, elas perdem esse efeito.

Eu queria fazer um texto em que eu usasse esse título. Na verdade, você pensa em trator, e vem aquele veículo imenso, com aquela coisa de metal na frente, implacável, intransponível, que chega passando em cima e não quer nem saber o que está na frente. É um trator, não é um carrinho de obras.
Imagine o "carrinho de obras das minhas vontades"... é como se eu dissesse que eu vou levando-as aos trancos e barrancos e que, por qualquer trombada, elas podem ir ao chão.
Imagine também "a bicicleta de minhas vontades". Só funciona direito na ciclovia, e eu ainda preciso ficar pedalando. Ou melhor, "a bicicleta ergométrica de minhas vontades". A vontade é tanta e o esforço é imenso, mas eu nunca saio do mesmo ponto.
Talvez nada se comparasse a "o caminhão das minhas vontades". Lembro-me do Caminhão do Baú, com os sonhos de consumo das donas-de-casa. Minhas vontades não incluem geladeiras, máquinas-de-lavar ou fornos microondas.
E se fosse o "patinete de minhas vontades". Até dá ambiguidade, pareço aquelas crianças de cinco anos que querem um patinete de Natal e colocam isso na cartinha para o papai noel. Infantil demais, fora.
A "carreta das minhas vontades". Lembro-me dos digníssimos catadores de lixo da cidade que empilham suas tralhas usando os papelões das caixas de caras TV's e de outros mimos que não podem comprar. Ficam só com a caixa, e carregam com a própria força aquela carreta imensa pelas ruas. Muitas vezes não conseguem e tudo aquilo cai. Triste. Imagina minhas vontades caindo assim pela rua e eu tendo que catá-las só porque juntei mais do que podia? É provável, mas prefiro ser otimista.

Pois é... voltemos ao "trator de minhas vontades", à imagem do trator. Pois é, minhas vontades são fodas, uhul, vem com tudo. Mas, lembremos: o trator precisa de alguém que dirija. Sei dirigir trator? Olha a responsabilidade.
O trator precisa de combustível. Entenda por combustível o que quiser. Dinheiro, pique, pessoas para fornecer o combustível, ...
O trator não é um ônibus. No máximo, tem dois lugares. Vontades fortes, que vem em trator, não podem envolver muita gente. No máximo, pode-se cooptar alguém para ser carona nessa aventura.
O trator é um trator. Imenso. Não passa em vários lugares, não é versátil, exige infra-estrutura megalomaníaca e traz decepções se for transitar em lugares complicados.

A vida é complicada. Não quero ficar entalado. Não quero ficar isolado. Não quero passar em cima de ninguém. Não quero depender de grandes feitos.

É, o trator não me serve.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

2BÁ

(COM O PERDÃO PELO ESTEREÓTIPO)

Clube de "elite" do Rio de Janeiro.
Aquele domingo ensolarado.
O parquinho é multicolorido.
As crianças refletem a luz.
As babás absorvem-na.
Hierarquia que se faz de acordo com absorção de luz?
Brasil!

As babás no clube de elite estão todas vestidas de branco.
Uniforme: proletárias. Alienadas?
As crianças brincam, se divertem, pulam e gritam que querem picolé e títulos de nobreza.
As babás os olham. Não olham seus filhos.
Seus filhos? Onde fica filho de babá?
Em clube de elite, certamente não.
Num confronto da "tropa de elite"? Seria azar.
No conforto do "videosurveillance for babies"? Babá eletrônica,não é mais fácil?
Sob a proteção do Estado? Em Estado/estado deplorável?
Na foto 3x4 dentro da carteira da mãe?

Babá olha filho dos outros.
Olha filho de/da mãe que tem que trabalhar.
Ela também é mãe que tem trabalhar.
E daí? E daí nada, ué.

Filho de babá não grita que quer picolé.
Nem nobreza togada ele pode ser.
Filho de babá, é filho de babá.
Recebe presente de segunda mão.
Já deve ter brincado de pião.
Já deve ter soltado pipa.
E talvez nunca tenha usado camisa pólo.

O parquinho tem dois bancos: um bom e um ruim.
É quase como comparar o Itaú Personnalité com o espaço debaixo do colchão.
No banco bom, ficam as mãedames, digo, madames.
No banco ruim, quem se senta? Babás, daqueles nomes estranhos, bem nome de babá, geralmente terminado em -ina.
Como não pode ser a fulana, vira a Fulina.

Ser madame não é muito difícil.
O reconhecimento se dá pelo flanelinha que fica em frente àquele restaurante que - um absurdo, amiga - ainda não descobriu o cômodo serviço de valet.
"Estaciona aqui, madame!"
(O trem superlotado mandou lembranças.)

Mas a madame gosta de estar bela.
Quem sabe um dia ela aparece na Caras, sendo lida por alguém no cabelereiro ou na privada?
As madames curtem bolsas de marca.
Usam óculos escuros para parecerem reservadas.
E às vezes tentam vestir umas roupas meio moderninhas para disfarçar a idade.
São as craques da jogatina suja que é o jogo de aparências.
São mães que muitas vezes não sabem botar a mão na massa.
Tem nojo de cocô de criança.
E não tem paciência para dar papinha, embora conheçam o tapinha.
É para fingir que educam.

Aquela colônia de madames conversa.
Uma comenta a última proeza do filhinho, que já sabe falar inglês e está com viagem marcada para a Disney.
Do outro lado há uma colônia de babás, que também conversam.
Uma comenta a última proeza do filhinho, que só verá na próxima folga, mas que já sabe falar planta ao invés de pranta, e que, de marcada, só a consulta no posto de saúde para o próximo mês.

Mães do mesmo jeito, embora uma delas não passe de uma mera progenitora.
Diametralmente opostas.
Separadas por um grosseiro abismo hierarquizante.
Empregadora e empregada.
Dominante e dominada.
Zara e Renner.
Débito e crédito.
À vista e promissória.
Medicamento de referência e medicamento genérico.

Uma é a high society. Ai, que chique!

A outra é só uma babá. Serviçal.
Pajeia o filho da high society quando o pequeno desfruta do mais alto grau de nobreza, no caso, de realeza: é quando ele está ao trono e desfere o verbo, em modo imperativo.
"Fuliiiiiiiina, vem limpar. Acabei!"

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

EPOPÉIA.

Marcílio era de família pobre,
era mais um que não tinha o que comer.
Não tinha terra, mulher ou cobre,
quase um nada, só entendia de sofrer.

Tendendo a zero, sabia esse Marcílio,
que seu caminho teria de traçar.
Não contava com ninguém para auxílio,
à própria sorte, decidiu se lançar.

Foi pra cidade, onde a terra era mais "fértil".
Mas sua enxada, não soube onde deixar.
Pegou em armas, carregou-as de projétil.
Seu negócio, ali, era matar.

O dedo no gatilho era senhor de destinos,
para trabalhar, era só o bolso inchar.
Nessa vida de final de intestino,
o clandestino pensou em prosperar.

De pé na rua descobriu a loteria,
onde com sorte poderia se acertar.
Aquela vida de bandido largaria,
em sua a terra a todos iria ajudar.

Eis que a sorte bateu à porta,
e a Marcílio resolveu premiar.
Largou o moço de vez a vida torta,
pelo sertão voltaria a se enfiar.

Quando então voltava ao velho chão,
a Dona Sorte resolveu evaporar.
Bateu o ônibus num minicaminhão,
e o desastre foi um baita de um pesar.

Na colisão espalharam-se vários corpos,
e o tal dedo de Marcílio foi pelo ar.
Se o rabecão veio levar toda a tragédia,
um gavião o pobre dedo fez devorar.

E o dinheiro da ventura de Marcílio,
não conseguiu em ajuda se converter.
Seus conterrâneos que precisavam de auxílio,
na fome grande permaneceram a esmorecer.

Foi enterrado como indigente num cemitério próximo ao local do acidente. Andava sem documentos, pois era criminoso procurado pela polícia da cidade onde tentou fazer carreira no mundo sinuoso que preferiu à honestidade insustentável dos miseráveis. Ninguém se interessou por saber quem era para lhe dar um enterro digno. Até a faculdade de medicina mais próxima dispensou o cadáver desfigurado e sem um (mortífero - não sabiam eles) dedo.

sábado, 3 de novembro de 2007

ESTÉRIL OLHAR.

Antes de colocar aqui o texto, quero explicar o que aconteceu. Passei pela rua e vi isso tudo que vou relatar. Cheguei em casa e decidi escrever, mas estava sem saco de escrever normalmalmente e me limitei a digitar com toda espontaneidade tudo o que vinha à cabeça para que, depois, com tempo, pudesse compor o texto com a qualidade que sempre busco.

Eis que hoje venho para escrever o tal texto, mas, ao ler a tempestade de idéias que compilara, não consegui continuar. Há erros de grafia, idéias sem nexo, mas qualquer tentativa de remoldá-las prejudicaria a sensação que tive, e a que tento passar.

estéril olhar.
mãe com criança sentada na calçada. olha pro nada. sacode a mão repetitivamente, tilintando as moedinhas que ali estão. não está descalça, mas está mal vestida.
em seu colo, deitado, dormindo que nem um anjo, com uma bermuda bege clara, limpinha, e uma camiseta listrada, limpinha, está um bebê que dorme serenamente. lindinho, uma gracinha. uma fofura. aquele bebezinho passa fome? passo por ele. tento não voltar e dar a moeda,. estava com 3 reais no bolso e tive preguiça de parar pra dar. merda de egoísmo. passo e não tenho coragem de voltar, não tenho coragem de ir até lá e dar para aquela mãe. queria eu que ela nao estivesse precisando. e aquele pedacinho de gente, uma vida que nao tem metade das oportunidades que eu tive, que não pode deitar na cama e relaxar, mas que dorme melhor que eu, com essa insonia, essa culpa burguesa, essa bosta de quem passa e quer fechar os olhos par aum problema .mas não consegue. e vem aqui escrever, impotente. é incapaz de tirar esse pijaminha confortável, sair do ar condicionado de casa agora descer e procurar a mãe para lhe dar um trocado, uma comida um agrado... quem sabe uma atenção seja tudo o que necessita aquela pessoa, que traz seu anjo, em bons trajes, em sono dos inocentes, para o relento da noite.
o que faço para essa situação? simplesmente cago porque tem aos montes? é uma merda. lamento diariamente passar pela rua e ver isso. a culpa é de quem? foda-se de quem é a culpa. vamos resolver. juntos. unidos. to cansado de teorizar o brasil do futuro enquanto o brasil do presente não come. não quero mais ver anjinhos que comem e anjinhos que dormem com fome.
aliás, dormir com fome deve ser a pior coisa que tem. não aguento ficar poucas horas sequer de jejum. minha vó sempre me oferece um leite quente antes de dormir e eu recuso... queria oferecer esse leite, esse alimento às crianças que sofrem por perto. queria.

domingo, 30 de setembro de 2007

COISAS QUE EU OUÇO POR AÍ E VEJO POR AÍ....

Dia de chuva intensa no Rio. Estava na sala de aula literalmente no meio de um bando de desconhecidas que se conheciam. Captei vários momentos de uma conversa hilária.
DIÁLOGO I
-Você vai pegar um táxi?
- Claro, não gosto de ficar molhada de chuva, só de outro jeito.

DIÁLOGO II
- Hoje você vai falar com ele?
- Vou sim.
- E aí.. ou namora ou cai fora, né?
- É.

DIÁLOGO III
- Professor, pode-se dizer que a Regência é a república?
(sem respostas)

DIÁLOGO IV (esse foi comigo!)
- Nossa, você sabe bem História. Quem substituiu Dom Pedro II quando acabou o segundo reinado em 1889?
- Mal. Deodoro da Fonseca, após o Golpe.
- Po, não foi a Princesa Isabel?
(bem que poderia ter sido)

TESTEMUNHA OCULAR I
Meio da aula de história e meus olhos vão parar numa certa cena. Menina de má aparência, meio marrentinha, pega uma bala na mochila. Desenrola o papel de bala com cuidado, sem fazer muito barulho. Em momento algum deixa de prestar atenção ao professor. Coloca sorrateiramente a bala na boca e fecha a mão no papel da bala, como se dali a pouco, num passe de mágica, ela fosse abrir a mão e o papel sumisse. Mas essa aí não sabia fazer mágica coisa alguma. Não era ilusionista. Era porca mesmo.
Não deixei de observá-la, pois sabia que o papel teria que ter algum destino. Se ela tivesse modos, ou teria guardado o papel em suas coisas para depois jogá-lo no lixo, ou já teria levado ao lixo de uma só vez. Não deu 10 segundos e ela começou seu plano secreto.
Primeiramente, colocou a mão aberta sobre a cadeira, como se estivesse se apoiando. Continuava olhando para o professor, como se estivesse parada, sem fazer nada. Só eu observava aquelas mãos infelizes e percebia que por trás daquela feição aparentemente concentrada no desenrolar da monarquia brasileira estava uma mente maquiavélica com um braço efetivo de atuação, ou melhor, uma mão de efetiva atuação.
Ela tratou de empurrar o papel de bala para o mini-vão existente entre a madeira da carteira e a estrutura de aço a que essa madeira está presa. O papel não entrou de primeira. Foi preciso que ela fosse amassando-o e o empurrando pouco a pouco, de forma que ele ali ficasse comportado. Terminado o serviço, ainda deu uma espreguiçada para disfarçar.
Pois é... eu também estou com preguiça de jogar no lixo essa cidadã cujo destino interceptou o meu naquele dia. Mas, vocês também sabem: não dá para simplesmente fechar os olhos e esquecê-la, tal como fechar a mão e fazer o papel sumir. O que faço, então?
Simples. Pego essa porquinha, faço com ela uma historinha e vou amassando-a e colocando-a entre o vão virtual - real extensão do meu pensamento - chamado So What's Beyond. E sempre tem alguém observando, ou melhor, lendo.


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Entrarei muito em breve em novembro e dezembro, meses em que terei trocentas provas de vestibular. Logicamente, estarei impedido de escrever com calma e, assim, o blog ficará um tempo desatualizado. Torçam por mim!
Em breve voltarei.

domingo, 23 de setembro de 2007

ENGAVETADAS.

ERVILHA DE CHEIRO
Altura: 100-180cm
Semeadura: Outono-Inverno
Germinação: 10-16 dias
IMPRÓPRIO PARA ALIMENTAÇÃO




Tenho sementes de "ervilha-de-cheiro" num envelope lacrado. Comprei quando tinha 8, 9 anos, em Petrópolis, numa loja daquelas que vende de tudo para o campo. Tínhamos um sítio pelas redondezas e pensei em plantar num vasinho e observar a planta crescer. A foto que vinha no envelope mostrava flores bonitas, de pétalas enrugadas, com várias cores. Sinceramente, não sei o porquê do nome ervilha de cheiro. Mal consigo imaginar qual seria o cheiro da tal "ervilha".

Naquela época, eu estava descobrindo muita coisa na natureza. O sítio me ajudou bastante nisso. O sítio e o Flight Simulator. Na verdade, mais o sítio do que o Flight Simulator. Estava começando a entender alguma coisa de plantas, animais, relevo e água, e grande era o meu entusiasmo por ver uma planta que eu plantei ter crescido.

A memória me manda sinais de sua imperfeição ao não conseguir me relatar por que as tais sementes não ficaram por Petrópolis, não foram plantadas, não foram jogadas no lixo, mas, num quase êxodo rural, vieram parar em uma gaveta de meu armário, em pleno celeuma urbanóide que é Copacabana.



A embalagem me diz que as sementes foram analisadas em fevereiro de 98, possuindo validade até fevereiro de 2001. Não tive coragem de abrir o saco de sementes para ver como elas estão, depois de 6 anos após a derradeira - e não aproveitada - oportunidade de fazê-las crescer. O papel já está ficando amarelado, do mesmo jeito que eu me torno barbado e tenho que arrancar meus sisos. Sinal dos tempos.

Estavam elas no fundo de uma gaveta, embaixo de muitos papéis importantes de minha vida. Várias notas fiscais de peças de computador, título de eleitor, CPF, comprovante de matrícula, comprovante disso e daquilo, atestado disso e daquilo. Não sei o que fazia um envelope de sementes de ervilha cheirosa ali.

Essas sementes ficaram guardadas na gaveta, como eu disse, junto com muitos outros papéis importantes. Talvez esteja aí a razão por elas estarem ali até hoje: devem ter alguma importância na minha vida. Se eu as tivesse plantado, suponho que não tivessem tanta relevância ao ponto de eu escrever sobre elas no presente momento.

E qual seria essa importância? Não sei bem. Elas me lembram alguma frustração por não alcançar certos planos, por desistir de certas idéias e por engavetar certos projetos... na verdade, por engavetar sementes.



sexta-feira, 14 de setembro de 2007

MORAL DA HISTÓRIA.

Aconteceu essa semana.

- É assim ó: uma bala redonda, pequena, vem de várias cores numa mesma embalagem, são enroladas num papelzinho assim... tô procurando há tempos e não acho.

- Ahn... acho que não tem não.

Aquela vontade de uma sobremesa que dá depois do almoço estava difícil de aguentar. Pior, quase como uma grávida, despontara para um desejo súbito, por algo específico, insubstituível. Procurava com meus amigos de baleiro em baleiro a tal bala.

- Moça, você tem uma balinha azedinha, pequenininha, vem de várias cores, ... - perguntava, tentando gesticular o formato da balinha.

Uma amiga minha, que também estava tentando lembrar a que bala eu me referia, falava nomes e tipos de bala, mas não acertava. Até que despontei com a brilhante associação.

- Ela é meio achatada, um disco bicôncavo... parece uma hemácia.

Risos gerais. Continuei procurando. Fui a cinco baleiros. A duas bancas de jornais. Ninguém sabia que bala era essa.

- Olha, se por acaso você achar a bala, traz o papelzinho aqui que a gente compra no distribuidor e vende, tudo bem? - falou uma vendedora de forma muito atenciosa.

Usando a última carta do baralho, fui à cantina do colégio. Ou era ali, ou não era mais. O momento recebeu a devida solenidade. Chegando à cantina, havia mais dois ou três alunos de séries mais baixas do Colégio, que ali faziam não sei o que.

- Oi moça, tenho uma missão difícil para você. Já procurei em tudo que é lugar, mas não acho. Quero uma balinha azedinha, pequenininha, achatada nos pontos, vem umas 12 por embalagem, ela é embalada que nem jujuba. Sabe qual é? - perguntei.
- Deve estar mentindo. - disse o moleque que me ouvira, já me olhando de forma insolente.
- Nada. - desconversei.

A moça me apareceu com uma jujuba. Não, eu não queria jujuba.
- É uma bala mesmo... tem certeza que não tem?
- Tem aí, "Cleiton"? - perguntou ao outro balconista.
- Tem não. - respondeu o colega.
- Ahn... então deixa. Obrigado. - lamentei, afinal, teria que ficar sem a tal balinha naquele dia.

Não iria escapar daquela só com essa frustração. A situação precisava de um gran finale, algo marcante, algo tocante, algo imprevisível, quiçá inesquecível. E a inserção inusitada daquele dia veio por parte do moleque, que destilou seu instinto zoador pré-adolescente, seu ódio, sua imaturidade, sua única forma de aparecer para o outro coleguinha.

- Se *udeu, haha! - pronunciou sua presunçosa, e suja, boca.

Pensei comigo num infinitésimo de segundo. Qual foi a daquele rapazinho? Protótipo de gente... Ainda tem muito pra ver na vida. Criança mal-amada? Criada pela empregada? Usando Adidas, correntinha... e se achando o máximo. Não sabe o que é largar a banana. Não sabe o que são reações orgânicas. Um grande merdinha.

Sou polido. Às vezes. Mas com quem não conheço, sou polido sempre. Se sou mal-amado, já não sou criança. Nunca tive empregada. Uso Adidas, mas não uso correntinha. Já larguei a banana. E já aprendi 80 reações orgânicas. Uns me acham um grande merdinha. Outros não. Sou polido. E fiz-me polido:

- Nossa, está exaltado esse rapaizinho, hein? - falei e fui embora.

Saí de fininho. Aquela pessoa não tinha nada a me acrescentar e distância é o que mais quero de energúmenos.

A balinha... realmente fiquei sem. E ainda levei essa desaforo pra casa. Sim, eu levo desaforo pra casa.

[após um longo e tenebroso inverno de dois dias...]

Estava hoje no Zona Sul, fui comprar um biscoito com uma amiga, que também me acompanhara no incidente da balinha dois dias antes. Na fila do caixa, conversávamos, até que meus olhos foram de encontro a algo em que custei a acreditar.

Jogado no meio de muitas balas nos penduricalhos que há no caixa, lá estava a balinha que tanto procurava. Um pacote com 8. Cada deles, com 12. 96 balinhas à minha disposição. Não hesitei e peguei. Era a balinha. A azedinha, a pequenininha, coloridinha, embalada feito jujuba, em forma de disco bicôncavo e parecendo uma hemácia. No Zona Sul, jogada, sozinha, com a embalagem meio empoeirada, até.

Paguei. 8 reais. Não valia tudo isso, eu sei. No Centro, compro pela metade do preço. Mas ali valia tudo. Pela balinha eu fazia tudo.

Moral da história:
Quem não procura, acha.

Sem moral da história:
O moleque.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

IDADES, SUPLÍCIOS E ELEVADORES.

Joãozinho tinha se atrasado para sair de casa e estava afobado para chegar logo à escola e não perder a prova do dia. Fechou a porta e esperou impaciente o elevador ir ao seu andar.
Bastou o elevador chegar para que tivesse a ingrata surpresa de ali encontrar aquele vizinho cinquentão e seus assuntos sem assunto. Pois é, papo de elevador é pura função fática fadada ao insucesso. Quando não se fala sobre o tempo, sobre corrupção na política ou sobre o cansaço da vida moderna, repousa sobre o ambiente um silêncio irritante.

Joãozinho morava no prédio desde que nasceu e todos o viram crescer. De uma criancinha que vivia com a fraldinha cheia, virou um rapaz não muito alto. Fato é que os vizinhos costumavam associá-lo, sempre, à primeira impressão ("a primeira impressão é a que fica") que tiveram: a criancinha de fraldinha. E dali vinha não só o apelido no diminutivo, como também o discurso batido, tanto dentro do elevador, como dentro do prédio, na rua ou no supermercado, ...:
- Mas como você está grande! - Tá crescendo, hein? - Vai chegar ao teto! - Já tá um homem!

Joãozinho já estava acostumado. Não havia uma pessoa que falasse coisa diferente, fosse adulta, fosse idosa, fosse homem, fosse mulher. E todos o viam com certa freqüência, de forma que não havia como haver tanto espanto com seu crescimento, que, aliás, já havia dado uma séria desacelerada havia algum tempo, estando quase imperceptível. Ele reconhecia o carinho das pessoas e a falta de assunto melhor, mas, como não tinha palavras insossas à altura para responder tais comentários, limitava-se ao sorriso amarelo sem-graça, quase envergonhado.

Na pressa daquele dia, a lei de Murphy fez-se presente. Mal entrara no elevador, mal cumprimentara o tal do cinquentão, mal apertara o botão para a portaria, quando o elevador deu defeito, parou e os dois vizinhos ali ficaram presos. Joãozinho viu que iria, de qualquer jeito,, perder a prova e tratou de se acalmar, afinal, era só fazer uma segunda chamada, daria até para estudar mais.

E ali estava Joãozinho, com o vizinho cinquentão no elevador, na tal situação do silêncio fastidioso. (Antes que vocês pensem que vai rolar alguma pederastia na situação... não, não vai.) Eis, porém, que o cinquentão decide quebrar o silêncio, mostrando sua linguagem de cinquentão pseudo-antenado em tendências jovens.

- E aí parceiro, agora vamos ter que esperar.
- Pois é... - falou Joãozinho sem jeito.

Ficaram dois segundos ouvindo o eco de palavras jogadas ao ar, esperando que alguém retomasse o verbo. Pensaram, pensaram, e não veio assunto à cabeça. Falar do tempo? Ah, hoje está sol, mas é dia de semana, que diferença faz? Falar da corrupção na política? Bah, coisa de revoltado ou de nerd. Falar do cansaço da vida moderna? Isso é coisa de velho, o que Joãozinho de fato não era, e que o cinquentão tentava a duras penas abafar. E, depois de alguma reflexão, surgiu o tal assunto.

- Mas como você cresceu, hein rapaz?
- Pois é...
- Tomou fermento?
- Não, que isso.
- Tá fazendo alongamento?
- Faço não.
- Tá tomando hormônio?
- Preciso não. - respondeu Joãozinho. Caraca, que saco. Precisava ele explicar que há uma coisa hipófise, que produz uma coisa chamada somatotropina que promove uma coisa chamada crescimento?
- Quando eu era moleque, a gente não era grande assim não. É que a alimentação da geração de vocês é muito diferente. Tem tanta gente com mais de dois metros. Aliás, você já pensou em jogar basquete ou vôlei?
- Nada... fico só na pelada, mesmo.
- Ahn, sei, só na pelada. Revista de mulher pelada, você quer dizer?

Joãozinho riu desconcertado. Que ele lá tivesse suas Playboys ou suas fotos e vídeos "impróprios" no computador, mas o que haveria de ser falado naquela hora? Que ele realmente adorava deleitar-se com tal tipo de material? Perguntar se o tiozão queria emprestado? Respondeu quase constrangido:

- Ah, também, né!
- Ahnn... sei. Mas você está com que altura? - perguntou o tiozão, mostrando ser ruminante no aspecto assuntos e conversas.
- Quase um metro e oitenta.
- Nossa, até ontem você era um bebê, andava no carrinho! E por falar em outro carrinho, já tirou carteira?
- Ainda não, só faço dezoito no final do ano.
- Dezoito anos, já vai poder comprar Playboy legalmente! Haha, que barato! - o cinquentão comprovadamente ruminava assuntos.

Joãozinho já estava de saco cheio daquela conversa, quando lembrou que o elevador possuía alarme. Apertou-a imediatamente, desviando-se de qualquer assunto que o vizinho levantasse. Pouco lhe importava ficar preso naquele elevador, mas estava desesperado para fugir daquela conversa circunstancialmente impreterível. PIII PIII pra cá, PIII PIII pra lá e o elevador por aparente milagre voltou a funcionar.

Chegaram ao térreo e, quando iam se despedir, Joãozinho foi importunado por mais três moradoras, três velhinhas, que esperavam o elevador parado com sacolas de compras do supermercado.

- Mas era o menino que estava aí preso, coitado! - ressaltou uma delas, logo em seguida vertendo sua fisionomia para o espanto de quem vê tudo mudado - Meu Deus, como você está crescido!
- É mesmo, Bete! Lembro de quando lhe comprei um chocalho para o chá de fraldas, e olha como ele está agora! - endossou a outra.
- Mas está uma gracinha, deve estar fazendo um sucesso entre as meninas da classe! - apostou entusiasmada a terceira idosa.

Já era muito para Joãozinho. Não bastasse o cinquentão, que àquela hora já sumira de seu campo de visão, agora vinham aquelas doces senhoras com suas amáveis palavras. Pobrezinho... ele não era tão grande, ele não lembrava do chocalho e muito menos era tão popular assim entre as meninas.

- Meu filho, você pode nos ajudar a subir com as compras?
Joãozinho respondeu positivamente, afinal, já não ia mesmo para a escola e de nada custava ajudar aquelas velhinhas. Cumprido o favor com carinho, voltou para casa, no que a mãe o atendeu com feição aborrecida e desatinou a falar após reputar como lorota a tentativa de explicação que lhe foi dirigida pelo filho:

- Mas você já é quase um homem, tem que se programar para imprevistos. Veja, você não é mais aquela criancinha que precisa ficar sendo acordada, lembrada, conduzida. Quase um homem!

Depois de tanta aporrinhação, Joãozinho trancou-se no quarto impaciente. Revoltado como adolescente, ranzinza como um velho. Não mais sabia o que era. Quase um homem, talvez.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

MOMENTO POEMA.

Poema... coisa que raramente faço. Então vão dois escritos recentemente.
Gostaria de dizer que o primeiro, por mais incrível que isso possa parecer, foi escrito num dia em que estava muito feliz e animado. Sei lá como ele apareceu.


CAMINHO ATÉ A BEIRA DO PENHASCO
(mas sem coragem de dar o último passo)

Quando tudo parecia dar errado,
surgiu o milagre.
Quando tudo parecia dar certo,
surgiu o imprevisto.
Quando tudo tendia a fúria,
surgiu a palavra.
Quando não havia mais palavra,
fez-se o silêncio.

Quando tudo era silêncio,
fez-se o escuro.
E aí, tudo pareceu perdido,
e não surgiu um norte,
e não surgiu a sorte.
Também não surgiu a morte,
e ficamos a ver navios,
porque não deu pra soltar as amarras.



NÃO É NO GOOGLE
Procure espaço,
procure o compasso ,
procure o escasso,
procure um traço.

Procure o ócio,
procure negócio,
procure o sócio,
procure consórcio.

Procure conforto,
procure o porto,
procure torto
procure o horto.

Procure o fio,
procure o Rio,
procure no cio,
procure o plantio.

Procure, enfim,
procure assim,
procure o fim...
Procura sem fim.